O Casamento: Capítulo 25

Quanto mais o casamento se aproximava, menos eu gostava dele. O que me contrariava não era a esposa que eu ia ganhar, mas a cerimônia. A união de esforços entre Angelica e as duas rainhas não tinha mais fim. Não parecia importante se uma mulher preferia um homem ou uma mulher. Todas pareciam fascinadas pela cerimônia, que dia após dia era ampliada. Eu tinha de tirar medidas que não acabavam mais, para roupas que usaria apenas uma vez. As pessoas estavam chegando dos mais distantes lugares, ocupando os meus dias com cumprimentos intermináveis e conversas repetitivas. Incumbiram Alia e Mylle de obrigações cerimoniais isoladas das minhas. Fui invadido por um imenso tédio e, sem ninguém com quem dividi-lo, acabei emburrado.

O dia anterior ao casamento foi o pior. O castelo era um formigueiro. As pessoas andavam por todos os lados sem ninguém saber porquê. Tudo que eu podia fazer era ficar fora do caminho. A minha frustração chegou ao limite e saí enfurecido, bufando, para as cocheiras.

Storm parecia alheio a tudo aquilo. O estábulo estava cheio, transbordante, e mesmo assim ele estava contente. Eu mesmo coloquei-lhe os arreios e a sela, já que Cory e os outros cavalariços estavam sobrecarregados. Como o papel do noivo era mínimo, eu cavalguei estábulo afora sem ninguém dar pela minha falta.

Era bom sentir o vento frio no rosto. Quando Storm, sem esforço, engatou um cânter, tive uma sensação de liberdade. Por um momento eu pensei em cavalgar sem parar e nunca mais voltar. Foi uma idéia sem sentido que fez surgir um largo sorriso em meu rosto. Eu não poderia abandonar Alia, e nem mesmo Angelica. Mylle entraria em pânico com o meu sumiço. Não, eu estaria no casamento. Apenas o esqueceria por ora.

Storm e eu passamos pelos terrenos não cultivados e através de uma mata ao longo de um caminho de carroça. Deixei que ele bebesse no pequeno riacho que corria calmamente por entre as árvores, e depois rumei para os pastos ondulados que ficava além dele. Ovelhas não tosquiadas, de pelagem grossa e desordenada, pastavam na encosta de uma colina. A grama tinha amarelado há tempos. Não devia ser saboroso comer este tipo de coisa. Cavalguei pelo meio do rebanho e elas se dispersaram um pouco. Um berro vindo do alto da colina atraiu a minha atenção.

Um jovem com cerca de quinze anos tinha se erguido do chão e me chamado. Na verdade, eu acreditava que ele estava gritando comigo. Fiz Storm subir pela colina, e confrontei-o.

“Eu agradeceria, Senhor, se não dispersasse o meu ganha-pão,” gritou o rapaz enquanto eu me aproximava. Vestia calças rústicas e uma camisa. As calças eram aparentemente suspensas por tranças de cânhamo. O gibão não parecia suficientemente quente para a época, mas ele estava sentado ao sol.

“Peço perdão, meu jovem mestre,” disse eu, inclinando a cabeça, “foi uma falha minha.” Eu tentava manter um sorriso.

“Está perdoado,” disse ele, sem hesitar, “e esta será a minha emoção do dia.” Virou-se de costas para mim e voltou a sentar-se em uma pequena pedra que se projetava da terra. Com olhar de preguiça, retornou às suas tarefas. Tomou do chão algumas folhas de grama que estivera trançando anteriormente e começou a tecê-las novamente. Invejei-o.

Apeei e passei as rédeas de Storm ao redor de um arbusto que tinha perdido as folhas na estação. O rapaz ergueu os olhos, curioso, mas não fez nenhum movimento que indicasse temor. Sentia-se seguro em seu poleiro.

“É um dia bonito para o inverno,” propus.

“É,” devolveu o rapaz, “e nada de tempestades no horizonte.” Olhei ao redor e avistei boa parte do reino dali do alto. O castelo parecia pequeno e silencioso, desmentindo a agitação interna.

“Você escolheu uma vista agradável,” falei.

“Se vai cuidar de ovelhas,” continuou o rapaz, “é melhor agradar aos olhos.” Ele era mais velho do que eu tinha imaginado à primeira impressão. Ou podia fingir que tivesse mais idade. Me sentei no chão ao seu lado. Ele, para minha surpresa, não fez caso algum.

