O Casamento: Capítulo 27

Levou uma eternidade só para a cerimônia começar. Esperei, de humor inabalado, pela minha noiva no altar. Na multidão eu tinha encontrado Balen sorrindo todo animado, a mãe orgulhosamente ao seu lado. Ela tinha boa aparência para uma mulher habituada ao trabalho duro. Seu sorriso, por certo, removia do rosto boa parte desses trabalhos. Fiz a Balen um leve assentimento de cabeça; só ele viu, e o seu rosto ganhou ainda mais brilho. Para os outros, com certeza o meu sorriso pareceu totalmente apropriado.

Foi Balen quem a viu primeiro. Seu queixo caiu enquanto observava o corredor. Acompanhei o seu olhar e também fiquei sem fala. Angelica estava simplesmente deslumbrante. Os cabelos longos e ruivos caíam pelas costas como cachos ondulados. Flores cor de sangue estavam trançadas no cabelo logo acima da orelha direita. O vestido era composto por camadas de seda branca, que ao mesmo tempo se ajustavam ao seu talhe e se arrastavam como nuvens pelo solo. Finas abas de tecido se estendiam de modo quase invisível ao longo dos braços. As mangas e o próprio vestido eram presos por pequenas tiras de pano, cosidas como pétalas brancas, por sobre o ombro praticamente nu. As mesmas pétalas brancas faziam a volta em sua cintura, abaixando-se na frente, prendendo firmemente a nuvem de sedas. Quando ela sorria, ficava além da capacidade do homem mortal lhe resistir.

Encontrei o olhar de Alia e envergonhei-me dos meus pensamentos. Seu sorriso era malicioso, pois tinha visto o vestido anteriormente e sabia que ele tornava Angelica sedutora. Não vi ciúmes, pelo que dei graças aos céus. De bom grado eu voltei os olhos para a minha noiva, onde todos esperavam que estivessem postos.

A cerimônia foi uma confusão enfadonha de palavras e votos decorados, cujo sentido às vezes era preciso extrapolar em nossas mentes. Eram necessários para a estranha união. Quando fomos declarados marido e mulher, eu beijei a minha encantadora noiva. Angelica prolongou para que todos pudessem ver. O que sentimos foi como irmão e irmã, mas a felicidade era grande. Ali havia amor misturado com o dever e com as verdadeiras paixões que nos observavam da multidão. Ao sentir que os seus lábios ameaçavam sorrir durante o beijo, e antes que ambos caíssemos na risada, nos separamos. Seus olhos verdes estavam vivos e neles havia o futuro.

“Amo você, de verdade,” sussurrei, bem abafado pelos vivas. Pareceu necessário dizer. Era a minha esposa, e merecia que eu falasse a verdade.

“E eu, idem,” disse Angelica, lépida, antes de se voltar para aqueles que se reuniam ao nosso redor. De acordo com a tradição, permanecemos em pé e cumprimentamos a todos como marido e mulher. Em primeiro lugar, os nossos pais; depois, numa ordem estabelecida pela minha mãe, os outros. Foi um negócio tedioso, agravado pelo fato de Uri não participar. A ausência dele foi, ao mesmo tempo, fonte de perturbação e de alegria.

Quase no fim da fila vinha Balen, e daí não me senti mais carregando um fardo. Ele ainda estava tão emocionado quanto na chegada. A mãe parecia temerosa. Tentei acalmá-la com um sorriso, mas ela tinha o olhar inquieto, sem se fixar em nada. Foi Angelica quem conseguiu acalmar a situação.

“Você deve ser o mestre Balen Herdsman,” disse Angelica, animada, “ouvi muito sobre você.” Eu não sabia que o rosto do rapaz podia ficar ainda mais radiante. Foi uma satisfação observá-lo enquanto fazia uma grande mesura, voltando-se depois à sua mãe como mandava o protocolo.

“Permita-me apresentar minha mãe, Abigal Herdsman,” disse Balen sem titubear, embora corando imensamente. Angelica deu um passo à frente e tomou as mãos de Abigal.

“Muito prazer, madame Herdsman,” disse Angelica, inclinando-se então para beijar-lhe o rosto. “Seu filho tem sido muito útil para o meu marido. Agradeço-lhe por isto.” Abigal sorriu e perdeu um pouco do temor.

“É uma enorme satisfação conhecê-la, minha Senhora,” Abigal fez uma ligeira mesura. Depois de uma fila de cortesãos e dignitários estrangeiros, isto me agradou imensamente. O fato de Angelica dedicar-lhe uma atenção especial contou pontos para a minha esposa. Angelica dirigiu-se a Balen.

“Meu marido o considera bastante revigorante, jovem mestre,” Angelica lhe lançou o melhor sorriso, “espero que dance comigo esta noite. Assim descobrirei eu mesma o motivo.”

“Será uma honra, minha Senhora.” Contrariando a sua natureza, Balen tentou ficar sério ao fazer a reverência.

