Alatiel

Já faz um bom tempo que houve na Babilônia um sultão chamado Beminedab, em cuja época ocorreram coisas muito propícias, segundo era de seu gosto. Entre seus muitos filhos, varões e mulheres, tinha ele uma, chamada Alatiel, que, pelo que diziam todos os que a viam, era a mais bela mulher existente então no mundo; por ocasião de uma grande derrota imposta pelo sultão a uma multidão de árabes pelos quais fora atacado, o rei de Algarve, que lhe prestara maravilhosa ajuda nessa façanha, pediu-lhe essa filha como graça especial, e ele lha deu por esposa; assim, com honroso séquito de varões e damas, vestidos e ataviados com nobreza e suntuosidade, ele a embarcou numa nau bem armada e equipada e, ao despachá-la, encomendou-a a Deus.

Os marinheiros, vendo que o tempo era propício, despregaram as velas e, zarpando do porto de Alexandria, navegaram bem por vários dias; já haviam ultrapassado a Sardenha quando, certo dia em que se acreditavam próximos do fim do percurso, diversos ventos puseram-se a soprar, um mais impetuoso que o outro, fustigando tanto a nau em que estavam a mulher e os marinheiros que várias vezes todos se acreditaram perdidos. Mesmo assim, como valorosos varões que eram, lançando mão de toda a sua arte e força, apesar de combatidos pelo mar infinito, aguentaram-se dois dias. No início da terceira noite de uma tempestade que não cessava, mas, ao contrário, engrossava, não sabendo onde estavam e não podendo sabê-lo nem por estimativa marinheiresca nem a olho nu, porque o céu estava escuríssimo de nuvens e trevas noturnas, quando já se encontravam a não grande distância da costa de Maiorca sentiram que a nau se fendia.

Assim, não vendo nenhuma saída salvadora, pensando cada um em si e em mais nada, foi lançada ao mar uma chalupa sobre a qual se lançaram os capitães, dispostos estes a confiar mais na pequena embarcação do que na despedaçada nau; e, depois destes, os varões todos que estavam naquela nau foram, um a um, lançando-se também, mesmo enfrentando os que antes tinham baixado a chalupa e, de facas em punho, tentavam impedi-los; mas, acreditando que fugiam da morte, na verdade com ela toparam, pois a chalupa, não conseguindo enfrentar a adversidade do tempo com tanta gente em cima, soçobrou, e todos pereceram. A nau, por sua vez, impelida pelo vento impetuoso, embora fendida e quase cheia de água, como não carregava mais ninguém senão a dama e suas companheiras (que, vencidas pelo medo da tempestade do mar, jaziam como mortas), navegou velocíssima e foi chocar-se com uma praia da ilha de Maiorca; e foi tanto e tamanho o seu ímpeto que ela se meteu quase inteiramente na areia, mais ou menos a um tiro de pedra da água, e ali ficou toda a noite, combatida pelo mar, sem poder ser movida pelo vento.

Quando o dia clareou e a tempestade amainou um pouco, a mulher, que estava semimorta, levantou a cabeça e, fraca como se encontrava, começou a chamar ora um, ora outro dos seus serviçais; mas chamava à toa, pois os que eram chamados estavam longe demais. Por isso, não ouvindo resposta de ninguém e não vendo ninguém, admirou-se muito e começou a ficar amedrontadíssima; e, levantando-se como pôde, viu as damas de seu séquito e as outras mulheres todas deitadas e, apalpando ora uma, ora outra, depois de muito chamar, poucas encontrou que dessem sinal de vida, porque muitas haviam morrido quer de males do estômago, quer de medo; e com isso o medo da dama se fez maior. No entanto, premida pela necessidade de solução, pois se via totalmente só, sem reconhecer nem saber onde estava, estimulou tanto as que estavam vivas que as fez levantar-se; e, descobrindo que elas não sabiam para onde tinham ido os varões e vendo a embarcação em seco, destroçada e cheia de água, começou a chorar dolorosamente com elas. Já chegava a nona hora, e nem na praia nem em parte alguma se via ninguém que pudesse apiedar-se delas a dar-lhes ajuda.

Soara a nona hora quando, por acaso, de volta de uma propriedade sua, passou por ali um fidalgo chamado Pericón de Visalgo, com vários criados a cavalo, e, vendo a embarcação, logo imaginou o que acontecera e ordenou a um dos criados que sem demora desse um jeito de lá subir e lhe contar o que havia. O criado, mesmo com dificuldade, subiu e encontrou a jovem fidalga com o pouco séquito que lhe restava sob o bico de proa, muito tímida e escondida. Elas, assim que o viram, em pranto pediram misericórdia várias vezes; mas, percebendo que não eram entendidas e que também não o entendiam, tentaram com gestos mostrar sua desventura. O criado, depois de olhar tudo o melhor que pôde, contou a Pericón o que lá havia; e este, mandando trazer imediatamente para baixo as mulheres e as coisas mais valiosas que lá houvesse e que se pudesse carregar, foi com elas para um de seus castelos; ali as mulheres foram reconfortadas com comida e repouso, e ele, em vista dos ricos atavios, percebeu que devia ter encontrado uma grande fidalga e prontamente percebeu qual delas era a fidalga pelo modo reverente com que as outras a tratavam. E a dama, mesmo pálida e desalinhada em virtude das fadigas do mar, afigurou-se formosíssima a Pericón, que, por isso, deliberou de imediato que a tomaria por mulher, caso ela não tivesse marido, e que, se não pudesse tê-la por mulher, a teria como amante.

