O Casamento: Capítulo 30

Acordei suando na manhã seguinte. A perna de Alia estava apoiada sobre a minha coxa; Mylle, que à noite deve ter trocado de lugar com Angelica, estava bem apertada contra mim. Ergui a cabeça, cuidando para não acordar ninguém, e vi Angelica com metade da cama só para si. Supus que estivesse treinando para ser rainha. Tentei me mover um pouco para me resfriar. Mylle se remexeu dormindo e passou o braço por cima de mim. Podia sentir os pequenos seios tocando a minha lateral, agora que respirávamos o mesmo ar. Todos pareciam confortáveis, menos eu.

Não podia voltar a dormir, e não me agradava ficar parado como um travesseiro superaquecido. Fiz uma manobra com os membros e rastejei-me lentamente para fora da cama. Alia e Mylle emitiram leves ruídos ao serem perturbadas. Como nenhuma delas tinha aberto os olhos, eu cobri-as de volta com os cobertores. Coloquei lenha nova nas brasas da lareira. O fogo cresceu imediatamente e começou a devorar a sutil friagem que tinha preenchido o quarto durante a noite. Me vesti em silêncio para não acordar os meus três anjos. Olhei para elas, todas satisfeitas e tranqüilas. Naquele momento eu amava as três mais do que a própria vida. Sorri olhando para Angelica… talvez quatro, com o tempo.

Saí do quarto em silêncio e encontrei Lucius no corredor. Estava batendo papo com uma jovem que antes eu tinha visto na cozinha. Estava alheio à minha chegada, de olhos e atenção postos apenas nela. Ver aquilo me divertiu intimamente.

“Meu Senhor!” disse Lucius, fazendo rapidamente uma reverência. Tinha sido pego de surpresa. A jovem teve reação similar e fez uma mesura com o rosto corado. Ela não estava onde devia estar. “Eu não o esperava assim tão cedo.”

“Uma bela manhã,” disse eu, animado, “e esta, quem é?” Lucius quase teve tempo de responder, mas a moça foi mais rápida.

“Trinity, meu Senhor,” respondeu ela depressa, com certa apreensão, “perdoe-me, não estou no meu lugar. Retornarei imediatamente.” Agora era o rosto de Lucius que estava um pimentão. Eu sorri.

“Fujam, se desejarem,” falei, “não tenho nenhuma intenção de perturbar um amigo que conversa educadamente.” Dizendo isto, toquei no ombro de Lucius – que agora sorria – e continuei no meu caminho. Torci para que ela ficasse; me alegrava que mais alguém pudesse ser tão feliz quanto eu.

Passei pelo toalete e depois segui para a cozinha. Estava agitada, parecendo um formigueiro. Como a maior parte dos hóspedes partiria hoje, o café-da-manhã precisava ser servido antes que saíssem. Pensei nas bolachas e no molho gravy. Do corredor eu já tinha sentido o cheiro do gravy e fiquei com vontade.

“Onde se meteu aquela Trinity?” gritou Madeline, dirigindo-se a quem quer que pudesse responder, enquanto eu me aproximava. Madeline era a responsável pela cozinha, e assim tinha sido desde a minha infância. Era uma mulher grandalhona, com uma inclinação geral para a mansidão. O casamento tinha exigido muito dela, e a manhã de hoje parecia jogar mais lenha na fogueira.

“Mil perdões, senhora Madeline,” falei com vivacidade, “Mandei-a com um recado para o meu mordomo. Devia ter perguntado antes.” Madeline se virou e seu rosto se acalmou.

“Não, meu Senhor. Estamos, evidentemente, ao seu dispor,” disse Madeline escolhendo as palavras.

“Eu vim expressar-lhe a minha gratidão,” acrescentei de improviso, “a festa estava excelente. Diversas vezes eu me orgulhei de aceitar os agradecimentos dos convidados pelos seus esforços.” Eu tinha deixado mais uma pessoa feliz. O dia prometia ser glorioso.

“Foi o seu casamento, meu Senhor.” O sorriso de Madeline preencheu a cozinha. “Não podia ser diferente.” Avancei para o gravy.

