A Presa: Capítulo 31 – Teegan

Quando a realidade voltou, sobreveio o pânico. Me senti fora de mim, implorando a Deus para sentir o meu ir­mão. Caleb sorriu em mim, e a conexão de Zane, estável e terna, residia exatamente onde sempre esteve. Era su­til como um sono tranqüilo. Foi então que percebi que não estava num estacionamento.

“Você acordou,” papai mencionou o óbvio. Ele estava sentado numa cadeira de couro marrom com uma arma­ção simples de madeira. Eu estava numa cama elevada, com lençóis e cobertores brancos. Verifiquei, correndo os olhos ao redor, estar sozinha num hospital com o meu pai. Caleb confirmou as minhas observações. “Você apa­gou por 12 horas,” acrescentou papai, demonstrando alí­vio com um sorriso.

“Zane está bem,” disse eu, as palavras secas e roucas.

“Ele está,” confirmou papai, “sua mãe está com ele ago­ra.” A lembrança da mente do homem, o cara que puxou o gatilho, retornou.

“Aquele cara estava me caçando,” disse eu. Não pude conter as lágrimas. “Zane foi baleado por minha culpa.”

“Shhh,” disse papai, saindo da cadeira para a cama. “Nada é sua culpa. Nunca foi. O mundo está cheio de malucos.”

“Eu estava na mente dele,” chorei, “ele gostava do que fazia. Ele matou um monte de gente e se sentia bem com isso.” Papai me acolheu nos braços e alisou meus cabelos como se eu tivesse dez anos. Desejei ter dez anos nova­mente.

“Ele nunca mais vai fazer de novo,” disse papai em voz baixa; apertei papai mais um pouco. Senti Caleb termi­nar uma discussão com seus pais. Ele estava no saguão e veio na minha direção. Grace e Jack não estavam mais do meu lado, não com balas voando.

“Caleb vem vindo,” disse eu, e papai me soltou. “Tam­bém ele eu destruí,” me dei conta em voz alta. Caleb dis­cordou com uma dose de amor insistente. Eu queria afu­gentá-lo, preservá-lo da minha presença, mas estava fra­ca. Acolhi-o em mim e deixei-o crescer. Sua música era a minha música. Minha música era a morte.

“Acho que Caleb tem uma opinião diferente,” disse pa­pai, bem-humorado no tom das palavras. “O médico dis­se que o que salvou Zane foi Caleb ter pensado rápido. Sempre gostei desse homem.” Não me passou desperce­bido o fato de papai chamá-lo de homem. Tentei sorrir, mas foi por minha causa em primeiro lugar que Zane precisou ser salvo.

“Seu tio Hank já ligou várias vezes,” disse papai. “Ele pa­rece estar com os nervos em frangalhos, e suspeito que queira ouvir a sua voz para saber se está bem.” Caleb en­trou, um pouco de sangue ainda em suas roupas. Ele ti­nha ficado aqui esse tempo todo esperando que eu acor­dasse. O seu sorriso fez o meu surgir. Eu era a sua mal­dição, e ele a minha esperança. “Vou ver como está o seu irmão e contar à sua mãe que você acordou,” acrescen­tou papai, beijando a minha testa antes de deixar Caleb e eu sozinhos.

“Pensei ter perdido você,” disse Caleb. “Você estava mer­gulhada na mente do psicopata e…” Puxei-o para mim e calei-o com um beijo. Ele era a minha força também.

“Obrigada por salvar Zane,” disse eu, meus lábios quase tocando os dele.

“Foi você,” disse Caleb, se aninhando na cama comigo. “De repente eu sabia tudo sobre ferimentos aspirantes no tórax.” Tinha acontecido tudo aquilo e ele queria che­gar mais perto, erguer o lençol e se esconder aqui comi­go. Envolvemos os nossos braços um no outro e nos uni­mos com a música.

“Dr. McGuire,” comentei, acariciando o rosto adorável de Caleb. Ele ainda não tinha cortado o cabelo, e agora eu não queria mais. Era ele, relaxado por fora e forte por dentro. Suas mãos descobriram depressa a minha nudez sob a camisola. A beleza que ele enxergava em mim se tornou aparente, e eu senti o seu sorriso crescendo por dentro. A verdade sobre mim era camuflada em seu amor.