Pericón era homem de aspecto altivo e grande robustez. Depois de mandar servir a mulher muito bem durante alguns dias, motivo pelo qual ela se revigorara totalmente, começou a considerar que sua beleza estava acima de qualquer comparação. Muitíssimo pesaroso por não poder entendê-la, nem ela a ele, e por não conseguir saber portanto quem era ela, estando contudo desmesuradamente apaixonado por sua beleza, tentou com atos agradáveis e amorosos induzi-la a aquiescer a suas vontades sem constrangimento. Mas de nada adiantou: ela se recusava terminantemente a ter intimidade com ele; e assim mais se inflamava o ardor de Pericón. A mulher percebeu, e, depois de ter lá passado já alguns dias e de ver, pelos costumes, que estava entre cristãos num lugar onde dizer quem era (caso soubesse fazê-lo) seria de pouco proveito, concluiu que, com o correr do tempo, precisaria aquiescer por bem ou por mal às vontades de Pericón; assim, decidindo com grandeza de ânimo que venceria as misérias de seu destino, ordenou às mulheres de seu séquito (das quais não restavam mais que três) que nunca dessem a entender a ninguém quem eram, salvo se estivessem em algum lugar onde percebessem haver indubitável ajuda para recobrarem a liberdade; além disso, exortou-as veementemente a conservar a castidade, afirmando-se determinada a nunca permitir que ninguém usufruísse dela, senão seu marido. As mulheres a louvaram por isso e disseram que observariam o quanto pudessem as suas ordens.

Pericón, cada dia mais apaixonado, e tanto mais quanto mais próxima e mais negada via a coisa desejada, percebendo que seus agrados de nada adiantavam, resolveu empregar engenho e arte, reservando a força para o fim. E, certa vez, observando que a mulher gostava de vinho e que não estava acostumada a beber, pois a tanto era vedada por sua religião, imaginou que poderia pilhá-la com a ajuda deste, como se de um ministro de Vênus se tratasse; e, dando demonstrações de não se preocupar com a esquivança dela, certa noite ofereceu uma bela ceia à guisa de festa solene, à qual a dama compareceu; e durante a ceia, que era alegrada por muitas coisas, entrou em entendimento com a pessoa que atendia a dama, para que lhe servisse uma mistura de vários vinhos. Coisa que foi muito bem feita; e ela, que disso não se acautelava, atraída pelo bom paladar da bebida, bebeu mais do que conviria ao seu recato; e assim, esquecida de todas as adversidades, alegrou-se e, ao ver algumas mulheres dançar à moda de Maiorca, dançou à maneira alexandrina. Vendo aquilo, Pericón acreditou estar próximo de obter o que desejava; e, dando continuidade à ceia com mais abundância de alimentos e bebidas, prolongou-a por grande parte da noite.

Por fim, quando os convidados se foram, entrou sozinho com a dama no quarto; e ela, mais aquecida pelo vinho do que arrefecida pelo recato, como se fosse uma das mulheres de Pericón, despiu-se diante dele sem nenhum freio de pudor e meteu-se na cama. Pericón não tardou a segui-la: apagando todas as luzes, logo se deitou do outro lado, tomou-a nos braços e, sem encontrar resistência, começou a divertir-se amorosamente com ela; a dama, que nunca antes soubera com que chifre os homens marram, ao senti-lo pareceu arrepender-se de não ter cedido antes aos agrados de Pericón, de modo que a partir daí, sem esperar convites para noites tão agradáveis, diversas vezes convidou-se a si mesma, não com palavras, com as quais não sabia fazer-se entender, mas com ações.

A Fortuna, porém, não contente por tê-la feito passar de mulher de rei a amante de um castelhano, pôs o grande prazer dos dois em confronto com uma aliança mais cruel. Pericón tinha um irmão de vinte e cinco anos, belo e viçoso como uma rosa, cujo nome era Marato; este, quando a viu, gostou muitíssimo dela e, achando que caíra também em suas graças, pelo que lhe davam a entender os atos dela, avaliou que aquilo que desejava só lhe era obstado pela severa vigilância de Pericón; assim, foi tentado por um pensamento cruel, pensamento ao qual se seguiu sem tardança a criminosa execução.

Encontrava-se então por acaso no porto da cidade um navio carregado de mercadorias a caminho de Glarentza, na România, já de velas despregadas para partir, havendo bom vento; Marato fez um acordo com seus patrões, que eram dois jovens genoveses, combinando que seria por eles recebido com a mulher naquela noite. Feito isto, ao anoitecer, tendo já planejado o que deveria fazer, Marato entrou secretamente em casa de Pericón, que dele não desconfiava, e, com alguns fidelíssimos companheiros cuja ajuda pedira para aquilo que pretendia fazer, escondeu-se na casa, conforme fora planejado. Passada uma parte da noite, seus companheiros (a quem ele revelara onde Pericón dormia com a mulher e para quem abrira as portas) mataram Pericón adormecido e, agarrando a mulher que, acordada, chorava, ameaçaram-na de morte caso fizesse algum barulho; e com grande parte das coisas mais valiosas de Pericón, sem serem ouvidos, logo foram para a costa, onde Marato e a mulher embarcaram sem demora, enquanto seus companheiros retornavam.

