O Casamento: Capítulo 34

“Estou muito gorda,” lamentou Angelica, “Mylle já não me ama mais.” Mylle revirou os olhos diante daquela que era a mais recente alteração de humor de Angelica. Eu tentei não rir, sabendo que, se voltasse uma hora mais tarde, encontraria uma esposa jubilante. Minha mãe contou que era normal, mas eu achava que era bem Angelica.

“Venha, meu amor,” disse Mylle, arrancando Angelica da cadeira. Angelica vacilou sobre os próprios pés. Ela tinha razão numa coisa: estava mesmo gorda. Parecia haver um exército inteiro dentro dela. Cheguei perto para ajudá-la a ficar de pé.

“Oh!” exclamou Angelica, “rápido, Mylle, sinta aqui.” Angelica tomou a mão de Mylle e pousou-a na barriga. Mylle sorriu, sentindo o chute do bebê. Angelica guiou também a minha mão. Era um chute forte, e eu quase pude sentir o pé.

“Isto é uma maravilha,” falei, beijando a minha esposa, “uma coisa milagrosa.” Levamos Angelica para a cama, e Mylle tirou-lhe o vestido. Mylle sabia dar conforto. Mylle sentou-se na cama e Angelica deitou-se parcialmente em seu colo. Mylle massageava a barriga estufada de Angelica e sussurrava em seu ouvido. Normalmente eu sairia, mas o bebê estava se mexendo e eu estava adorando aquilo. Debrucei o meu ouvido sobre a barriga de Angelica, sob os peitos inchados. Ouvia os movimentos, e de quando em quando a minha criança me chutava no rosto. Aquilo trazia sorrisos aos meus lábios.

“Homens e peitos grandes,” gracejou Alia ao entrar no quarto. “Como é que eu posso competir com estes monstros?” Angelica riu, como se o seu pesar, de poucos segundos antes, tivesse sido arrebatado pelo vento. Acenei para Alia e coloquei sua mão sobre a barriga agitada. A criança, geralmente sossegada, estava agora hiperativa. Angelica estava fascinada pela atenção. Nós três estávamos todos hipnotizados pela barriga nua.

Angelica acariciava os meus cabelos enquanto eu me concentrava no bebê. Foi então que aconteceu. Ela, soltando um terrível grunhido, tentou arrancar da minha cabeça um farto punhado de cabelos. Procurei acompanhar-lhe o movimento da mão para aliviar a dor.

“Mulher, meu cabelo!” gritei. De repente, a minha mão sobre a cama ficou molhada e quente. Com cuidado, Alia separou Angelica do meu cabelo, enquanto o grunhido se convertia quase num grito. Mylle enlaçou Angelica nos braços.

“Estou aqui, meu amor,” sussurrou Mylle. Depois de um instante, acabou, mas Angelica resfolegava e tinha gotas de suor nas sobrancelhas. Levantei-me sem palavras.

“Vá buscar a parteira,” disse Alia, me despachando com um empurrão. Antes que eu pudesse chegar ao corredor, outro grito lancinante cortou o ar. Segui às pressas pelo corredor e esmurrei a porta de madame Pythos. Durante mais de um mês nós tínhamos lhe dado acomodações justamente para este dia. Arrastei a velha senhora até a minha esposa. Entramos no caos.

“Eu não quero mais isto!” berrava Angelica. Seu cabelo estava embaraçado pelo suor. Mylle estava em pânico, e Alia ficou aliviada por Pythos ter aparecido.

“Bem, é um pouco tarde para isto, minha querida,” respondeu Pythos, calmamente. “É uma coisa natural, que você vai perdoar assim que o bebê estiver em seus braços.” Ela caminhou depressa na direção de Angelica. “Quando foi que começou?”

“Há apenas alguns instantes,” respondi, deslocado. Me invadiu uma sensação de completa inutilidade.

“Mande alguém com água e toalhas, meu Príncipe,” disse Pythos, virando-se para mim, “e depois deixe o resto conosco. Não é lugar para homem.” A tarefa me alegrou e eu saí em meio a mais um grito de Angelica. Gastei alguns instantes para arranjar o que Pythos havia pedido. Então procurei minha mãe.

“O bebê vem vindo,” contei à minha mãe, que prontamente abandonou o ponto cheio e demonstrou toda a sua agudeza de espírito. “Ela está com dores horríveis. Estou preocupado,” disse eu com cara de estúpido. Minha mãe me beijou e sorriu.