“Senhora, eu creio que está precisando de um exame completo,” brincou Caleb, suas mãos achando áreas de pele que nenhuma outra pessoa jamais tocava. Tentei permanecer séria, mas as suas emoções eram fortes de­mais. Se dependesse dele, nós trancaríamos a porta e en­velheceríamos juntos na cama. Eu sucumbi, o meu corpo contrariando a necessidade que a minha mente tinha de avaliar os eventos recentes. Eu só conseguia pensar em Caleb.

Uma tosse rompeu a nossa intimidade. Caleb se moveu com velocidade espantosa para fora da cama, como se nada houvesse, e eu encobri o riso com a mão. Seu rosto ficou da cor de beterraba, e o seu olhar de inocência ja­mais lhe daria um Oscar.

“Vejo que está recuperada,” disse mamãe, parada na porta com as mãos na cintura. Era evidente que ela luta­va para manter a expressão séria em favor de Caleb.

“Sra. Fuller, eu só estava…” começou Caleb.

“Me poupe,” interrompeu mamãe, descartando com um gesto a desculpa esfarrapada. Um sorriso iluminou o seu rosto e ela foi na direção de Caleb. “Obrigada de novo, por salvar o meu menino,” disse ela dando-lhe um abra­ço apertado. Percebi a confusão de Caleb. Ele não sabia o que fazer com as mãos que acabavam de ser pegas na botija. Era bonitinho ele meio desestabilizado. Lembra­va os nossos primeiros dias juntos.

“Ele não teria que salvá-lo se eu não estivesse lá,” disse eu, recordando a todos a razão porque Zane foi baleado. Mamãe deixou Caleb e veio até mim.

“Zane de modo algum estaria aqui se não fosse por você,” disse mamãe sentando-se na cama. Seus olhos es­tavam fixos nos meus. “Eu não o teria, nem teria o seu pai. Do mesmo modo que eu não teria você.” A lógica não cabia no meu argumento. Caleb, em silêncio, tenta­va me convencer com as palavras dela. Tudo o que eu enxergava era o perigo em que eu punha todo mundo. Mamãe viu e provavelmente sentiu a minha apreensão, decidindo que um abraço era necessário. E era.

“A cirurgia de Zane foi um sucesso completo,” acrescen­tou mamãe. “Deu medo, mas sobrevivemos. Nos muda­remos para outro lugar, onde ninguém possa nos achar.” A idéia de desarraigar a minha família, destruir empre­gos e as amizades de Zane, não era nada agradável. A única aberração que precisava se esconder era eu. Minha família ficaria mais segura se eu sumisse. Caleb discor­dou vigorosamente dos meus pensamentos.

Caleb sacou o telefone que vibrava em seu bolso. Depois de olhar a tela, entregou a mim. A tela mostrava Hank Gunderson.

“Ele tem o seu número?” perguntei.

“Ele está ligando a cada hora mais ou menos,” disse Ca­leb assentindo com a cabeça.

“Não precisa atender,” disse mamãe, julgando mal a mi­nha apreensão. Hank merecia uma resposta. Ele foi es­sencial para lidar com os militares, e era meu amigo.

“Oi, tio,” falei ao telefone do jeito mais calmo que pude.

“Graças a Deus!” disse Hank. “Passei metade da noite tentando achar você.”

“Estou bem,” disse eu, me perguntando porque eu mere­cia tantas pessoas preocupadas comigo.

“Isso eu já sabia,” disse Hank, “temos outros problemas. Depois da nossa conversa, senti que discuti-los com ou­tras pessoas não era o que você queria.” Ótimo, mais encrenca.

“Que é agora?”

“Um certo coronel Davidson quer se encontrar com você,” disse Hank. “Ele insiste muitíssimo. Havia câme­ras de segurança no shopping, e você foi vista de pé olhando diretamente para o seu atacante. O atirador era o ex-sargento Levi Travis, estrela de bronze, com dispen­sa honrosa depois de duas missões no Iraque.”

“Ele é um ser humano horrível,” disse eu com repulsa.

