Uma Noite no Teatro

Que é que você faria se estivesse sentada no teatro e, durante a apresentação, a mão de um homem roçasse em sua coxa? E o que faria se esta mão pertencesse ao homem mais cobiçável que já lhe apareceu? E se, antes disto, o seu último contato físico com este homem tivesse sido há tanto tempo que você nem lembra? E então, o que você faria?

Bom, vou lhe dizer o que eu fiz. Mas primeiro preciso contar o que me colocou numa situação como esta. Chegando ao teatro para a apresentação das oito, o meu celular tocou. Era minha amiga Andréa, dizendo que alguma coisa tinha acontecido no trabalho e ela não poderia vir.

Inacreditável! Alguma coisa no trabalho? Os ingressos para a apresentação eram meu presente de aniversário… da própria Andréa! Ela tinha me entregado na semana anterior, e agora estava ao celular falando que sentia muito por toda a confusão, que prometia deveras me compensar. Andréia sugeriu que eu vendesse o ingresso dela e ficasse com o dinheiro, já que era presente.

Desliguei o celular completamente frustrada. Ouvi, atrás de mim, uma voz grave: “Com licença, por acaso você não tem um ingresso sobrando, tem?” Me virei. Em pé, quatro dedos mais alto do que eu, um homem de sobretudo marrom; por baixo, uma camisa de seda escura e uma calça escura. Era… absurdamente atraente. Tinha um nariz ligeiramente torto, mas bonito apesar da leve imperfeição (ou por causa dela). E tinha lábios carnudos e sensuais. Os cabelos castanhos eram curtos e manchados de cinza. Tinha olhos escuros, grandes e puros. Foi o sorriso, porém, que me rendeu.

Vendi o ingresso na mesma hora. Enquanto eu pensava num jeito de mantê-lo interessado antes do show começar, ele me ofereceu o braço na escadaria. “Hum! Que galante!”, pensei. Me disse que seu nome era Felipe, e que tinha acabado de fechar um grande negócio na empresa. Me disse que esse novo musical era um presente para si mesmo. Eu contei que era meu aniversário, e que minha amiga Andréa, desistindo no último instante, tinha me dado os ingressos. “Ora, já que é o seu aniversário eu vou lhe pagar uma taça de champanhe no intervalo. Parece que nós dois temos algo a celebrar,” disse ele.

Achamos os nossos assentos enquanto a orquestra afinava os instrumentos. Felipe e eu conversamos como se nos conhecêssemos desde sempre. Descobrimos que seguíamos a mesma dieta maluca, que adorávamos livros de suspense, que gostávamos das mesmas comédias, e que adorávamos pinturas impressionistas. “Por que ninguém nunca me apresentou antes a este homem?”, me perguntei.

Aos poucos a conversa deslizou para temas mais pessoais, e Felipe contou que tinha rompido com uma garota seis meses antes e não tinha namorado mais. Eu disse que tinha desistido dos namoros havia um ano, depois de um encontro ruim. Desde então minha amiga vinha brincando de cupido, mas eu sempre recusava. Qual é o romantismo de encontros marcados com estranhos? Fiz uma careta e Felipe riu.

As luzes diminuíram e o musical começou. Em algum momento durante os primeiros vinte minutos, aconteceu: senti os nós dos dedos de Felipe roçarem minha perna quando ele se abaixou para apanhar o programa que tinha caído. Bom, é possível que um homem sentado ao seu lado no escuro toque sua perna por acidente. Coisas assim acontecem. Só que eu torci para que o contato tivesse sido deliberado.

Não é desespero. Sou bonita, inteligente, engraçada. Mas não tenho tempo e disposição para namorar neste mundo de agora. Sou bem sucedida no que faço, mas isto toma muito tempo. Além do mais, eu me envolvo bastante na política, cuido de dois cachorros em casa, tenho amigos de monte e… enfim, já deu pra perceber. Eu estava acostumada à minha vida. Quase tinha esquecido o que era… lascívia.

