A Presa: Epílogo – Natalie

A campainha me assustou. Eu estava imersa em preocu­pações com a minha garotinha rodando o mundo junto de um homem tão jovem que mal podia votar. O tiroteio no hospital ainda me aterrorizava. Mais preocupante ainda era o fato de terem sumido sem levar o carro. Gra­ças a Deus eu ainda podia senti-la e saber que ainda vi­via e não sofria. Abaixei o pote de pasta de amendoim. Zane ia ter que esperar um pouco pelo sanduíche.

“Tomara que não seja a polícia de novo,” disse Sam, jun­tando-se a mim na porta. Tinham ficado nos atazanando para que déssemos a localização de Caleb e Teegan, e mantivemos a estória da fuga. Não era duro fingir preo­cupação, já que de qualquer modo era só isso que eu conseguia fazer.

Sam abriu a porta: era a FedEx. O entregador não estava sorrindo, provavelmente atrasado.

“Natalie Fuller?” perguntou o cara da FedEx. Seu cabelo grisalho prematuro parecia colado à cabeça, nem um fio se movendo ao vento.

“Sim,” respondi.

“Preciso de um documento,” disse o homem. “Carteira de motorista, passaporte, ou qualquer identidade emiti­da por um órgão público.” Eu sorri ao saber que isto era o que lhe importava. Provavelmente ele preferia apenas deixar as coisas e ir adiante sem ser visto. Se ele soubes­se dos meus problemas, os dele em comparação ficariam minúsculos. Me perguntei se ele tinha algum filho se re­cuperando de um ferimento a bala.

Peguei a minha bolsa no aparador e tirei a minha cartei­ra. O cara da FedEx examinou a minha carteira de moto­rista e apertou algumas teclas num dispositivo móvel. Devolveu-me a carteira e um envelope estufado de tama­nho A4, virando o dispositivo para mim e pedindo para eu assinar na pequena tela. Resmungou alguma coisa ao se virar, correndo de volta ao caminhão. Falei bom dia para ele, mas acho que a sua cabeça já estava em outro lugar.

“Cara ocupado,” disse Sam, observando o pacote.

“Com certeza nós o seguramos,” disse eu tentando ras­gar o pacote. Estava muito bem fechado com fita adesi­va, e precisava de tesoura. Fui até a cozinha, seguida por Sam.

“Onde ela está?” perguntei pela centésima vez.

“Na costa oeste ainda,” disse Sam. “Não saiu do lugar desde a última vez.”

Esvaziei o pacote sobre a mesa da cozinha. Caíram dois cartões bancários e as chaves do carro de Sam. Junto com eles, um pequeno pendrive vermelho. Olhei dentro do envelope e tirei uma carta escrita à mão que ainda ti­nha sobrado.

Mamãe e papai,

As coisas mudaram. Caleb e eu estamos bem e vamos ligar para vocês assim que instalarem as proteções. Por favor, devolva o cartão bancário do pai de Caleb, avisando-os de que estamos bem.

Com amor, Teegan.

“O que será que está acontecendo?” perguntei ao Sam.

“Talvez isto nos conte mais coisas,” disse Sam, tirando o pendrive da pilha.

“Vamos usar o computador de Zane,” disse eu, indo ter­minar o sanduíche de Zane. “Ele tem que saber o que nós sabemos.” Sam assentiu. Seria ofensivo esconder as coisas de Zane, agora que ele tinha sido até baleado por elas. Meus filhos estavam crescendo muito rápido.

“Que quer dizer isto?” perguntou Zane ao ler a carta. Es­tava sentado na cama, uma bandagem branca enrolada em volta do peito. A voz ainda estava fraca, como se do­esse para respirar muito fundo. Por fora eu ignorei, mas por dentro eu chorava por ele.

“Não sei,” respondeu Sam. “Devolveram os cartões de banco, então devem ter resolvido os problemas de di­nheiro. Pode ser que isto nos diga mais.” Ele ergueu o pendrive.

Nos sentamos na cama de Zane, e Sam deu dois cliques no filme que estava arquivado no pendrive que ele tinha inserido no laptop de Zane. Reconheci imediatamente o rosto na tela, mesmo estando infinitamente mais velho do que eu recordava.

“Esse desgraçado insano está com a minha bebê,” disse eu estourando de raiva.

“Eu achava que ele estava morto,” disse Sam. A imagem de Douglas Corbett começou então a falar.