“Não discordo,” continuou Hank. “Não é este o ponto. Ele teve uma séria convulsão enquanto você o encarava. O exército o conhece, sabe de suas habilidades. Não acreditam no que a polícia local parece aceitar.”

“Um sujeito chamado Anthony pagou-lhe cinqüenta mil para me matar,” disse eu. “Ele baleou Zane, e fiquei com raiva. Eu não estava bem no controle da coisa.”

“Não é culpa sua,” se intrometeu mamãe. “Eu teria feito muito pior.”

“Mesmo assim,” disse Hank, “eles estão juntando dois e dois. Há relatórios do seu pai dando uma de lutador pro­fissional. Acrescente Caleb e agora você transformando com o olhar um homem maduro num imbecil babão… bom, eles não confiam mais na minha opinião.”

“Não quero falar com o exército,” disse eu.

“Pode não ser opcional,” disse Hank. “Eles estão usando a desculpa da segurança nacional. Estou incumbido de levar você discretamente.”

“E se eu me recusar?”

“Daí eu temo que não será discreto,” disse Hank. Olhei para mamãe, que só ouvia metade da conversa. Ela pare­cia preocupada, mas aguardava a minha resposta. A mente de Caleb trabalhava a toda velocidade. Tive visões de nós dois correndo, juntos.

“Não vou me encontrar com eles,” decidi. Escutei Hank suspirar profundamente.

“Vai ter que fugir,” disse Hank. “Posso enrolar por no máximo um dia.”

“Pode ser a melhor opção,” disse eu. Olhei para a minha mãe, seu olhar amoroso me perdoando pela bala em Zane. “Não quero mais ninguém ferido.” Mamãe come­çava a fazer uma idéia do que estava em discussão. Segu­rou firme a minha outra mão.

“Se precisar de mim,” disse Hank, “ligue-me de um tele­fone que não possa ser relacionado a você. Use o nome Rose,” ele deu uma risadinha ao se referir à avó da qual eu não me lembrava, “e farei o que for possível.”

“Amo você, tio,” disse eu me despedindo.

“E eu, você,” disse Hank engasgando nas palavras. Desli­guei.

“Que raios foi isto?” perguntou mamãe, nervosa.

“Vamos fugir,” disse Caleb, compreendendo tudo através da conexão. Mamãe olhou para ele e depois para mim. Não havia a opção de eu sair sem ele. Sorri interiormen­te.

“Que significa isto?”

“O exército está vindo atrás de mim,” disse eu. “Sabem o que eu fiz ao cara que atirou em Zane. Sou um assunto de segurança nacional agora.”

“A família permanece unida,” exigiu mamãe.

“Zane não pode se mexer,” disse eu. “Hank acha que pode enrolar por 24 horas.”

“De jeito nenhum eu vou deixar que levem você,” disse Caleb. O poder dos sentimentos dele me fizeram temer pelo que aconteceria a qualquer um que tentasse.

“Não se mexa,” disse mamãe. “Vou trazer o seu pai.” Ela foi até a porta e se virou para trás. “Fique aí,” acrescen­tou ela naquele tom maternal não negociável.

“Para onde vamos?” perguntou Caleb. A mente dele ti­nha entrado em modo de planejamento.

“Tenho um nome,” disse eu, “e um local. Eu vi como o Anthony se parece, embora não faça idéia de quem ele é ou porque me quer morta.”

“É um começo,” disse Caleb.

“Não gosto de ser a presa,” disse eu, a determinação de Caleb se misturando à minha e deixando-a mais forte.

“Vamos virar a mesa, então,” Caleb continuou os meus pensamentos.

“Isto tem que acabar,” acrescentei.

“Vamos caçar,” disse Caleb. “Gostaria de conhecer esse Anthony, mente a mente.”

“Nada de baile, nada de formatura,” disse eu. “Seus pais têm razão: estou destruindo você.”

“Sim, está,” disse Caleb, voltando aos meus braços. “To­dos os dias, de todos os modos. Não devemos levar em conta o fato de que sou totalmente cúmplice. Acho que você está me devendo.” Seu sorriso persuadiu o meu.