“É um imenso prazer, mestre Balen,” falei com animação, “será que o dia está correndo de acordo com as suas expectativas?” Eu tinha avançado para cumprimentá-lo.

“Ó sim, meu Senhor.” Balen se inclinou para sussurrar: “A princesa é mais bonita do que eu imaginava.” Dei risada, completamente sem condições de discordar. Angelica fez que não ouviu, mas eu vi em suas faces.

“Madame Abigal, estou encantado em conhecê-la,” disse eu, tomando a sua mão e beijando levemente os nós dos dedos.

“Obrigada por nos deixar vir, meu Senhor,” disse Abigal, fazendo uma leve mesura, “foi uma bela cerimônia.”

“Espero que também ache o banquete agradável,” acrescentei, “minha mãe pretende dar-lhe atenção pessoalmente.” Percebi o medo voltando, então me inclinei em sua direção. “Os lugares são responsabilidade da rainha,” sussurrei, “creio que ela deseja novas conversas, mas não deixe que a côrte descubra isto. Acho que eles se crêem mais interessantes do que de fato são.” Abigal sorriu e voltou à calma.

Encerramos os cumprimentos e conseguimos alguns momentos a sós antes do início do banquete. Levei Angelica a uma sala vazia que era usada principalmente para guardar coisas. Todos os cômodos habitáveis estavam transbordando de gente, e eu preferia falar a sós por um instante.

“Esse vestido é encantador,” comecei, “em matéria de beleza, ninguém pode se comparar a você hoje.”

“Alia pensou que poderia despertá-lo, meu marido.” Angelica chegou mais perto, num gesto que não era de irmã. A idéia da minha amante instruir a minha esposa era tão provocante quanto preocupante. “Está contente?”

“A vista é muito agradável,” respondi. Angelica escorregou o corpo contra o meu. Desceu a mão por um lado da minha cabeça e colocou uma face junto à minha. Era excitante, mas, ao mesmo tempo, havia algo errado. Seus lábios beijaram a ponta da minha orelha.

“Assim está certo?” perguntou Angelica. Cometi o erro de soltar uma pequena risadinha. “Não gosta?” perguntou ela, com tristeza na voz. Dei-lhe um abraço apertado e beijei seu rosto.

“Não devemos forçar,” disse eu, “mas sim, eu gosto. Certamente não será a sua beleza que irá atrapalhar. Seu toque é doce, e eu o desejo. Talvez devamos esquecer do fim e cuidar do começo.” Beijei-lhe os lábios e senti que ela me beijava de volta. Desta vez foi ela que riu.

“É verdade, alguma coisa está falando,” disse Angelica, sorrindo para amenizar, “esta noite eu pretendo que me tenha de qualquer modo. Tentarei não ser desagradável.” Tomei-lhe as mãos e beijei as costas delas.

“Você jamais conseguirá ser desagradável,” disse eu, “temos amor. O resto se arranjará.” Abri um sorriso. “Estou ansioso para ver os seus segredos.” Esperava um tapa no braço, como anteriormente. Recebi um beijo.

“E você verá,” disse Angelica, “conheceremos tudo um do outro. Teremos filhos e os amaremos. Você será um excelente pai e rei. Partilharemos tudo com Alia e Mylle. Somos o nó que prende tudo junto, e esta noite temos de atá-lo bem firme.” Ela estava determinada a consumar o casamento esta noite. Tomara que a pressão não venha a ser a nossa ruína.

“Você será uma excelente mãe e rainha,” acrescentei.

“Você dançará com Mylle hoje?” perguntou Angelica, mudando de assunto.

“É claro,” repliquei.

“Ela precisa de um pouco mais de você,” disse Angelica, “Alia e eu temos discutido muito sobre você. Receio que ela se sinta alienada por não conhecê-lo tão bem.”

“Estou preocupado com Alia,” acrescentei, “receio que esta noite recaia muito pesada sobre ela.”

Angelica sorriu. “Alia deseja o melhor para nós hoje. Deseja tê-lo para si novamente assim que eu estiver grávida e gorda.” Angelica riu. “Três esposas vão deixá-lo magrinho, meu marido.” Suspirei.

“Magro o suficiente para voltar a vencer um desafio?” perguntei. Por diversas vezes Storm e eu tínhamos fracassado em repetir a primeira vitória. Era tolerável, já que eu realmente adorava o sorriso vitorioso de Angelica.

“Talvez devamos engordá-lo para garantir as minhas vitórias,” disse Angelica, beliscando o meu estômago. Atraí-a novamente ao peito e dei-lhe um abraço forte. Não era nada desconfortável.

“É feliz, minha esposa?” perguntei. Era uma união estranha, este nosso destino em comum.

“Sim, meu marido,” respondeu Angelica. Mantive-a junto a mim, enquanto ela aconchegava a cabeça em meu ombro. A minha mente, à deriva, rumou para o futuro que agora estava traçado. Filhos com duas tias sem parentesco, mas próximas demais dos pais. A única certeza era o amor. Eu só torcia para ser o bastante.

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