“Os médicos dizem que eu estarei bem morto antes que você assista a isto,” a voz de Corbett era rouca, como se houvesse pedras em sua garganta. “É bem apropriado, já que não desejo me desculpar pessoalmente. Teegan já atingiu a maioridade plena, ou alguma coisa lhe aconte­ceu que a expôs. De qualquer modo, saiba que ainda sou inflexível na minha crença de que ela é o futuro da hu­manidade. Meu erro foi nos métodos, que o seu marido corrigiu com bastante vigor. O fato de ele ter me deixado vivo é um testemunho da tolerância que vocês dois terão instilado em nosso anjo.”

“Ele não tem o direito de dizer ‘nosso’,” interrompi. Sam pôs a mão na minha perna, acalmando a minha braveza enquanto Corbett prosseguia.

“Agora eu sei que ela precisava de cuidados que eu não podia dar.” A risada enrouquecida que se seguiu foi qua­se maligna. “O dinheiro não pode comprar tudo.” Mais risada doentia. “Ainda acho isto difícil de crer. Mesmo assim, eu fiz o que estava ao meu alcance para preservar o anonimato dela na sua casa.” Um sorriso dissimulado surgiu em seu rosto, levemente distorcido pela idade avançada. “A prova das minhas desculpas é a seguinte: eu sei a localização dela há mais de 15 anos, e ainda as­sim fiquei na moita. Deixei você criá-la do seu jeito, em um ambiente que você mesma escolheu.”

“Deixou?” disse Sam com certa maldade. “Ele tem sorte de eu tê-lo DEIXADO vivo.” Os olhos de Zane estavam arregalados, absorvendo a repentina ira do pai. Sam deu um suspiro, e parte da veemência se dissipou.

“Fui posto nesta Terra com uma habilidade: acumular riqueza,” continuou Corbett. “Tive muito sucesso nisto, construindo um império que causaria inveja nos antigos imperadores. Mas o dinheiro sem um legado duradouro é o quê? Carnegie construiu bibliotecas; Gates está erra­dicando doenças; eu vou superá-los todos, dando ao mundo o nosso anjo.”

“Ele continua doido,” comentei.

“Meu patrimônio ficará retido sob custódia até que ela alcance a maioridade plena. Aos 21 ela herda tudo. O di­nheiro, os negócios, todo o poder político que vem jun­to.” Prendi a respiração. “Ela será o meu legado; se tudo for para o inferno,” irrompeu Corbett em outra risada, “eu vou culpar você. Veremos se o seu amor é tão pode­roso quanto o meu império.”

Corbett parou por alguns instantes, organizando as idéi­as e fazendo uma expressão mais séria. “Tenho poucos arrependimentos na vida. Geralmente não fico remoen­do, mas me doeu mais bater em você do que apanhar do seu marido. Agora eu sei que foi o ciúme que me levou a isso. Não é uma emoção com a qual tenho muita expe­riência. O fato do nosso anjo amar mais você do que eu foi… bom… doloroso.” Seu sorriso retornou. “Natalie, eu lhe peço uma coisa que não me lembro de ter pedido ja­mais a ninguém: desculpas. Seja forte e guarde o perdão, eu não mereço. E você, Samuel, da próxima vez que al­guém atacar a sua família, particularmente o nosso anjo, não se segure.” A tela ficou escura e o filme terminou de forma abrupta.

“Teegan está rica,” disse Zane.

“Ele é totalmente maluco,” disse eu, quase sem acreditar no que acabava de assistir.

“Pensei que ele estivesse fora das nossas vidas,” disse Sam, tão surpreso quanto eu.

“Teegan tá rica,” repetiu Zane.

“Droga,” disse eu, “eu o perdôo.” Meus olhos se enche­ram de lágrimas. Corbett tinha um parafuso a menos, mas a seu modo ele realmente amava a minha filha. Sam passou o braço ao redor de mim.

“Foi bom você ter me impedido antes que eu fritasse o cérebro dele,” disse Sam. Assenti e me afundei em seus braços.

“Será que ela vai comprar um Corvette para mim no meu aniversário?” perguntou Zane.

“Depois de tudo o que aconteceu com você e com a sua irmã, você está preocupado com o seu presente de ani­versário?” perguntou Sam.

“Papai,” disse Zane, “Teegan está rica.” Como se isso re­solvesse todos os problemas do mundo.

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