“Quais as condições?” perguntei, sabendo o que estava na mente dele.

“Acho que sexo pelo resto da vida deve mais ou menos empatar o jogo,” sussurrou Caleb. Eu tinha uma respos­ta preparada, muito boa, mas que esqueci no mesmo instante em que os seus lábios encontraram os meus de novo. Eu adorava o quão carente era o seu amor, o quan­to necessitava do meu para funcionar direito.

“Então você gosta da parte nua,” disse eu quando para­mos para respirar. As palavras provocaram uma enxur­rada de visões na mente de Caleb, do tipo que me faziam sentir muito especial. No mundo dele eu era. No meu, era ele o especial.

“Você nem faz idéia,” disse ele. Eu fazia, sim.

“Sua mãe diz que você está indo,” disse papai invadindo o quarto, mamãe bem atrás. Desta vez Caleb foi mais lento ao me soltar. “Você tem a escola para terminar, e de jeito nenhum eu permitiria que os militares levassem você.” Eu sorri sentindo a força da sua devoção a tomar conta de mim. Antes de Caleb ele era o meu rochedo; de algum modo sempre será.

“Como se você não fosse sempre saber onde estou,” disse eu. Não podia retê-lo do lado de fora para sempre nem que eu quisesse.

“Nisto papai e eu somos um,” disse mamãe, pondo as mãos na cintura.

“Você não pode impedir os militares dos EUA,” disse Ca­leb. “Sem mencionar quem quer que seja que enviou aquele atirador.”

“Legalmente, eu sou adulta,” informei-os. “É melhor nós encontrarmos quem está me caçando antes que alguém mais saia ferido.” Senti o apoio de Caleb.

“Nós?” disse papai. “Vocês dois pensam que têm todas as respostas?” Interrompi Caleb antes que ele pudesse responder. Ele já estava discutindo com os pais dele, e não precisava acrescentar os meus à lista.

“Será que é muito diferente de quando vocês dois se co­nheceram?” perguntei a eles.

“Sim,” respondeu papai. Ele estava mentindo para mim, e sabia que eu sabia.

“Éramos mais velhos,” argumentou mamãe.

“Aquele cara que atirou em Zane foi só o começo,” disse eu. “Se iam pagar cinqüenta mil para ele, quanto vão pa­gar da próxima vez?” Houve uma pausa enquanto tenta­vam pensar em alguma solução que não envolvesse a mi­nha partida. “Preciso estar onde eles não estão procu­rando. Não posso retornar à escola ou ir à minha forma­tura. Alguém lá fora fez da sua missão acabar com a mi­nha vida.”

“Nós vamos mudar isto,” disse Caleb.

“Não!” interveio mamãe ao perceber o significado da fra­se de Caleb. “Vocês não podem ir atrás deles.” Papai olhava para Caleb e para mim, desejando visivelmente algum outro curso de ação, sem encontrá-lo todavia.

“Zane precisa de você,” continuei. “Nós precisamos de­saparecer da frente dos militares e psicopatas. Você acha que ficar escondida no porão pelo resto da vida vai fun­cionar?”

“Não,” disse papai.

“Sam!” falou mamãe rudemente.

“Não podemos mais escondê-la, Natalie,” continuou pa­pai, “só podemos torná-la um alvo maior.”

“Eles são tão novos,” suplicou mamãe.

“Não são mais,” disse papai, tomando mamãe nos bra­ços. “Teegan, se quiser, você pode fazer de novo o que fez com aquele atirador?” Fiz que sim com a cabeça.

“Eu também posso,” disse Caleb. Foi a ira que acendeu o fogo. Caleb sabia tanto quanto eu.

“Vão precisar de dinheiro,” disse papai.

“Sam, não pode permitir que vão embora,” protestou mamãe sem muita convicção. Suas lágrimas estavam umedecendo os meus olhos.

“Ficar pode matá-la,” disse papai, “ou fazer dela o próxi­mo fantoche dos militares.”

“É o nosso bebê,” chorou mamãe. Me descontrolei e cor­ri na sua direção. Eu tinha melhor sorte do que muita gente com pais biológicos. Demos um abraço familiar, sem Zane. Derrubei as barreiras para a ligação nos es­treitar. Caleb tentou se esconder dela, mas ele era um pedaço de mim agora. Mamãe estendeu a mão até ele se unir a nós.