“É sempre assim, meu filho,” minha mãe riu, “e essa, na verdade, é a parte fácil de criar um filho.” Eu não podia me imaginar dando essa espécie de dor à minha mãe. Acompanhei minha mãe até Angelica, e depois fui obrigado a manter distância. Sentei-me do lado de fora, no corredor, contraindo-me a cada grito que atravessava a porta. Observei os servos trazendo água e toalhas.

“Assustador, não?” Meu pai tinha chegado sem ruído e visto minha cabeça enterrada nos joelhos.

“É infernal,” falei honestamente, “não posso fazer absolutamente nada. Ela grita como se estivesse pegando fogo.” Meu pai assentiu.

“Sua mãe ficou assim quase toda a noite.” Meu pai sentou-se ao meu lado, bastante deslocado, sendo ele o rei. “Lembro-me, enquanto esperava a sua vinda, de mastigar os dedos até tirar sangue. Achei que você acabaria com ela.” Olhei para o meu pai e vi que era verdade. Fechei minhas mãos para que ele não notasse minhas unhas: estavam reduzidas a toquinhos, no máximo.

“Me pergunto porque é tão doloroso,” pensei em voz alta. Eu supunha que fosse algo abençoado, não horrendo.

“Aguarde,” disse meu pai, “um dia seu filho vai desaparecer por um dia inteiro, e seu coração vai ansiar por uma dor como esta.” Ele deu uma risadinha ao lembrar da minha fuga quando eu era pequeno. Eu nem sequer conseguia recordar o motivo. Quando me dei conta de que havia perdido o almoço, tinha chegado à floresta. Um garoto pequeno não pensa no futuro quando o presente parece tão desagradável.

“Nem sequer me lembro porque fugi aquele dia,” eu sorri.

“Eu tinha tirado a sua espada.” Meu pai deu de ombros. “Você tinha quebrado um vaso com ela, e achamos melhor ensiná-lo a ter cuidado. Você não levou numa boa.” Ele encolheu novamente os ombros: “Colocamos metade do reino à sua procura. Daí você simplesmente apareceu para jantar, sem mais nem menos.”

“Eu me lembro da fome,” eu ri.

“É, mas sua mãe e eu não conseguimos comer absolutamente nada,” recordou meu pai. “Tínhamos certeza de que algo terrível tinha acontecido. Pensar nisso ainda me dá calafrios. Você era muito novo para ser tão cabeçudo.”

“Você lamenta a família que eu arranjei?” perguntei. Eu vinha me perguntando se a minha vida o desapontava.

“Inicialmente, sim.” Meu pai balançou a cabeça. “Agora não vejo outra saída. Há uma felicidade em você e Angelica. Sem Alia e Mylle, eu não consigo imaginar nada exceto uma vida longa e infeliz. É estranho, mas sua mãe e eu não lamentamos. Agora sua mãe cortaria o próprio braço para manter Alia aqui.” Meu pai sorriu ao se referir à ira que minha mãe despertou quando tentou desmanchar o meu amor.

“Você e Angelica funcionam bem juntos,” continuou meu pai. “O povo adora vocês. O que você começaram com o pastor de ovelhas, e depois o festival… nos fez menos pesados à vista de todos. Um dia eu deixarei este mundo e ficarei contente de deixar tudo em suas mãos. Estou orgulhoso do que você fez com o que lhe foi dado.”

“Mestre Balen vai se casar. Não lhe contei?” perguntei, lembrando as novidades.

“Ela será uma garota de sorte; aquele garoto nasceu na classe errada,” elogiou meu pai. “Com aquela voz, certamente ele salvou o seu orgulho.” Meu pai permaneceu comigo durante a noite, ouvindo os gritos de Angelica se transformarem em gemidos exaustos. Alia saiu e comunicou-nos o que Pythos dissera: tudo normal. Notei a dor no rosto de Alia, e percebi que ela sofreu por Angelica. Era quase alvorada quando ouvi um pequeno choro que envolveu o meu coração. Não esperei que me dessem permissão, entrei no quarto.

“Olhe o que nós fizemos,” disse Angelica com a voz rouca. Ela estava horrivelmente pálida de toda aquela luta, e tinha um jeito terrivelmente fraco. Segurava um pacote nos braços e mostrava um sorriso que desmentia os esforços anteriores. “Ele é tão bonito. Venha ver o seu filho.” Ignorei as toalhas vermelhas e fui na direção da minha esposa.

A vida mudou.

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