O Casamento: Capítulo 28

Fomos recebidos na sala do banquete com grande fanfarra. Havia muitas mesas. Todas, com exceção de uma, estavam paralelas às longas paredes. Foi deixada uma área aberta no centro, para cerimônias e danças. Desfilamos pelo meio até a mesa principal no fundo do salão. Todos se ergueram com muitos vivas e aplausos. Tentei ser uma companhia adequada à beleza de Angelica. O seu requinte era tão grande que a maioria dos convidados provavelmente sequer me notou. Ela sabia muito bem como fulgurar.

Os reis, as rainhas e Uri estavam sentados à mesa principal. Foi um bom sinal que Uri não tivesse abandonado o evento completamente. Ele pode não estar contente com a união, mas ao menos está disposto a tolerar. O pai de Angelica, o rei Toric, parecia saudável; teríamos, então, muitos anos para trazê-lo para o nosso lado. Uri não poderia odiar a sua irmã pela eternidade.

Junto à minha mãe, como ela mesma tinha decidido, sentavam-se Abigal e Balen, um ao lado do outro. Se o seu rosto servia de alguma indicação, ele estava aproveitando bastante. Abigal parecia relaxada, pelo que eu teria de agradecer à minha mãe. Fiz questão de não ignorar Balen enquanto passávamos a caminho dos nossos lugares. Por pouco que fosse, eu transmitiria toda a sorte que eu pudesse.

Os brindes começaram depois que as taças de vinho estavam cheias. Angelica e eu precisávamos nos beijar depois de cada um deles. Virou uma diversão; beijar um rosto sorridente tinha os seus prazeres. Ao redor da mesa os brindes se seguiam; os dois reis e as duas rainhas narraram os encantos das nossas vidas desde a infância. Anedotas da juventude foram desenterradas para que todos ouvissem. O vinho era potente e não faltava, de modo que as estórias foram se tornando mais engraçadas e menos vexatórias com o tempo. Uri, não é preciso dizer, pulou o brinde.

Balen fez um brinde rápido e de bom gosto à nossa futura felicidade. Fiquei orgulhoso pela sua voz não se intimidar naquele augusto salão. Abigal fez uma expressão de pânico quando chegou a sua vez. Por um instante, achei que ia deixar passar. Minha mãe sussurrou-lhe ao ouvido e um sorriso apareceu. Ela se levantou com a taça erguida.

“Ao príncipe e à princesa, para que sejam abençoados com muitos filhos que a rainha possa mimar,” disse Abigal com voz firme. Houve um forte clamor e pancadas nas mesas com a primeira menção aos herdeiros, mesmo que indireta. Por um instante eu pensei que insistiriam que começássemos ali mesmo, sobre a mesa. A minha mãe sorria sem parar para mim. Balen estava sem dúvida orgulhoso da mãe.

Terminados os brindes, trouxeram a comida. Tinham comprado cordeiro, carne assada, presunto e peixe. O aroma que encheu a sala foi bem recebido, e a comida atenuou os efeitos do vinho. Batatas bem temperadas e misturadas com cenouras foram colocadas em todas as mesas. Um pão de grãos com sabor amadeirado foi servido junto com fatias grossas de queijo. Meu pai, não sei onde, tinha encontrado um grande suprimento de maçãs tardias. Tinham sido cozidas e transformadas em uma torta de surpreendente doçura. Era uma grande festa para meados de inverno.

Eu conversava sobre treinamento de cavalos e sobre como melhor ajustá-lo à personalidade de um cavalo em particular, na maior animação, quando percebi que a minha esposa havia sumido. Busquei-a com os olhos e achei-a no outro canto da área aberta. O rei Toric, que tinha reparado em meu olhar perscrutador, me olhava com um largo sorriso.

“Como vai a sua voz de canto, Príncipe?” perguntou o rei.

“Ela não faria isto!” respondi imediatamente. Uri reprimiu o riso – era a primeira reação humana que eu via nele. “Eu canto como um sapo. Ela sabe disto.” O rei desatou a rir. A rainha cobria a boca para ocultar o próprio riso. Os outros rostos à mesa me encaravam em diferentes tons de ironia, tendo percebido o que estava para acontecer.