“Aonde você vai?” perguntou mamãe, secando as lágri­mas.

“Papai vai saber quando eu chegar lá,” disse eu. Papai me deu um sorriso tímido.

“É melhor que ninguém saiba aonde estamos indo,” acrescentou Caleb. Papai tirou a carteira e me entregou o dinheiro que tinha dentro.

“Quando usar isto, certifique-se de que esteja deixando a área,” disse papai, juntando o cartão de banco ao dinhei­ro. “A senha são os últimos quatro dígitos do meu núme­ro de telefone. Vou manter pelo menos mil dólares na conta.”

“Dois mil,” ordenou mamãe. Papai assentiu e entregou ao Caleb as chaves do carro.

“Deixe as chaves no porta-luvas,” papai falou ao Caleb. “Me ligue quando largá-lo e eu vou pegar. Vai ter de en­contrar alguma coisa menos rastreável para viajar.” Ca­leb pegou as chaves e apertou a mão de papai.

“Tenho que me vestir,” disse eu. Papai e mamãe saíram, mamãe levando Caleb com ela. Provavelmente era me­lhor assim. Estar nua com ele era desafiar o tempo.

Eu estava vestindo meu jeans quando ouvi mamãe atra­vés da conexão de Caleb. Sorri quando ela lhe contou o que ia fazer se qualquer coisa me acontecesse. Papai provavelmente lembrou o poder da ligação de Caleb e pulou as ameaças, optando por transmitir tudo o que co­nhecia sobre ficar abaixo do radar. Caleb prometeu to­mar conta de mim. Senti o seu rubor quando mamãe lhe deu um forte beijo no rosto.

“Estou pronta,” disse eu ao me unir a eles no saguão. Mamãe tinha os olhos bem vermelhos e papai parecia exausto.

“Eu não,” disse mamãe, abrindo os braços. Caí dentro deles novamente, tentando não chorar. O adeus derra­deiro demorou mais do que deveria, papai ocupado em nos dar mais informação e mamãe simplesmente enro­lando. Eu deixei, e Caleb esperou pacientemente. Hank prometeu 24 horas, de modo que alguns minutos não fa­ziam muita diferença.

A despedida dos pais de Caleb foi pior. O olhar no rosto da mãe dele devia ter me matado na hora. Quando co­meçou a ficar barulhento, estendi as minhas mãos e dei­xei que a ligação trabalhasse para nós. Depois disso, seus pais ficaram muito conscientes da conexão entre nós e perceberam que as nossas escolhas eram limita­das. Não impediu as lágrimas, mas encerrou a briga. Ainda se passariam mais trinta minutos até que final­mente estivéssemos prontos para sair com dois cartões bancários e dinheiro suficiente para viver umas duas se­manas.

“Vamos para casa e depressa empacotamos algumas roupas,” disse Caleb enquanto caminhávamos na direção da porta do hospital.

“Sua casa primeiro,” disse eu, “ninguém deve estar de olho lá ainda.” Caleb pegou a minha mão e diminuiu o nosso passo. Segui o seu olhar para além das portas de vidro, até o caminho da entrada. Havia dois homens al­tos, ambos com cortes de cabelo estilo fuzileiro, parados do lado externo da porta. Estavam olhando para a rua, vestidos com roupas civis, mas sua conduta era de quem estava de serviço.

“Pode não ser nada,” sussurrou Caleb.

“Jaquetas de couro,” disse eu, “o que é, os anos 70?” Ca­leb decidiu que as portas da emergência eram uma saída melhor, e então fomos depressa até o outro lado do hos­pital. Naquela porta encontramos mais dois indivíduos vestidos de modo similar, embora um deles fosse uma mulher. Nenhum deles parecia ter medo de briga.

“O outro lado é mais perto do carro,” disse Caleb. Assen­ti, e novamente atravessamos todo o hospital; desta vez, paranóicos a respeito de todos que passavam por nós. De repente o mundo estava contra nós, e o medo tomou conta do meu coração. Caleb escondeu o seu medo atrás de uma muralha de bravata. Eu corri para ficar atrás dela.