“Você tem uma vida boa aqui.” Eu falei sorrindo. Era calmo, as ovelhas quase não faziam ruído. Parecia que éramos as duas únicas pessoas em todo o mundo.

“A palavra que eu uso é aborrecida, Senhor,” replicou o rapaz. Indicou o castelo. “Lá é que eu preferia estar.” Quase dei risada, mas disfarcei limpando a garganta.

“Lá é tudo cercado por paredes de pedra,” argumentei, “aqui você tem amplos espaços abertos e o céu. Ninguém manda em você o dia inteiro. Como é que um castelo pode ser melhor?”

“Eu teria uma mulher direita e refinada, Senhor,” disse ele, radiante. Olhou para mim: “Meu primo a viu, a princesa. Viu-a cavalgando, cabelos longos e ruivos, rosto angelical. Você tem que nascer lá para ter uma mulher como essa.”

“Com certeza há mulheres bonitas por toda parte,” continuei, “me diga se não há alguém que lhe aguça a imaginação.”

“Não como a princesa,” disse ele, como se eu fosse um imbecil, “você e eu certamente achamos companheiras, mas mulheres como aquela, sofisticadas e feitas para a dança, não são para pastores de ovelha. De todo modo, ela se casará amanhã.”

“Então vai haver um casamento?” fingi ignorância.

“Vai. O rei esteve comprando tudo. Uma parte do meu rebanho estará na mesa.” Ele me examinou com um olhar sonhador. “Imagine só a festa, as danças, e todas as roupas finas. Falarão nisto durante anos.” De repente eu senti remorso por detestar a cerimônia. Não tinha pensado que haveria quem a invejasse.

“Ao contrário. Eu imagino o tédio,” falei.

“Sente-se aqui por alguns anos, Senhor,” o rapaz balançou a cabeça, “vai pensar diferente.” Achei graça naquele raciocínio.

“E por acaso não há danças na cidade?” perguntei.

“Temos os festivais, é claro,” replicou o rapaz, “mas não é como no castelo. Ouvi dizer que existem salas só para dançar.” O rapaz parecia especialmente enamorado da idéia de dançar num salão de baile. “Ele tem conjuntos de músicos, e não apenas um homem num alaúde. Ouvi dizer que as senhoras são todas graciosas, como flores rodopiantes.” Deu de ombros. “Nós, quando dançamos, temos que desviar de estrume.” Dei risada.

“Além do cabelo ruivo e do rosto angelical, o que mais você sabe da princesa?” Eu estava lhe dando corda, mas não podia resistir. Adorava o modo como ele via as coisas. Era revigorante.

“Ouvi dizer que o príncipe se apaixonou assim que lhe pôs os olhos.” O rapaz usava as mãos para enfatizar a fala. “Ela é tão doce que deixa um sabor de mel por onde passa. Dizem que o príncipe teve de desafiar os pretendentes à sua mão. Ela lhe deu uma força tão grande que eles caíram diante dele como na ceifa do trigo.”

“O principe, pelo jeito, teve sorte,” disse eu, contendo o riso.

“Sorte e mais alguma coisa,” assentiu o rapaz, “você cresce lá e eles lhe transmitem a sorte.”

“Você cuida das ovelhas sozinho?” perguntei, mudando de assunto. Fiquei ligeiramente incomodado com a expressão ‘transmitir a sorte.’ Parecia muito próxima da verdade quando vista através dos olhos de um pastor de ovelhas.

“Na maior parte do tempo, sim,” respondeu ele, “tenho um primo, o mesmo que viu a princesa, que fica no meu lugar de vez em quando. Depois que o meu papai morreu, somos só eu e mamãe.” Ele fez um gesto mostrando o rebanho. “Este é o meu reino.”

“Você mora perto da vila?” perguntei. Agora a minha mente maquinava.

“Sim, perto do moinho,” ele apontou na direção da cidade ao falar.

“Você tem nome?” perguntei, abrindo um sorriso.

“Balen. Balen Herdsman,” respondeu ele, “e o seu, Senhor?”

“Cayden,” respondi, observando seus olhos se arregalarem. Olhou para Storm e depois para as minhas roupas. Seus olhos retornaram ao meu rosto, e o dele ficou vermelho. Ajoelhou-se e inclinou a cabeça.

“Perdoe-me, vossa Alteza, falei mal sem saber.” Sua contrição era mais do que eu podia suportar. Fiquei de pé.