Uma voz harmoniosa e divina interrompeu os murmúrios. Minha esposa começou o primeiro verso de Os Descobridores, e todos silenciaram. Era uma antiga tradição que, na minha opinião, deveria ter sido sepultada há muito tempo. Os Descobridores era uma antiga estória de dois amantes que se perdem um do outro e gastam anos vasculhando o mundo. Por diversas vezes eles quase se encontram e, no final, eles se acham mesmo. Todos nós sabíamos a letra desde a infância. Dava uma bonita canção quando entoada pela noiva e pelo noivo, que se alternam nos versos. Eles circulam um ao outro na pista de dança até que, finalmente, a canção chega ao fim com ambos unidos ao centro. É romântica, ao menos para os que conseguem cantar.

“Bem-vindo à vida de casado,” disse meu pai com um generoso sorriso.

“Vou fazer as orelhas caírem,” respondi em pânico ao me levantar hesitante da cadeira. Mais risos abafados.

“Acompanharei você, meu Senhor.” Balen se ergueu enquanto falava.

“Você tem boa voz?” perguntei depressa. Angelica estava terminando o seu verso.

“As ovelhas nunca reclamaram, meu Senhor,” respondeu Balen. Ninguém mais na mesa conseguiu então conter as risadas. Abigal assentia indicando confiança na voz do filho. Resolvi acreditar nela.

“No meu canto, mestre Balen,” falei, rumando para a borda da pista, seguido por Balen. Angelica já tinha iniciado a lenta marcha pelo perímetro da pista. Provocava o ouvido com a voz, e me provocava com um sorriso. Achei que a necessidade de um herdeiro já fosse pressão suficiente. Questionei o seu bom senso nisto, e roguei para que o otimismo de Balen não fosse improcedente. Entrei na pista no exato instante em que Angelica terminava o verso. Fechei os olhos e esperei que Balen começasse.

As risadas cessaram abruptamente quando as primeiras notas de Balen espalharam-se pelo salão. Tive de olhar para trás – era ele mesmo? Sua voz transmitia o desejo ardente descrito pelo verso. Senti a tristeza da pobre alma ao perder o seu amor. Balen era mais do que afinado, ele tinha a música em si. Não havia palavras para tão prazerosa melodia. Notei o olhar de Angelica, um misto de surpresa e ira zombeteira, ao ver o seu plano frustrado. Angelica se virou para o seu canto, e Alia lhe sorriu. Eu não sabia o significado, mas havia algum naquilo. Angelica não tinha desistido, e Alia a ajudaria. Circulamos um ao redor do outro enquanto Balen chegava ao fim do meu verso. O meu sorriso para a minha esposa era enorme, orgulhoso que estava da decisão de trazer Balen. A sorte me era transmitida mais uma vez.

Quando o verso seguinte começou, Alia uniu a própria voz à de Angelica. Elas faziam questão que eu torturasse os ouvidos. Eu pouco podia fazer na pista. O sorriso de Angelica se abriu ao circularmos um ao outro. Ela tinha atirado a luva. Eu teria de planejar uma vingança à altura. Ela estava se divertindo demais às minhas custas. Me preparei para as risadas que eu sabia que viriam depois que eu abrisse a boca.

Angelica e Alia acabaram o verso e eu abri a boca para começar o meu. Um intenso barítono se somou à voz de Balen. Me virei e vi que Ruddi tinha se juntado a Balen. Eu nem imaginava que o homem cantasse. Uma belíssima harmonia flutuou pela sala. O sorriso vitorioso retornou aos meus lábios, e eu o lancei à minha noiva. Ela sacudia a cabeça diante da improbabilidade da coisa, enquanto apertávamos o círculo ao redor de nós. Lembrei-me do rei se referindo à sepultura prematura quando Mylle se juntou a Angelica e Alia no último verso da noiva. Três anjos em consonância. Tive esperança de algum outro amigo ali estar disposto a me emprestar a garganta. As três me sorriam ao mesmo tempo, e eu soube então que tinha sido planejado. Eu não tinha muita chance: três contra um.

Mais uma voz grave se uniu a Ruddi e Balen. O rei Toric tinha traído a própria filha para se juntar ao meu canto. Agora eu circulava feito um galo imponente, rei do poleiro. Ao fecharmos o círculo, Angelica ria da sua derrota. Acrescentei alguns corajosos giros aos meus passos, agora que eu não tinha mais nada a temer. Começou o verso final, entoado em uníssono pelos seis cantores. Falava dos amantes que se encontravam. Ao final do verso, arrebatei a minha esposa nos braços e beijei-a. Por um brevíssimo instante, não foi a minha tia que eu beijei.