O roçar da mão do Felipe na minha perna despertou a minha paixão adormecida. Cinco minutos depois, com o coração quase saindo pela boca, mexi a perna até o meu joelho tocar de leve o dele. Eu continuava olhando para frente como se estivesse assistindo à apresentação no palco, mas não saberia contar nada do que eu estava aparentemente vendo. Tinha consciência absoluta da sua respiração, da rigidez do seu joelho no meu. E de que, quando ele ajustou o braço no apoio que dividíamos, nossos cotovelos se tocaram de leve.

Meu joelho e meu cotovelo. Agora eram dois pontos de contato. Será que ele tinha consciência da corrente elétrica que fluía sutilmente entre nós dois? Será que ele sentia a tensão sexual crescente? Ou ele estava alheio ao calor que eu emanava? Será que ele não sentia os bipes do meu sangue pulsante? Meu coração foi a pique no instante seguinte, quando ele afastou o braço e o joelho; o contato físico tinha sido por acaso, no fim das contas.

Então eu senti a pressão da sua perna contra a minha. Desta vez não havia dúvida nas suas intenções. Fui atravessada por uma flecha eletrizante. Não pude nem imaginar uma resposta, pois neste momento a cortina baixou encerrando o primeiro ato. Tinha chegado o intervalo.

No saguão eu ganhei a prometida taça de champanhe. Felipe e eu conversamos como se nada tivesse acontecido na escuridão do teatro. Pode não ter acontecido nada… talvez eu tenha imaginado tudo.

Daí, de repente, tocou a campainha para retornarmos aos assentos. Desta vez Felipe tomou meu braço e me puxou mais perto enquanto andávamos pelo corredor. Coloquei a minha mão em seu pulso e acariciei o dorso da sua mão com a ponta do dedo. Era meu aniversário! Estava atirando a prudência pela janela. Quando íamos sentar, Felipe me pegou de surpresa deslizando a ponta do indicador pela minha nuca. Arquejei, e fui varrida por uma onda de tremores.

Nos sentamos enquanto as luzes diminuíam. Felipe sentou-se inclinado na minha direção. Sussurrando em meu ouvido, ele perguntou que perfume eu usava. Fiz com que repetisse a pergunta, não porque não tivesse escutado, mas porque gostei do frêmito que sua respiração causava em meu ouvido. Ele repetiu a pergunta, e eu me virei para sussurrar o nome do perfume. Ele disse que ia comprá-lo logo no dia seguinte. Quando perguntei porque, ele respondeu: “Para me lembrar de você.”

Antes que eu pudesse responder, a mulher no assento de trás se inclinou e pediu para fazermos silêncio. Felipe e eu trocamos um sinal de riso e eu apenas mexi os lábios: “Venha aqui.” Mas foi só quando eu acrescentei um gesto com meu indicador que ele se inclinou mais perto. Beijei-o nos lábios, aqueles lábios carnudos e sensuais. E depois falei: “Talvez isto ajude a se lembrar de mim.”

Felipe ficou chocado. Acenei para ele se inclinar novamente e ouvir mais uma mensagem sussurrada. “Isto acabou virando um aniversário excelente,” eu disse. Em resposta, ele tomou meu rosto nas mãos e me beijou. Bem delicado.

Mais tarde, naquela noite, cheguei ao meu apartamento e vi a luz piscando na secretária eletrônica. O recado era da amiga que tinha me comprado os ingressos:

“Espero que tenha gostado do musical! Felipe acabou de me ligar. Sim, o mesmo Felipe que estava com você. Não foi fácil fazê-lo aparecer assim. Levei semanas para convencê-lo. Claro que há séculos eu quero juntar vocês, mas você disse que nunca iria a um encontro com um desconhecido. Enfim… eu prometi compensá-la por minha ausência, e espero ter conseguido. Ah! A propósito, o Felipe está louco por você. Tchau!”

Encarei a secretária eletrônica por alguns instantes. Então meu rosto se abriu num enorme sorriso.

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