“Levante-se, Balen,” disse eu, e ele obedeceu, “sua franqueza foi revigorante. Não estrague agora.” Ele sorriu ao perceber que eu não estava ofendido.

“Peça ao seu primo para cuidar do seu reino amanhã,” falei, retomando Storm.

“Sire?” questionou Balen.

“Vou mandar um coche para pegar você e sua mãe pela manhã,” disse eu, observando os seus olhos se arregalarem mais uma vez, “ambos serão meus convidados no casamento.”

“Nós não temos roupas para isto, Sire,” disse Balen, sacudindo a cabeça.

“Deixe esta preocupação comigo,” falei, montando em Storm, “vou mandar um pouco da minha sorte para o seu lado.” Balen abriu um sorriso. Achei divertido.

“A princesa é tão bonita quanto lhe disseram,” acrescentei, “e vou lhe pedir para guardar uma dança para você.” Balen praticamente reluzia.

“Estaremos prontos, meu Senhor,” gritou Balen enquanto eu partia em cavalgada. Tinha muito a fazer, e pouco tempo para fazê-lo. Eu era o príncipe todo sortudo, de modo que podia dar um jeito.

Procurei o comandante Kancraft assim que retornei. Ordenei-lhe que enviasse um cavaleiro para averiguar a casa de Balen e organizar para a manhã seguinte uma carruagem com seis guardas de honra de libré. Boris achou a coisa toda engraçada, e prometeu que os Herdsman seriam tratados como membros da realeza. Ele até agradeceu por ter algo com que se ocupar e que não envolvesse ficar parado fazendo pose para impressionar. Também lhe agradeci.

Encontrei Mylle acertando os arranjos de flores ao longo do corredor pelo qual eu iria caminhar no dia seguinte. Supliquei a sua ajuda, que ela me deu de bom grado. Expliquei que eu planejava trazer dois convidados pela manhã, e precisava que estivessem vestidos até a cerimônia à tarde. Ela riu, e nós fomos juntos procurar uma costureira e trajes ajustáveis. Escolhemos uma sala onde os convidados pudessem tirar as medidas, e Mylle prometeu orientá-los durante a cerimônia e o jantar que se seguiria. Como ninguém estava olhando, eu me inclinei e dei-lhe um beijo no rosto. Suas faces assumiram um belo tom de cor-de-rosa.

Em seguida fui até minha mãe. Esta seria a parte mais difícil. Encontrei-a na cozinha, finalizando o menu com os cozinheiros. Era evidente, pela aparência, que ela estava esgotada pela formidável tarefa que tinha assumido.

“Mãe, preciso acrescentar dois convidados à mesa principal,” disse eu, sorrindo. Ela não retribuiu o sorriso. Na verdade, eu pude perceber que ela cogitava me dar uma bronca que faria as minhas orelhas caírem. Daí ela suspirou.

“E quem é que eu vou insultar para abrir espaço?” perguntou minha mãe. Eu não tinha pensado assim tão longe. Uma mancha no meu plano.

“Mylle e eu mudaremos de mesa, vossa Alteza.” Alia tinha chegado de fininho por trás. Deu-me uma piscadela que, para mim, era pura sedução. Minha mãe ergueu as sobrancelhas.

“Quem é que vamos acrescentar?” perguntou minha mãe.

“Balen Herdsman e sua mãe,” disse eu, sorrindo até a orelha.

“Não reconheço o nome,” disse minha mãe, confusa.

“Um leal pastor de ovelhas que conheci hoje pela manhã,” respondi, empolgado, “mais do que tudo ele deseja assistir à cerimônia, e pretendo fazer isto dar certo.” Me preparei para a discussão. Recebi gargalhadas.

“O casamento é seu,” disse minha mãe, entre risadas, “vou sentá-los ao meu lado. Pelo menos posso defendê-los da côrte.” Há momentos em que as pessoas se transformam diante dos seus olhos. Este foi um deles. Dei um beijo no rosto da minha mãe e um abraço apertado.

“Agradeço imensamente, mãe,” falei. Ela pareceu contente com o carinho, mas me enxotou da cozinha.

“Mylle me contou o que está aprontando,” sussurrou Alia ao sairmos, “vou ajudá-la pela manhã.” Eu queria desesperadamente beijá-la, ali mesmo, com todo mundo observando. Em vez disto, decidi lhe apertar sutilmente a mão. Agora, ao menos, alguém que pudesse realmente apreciar o casamento estaria ali. Toda aquela ostentação parecia menos inútil. Eu começava a esperar ansiosamente por ele.

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