“Você me venceu, meu marido,” disse Angelica em meio às aclamações ao final da dança.

“Jamais desafie um príncipe e o seu pastor de ovelhas,” repliquei, sorrindo. “Até mesmo o seu próprio pai viu mérito em sua derrota.”

“Ele não me derrotou,” disse Angelica, “ele apoiou você. Uma distinção das mais relevantes, e que Uri e outros não deixarão de perceber.” Sua mente era realmente ágil.

“Você planejou isto?” perguntei.

“Não,” o sorriso de Angelica se abriu, “minha intenção era provocar risos no salão com o seu canto. Foi o destino que se encarregou das melhorias – isto e aquele encantador mestre Balen. Você sabia que ele cantava?” Sacudi a cabeça.

“Foi arriscado, mas você me deixou poucas opções,” disse eu, bem-humorado, “foi uma gozação perversa esta que você tentou.”

“Foi por brincadeira,” disse Angelica, “para mostrar que somos todos humanos. Nada muito diferente de um pastor de ovelhas sentando-se com reis e rainhas. Não tive intenção de ofender.” Ela pareceu preocupada. Acho que a palavra ‘perversa’ foi um exagero. Beijei-a novamente; era a minha esposa, e eu não queria que pensasse que estava chateado com ela.

“Eu e a mesa principal sabíamos,” falei com brandura, “não fiquei ofendido, meu amor.” Seu sorriso retornou. Houve pancadas na mesa principal: meu pai chamava a atenção batendo na madeira com uma caneca de peltre.

“Solicito o discurso do noivo,” exigiu ele em voz alta. A dança não podia começar enquanto eu não tivesse falado. Dei-lhe um largo sorriso: ele escolheu a hora exata, comigo e Angelica no centro.

“Seu desejo é uma ordem, vossa Alteza,” gritei de volta, fazendo uma profunda reverência. Cantar eu não sei, mas aprendi a não temer o público. As atenções se deslocaram do rei para mim, e virei lentamente para me dirigir a todos da melhor maneira possível. Tinha preparado uma bobagem qualquer, mas naquele momento eu decidi me desviar dela.

“Ontem,” comecei em voz alta, “eu cavalguei pelo campo para aliviar a mente dos preparativos para esta cerimônia. Em outros tempos eu teria preferido um evento menor; minha noiva e eu juntos era só do que eu precisava. Cavalguei, ontem, para grande irritação do mestre Herdsman, pelo meio de um rebanho de ovelhas.” Sorri e apontei Balen, que, pela primeira vez, pareceu demonstrar timidez. “Conversamos sem que ele soubesse quem eu era, e portanto não havia dúvidas sobre a sinceridade de suas palavras. Se me lembro bem, ele descreveu a princesa,” tomei a mão de Angelica, “minha esposa, como tendo o rosto de um anjo, e tão doce que deixa um sabor de mel por onde passa. Ele tinha razão, e por isto está aqui sentado em nosso banquete, com uma parte do seu ganha-pão bem servida em nossos pratos. Ele, sua mãe e todos os nossos súditos são o motivo desta união. Eles trabalham dia e noite, suprem as mesas dos nossos banquetes, e tornam tudo isto possível. Em retribuição, pedem apenas paz e segurança. O Leão e o Urso estão unidos.” Elevei a mão de Angelica junto com a minha. “Através do casamento, proporcionamos a paz aos nossos povos. É um grande bônus que a minha princesa seja doce como mel, e tenha o rosto de um anjo.” Ajoelhei-me e beijei a mão da minha mulher, ao som das aclamações. Ergui-me.

“Mestre músico,” gritei, “desejo dançar com a minha esposa.” Angelica estava radiante e aqueceu o meu coração. A música começou, e nós dançamos pela primeira vez como marido e mulher. A primeira canção dançamos sozinhos.

“Doce como mel, rosto de anjo,” sorriu Angelica, “preciso dançar com esse Balen.”

“Ele está impressionadíssimo com você,” falei, “não provoque muito. Ele pode levar a sério e se livrar de mim.”

