O Casamento: Capítulo 33

Era tarde, mais do que gostaríamos, quando decidimos partir. Estaria bem escuro quando chegássemos em casa. Não podíamos cavalgar rápido, não com Angelica naquela condição. Demorou muito para terminarmos as despedidas. Como o Rei da Primavera tinha caído no sono em seu trono, quem fez as honras foi a ‘rainha.’

Retomamos as montarias e iniciamos a longa jornada de volta. Ainda não tínhamos nem saído da cidade quando outros seis cavaleiros se juntaram a nós.

“Sua escolta, meu Príncipe,” exclamou o líder dos cavaleiros ao se aproximar, “não queremos ver a princesa em perigo esta noite.” Sorri e agradeci a presença dos seis homens. Reconheci, em dois deles, os comerciantes com os quais eu havia conversado antes. Três deles inclusive tinham ido buscar armas antes de se juntarem a nós.

“Agradeço muito a vocês, Senhores,” disse eu a todos, “passamos da hora, e a sua proteção é bem-vinda.” A conversa desviou para uma recapitulação dos eventos do festival. Fiquei sabendo a história do Rei e da Rainha da Primavera. Eram marido e mulher, ele um alfaiate de certa reputação. Suspeitava-se que a esposa fizesse o grosso do trabalho, mas, como a qualidade era excelente, ninguém o questionava.

Já estava bem escuro quando ouvimos cavaleiros se aproximando a uma grande velocidade. Fiquei duplamente contente pelos homens terem decidido nos escoltar. Manobrei Storm diante da princesa, e os outros a cercaram. Foi tenso, mas sem razão. Era o comandante Kancraft e um pequeno contingente de soldados.

“O rei ficou preocupado, meu Príncipe,” exclamou Boris tão logo conseguimos nos reconhecer.

“Eu tinha ampla proteção, comandante,” respondi com animação, “passamos da hora, e estes homens se ofereceram para tornar mais fácil a nossa viagem.”

“É bom saber que existem almas valentes assim,” disse Boris, acenando com a cabeça para a nossa escolta. Foi um valioso cumprimento, vindo do comandante das forças do reino. A escolta percebeu a importância daquilo, e todos se empertigaram em suas selas.

“Comandante, os comerciantes me pediram para coordenar as nossas patrulhas da estrada norte com as suas caravanas.” Indiquei com um gesto os dois comerciantes presentes. “Parece um pedido razoável, e pretendo concedê-lo.” Boris, pensativo, olhou para o alto. Um sorriso de malícia apareceu.

“Que me diz de fazermos algo ainda melhor, meu Príncipe?” maquinou Boris. “Se desejarem, podemos chamar a atenção de vários com um grande carregamento, um saboroso petisco que não conseguirão ignorar.” Olhou para os comerciantes. “Podem fazer um teatro. Acrescentar caixotes e barris vazios caso não tenham mercadoria suficiente.” Boris sorriu mais abertamente. “Estou cansado desses salteadores. Podemos atraí-los com um grande destacamento à espera. Se funcionar, os homens sem caráter vão pensar duas vezes antes de se confrontarem novamente com um comerciante Southerson.”

Os detalhes foram discutidos no caminho. Em cada carruagem haveria soldados sob disfarce, munidos de cornetas para sinalização. Uma força pequena na frente e uma grande atrás. Os comerciantes ficaram muito satisfeitos em ajudar na limpeza da estrada. Valia a pena arriscar uma viagem por um futuro de viagens seguras. Ficou tudo acertado. Uma armadilha concebida pela coroa e pelo plebeu. Se funcionasse, seria esplêndido.

Menos de um mês depois, três salteadores estavam mortos, seis estavam presos, e os rumores de como tudo tinha acontecido se espalharam. Os comerciantes Southerson viajavam sem aborrecimentos e, ao invés de perder, passaram a ganhar muitas patacas.

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