Saímos de mãos dadas, andando como se fôssemos visi­tantes comuns do hospital. Minhas entranhas se remexi­am e eu podia sentir a raiva crescente de Caleb. Ele esta­va fazendo de propósito, odiando pessoas que ele nem mesmo conhecia. Não gostei do que estava acontecendo com ele.

“Senhorita Fuller?” perguntou, ao passarmos, o homem de cabelo ruivo à esquerda. Fiz que não era comigo. Ele não pareceu confiante o suficiente; talvez não tivesse certeza. Com isto Caleb ficou tenso, e a sua ira cresceu. Inconscientemente eu acelerei. Os dois vieram atrás.

“Senhorita Fuller,” disse o homem com mais confiança. Meus olhos se encheram de lágrimas quando Caleb se vi­rou com idéias horríveis na cabeça.

“Ela não vai com vocês,” disse Caleb, movendo o corpo com confiança.

“Diga ao coronel Davidson que eu vou encontrá-lo ama­nhã,” menti, tentando acalmar a situação. Detestei o que aquilo estava fazendo com Caleb. Ele estava aprendendo a usar a ligação como uma arma.

“Não conheço nenhum coronel Davidson, senhora,” dis­se tranqüilamente o homem ruivo. Eles não estavam se aproximando, e o outro cara estava olhando para todos os lados menos para mim.

“Vocês não estão com os militares?” perguntei, com um medo repentino de que fosse um ataque de psicopatas. Caleb começou a avançar, meus temores se tornando os dele.

“Não, senhora,” disse o homem, sem recuar diante de Caleb.

“Para quem você trabalha?”

“Bom… para a senhora,” respondeu o homem. Caleb pa­rou com a confusão que enfraqueceu a sua ira. Eu ia pe­dir esclarecimentos quando o parceiro dele gritou “Arma!” Virei na direção do grito e vi um homem de meia idade no meio de dois carros estacionados, de olhos arregalados e pistola na mão.

“Demônio!” gritou o homem erguendo o cano.

Caleb raciocinou mais rápido do que eu imaginava ser possível, me derrubando e se deitando sobre mim. Os dois homens passaram correndo por nós, sacando as pistolas de dentro das jaquetas. Eu ouvi dois tiros e o primeiro homem gritando instruções sobre ir buscar um carro.

“Senhora, temos que andar. Não é seguro aqui,” ordenou o homem ruivo. Caleb e eu trocamos pensamentos mais que depressa, decidindo que ficar naquele local aberto estava fora de questão. Podíamos ouvir as pessoas no hospital gritando a respeito de um tiroteio, e sabíamos que a polícia não tardaria. De jeito algum eles pensariam se tratar de outro evento ao acaso.

Vi o atirador deitado entre os carros, o sangue começan­do a formar uma poça. O segundo homem tinha chutado para longe a arma dele e estava varrendo a área, desta vez sem esconder a arma. O homem ruivo nos puxou para perto do prédio e tirou o que parecia ser um peque­no telefone. “Lado norte, junto à entrada. Está limpo.”

“Quem é você?” perguntei, desesperada por informação.

“Primeiro cuidamos da sua segurança,” disse o homem.

“Não,” disse Caleb, se colocando entre o homem e eu. O homem rangeu os dentes e então suspirou.

“Me sinto um tolo fazendo isto,” disse ele, guardando o telefone e estendendo a mão para mim. “Eu deveria pe­dir a sua confiança,” acrescentou ele e então virou a pal­ma da mão para cima. Compreendi imediatamente a oferta, e Caleb assentiu internamente. Estendi a mão e uni a música do homem à minha. Assisti ao seu sorriso se abrir.

“Caramba,” disse o homem, “você é um anjo.” Senti uma pontada de ciúme em Caleb, mas rápido se dissipou. Um SUV branco parou ao nosso lado enquanto eu me enchia de informações, alimentadas pela raiva latente de Caleb e pelo meu desejo de aplacá-la.

Caleb arregalou os olhos ao partilharmos a nossa surpre­sa. Tínhamos o nosso exército particular.

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