“Uma dança e um beijo,” disse Angelica. “Melhor ainda se você ficar com ciúmes.” Girei Angelica e flagrei o olhar de Alia. Vê-la sorrir me deixava feliz. Mesmo assim, a noite era preocupante. Voltei a minha atenção para Angelica, e dancei com os meus pensamentos nela.

Quando a canção terminou, e os aplausos se acalmaram, saímos da pista para dar lugar aos outros. Não havia mais cerimônias esta noite. O resto era só festa e alegria. Agradeci Ruddi pela voz. Ele aceitou com elegância. Fui até a mesa principal para agradecer Balen, e achei-o envolvido com Sir Adkin Harvard, um importante lorde do reino de Laquorettee. O rapaz parecia estar se virando bem sozinho.

“Sir, se arranjar os meios de transporte,” disse Balen, confiante, “eu o acompanharei com muito gosto.” Minha memória despertou: lembrei-me das núpcias de Harvard com a Senhora Marigold, que eram para breve. Balen vai se tornar popular com a primavera e a estação de casamentos se espalhando pelas côrtes.

“Vai roubar o nosso súdito mais leal, Sir Harvard?” perguntei ao me aproximar.

“Apenas emprestá-lo, Príncipe,” replicou Harvard, “para ele vai ser ótimo, e eu escaparei ao ridículo. Lady Marigold não vai fazer nada muito diferente da sua princesa.” O pânico em seu olhar me fez rir. Não creio que ele estivesse rindo quando Angelica me chamou para cantar.

“Agradeço-lhe, mestre Balen,” falei sinceramente. “Você me salvou na hora da necessidade. Estou em débito.”

“Mas você frustrou o meu plano, jovem senhor,” disse Angelica, atrás de mim, “exijo uma dança como pagamento de tamanho insulto.”

“Meu Príncipe… Sir…” Balen fez uma reverência, “devo me redimir com a minha Princesa. Peço que me perdoem.” Ele se virou, sorrindo para a minha esposa, e estendeu a mão conforme o costume. Ela pôs a sua em cima, e ele a acompanhou à pista. Era como se tivesse nascido para isto.

“Um pastor de ovelhas,” disse Harvard, incrédulo.

“Foi uma feliz coincidência, Sir,” disse eu, sacudindo a cabeça. “Convidei-o por farra. Pensei em lhe fazer um agrado, e agora ele dança com a minha esposa e você o emprega. Quem diria que ele tem uma voz daquelas?”

“Extremamente útil para não fazer papel de tolo,” acrescentou Harvard.

“É, Sir, isto ele é,” eu dei risada.

Agradeci o rei Toric, que jurou estar apenas protegendo os próprios ouvidos dos meus miados de gato. Assim mesmo, obriguei-o a aceitar a minha gratidão. Encontrei Mylle e, cumprindo a promessa, convidei-a para dançar. Ela aceitou, toda sorridente, e eu acompanhei-a até a pista.

“Você canta bem, minha Senhora,” disse eu, dando passos que nos aproximaram.

“Obrigada, meu Senhor,” replicou Mylle, “e você sobreviveu bem à cilada.” Disse isto acrescentando um sorriso malicioso, que lhe caiu bem e serviu como demonstração de seu bom-humor. Um lado que eu não tinha conhecido. Estive tão excessivamente preocupado com Alia que havia esquecido: Mylle também dividiria o seu amor hoje à noite. A inquietação tomou conta de mim.

“A noite de hoje lhe causa aflição, minha Senhora?” perguntei em voz baixa. A música e o ruído generalizado das festividades abafavam muito bem as nossas vozes.

“Um pouquinho, meu Senhor,” replicou Mylle, “sob pressão ela não… ama muito bem. Receio que haja dificuldades para vocês dois.” O que lhe incomodava não era o que estava para acontecer; o que lhe preocupava era o que Angelica e eu sentíamos a respeito daquilo. “Precisa ser gentil, meu Senhor, e não ter pressa. Ela tentará ser valente, o que não ajudará. É o toque suave que ela aprecia.” Eu sentia o meu rosto queimar enquanto ela falava. As visões dela e de Angelica juntas acabaram surgindo na minha cabeça. Me ocorreu que Alia e Angelica talvez tivessem conversado sobre o mesmo assunto. Uma união realmente estranha.

