O Casamento: Capítulo 31

Estava um ótimo dia para vencer no jogo. Finalmente eu havia dominado o Tavia e Mylle arriscava-se a perder pela primeira vez. Eu tinha ganhado três partidas e ela uma. Tinha levado várias semanas para chegar a este ponto, e eu gozava de uma boa dianteira na atual partida. Agora eu estava à sua altura em habilidade. Os dados restavam mais ou menos como fator determinante, embora eu parecesse ter total controle sobre eles hoje.

“Hoje Angelica não conseguiu segurar o café-da-manhã de novo,” disse Mylle ao rolar os dados. Tínhamos tentado conceber um herdeiro mais quatro vezes, com muitos dias de intervalo entre cada tentativa. Tínhamos desenvolvido um padrão que funcionava, por mais estranho que parecesse. Reuníamos nós quatro juntos na cama, cada qual executando o seu papel para acelerar o processo. Havia se tornado uma operação de necessidade, tendo pouca relação com o prazer, embora para mim fosse problemático distinguir entre ambos.

Alia tinha se juntado na segunda tentativa, mais por mim do que por ela. Percebi a mágoa que ela devia sentir por me ver com outra. Ela achava divertido acelerar as minhas sementes. As suas palavras, sussurradas no momento exato, encurtavam enormemente o processo. Angelica já não achava a coisa desconfortável, mesmo não extraindo grande prazer da minha virilidade. Ela gostava mesmo da idéia de ser mãe. Era adorável o seu sorriso diante da minha consumação. Melhor do que a própria consumação.

“Ela não me contou,” respondi. Esperava que fosse conforme as palavras de minha mãe: um sinal de que estivesse grávida. Mylle moveu as pedras para protegê-las, mesmo que isto servisse muito pouco para alterar a sua derrota iminente. Havia alguma coisa, algo como um forte encanto, na vitória contra o mestre numa competição. Eu tentaria ser complacente, mesmo sendo difícil.

“Com este são três dias,” disse Mylle, “é promissor.” Observou-me enquanto eu tirava pontos iguais nos dados. Não pareceu inquietá-la.

“Ela pode simplesmente estar doente,” repliquei. Minha mãe não pensava assim. Seguia Angelica por todo canto, certificando-se de que não se esforçava demais. Mexi as peças de maneira tática, aumentando a minha vantagem e limitando a capacidade de Mylle se recuperar. Eu já não precisava contar os triângulos com as mãos; as jogadas eram intuitivas.

“Você vai ganhar,” disse Mylle, contente. Por dentro eu sacudia como pipoca, mas por fora permanecia calmo. Quando ela admitiu a verdade, um sorriso escapou contra a minha vontade.

“Você me ensinou bem demais.”

“É mais divertido quando somos os dois bons,” acrescentou Mylle. Parecia mais animada do que eu com a minha vitória. Eu gostava dos nossos jogos e desejava que fossem mais freqüentes. Tê-la só para mim era um agrado especial. Raramente ela estava de mau humor. Ela se importava profundamente, e sempre se preocupava com os sentimentos que tínhamos um para com o outro. Enquanto ela rolava os dados e movia as peças, eu observava atentamente o seu rosto. Nada disto teria dado certo sem ela. Era a força de Angelica e minha guia inabalável através das esquisitices que tínhamos forjado. Sorriu ao me flagrar encarando-a.

“Ainda não lhe contei quanto você significa para mim,” falei sinceramente. Ela me surpreendeu ao dar a volta no tabuleiro e sentar-se em meu colo.

“Eu já sei, mas quero ouvir dos seus lábios,” disse Mylle com doçura. Leve como era, ficava confortável em meu colo. Havia uma intimidade serena que brotava do fato de acordar com o corpo nu ao meu lado.

“Tenho amor reservado para você,” falei. Mylle sorriu e me beijou. Em seguida me deu um abraço que eu achei mais que agradável. Alia escolheu este instante para entrar no quarto.

“Que é isto?” indagou Alia com as mãos na cintura. Foi como um balde de água fria. Fiquei confuso quando Mylle deu uma risadinha.

“O coração dele pulou. Eu senti,” disse Mylle, “você o assustou.” Ela não fez menção alguma de se desprender de mim. Alia deixou caírem as mãos e riu. Eu dei um sorriso frouxo, ainda tentando descobrir exatamente o meu papel. Mylle me abraçou firme novamente. “Ele contou que me ama. Agora não é mais segredo.”

“Que é isto?” Angelica entrou. A sua seriedade não era tão bem definida quanto a de Alia. “Estou à beira da morte, doente, e vocês dois me abandonam.” Para mim ela não parecia nada doente.

“Cayden está declarando o seu amor,” disse Alia.

“Então Mylle é sua favorita?” acrescentou Angelica.

“Sou, não sou?” perguntou Mylle, sorrindo abertamente. Percebi a provocação e decidi ignorá-la, mudando de assunto. Era melhor que eu evitasse a armadilha.

“Você está melhor, minha esposa?” perguntei com animação. Parecia estranho dizê-lo com Mylle em meu colo.

“Estou, meu marido,” respondeu Angelica, “vem e vai.” Abriu um sorriso. “Estou pensando: é um sinal.” Era evidente a felicidade em seu rosto, e eu desejei que assim fosse. Nunca eu tinha conhecido uma mulher tão determinada a ficar grávida. Ia além do dever de dar à luz um herdeiro. Era alguma coisa bem no seu íntimo, o desejo de alguém feito por ela mesma. Torci para ser uma criança que gostasse de ser sufocada, porque seria inundada de amor.

“Não escolheu ainda,” disse Mylle, forçando a conversa de volta ao atoleiro. Angelica e Alia sorriam. Mylle fazia beiço. Era melhor não responder a uma pergunta dessas.

“Seria tão difícil quanto escolher o exemplar mais belo dum campo florido,” falei. Tinha me ocorrido de repente, e me orgulhei disto. Alia se inclinou, descendo seus lábios até o meu ouvido. Sussurrou coisas que me fizeram esquecer as palavras.

“Ah!” reclamou Mylle, “as tramas dela são injustas.” Fiquei de pé, erguendo Mylle e dando-lhe um beijo na testa.

“Perdão, meu amor,” disse eu para Mylle, voltando-me para os olhos suaves de Alia, “ela sabe trapacear bem.”

“Venha, meu amor,” disse Angelica para Mylle, “eu aliviarei o seu coração partido.” Acabamos não terminando o jogo. Pouca importância teve depois que Alia se despiu e os sussurros se tornaram realidade.

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