Os marinheiros, havendo vento bom e fresco, zarparam para a viagem. A dama lamentava-se amargamente da primeira e da segunda desventura; mas Marato, com São Crescêncio na mão[1], que Deus nos deu, começou a consolá-la de tal maneira que ela, já íntima dele, esquecera Pericón; e achava-se bem quando a Fortuna lhe preparou nova tristeza, como se não estivesse contente com as passadas. Pois eis que, sendo a dama formosíssima, como tantas vezes já dissemos, e sendo suas maneiras muito louváveis, os dois jovens patrões do navio se enamoraram tanto dela que, esquecidos de qualquer outra coisa, só tinham em mente servi-la e agradá-la, sempre com cuidado, para que Marato não se apercebesse da razão.

E, quando um se deu conta do amor do outro, ambos tiveram uma conversa particular e combinaram que conquistariam aquele amor em comum, como se o amor se submetesse a esse tipo de coisa, a exemplo das mercadorias ou dos ganhos. Mas viam que Marato a vigiava muito, o que lhes impedia os propósitos, e um dia, em que a nau ia a todo pano em altíssima velocidade, estando Marato na popa a olhar para o mar, sem desconfiar de nada, os dois foram até ele de comum acordo, pegaram-no depressa por trás e o jogaram ao mar; e só quando estavam afastados mais de uma milha alguém percebeu que Marato tinha caído no mar; a dama, ao saber disso, não vendo possibilidade de recuperá-lo, deu início a uma nova choradeira a bordo.

Os dois enamorados vieram correndo lhe dar consolo e com doces palavras e grandes promessas, embora ela pouco entendesse, empenharam-se em acalmar a moça, que chorava não tanto a perda de Marato quanto a própria desventura. E, depois de longas argumentações vez por outra mantidas com a dama, os dois, achando-a quase consolada, foram conversar entre si para saber qual deles iria se deitar primeiro com ela. E, como cada um quisesse ser o primeiro, não conseguindo chegar a nenhum acordo, começaram com palavras um grave e duro desentendimento até que, tomados de ira, passaram a atracar-se furiosamente de facas em punho; e, desferindo-se mútuos golpes (sem que os de bordo conseguissem separá-los), um caiu morto na hora, enquanto o outro, gravemente ferido em muitas partes do corpo, continuou vivo. Muito se aborreceu a dama com aquilo, pois se via sozinha e sem ajuda nem apoio de ninguém, temendo muito que contra ela se voltasse a ira de parentes e amigos dos dois patrões; mas as súplicas do ferido e a rápida chegada a Glarentza livraram-na do perigo de morte. Lá, assim que desembarcou com o ferido e se alojou com ele numa hospedaria, a fama da sua grande beleza começou a correr pela cidade e chegou aos ouvidos do príncipe de Moreia, que estava então em Glarentza; este quis vê-la e, vendo-a, achou que sua beleza superava em muito a fama, apaixonando-se tanto e tão subitamente que não conseguia pensar em outra coisa. Então, ao ficar sabendo de que modo ela chegara ali, concluiu que a conseguiria para si. E, enquanto procurava descobrir como, os parentes do ferido ficaram sabendo de suas intenções e, sem mais delongas, logo lhe enviaram a moça; ao príncipe isso foi sumamente grato, mas também a ela, que assim se via livre de um grande perigo.

O príncipe, vendo que aos adornos da beleza se somavam os dos trajes régios, não podendo de outro modo saber quem ela era, concluiu que se tratava de nobre dama, e assim seu amor reduplicou; e, mantendo-a honrosamente, não a tratava como amante, e sim como sua própria mulher. Ela, considerando os males passados e achando-se então a viver muito bem, recobrou consolo e alegria, e sua formosura floresceu tanto que toda a România parecia não ter outra coisa de que falar.

Por esse motivo o duque de Atenas, jovem, belo e brioso, amigo e parente do príncipe, sentiu desejos de vê-la; e, dando a impressão de que fazia uma visita ao príncipe, como tinha o costume de às vezes fazer, rumou com belo e prestigioso séquito para Glarentza, onde foi recebido com todas as honras e grande festa. Depois de alguns dias, como entrassem no assunto da beleza daquela dama, o duque perguntou se a coisa era tão admirável como se dizia. A isso o príncipe respondeu:

– Muito mais; mas disso não quero que lhe dêem fé as minhas palavras, e sim os seus próprios olhos.

Para tanto, em vista da solicitação do duque ao príncipe, ambos rumaram para o local onde ela estava; e foram recebidos com muita gentileza e demonstrações de alegria, sabendo ela já da ida deles; mas, ficando a dama sentada entre os dois, não foi possível conversarem os três prazerosamente, pois ela pouco ou nada entendia daquela língua. Por isso ambos a olhavam como coisa maravilhosa, sobretudo o duque, que mal podia acreditar que ela fosse mortal; e não se apercebendo, a olhá-la, do veneno de amor que com os olhos sorvia, acreditando saciar suas vontades apenas admirando, enredava-se miseramente, pois era tomado por ardente paixão. E, depois de sair de lá com o príncipe e de ter tempo de pensar e refletir, reputou ser o príncipe o mais feliz dos homens, por ter coisa tão bela a seu dispor; e, após muitos e vários pensamentos, pesando mais o fogoso amor que a própria honestidade, decidiu que, houvesse o que houvesse, ele haveria de privar o príncipe daquela felicidade e fazer-se a si mesmo feliz.

