Consumação

No décimo quarto andar,
À noite após árdua lide,
Tiro o blêiser do cabide
E do ócio vou cuidar.
Aliso a saia amassada
Do conjunto azul escuro,
E o elevador procuro
Pra descer até a entrada.

Vem no elevador agora,
Aos cinqüenta com certeza,
Homem (dono de outra empresa)
Que eu já tinha visto outrora.
Na descida outra parada
Acolhe mais dois rapazes:
Varões que, com poucas frases,
Cativam a mulherada.

Um, que se chama Davi,
Como eu é contador.
O outro é encantador,
Maior negão que já vi.
Pelo que ouvi tem dezoito,
E na empresa é mensageiro;
Pra quem corre o dia inteiro,
Não parece agora afoito.

Fecha-se a porta e descemos.
De repente um solavanco
Pára o elevador num tranco,
E nada mais então vemos.
Neste escuro como breu,
Sem uma luz de emergência
Para manter a decência,
Um calafrio me varreu.

Tento os botões sem sucesso
E pelo interfone o guarda
É quem me desacovarda,
Embora pouco, confesso.
Um terremoto pequeno
Tinha provocado o enguiço
Mas logo poriam isso
Em funcionamento pleno.

Passam cinco ou seis minutos
Sem palavra nem conversa.
De repente sou imersa
Em mãos e braços astutos.
Por trás apalpam meus seios
Com potência insuperável,
Mas pro grito indispensável
Me descubro enfim sem meios.

Percebo as mãos deslizando
Por dentro do meu casaco,
Direto ao meu ponto fraco,
Pois sutiã não vou usando.
Dois minutos de carícias
Bastam para a reação:
O desprezo acaba em vão,
Pois já me inundam delícias.

Sinto chegar a umidade,
E por dois botões abertos
Ele faz em toques certos
Com meus peitos amizade.
Num abraço então mais forte
Seu volume aperta atrás,
E em mil desordens mentais
Me requebro em meu consorte.

Lanço um gemido feliz
Que por certo todos ouvem;
Mas será que também sabem
Quem me faz sua meretriz?
Pois uma das mãos agora,
Erguendo a barra da saia,
Pouco leva pra que caia
Bem na minha crespa flora.

Um dedo em carícia terna
Toca a carne mais secreta;
Conhece que atinge a meta
Ao ver que me molha a perna.
Do botão até a entrada
Ele passeia, incessante,
Só parando num rompante
Pra me deixar pendurada.

Assim que o homem recua,
Sinto o tecido empapado
Por baixo ser puxado,
Mas depois volto a ser sua.
Um braço em minha cintura;
Outro firme em minhas costas,
Impedem outras respostas
Que não curvada postura.

Atrás um zíper se abre;
Livre, o músculo viril
Acha o meu jardim febril,
Louco por aquele sabre.
Como da porta pra dentro
Ele empurra lentamente,
Me atiro pra trás tão quente
Que logo o meto em meu centro.

Com a entrada solto um berro,
Me entregando à intemperança.
Regulam a nossa dança
Nos quadris duas mãos de ferro.
Ora ele se põe inteiro
A lotar minhas entranhas,
Ora em manobras tacanhas
Ele sai todo faceiro.

Ó, meu amante invisível!
Nem minutos tenho eu,
Pois a este balé seu
Resistir é impossível!
Meu gozo é com palavrões,
Porque já não servem mais
Os preceitos cordiais
Nestas turvas condições.

Ele mantém o compasso
E, inspirado em meu ardor,
Banha meu ventre de amor,
Pois também não é de aço.
Dentro em mim enquanto dá,
Do meu peito se despede,
Que o seu ânimo já cede
E infeliz eu fico cá.

Mal se afasta o garanhão,
Outro vem em seu lugar;
Um Príapo a deslizar
Na minha flor sua paixão.
Novidade tão imensa
Só pode ser do negão.
“Oh! Não cabe isso aqui não!”,
Penso entre ávida e tensa.

Mas cheia e bem preparada
Da semente e pelo enlevo,
A rejeitar não me atrevo
Prenda tão inusitada.
Logo no impulso segundo,
Sinto o corpo encurralado:
Colho a parede de um lado
E a maça toda no fundo.

Antes uma valsa lenta;
Agora um rápido frevo
Co’ este maldoso e primevo
Martelo que me amolenta.
Treme sua pélvis frenética,
E enquanto sou lasseada
Desfruto em cada estocada
O prazer da farra eclética.

Súbito, então, vem terceiro
Pela frente com sua oferta,
Que nos meus lábios se aperta
Em evento pioneiro.
Pois ao mesmo tempo dois
Eu nunca experimentei
E agora tudo que sei
É que não será depois.

Qual homem é dono deste
Que se esconde em minha boca,
Enquanto me deixa louca
O outro que a flor reveste?
Cada martelada atrás
Me atropela pela frente;
Tocam tão profundamente
Que não me sustento mais.

Mergulho numa explosão
Que jamais senti na vida,
E a tremedeira incontida
É a desculpa do varão
Pra inundar minha garganta
Da luxúria acumulada
Que me deixa sufocada
Mas que eu adoro e me encanta.

Num empurrão ele sai,
E toda a minha atenção,
Livre dessa distração,
No jovem negão recai.
Seu gigantesco calor,
Que um após outro me traz
Sismos a não poder mais,
Faz crescer meu estupor.

Enfim, após longo embate,
A divina ferramenta
Se avoluma e arrebenta
Num sublime disparate:
Um litro de amor e glória
Que eu, sem poder receber,
Vejo na perna escorrer
E no chão deixar memória.

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