O Casamento: Capítulo 32

Era primavera quando tivemos a certeza. Angelica não tinha começado a dar sinais visíveis, mas até mesmo o cirurgião concordava. Mamãe foi informada e, no seu íntimo, orgulhou-se de ter razão. Papai ficou emocionado, mas escondemos da côrte. Angelica e eu tínhamos decidido não seguir a tradição. Enviamos, entretanto, um cavaleiro até os pais de Angelica para que soubessem por meio de carta nossa.

Em várias das nossas cavalgadas, encontramos Balen pastoreando seu rebanho. Angelica e eu fazíamos questão de parar e perguntar sobre a saúde da mãe e sobre seu emprego como segunda voz. Eram sempre conversas informativas, nas quais aprendíamos muito sobre os pontos de vista daquela terra. Tínhamos tomado conhecimento, através dele, do festival da primavera. Era para o povo simples, e nele nenhum nobre havia jamais participado. Era feito para se comer e se dançar, e em muitos casos se negociar enlaces matrimoniais.

Me envergonhei pela coroa não estar consciente do festival. Era o nosso próprio povo a realizá-lo, e em nosso próprio reino. Já era hora do futuro rei e da futura rainha se aventurarem pelos arredores. Não revelamos a Balen nada das nossas intenções, mas sabíamos que ele estaria lá. Angelica tinha sentido que havia alguém que o jovem desejava cortejar. Eu não percebi, mas eu era muito fraco neste assunto.

No dia do festival, cavalgamos Storm e Sunrise até a cidade propriamente dita. O estribeiro ficou chocado com a bela gorjeta que lhe demos para que cuidasse dos cavalos. Depois caminhamos de mãos dadas em direção à música. Nos limites do local onde começavam as festividades, paramos e observamos. Angelica indicou as grandes cadeiras de onde o rei e a rainha do festival dirigiam-se à côrte. De certo modo era uma paródia da coroa, mas feita com a intenção de brincar e não de ofender. O ‘rei,’ um velho alegre e bem barrigudo, estava berrando ordens inúteis à multidão de dançarinos. A ‘rainha,’ provavelmente sua esposa devido à familiaridade que lhe demonstrava, estava sorrindo e acenando para todos os conhecidos. Usavam coroas feitas de gravetos trançados e vestiam mantos vermelhos por sobre as roupas. O ‘rei’ parecia muito apegado ao que havia dentro da caneca, e exigia que ela fosse reabastecida tão logo esvaziava.

Angelica e eu, astutamente, nos unimos aos dançarinos. Ninguém se deu conta de quem éramos nós, e cederam espaço. Eram passos simples que todo mundo podia executar, desde as crianças até os idosos. Ao fazermos uma série simples de voltas aos pares, Angelica se viu segurando a mão de uma menininha. A garotinha era toda sorrisos e derreteu a coração de Angelica. Acho que, naquela garotinha, ela teve uma visão da criança que carregava no ventre. Houve uma troca de pares e Balen, chocado, ficou face a face com a princesa.

“Minha Princesa!” exclamou Balen, caindo com um joelho por terra. Houve um instante de confusão, pois os nossos rostos não eram bem conhecidos. No instante seguinte, muitos se ajoelharam.

“Meu querido mestre Herdsman,” disse a princesa com voz clara, para todos ouvirem, “é bom vê-lo novamente. Erga-se do pó, por favor; o festival é seu e nós viemos para aproveitá-lo.” Havia hesitação nos movimentos de todos. Balen se ergueu com um sorriso, e Angelica lhe ofereceu a mão. Ele fez uma reverência e beijou-lhe os nós dos dedos. Houve sussurros à medida que as nossas identidades se propagavam com o vento.

“Mestre Balen, você poderia fazer a gentileza de nos apresentar ao ‘rei’ e à ‘rainha,’” perguntei. Ele nos guiou habilmente para os tronos improvisados. O falso rei não parecia nada bem. Ele, que ao chegarmos estava tingido de vermelho da bebida, agora estava pálido como um fantasma.

“Meu Rei e minha Rainha da Primavera, permitam-me apresentar-lhes o Príncipe Cayden Southerson e a sua esposa, a Princesa Angelica Douderson Southerson.” Fiz uma reverência e Angelica fez uma mesura, ambos sustentando largos sorrisos.

“Meu Príncipe, não temos nenhuma intenção de ofender a coroa,” falou o ‘rei’, em pânico. Achei que ia cair duro de vergonha.

“A coroa não se sente ofendida. Fomos nós que invadimos de maneira rude, sem sermos convidados, e suplicamos o seu perdão, meu Rei da Primavera,” disse eu com outra pequena vênia. Foi a ‘rainha’ quem primeiro se recompôs e ficou de pé.

“Bem-vindos ao festival da primavera,” anunciou a ‘rainha’, “é com prazer que nós oferecemos o conforto do nosso lar. Entrem e fiquem à vontade.” Foi uma bela saudação formal.

“Nós sinceramente agradecemos, minha Rainha da Primavera,” disse Angelica. Quando o constrangimento se dissolveu e deu lugar a alegres vivas, todos viram que estávamos ali por diversão.

“Peço a palavra, meu Rei da Primavera,” gritei acima da bulha.

“O Trono da Primavera concede a palavra ao Príncipe desta terra.” O ‘rei’ falou mais alto do que eu esperava, e a multidão se aquietou. Subi no estrado onde os tronos estavam empoleirados.