E, tendo em mente que devia apressar-se, deixou de lado a razão e a justiça, voltou todos os seus pensamentos para a traição; e um dia, de acordo com os malvados planos que traçou, determinou a um camareiro pessoal do príncipe, de nome Ciuriaci, que em segredo preparasse todos os seus cavalos e suas coisas para a partida; e, chegada a noite, foi sorrateiramente introduzido com um companheiro (estando ambos armados) nos aposentos do príncipe pelo referido Ciuriaci, e lá dentro viu que, estando a mulher adormecida, por causa do forte calor que fazia o príncipe encontrava-se nu junto a uma janela a olhar para o mar e a receber uma brisa que chegava daquele lado. Assim, como tivesse antes informado o companheiro do que deveria fazer, percorreu o quarto em silêncio até a janela e ali feriu o príncipe pelas costas e o transpassou até o outro lado com uma faca, pegou-o com rapidez e o jogou pela janela. O palácio ficava à beira-mar e era muito alto, e aquela janela junto à qual estava o príncipe se situava acima de algumas casas que haviam sido derrubadas pelo ímpeto do mar e nas quais raras vezes ou nenhuma ia alguém; por isso, tal como previra o duque, a queda do corpo do príncipe não foi nem poderia ter sido ouvida por ninguém.

O companheiro do duque, vendo o que fora feito, logo pegou uma corda que levara a propósito e, fingindo fazer agrados a Ciuriaci, laçou-lhe a garganta e puxou, de tal modo que Ciuriaci não pôde fazer nenhum barulho; e, chegando o duque, ambos o estrangularam e o jogaram onde haviam jogado o príncipe. Feito isso, certificando-se perfeitamente de que não haviam sido ouvidos pela mulher nem por ninguém, o duque pegou uma lamparina, levou-a até o leito e, devagar, descobriu inteiramente a mulher, que dormia a sono solto; e olhando-a por inteiro, gabou-a sumamente, pois, se vestida ela lhe agradara, nua agradou incomparavelmente mais. Por isso, inflamado por um desejo mais ardente, sem que o assombrasse o pecado recém-cometido, com as mãos ainda ensanguentadas deitou-se ao lado e dormiu com ela, que, sonolenta, acreditava estar dormindo com o príncipe.

Mas, depois de passar algum tempo com imenso prazer ao lado dela, levantou-se e, chamando alguns companheiros, mandou-os pegar a mulher de tal modo que não houvesse ruídos e, levando-a por uma porta secreta pela qual entrara, montou-a num cavalo e, pondo-se a caminho com todos os seus da maneira mais discreta que pôde, dirigiu-se de volta a Atenas. No entanto (como tinha mulher), não a levou para Atenas, e sim para uma belíssima propriedade sua nos arredores da cidade, à beira-mar, e lá instalou a mais dolorosa das damas, onde ela ficou escondida, sendo honrosamente servida em tudo o que precisasse.

Na manhã seguinte os cortesãos do príncipe esperaram até a nona hora que ele se levantasse; mas, nada ouvindo, empurraram as portas dos seus aposentos, que estavam só encostadas, e, não encontrando ninguém, imaginaram que ele tivesse ido furtivamente para algum lugar, passar alguns dias à vontade com aquela sua bela mulher; e deixaram de preocupar-se. Estavam assim as coisas quando, no dia seguinte, um louco entrou nas ruínas onde estavam o corpo do príncipe e o de Ciuriaci e pela corda puxou este último para fora, saindo a arrastá-lo atrás de si. Não sem grande espanto, o corpo foi reconhecido por muitos que, valendo-se de agrados para fazer o louco levá-los ao lugar de onde o tirara, para enorme dor de toda a cidade ali encontraram o corpo do príncipe e o sepultaram com todas as honras; e, investigando quem poderia ter cometido tão grave crime, vendo que o duque de Atenas não se encontrava e que partira furtivamente, concluíram – o que era verdade – que ele devia ter feito aquilo e levado consigo a mulher. Assim, pondo imediatamente no lugar do príncipe morto um irmão dele, incitaram-no com veemência à vingança; e ele, depois de verificar por meio de várias outras coisas que tudo tinha ocorrido como imaginavam, requisitou amigos, parentes e servidores de diferentes lugares e, reunindo rapidamente um belo, grande e poderoso exército, foi fazer guerra ao duque de Atenas.

O duque, ao saber dessas coisas, também preparou reforços para a defesa, e em sua ajuda vieram muitos grandes senhores, entre os quais, mandados pelo imperador de Constantinopla, seu filho Constâncio e seu sobrinho Manuel, com bela e numerosa tropa; foram estes honrosamente recebidos pelo duque e mais ainda pela duquesa, que era parente deles.

Como dia a dia os fatos aproximassem mais da guerra, a duquesa, aproveitando uma ocasião, chamou os dois aos seus aposentos e lá, com abundantes lágrimas e muitas palavras, narrou toda a história, mostrando as razões da guerra e o desprezo que recebia do duque por causa da mulher que, conforme se acreditava, ele mantinha em segredo; e, queixando-se muito, rogou que, para honra do duque e consolo dela, dessem a solução que achassem melhor. Os jovens, que sabiam como tudo acontecera, sem fazerem muitas perguntas, confortaram a duquesa o melhor que puderam e encheram-na de esperanças; e, informados por ela onde ficava a mulher, partiram.