“Toque suave,” repeti, instando que Mylle continuasse. Melhor seria eu aprender o que pudesse.

“Está vermelho como um pimentão, meu Senhor,” disse Mylle, sorrindo. Será que os outros perceberam, sendo assim aparente para ela? Fi-la rodopiar como mandava o passo, e alguns instantes decorreram antes de voltarmos a ficar juntos.

“Esta conversa o deixa desconfortável, meu Senhor?” perguntou Mylle.

“Sim, minha Senhora,” respondi, “embora esta união exija tais coisas. Receio que prejudique você e Alia. De nada serviria se nos feríssemos uns aos outros.” Mylle se inclinou, chegando mais perto.

“Nós é que receamos prejudicá-lo, meu Senhor,” disse Mylle, com doçura, “é o principal em nossas conversas. Alia receia que você lhe traga a ruína, Angelica receia não produzir herdeiros, causando a sua antipatia, e eu receio perder o que ganhei se falharmos.” Fui forçado a me distanciar dela novamente, e circulá-la numa direção e depois na outra, antes de retornar.

“Temos de conversar mais, minha Senhora,” falei ao travarmos os braços e rodearmo-nos um ao outro. “É importante eliminarmos o medo. Ele faz mal só de estar presente.” A canção chegou ao fim. Fiz uma reverência, Mylle fez uma mesura e eu acompanhei-a para fora da pista. Havia muito que fazer para preservar a minha estranha família. Um herdeiro era só a primeira etapa.

Dancei com outras; o noivo era um alvo fácil em casamentos. Tentei dançar com Alia, mas ela me escapou. Era a noite de Angelica, e temi que Alia achasse melhor não conversarmos até que tudo estivesse superado. Alia era a minha verdadeira paixão, e furtar-se um ao outro era o melhor a fazer, mesmo eu não gostando. Minha mãe me encontrou perambulando aqui e ali, jogando conversa fora.

“Tem tempo para sua mãe?” perguntou minha mãe, tirando-me da conversa. “Foi uma bela cerimônia,” continuou ela enquanto nos afastávamos dos ouvidos. Ela tinha palavras para mim que não queria dividir com ninguém.

“Você já dançou com quase todas as mulheres aqui, mas somente uma vez com a sua noiva,” disse minha mãe ao se ver fora de alcance. “Vocês dois têm de ostentar. Já passou da hora de se retirar com ela, e alguém pode notar. Alia está preocupada, e com razão.” Alia não quer falar comigo, mas minha mãe lhe é toda ouvidos. Acrescentei a minha mãe à lista de mulheres que agora conduziam as minhas ações.

“Sim,” disse eu em voz baixa, “estamos enrolando, embora não intencionalmente.” Fiz silêncio um instante, refletindo sobre como estivemos nos evitando. “É duro para nós dois, embora o neguemos. Agradeço por impedir mais atrasos.” Minha mãe beijou o meu rosto e indicou Angelica. Ela dançava com um cavaleiro da nobreza, de cujo nome não me lembrava. Seu sorriso era agradável, mas eu sabia que era artificial. Agora eu já conseguia enxergar muitas coisas nela. Decidi interferir.

“Sir, eu receio não poder mais ficar distante da minha esposa,” falei em voz alta, sorrindo, “se tivermos de lutar, então que seja.” O cavaleiro sorriu, fez uma reverência e entregou Angelica aos meus cuidados. Entrei na dança com facilidade. O sorriso de Angelica deixou de ser artificial. Escutei alguns rumores indecentes sobre os meus desejos. Eu trouxe Angelica mais perto do que seria apropriado para a dança.

“Devemos nos retirar, minha Princesa,” disse eu. Seu olhar mostrava preocupação; seus lábios, um sorriso verdadeiro. Ela nos fez parar ali, na pista de dança, os casais rodopiando ao nosso redor. Imóveis, nos beijamos, em parte tia, em parte não. Algumas risadinhas chegaram aos nossos ouvidos à medida que o pessoal reunido começou a notar. Interrompemos com sorrisos sinceros. Puxei-a pela mão, sem demora, até a mesa principal, onde nos despedimos dos reis e das rainhas. Soou uma sineta ao deixarmos o salão, sinalizando a todos que o casal de noivos se tinha retirado.

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