“Estamos aqui para celebrar e anunciar novidades da mais agradável espécie.” Falei com voz forte e o falatório cessou. “Quero que todos partilhem a nossa alegria. A princesa está grávida. Esta terra terá um herdeiro.” O festival irrompeu em altos brados de bons votos. Angelica estava radiante de tanto orgulho que a gravidez lhe dava. Foi cercada imediatamente por mulheres sorridentes que desejavam saber todos os detalhes.

Os lavradores e comerciantes disputavam sobre quem me compraria uma bebida. A coroa não queria nada disto.

“Mestre vendedor, quantos tonéis você trouxe?” perguntei ao magricelo que estava fornecendo o vinho.

“Três, meu Senhor,” respondeu-me o vendedor depois de olhar para a sua carroça.

“Vou comprar os três,” disse eu, “hoje ninguém ficará de caneca vazia. Desejo muitos brindes ao herdeiro vindouro.” Naquele dia nós fizemos muitos amigos entre os súditos. Dançamos, rimos e dividimos a nossa alegria. Com as línguas soltas pelo vinho, ficamos sabendo de muitas questões que a coroa podia resolver. Algumas eram simples, outras exigiam mais reflexão. Eram os ouvidos da coroa que eles queriam, e foi o que lhes dei. Minha família tinha se afastado ao longo dos anos, contentando-se em prover segurança e permitindo que os encarregados cuidassem dos detalhes. Não ia continuar assim. Angelica e eu conheceríamos o povo, e este festival seria o início.

Descobrimos muita coisa que não sabíamos. A data dos impostos era a suprema preocupação. Eles não aprovavam os impostos, mas compreendiam que eram necessários. A maior dificuldade mesmo era o momento da coleta. Os lavradores preferiam que o recolhimento fosse feito após a colheita, quando estavam abastecidos, e não na virada do ano. Eu não via problema e conversaria com meu pai. Alguns comerciantes estavam preocupados com a estrada norte, onde tinha havido alguns roubos de bens. Tinham diminuído com o aumento das patrulhas, mas eles propuseram que as carroças acompanhassem diretamente as patrulhas, caso fosse possível estabelecer algum tipo de coordenação. Era uma idéia muito boa, a meu ver, e algo que eu mesmo podia ordenar. Com o comércio seguro, todos saíam ganhando.

Apesar de tudo, as demandas não eram exageradas. Isto era novidade para mim e para eles, e vários se limitavam às preocupações mais urgentes. Outros achavam que mais importante era a celebração. Por estes, a nossa participação foi integral. Eu até fui arrastado a um coral para atender aos desejos da minha esposa. Descobrir que eu não cantava muito bem foi um regalo para todos. Deixei que minha esposa se divertisse; era bom ver a sua felicidade genuína. Ela adorava dançar, e em breve a sua barriga tornaria isto difícil.

Num certo momento eu vi que Angelica conversava bem à vontade com uma jovem mulher. Estavam rindo, mas sobre o quê eu não sabia. Quem não parecia à vontade com aquilo era Balen.

“Que é que ela está dizendo, meu Senhor?” perguntou-me Balen, preocupado. Então eu soube que Angelica tinha descoberto o interesse de Balen.

“Com certeza é a seu respeito,” falei amistosamente, “e espero realmente que ela seja do seu interesse, ou você poderá enfrentar problemas quando a princesa terminar.” Balen arregalou os olhos.

“Ela é do meu interesse, e muito, meu Senhor. Não sei se é prematuro. E se ela não tiver interesse por mim? E se ela tiver, o que eu falo?” Balen divagava. Eis um homem que se levantava na côrte e cantava sem hesitação. Diante da garota favorita, não passava de um pateta.

“Não dizer e nem fazer nada é a única opção errada, mestre Herdsman,” falei, tentando reprimir o riso. “Quero crer que a princesa detectaria a antipatia, e continuaria somente se o interesse fosse mútuo.” O rosto de Balen estava ficando vermelho. Ergui os olhos e vi que Angelica se aproximava trazendo a moça. Tinha olhos azuis, era cheia de formas, e se movia com graça. Seu sorriso acentuava muito bem as suas madeixas castanhas. Balen estava em apuros.

“Meu marido, permita-me apresentar madame Kady,” disse Angelica com um sorriso furtivo. Kady fez uma mesura para mim, mas seus olhos estavam postos em Balen.

“Encantado, madame Kady,” respondi, sorrindo, “conhece meu amigo, mestre Balen?”

“Nos encontramos de passagem, meu Senhor,” disse Kady. Balen pareceu que ia desmaiar na hora. Fez uma reverência pouco confiante.

“Madame Kady… é bom… você é…” As palavras de Balen se perdiam em sua garganta. Ele tossiu e eu vi seus olhos se encherem de ferocidade. Endireitou-se. “Gostaria de cortejá-la se a sua família permitisse.” Foi repentino e inesperado. Ele tinha saltado por todas as preliminares. Angelica cobriu a boca para esconder o riso.

“Ó, que começo adorável!” respondeu Kady, deliciada; estendeu a mão, e Balen a tomou direitinho. “Ouvi dizer que a sua voz é tão prazerosa aos ouvidos quanto a sua vista o é para os meus olhos.” O sorriso de Balen se abriu, e ele se descarregou de todos os pensamentos que tinha sobre a beleza da moça. Angelica e eu os escutamos apenas nos primeiros instantes, já que eles haviam nos esquecido e se distanciado para uma conversa a sós.

“Você age rápido, meu amor,” falei com bom humor.

Angelica sorriu. “Não deu trabalho. Ela já estava apaixonada. Não fiz mais que acelerar o passo. Para dizer a verdade, creio que Balen já estaria velho e grisalho quando decidisse encará-la.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s