Como tinham tantas vezes ouvido elogios à mulher de maravilhosa beleza, quiseram vê-la e pediram ao duque que a mostrasse. Ele, mal lembrando o que ocorrera ao príncipe por tê-la mostrado a ele mesmo, prometeu fazê-lo; e, mandando preparar um magnífico almoço em belíssimo jardim (que havia na propriedade onde a mulher ficava), levou-os na manhã seguinte com uns poucos companheiros para almoçar. Constâncio, sentando-se ao lado dela, começou a olhá-la cheio de admiração, dizendo de si para si que nunca vira nada tão belo, e que sem dúvida era de se escusar o duque ou qualquer outro que, para ter algo tão belo, cometesse uma traição ou outro ato desonesto; e, olhando-a vezes seguidas e a cada vez achando-a mais digna de louvor, com ele não ocorreu nada diferente do que ocorrera ao duque. Pois, saindo de lá apaixonado, esquecido de quaisquer preocupações com a guerra, dedicou-se a pensar num modo de roubá-la ao duque, escondendo muito bem o seu amor de todas as pessoas.

Mas queimando estava ele nesse fogo quando chegou o momento de marchar contra o príncipe, que já se aproximava das terras do duque; por isso, o duque, Constâncio e todos os outros, segundo os planos traçados, saíram de Atenas e foram lutar em certas fronteiras, para que o príncipe não avançasse mais. Ali, depois de ficarem vários dias, Constâncio, que não tirava aquela mulher da alma e do pensamento, imaginando que, sem o duque perto dela, conseguiria satisfazer muito bem suas vontades, deu mostras de estar muito indisposto para ter motivo de voltar a Atenas; assim, com licença dada pelo duque, depois de delegar todos os seus poderes a Manuel, foi ter com a irmã em Atenas, onde, alguns dias depois, fazendo-a falar do desprezo que achava receber do duque por causa da mulher que ele mantinha, disse-lhe que, caso ela quisesse, poderia ajudá-la, mandando tirar a mulher de onde estava e levando-a embora. A duquesa, achando que Constâncio fazia aquilo por amor a ela, e não à mulher, disse que gostava da ideia, desde que as coisas fossem feitas de tal modo que o duque nunca ficasse sabendo que ela havia consentido naquilo; coisa que Constâncio prometeu cumprir fielmente. E assim a duquesa consentiu que ele o fizesse como melhor achasse.

Constâncio mandou armar uma embarcação ligeira e, certa noite, mandou-a para as proximidades do jardim onde morava a mulher, instruindo os seus homens de bordo do que deveriam fazer; depois, dirigiu-se com outros ao palácio onde estava a mulher e lá foi alegremente recebido pelos serviçais e também por ela, que, com ele, mais os criados e os companheiros de Constâncio, foi para o jardim, tal como quis ele.

E, como se quisesse dizer algo à mulher por parte do duque, ele se encaminhou sozinho com ela em direção a uma porta que dava para o mar e já tinha sido aberta por um de seus companheiros; ali, chamando a embarcação com um sinal, depois de mandar pegar a mulher rapidamente e levá-la a bordo, voltou-se para os criados dela e disse:

– Ninguém se mova nem dê um pio, se não quiser morrer; minha intenção não é roubar a fêmea do duque, mas livrar minha irmã da vergonha que ele lhe causa.

Como ninguém ousou responder, Constâncio, embarcando e pondo-se ao lado da mulher chorosa, ordenou que aferrassem remos e zarpassem. Assim, não vogando mas voando, chegaram a Egina quando o dia raiava.

Ali, depois de desembarcarem e descansarem, Constâncio desfrutou a mulher, que chorava sua desventurada beleza; depois, voltando à embarcação, em poucos dias chegaram a Quios, onde Constâncio achou mais seguro ficar, tanto por temer as repreensões do pai quanto por medo de que lhe roubassem a mulher. Lá, a bela mulher chorou sua desventura mais alguns dias, mas, depois de ser reconfortada por Constâncio, tal como das outras vezes começou a sentir gosto por aquilo que a Fortuna lhe destinara.

E estavam assim as coisas quando Osbech, então rei dos turcos, que estava continuamente em guerra com o imperador, foi por acaso a Esmirna; ali, ouvindo dizer que Constâncio estava em Quios sem precauções defensivas, a levar vida lasciva com uma mulher que roubara, armou alguns pequenos navios e se dirigiu certa noite para Quios, onde, desembarcando em silêncio com seus homens, surpreendeu muita gente na cama, antes que alguém se desse conta de que os inimigos tinham chegado; e os que acabaram por ouvir e correram às armas foram mortos. Depois, incendiando a cidade e levando a bordo o butim e os prisioneiros, rumaram de volta a Esmirna. Lá chegando, Osbech, que era jovem, ao passar em revista o butim, encontrou a bela dama e, sabendo ser ela aquela que fora presa a dormir na cama com Constâncio, ficou contentíssimo; sem tardar, tomou-a por mulher, celebrou as bodas e com ela se deitou contente vários meses.