“Agradeço mesmo assim.” Meu nariz estava sobre a caçarola; senti o cheiro da lingüiça. “Será que poderia me arrumar um pouco de gravy com bolacha? Está com um cheiro delicioso.”

“É claro, meu Senhor,” disse Madeline, me servindo pessoalmente. Era um porção que dava para dois, mas eu não estava disposto a impedi-la. Ela estava radiante; fazia muito tempo que eu não a cumprimentava pelo trabalho. Daqui para frente eu não deixaria passar tanto tempo assim. Eu precisava mencionar para Angelica, assim ela poderia elogiar também.

Levei o gravy para fora, e dele se desprendeu uma fumaça no ar frio. Era evidente, pelo céu claro, que seria um dia bem ensolarado. O sol ainda não tinha tomado conta de tudo, mas já não havia nenhuma nuvem. Com a ponta dos dedos, peguei uma bolacha embebida de gravy e dei uma boa mordida. O sabor era tão bom quanto o cheiro. Sentei-me nos degraus e me preparei para desfrutar a minha refeição em paz.

“Montou minha irmã?” Uri tinha chegado furtivamente por trás e destruído meu bom humor. Por um breve instante, imaginei-o vestido de gravy.

“Bom dia, Príncipe,” propus, sem inflexão na voz. A aliança exigia tolerância. Virei a cabeça e vi que estava com roupas de viagem. Não ia ficar o dia todo, e eu achei isto muito bom.

“Vou ter de perguntar de novo?” insistiu Uri. Um homem só pode agüentar até um certo ponto logo pela manhã. Eu estava prestes a me levantar, e senti que o resultado não seria bom.

“Fui bem montada, meu irmão,” declarou Angelica com firmeza, “será que falarão de mim como gado o dia todo?” Uri e eu nos voltamos para ela. Eu sorri, e Uri se tornou mais sombrio.

“Bom dia, meu amor,” disse eu, alegre. Ela chegou na hora exata e evitou mais confusão do que imaginava. “Você estava dormindo tão calmamente que preferi não acordá-la.”

“Depois de ser montada assim tão completamente, tinha pensado em dormir o dia inteiro,” provocou Angelica, “é um mistério eu conseguir andar.” Olhou para o irmão com um riso travesso.

“Perdoe as minhas palavras, minha irmã,” disse Uri, portando as suas trevas interiores como um distintivo, “agrada-me que o casamento tenha sido consumado.” Desceu as escadas na direção da estrebaria. De costas para nós, falou novamente: “Espero que o herdeiro não seja defeituoso.” Larguei o meu prato e fiquei de pé. As minhas intenções não eram nada agradáveis. Foi Angelica quem me conteve.

“Deixe-o ir, meu amor,” sussurrou Angelica, “ele não tem mais ninguém além da sua própria mente. É um lugar sombrio, e você só o deixaria mais escuro.” Fiquei imóvel, atendendo ao pedido, e respirei fundo algumas vezes.

“Não vou ouvir isto para sempre,” falei, avisando. As suas palavras eram responsáveis por boa parte da mágoa de Angelica.

“Vamos tolerar,” disse Angelica, “ele é da família, e parte da aliança. Ele usa apenas palavras; é só até aí que chega.” Ela trouxe o meu rosto junto ao seu. “Você pode me proteger de todos os outros, mas tem de deixar meu irmão comigo.” Me beijou, e não como uma tia. Eu lhe concederia o irmão, mas ninguém mais.

“Tome banho,” ordenou Angelica, “lave-se do meu perfume. Daí vá para a sua verdadeira esposa, e prove que não sou nada além de obrigação.” Seu sorriso era deliciosamente maligno.

“Você é mais do que obrigação, minha esposa,” disse eu, embora a idéia de Alia tenha acelerado o meu coração.

“Ela sabe,” sussurrou Angelica, “mesmo assim, é uma mentira agradável.” Beijei o rosto de Angelica, e então fui correndo me banhar. Pretendia mentir bastante.

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