O imperador, que, antes desses acontecimentos, combinara com Basano, rei da Capadócia, que arremeteria contra Osbech de um lado enquanto ele, com suas forças, o atacaria pelo outro, e ainda não pudera cumprir plenamente o trato por não ter desejado realizar algumas coisas que Basano pedira e não lhe eram muito convenientes, ao saber do que ocorrera ao filho ficou sobremaneira pesaroso e fez sem demora o que o rei da Capadócia pedia, solicitando-lhe por sua vez, insistentemente, que arremetesse contra Osbech, preparando-se também para atacá-lo. Osbech, ao saber disso, reuniu seu exército e, antes de se ver colhido entre os dois poderosíssimos senhores, avançou contra o rei da Capadócia, deixando sua bela dama em Esmirna sob a guarda de um servidor fiel e amigo; e, depois de lutar algum tempo contra o rei da Capadócia, foi morto na batalha, e seu exército, derrotado e desbaratado. Basano, vitorioso, começou a dirigir-se sem resistência para Esmirna, e pelo caminho todos lhe obedeciam como a um vencedor.

O servidor de Osbech, chamado Antíoco, que ficara guardando a bela mulher, vendo-a tão formosa, embora avançado em anos, enamorou-se dela sem guardar lealdade ao amigo e senhor; incitado pelo amor e sabendo a sua língua (para grande agrado dela, que decidira viver vários anos quase como surda e muda, por não ter entendido ninguém nem ter sido entendida por ninguém), começou em poucos dias a ter tanta familiaridade com ela, que depois de não muito tempo, sem consideração pelo senhor que estava em campo guerreando, os dois transformaram a intimidade amistosa em amorosa, passando a dar ao outro um prazer maravilhoso debaixo dos lençóis.

Mas, quando ouviram dizer que Osbech estava derrotado e morto, e que Basano vinha pilhando tudo pelo caminho, tomaram juntos a decisão de não o esperar ali; assim, pegando grande parte das coisas mais valiosas de Osbech, foram juntos, em segredo, para Rodes; e, não fazia muito tempo que lá estavam, Antíoco adoeceu mortalmente. Alojava-se com ele, por acaso, um mercador cipriota que gozava de sua grande estima e amizade; ao perceber que chegava ao fim, Antíoco planejou deixar para ele suas coisas e sua querida mulher. Quando já estava próximo da morte, chamou os dois e disse:

– Vejo que estou indo irremediavelmente, e isso me dói, pois nunca tive tanto prazer em viver como agora. É verdade que uma coisa me deixa contentíssimo nesta hora: é que, mesmo precisando morrer, me vejo morrer nos braços das duas pessoas que amo acima de quaisquer outras no mundo, ou seja, nos seus braços, caríssimo amigo, e nos desta mulher, que amei mais que a mim mesmo desde que a conheci. É verdade que me causa pesar saber que, morrendo eu, ela fica aqui, estrangeira, sem ajuda nem amparo; mais pesar me causaria se aqui não visse você, que, creio, pela nossa amizade vai cuidar dela do mesmo modo que cuidaria de mim; por isso, peço-lhe encarecidamente que, se eu vier a morrer, minhas coisas e ela fiquem sob seus cuidados, e faça com elas o que achar que servirá de consolação à minha alma. E a você, queridíssima mulher, peço que não me esqueça depois que eu morrer, para que no além eu possa me gabar de ter sido amado pela mais linda mulher que natureza jamais fez. Se me derem inteira garantia dessas duas coisas, sem nenhuma dúvida eu me vou consolado.

Ouvindo essas palavras, o amigo mercador e a mulher também choravam; quando acabou de dizê-las, eles o confortaram e lhe prometeram solenemente que fariam o que lhes pedia, caso acontecesse de ele morrer. E, não demorou muito, morreu, sendo por ambos enterrado com todas as honras.

Então, poucos dias depois, o mercador cipriota, tendo resolvido todos os seus negócios em Rodes e querendo voltar a Chipre numa coca de catalães que estava lá, perguntou à bela mulher o que queria fazer, visto que lhe convinha voltar a Chipre. A mulher respondeu que iria com ele de bom grado, caso isso lhe agradasse, esperando que, pelo amor de Antíoco, fosse tratada e respeitada por ele como irmã. O mercador respondeu que todas as vontades dela o deixavam contente; e, para poder defendê-la de quaisquer ofensas que sobreviessem antes de chegarem a Chipre, disse a todos que ela era sua mulher. E, a bordo, como lhes tivessem dado um camarote na popa, para que os fatos não parecessem contrários às palavras, ele dormia com ela numa caminha bem pequena. E assim ocorreu aquilo que na partida de Rodes não era intenção de nenhum dos dois, ou seja, ocorreu que, incitados pelo escuro, pela comodidade e pelo calor da cama, cujas forças não são nada pequenas, esquecidos da amizade e do amor pelo finado Antíoco, como que atraídos por igual apetite, começaram a atiçar-se mutuamente e, antes de chegarem a Pafos, terra do cipriota, já eram parentes; e em Pafos ficou ela bastante tempo com o mercador.

Ocorre que, por acaso, foi a Pafos tratar de algum negócio um fidalgo chamado Antígono, de elevada idade e mais alta sensatez, porém de baixa riqueza, pois nos serviços de mediador prestados ao rei de Chipre a Fortuna lhe fora contrária. Passando ele diante da casa onde morava a beldade num dia em que o mercador cipriota partira com suas mercadorias para a Armênia, ocorreu-lhe ver a mulher a uma janela da casa e, por achá-la belíssima, começou a olhar fixamente e a lembrar que já devia tê-la visto de outra vez, mas de maneira nenhuma conseguia atinar onde. A beldade, que durante tanto tempo fora joguete da Fortuna, não estava distante do dia em que seus males deveriam ter fim; assim, tão logo viu Antígono, lembrou que o vira em Alexandria, a serviço do pai, em posição nada baixa; nascendo-lhe então súbita esperança de poder ainda voltar a ocupar posição régia com a ajuda dele, sabendo que seu mercador não estava, assim que pôde mandou chamar Antígono. Quando ele veio, ela lhe perguntou timidamente se ele era Antígono de Famagusta, como ela acreditava. Antígono respondeu que sim e disse também:

– Senhora, tenho a impressão de que a conheço, mas não consigo lembrar de onde, por isso, se não lhe importar, peço que me avive a memória dizendo quem é.

A mulher, ao saber que era ele, enlaçou-lhe o pescoço a chorar profusamente, o que o deixou muito admirado, e depois de certo tempo perguntou-lhe se nunca a tinha visto em Alexandria. Antígono, ouvindo essa pergunta, imediatamente a reconheceu como Alatiel, filha do sultão, que todos acreditavam morta no mar, e quis fazer-lhe a devida reverência; mas ela não permitiu e pediu-lhe que se sentasse um pouco ao seu lado. Depois de sentar-se, Antígono perguntou reverentemente como, quando e de onde ali chegara, uma vez que em todo o Egito se tinha por certo que ela se afogara no mar, muitos anos atrás.

A isso a mulher respondeu:

– Eu preferia que assim tivesse sido a ter vivido como vivi, e acredito que meu pai iria preferir também, se um dia viesse a saber.

E assim dizendo recomeçou a chorar copiosamente.

Então Antígono disse:

– Senhora, não se aflija antes da hora; por favor, conte-me suas atribulações e diga como foi sua vida; talvez as coisas tenham ocorrido de tal modo que, com a ajuda de Deus, possamos encontrar algum bom remédio.

– Antígono – disse a bela mulher –, quando o vi, era como se visse meu pai, e movida pelo amor e pela ternura que dedico a ele, mostrei-me a você quando podia ter-me escondido. E poucas pessoas que eu visse me deixariam tão contente como fiquei contente quanto o vi e reconheci antes de qualquer outra; por isso, todos os reveses que sempre escondi dos outros eu revelarei a você, como se fosse um pai. Se, depois de ouvi-los, achar que pode de algum modo levar-me de volta à minha antiga posição, peço que o empregue; se não achar, peço que nunca diga a ninguém que me viu ou que ouviu dizer alguma coisa sobre mim.

Dito isso, sempre chorando, contou-lhe o que lhe ocorrera desde o dia em que naufragou em Maiorca até aquele momento. Antígono, apiedado, começou a chorar e, depois de pensar um pouco, disse:

– Visto que em seus infortúnios nunca ninguém soube quem era a senhora, eu a devolverei sem falta a seu pai, mais amada que nunca, e depois ao rei de Algarve, como esposa.

Perguntando-lhe ela como, ele a instruiu em tudo o que deveria fazer; e, para que não ocorresse outra coisa devido à demora nas providências, Antígono voltou imediatamente para Famagusta e foi falar ao rei, dizendo:

– Senhor, se lhe aprouver, sem muitos custos poderá obter altíssima honra para si e, ao mesmo tempo, grande vantagem para mim, que estou pobre por sua causa.

O rei perguntou como. Antígono então disse:

– Chegou a Pafos a bela filha do sultão, sobre quem correu o boato de que se afogara, e que, para conservar a honra, vem há muito tempo enfrentando dificuldades; atualmente está em situação de pobreza, desejando voltar ao pai. Se lhe aprouver mandá-la ao sultão sob a minha guarda, seria uma grande honra para Sua Majestade e um grande benefício para mim; e creio que tal serviço nunca se apagaria da memória do sultão.

O rei, movido por real magnanimidade, logo respondeu que lhe aprazia; e, mandando chamá-la dignamente, trouxe-a para Famagusta, onde ela foi recebida por ele e pela rainha com festa extraordinária e honras magníficas. E, quando indagada pelo rei e pela rainha o que lhe acontecera, respondeu de acordo com as instruções dadas por Antígono e contou-lhes tudo. Poucos dias depois, a pedido dela, o rei a mandou ao sultão, com belo e digno séquito de homens e mulheres, sob a responsabilidade de Antígono. Ninguém imagina com que festa ela foi recebida pelo sultão, e o mesmo se diga de Antígono e todo o seu séquito. Depois de algum repouso, quis o sultão saber como ainda estava viva e onde tinha ficado tanto tempo, sem nunca lhe ter mandado notícias de sua situação.

A dama, que tinha gravado muitíssimo bem as instruções de Antígono, começou assim a falar:

– Meu pai, uns vinte dias depois de minha partida, nossa nave, destroçada por cruel tempestade, uma noite foi bater em certa praia lá no Poente, perto de um lugar chamado Águas Mortas; o que aconteceu com os homens que estavam a bordo não sei nem nunca soube; só me lembro que, ao nascer o dia, estando eu como que saindo da morte para a vida, o navio já destruído foi visto pelos camponeses que chegaram correndo de todos os lados para saqueá-lo; então fui posta na praia com duas das minhas damas e imediatamente fomos agarradas por uns jovens que começaram a fugir, estes com uma, aqueles com a outra. O que aconteceu com elas eu nunca soube; mas eu, que resistia, fui agarrada por dois jovens e, chorando alto e sem parar, fui sendo arrastada pelas tranças até que aqueles que me puxavam pegaram uma estrada para entrar num bosque enorme e depararam com quatro homens que iam passando a cavalo na mesma hora; quando viram esses quatro, os que me puxavam logo me largaram e fugiram. Os quatro homens, que pelo semblante me pareciam bastante respeitáveis, ao verem aquilo, correram até onde eu estava e me perguntaram muitas coisas, e muitas coisas eu disse, mas não fui entendida por eles nem os entendi. Eles, depois de muito deliberarem, puseram-me num dos seus cavalos, levaram-me a um mosteiro de mulheres religiosas que seguem as suas leis, e ali não sei o que disseram, mas fui sempre acolhida e hospedada por todas com muita benevolência, e junto a elas, com grande devoção, servi a São Crescêncio em Valcava[2], a quem as mulheres do lugar querem muito bem. Mas, depois de ficar algum tempo com elas e de já ter aprendido um pouco de sua língua, quando me perguntaram quem eu era e de onde vinha, como eu soubesse onde estava e temesse ser expulsa como inimiga de sua religião caso dissesse a verdade, respondi que era filha de um grande fidalgo de Chipre que me mandava a Creta para casar quando uma tempestade nos lançou àquela costa, fazendo-nos soçobrar. E várias vezes em várias coisas, por temor do pior, observei seus costumes; e, perguntando-me a maioral daquelas mulheres, a quem chamam abadessa, se eu queria voltar para Chipre, respondi que era o que mais desejava; mas ela, preocupada com minha honra, nunca quis me confiar a ninguém que viesse para Chipre, a não ser há cerca de dois meses, quando, vindo para Chipre vários homens bons da França com suas esposas, dos quais alguns eram parentes da abadessa, sabendo ela que iam a Jerusalém visitar o Sepulcro onde aquele que eles têm por Deus foi enterrado depois que os judeus o mataram, recomendou-me a eles e rogou-lhes que me entregassem a meu pai em Chipre. Quanto aqueles fidalgos me respeitaram e me receberam com gosto ao lado das esposas seria uma história muito longa para contar. Então embarcamos e, depois de vários dias chegamos a Pafos; quando me vi chegar ali, onde ninguém me conhecia, sem saber o que dizer aos fidalgos que queriam entregar-me a meu pai, conforme lhes fora imposto pela veneranda senhora, Deus, que talvez se compadecesse de mim, trouxe Antígono para a praia bem na hora em que desembarcávamos; então o chamei imediatamente e, em nossa língua, para não ser entendida pelos fidalgos nem por suas esposas, disse-lhe que me acolhesse como filha. Ele logo me entendeu; e, demonstrando muita alegria, homenageou aqueles fidalgos e suas esposas dentro de suas pequenas possibilidades e me levou ao rei de Chipre, que me recebeu e me devolveu ao senhor com tanta cortesia que nunca se poderia dizer. E, se faltar dizer mais alguma coisa, que Antígono conte, ele que tantas vezes me ouviu relatar esses reveses.

Antígono então se voltou para o sultão e disse:

– Senhor, ela contou tudo com os mínimos pormenores, tal como me relatou várias vezes e como me relataram aqueles fidalgos e fidalgas com os quais chegou. Só deixou de dizer algumas coisas, e, conforme estimo, deixou de fazê-lo porque não lhe fica bem dizê-las; é o que foi dito por tais fidalgos e fidalgas, com os quais chegou, sobre a vida honesta que levou com as religiosas, a sua virtude e os seus louváveis costumes; tampouco falou das lágrimas e do pranto das mulheres e dos homens quando se separaram dela depois de a restituírem a mim. São tantas coisas que, se quisesse dizer plenamente tudo o que me disseram, não me bastariam o dia de hoje e a próxima noite; por isso espero que seja suficiente dizer-lhe que (pelo que mostraram as palavras deles e também pelo que pude ver) o senhor pode gabar-se de, entre todos os que hoje usam coroa, ter a filha mais bela, mais honesta e mais valorosa.

O sultão rejubilou-se muitíssimo com tudo isso e várias vezes rogou a Deus que lhe concedesse a graça de poder recompensar dignamente a todos os que tivessem honrado sua filha, sobretudo o rei de Chipre, que tão honrosamente a mandara de volta; e, depois de alguns dias, tendo mandado preparar valiosíssimos presentes para Antígono, deu-lhe licença para voltar a Chipre e, por carta enviada e por embaixadores especiais, agradeceu penhoradamente ao rei tudo o que ele fizera por sua filha. Em seguida, querendo levar a efeito aquilo que fora começado, ou seja, que ela fosse mulher do rei de Algarve, comunicou-lhe na íntegra tudo o que ocorrera, escrevendo-lhe também que, se ainda fosse de seu gosto tê-la por esposa, mandasse chamá-la. Com isso o rei de Algarve muito se rejubilou e, mandando buscá-la com todas as honras, recebeu-a com alegria. E ela, que com oito homens dormira talvez dez mil vezes, ao lado dele se deitou como donzela e o levou a crer que assim fosse; e com ele viveu feliz como rainha durante muito tempo. E por esse motivo se diz: “Boca beijada não perde ventura; antes, renova como faz a lua”.

— Giovanni Boccaccio, séc. XIV


[1] San Cresci no original. Cresci é “cresces”, do verbo crescer, em italiano.
[2] Valcava é “vale profundo” em italiano.

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