O Casamento: Capítulo 22

Mylle me esperava na biblioteca. Eu tinha feito, depois do banho, um lanche rápido na cozinha. Alia me lembrou do jogo. Eu tinha esquecido. A minha cabeça ainda estava girando em torno do herdeiro. Entrei na biblioteca e dei de cara com o tabuleiro montado e Mylle me esperando num vestido azul e justo. Parecia um pouco formal demais para um jogo, mas que ela ficava bem nele, isso ficava.

“Um bom dia para você, minha Senhora,” disse eu, cordialmente, avançando na direção da cadeira que, evidentemente, esperava por mim.

“Estou muito feliz que tenha vindo, meu Senhor,” anunciou Mylle. Parecia realmente feliz. Correspondi com um sorriso e me sentei.

“Então é este o Tavia,” afirmei. O tabuleiro parecia bem feito. Era entalhado com vários triângulos incrustados, compridos e apontando para dentro. Dispostos sobre estes triângulos estavam dois conjuntos de discos de ônix, um branco e um preto. Os discos brancos dispostos como uma imagem espelhada dos pretos. Fiquei realmente intrigado.

“Sim, meu Senhor,” disse Mylle, a boca fixa num sorriso. Fiquei contente por Alia ter me lembrado. Eu não gostaria de desapontar Mylle. Ela passou as instruções, as quais achei muito claras. De certo modo eu tinha associado a timidez anterior a um raciocínio lento. Nada mais distante da verdade. As instruções eram precisas e claras. Quando eu pedia esclarecimentos, ela explicava de um jeito diferente para que eu compreendesse. Não era à toa que ela atraía Angelica.

O jogo em si não era tão complexo quanto pareceu à primeira vista. Eu jogava com as peças brancas. Tinha de rolar os dados e mover as peças espalhadas pelo tabuleiro, sobre os triângulos, na direção oposta ao movimento das peças pretas de Mylle. Podia dividir o meu lance por duas peças, ou somar os pontos dos dados e mover uma peça só. Depois de colocar todas as minhas peças na minha base, eu podia tirá-las do tabuleiro. Ganhava o primeiro jogador que tirasse todas as peças. A dificuldade do jogo estava no risco que uma peça corria quando ficava parada num triângulo: o outro jogador podia cair sobre ela e mandá-la de volta ao começo. O segredo era mexer as peças por igual, levando-as juntas pelo caminho.

Rapidamente eu descobri que Mylle tinha o benefício da experiência. Ela sabia, quase que na mesma hora, como executar cada lance com segurança. Quando arriscava, era um risco limitado. Foi uma sensação bem boa devolver uma de suas peças ao início. Teria sido melhor ainda se antes ela não tivesse feito retornar cinco das minhas. Uma enorme vantagem era um lance com números iguais nos dados: você podia mover as peças como se fossem quatro dados com aquele número. Mylle parecia fazer mágica nos lances. A primeira partida foi dela, sem muita competição.

“Eu queria jogar de novo,” falei, ansioso. Achei que estava pegando o jeito no final. Era uma mistura agradável de estratégia e sorte. Uma partida não demorava muito e, assim, pedia para ser repetida.

“Claro, meu Senhor,” disse Mylle, toda contente. Era como se eu lhe tivesse aberto o baú do tesouro. Seus olhos estavam tão animados quanto as suas mãos a arrumar novamente o tabuleiro. O mesmo padrão do começo da partida anterior. Eu teria de aprender.

“Você encontrou tudo a seu gosto por aqui, minha Senhora?” perguntei enquanto tentava resolver o que fazer com seis e um nos dados. Tive de contar nos dedos os triângulos, já que eu não sabia os padrões ainda.

“Tudo excelente, meu Senhor,” replicou Mylle, “você me deixou extremamente à vontade.” Levei um tempo para descobrir um movimento seguro, mas consegui. Fiquei orgulhoso de mim mesmo.

“Fico contente,” falei sinceramente, “tive receio de que achasse tudo muito estranho.” Mylle rolou os dados: um par de quatro. Recuei e observei-a me bloqueando imediatamente em dois triângulos. Os meus movimentos ficariam bastante limitados.

“Eu não queria estar em nenhum outro lugar, meu Senhor,” acrescentou Mylle. Tirei três e quatro nos dados. Eu tinha razão: a sua jogada anterior deixaria a minha difícil. Voltei a contar triângulos com os dedos, tentando avaliar o melhor movimento. Gastei um bom tempo, mas consegui mover uma peça sete casas e com pouco risco. Achei a melhor de todas as opções. É claro que eu estava enganado. Fui mandado de volta ao começo no lance seguinte.

“Você é muito boa nisto,” disse eu, rolando os dados e colocando a minha peça de volta no tabuleiro. O sorriso de Mylle se abriu com o elogio. Ela jogou os dados e moveu as peças, mais uma vez com segurança.

“Você se arrisca com as peças de frente. A penalidade é maior se eu caio sobre elas, meu Senhor,” instruiu-me Mylle. Ela tinha razão, obviamente. Se eu arriscasse as peças da retaguarda, precisaria de menos lances para me recuperar. Guardei aquela pequena dica. Um jogo tão simples, mas com um enganoso toque de estratégia misturado à sorte…

“Você é obstinada, Mylle,” disse eu ao rolar os dados. Gastei muito tempo determinando a melhor jogada. Acho que o elogio a tornou mais audaciosa.

“Por que é que você nos tolera, Angelica e eu, meu Senhor?” perguntou Mylle. Ergui o olhar do tabuleiro, encarando um par de olhos curiosos. Eu não sabia o que responder.

“Por que não? A felicidade é importante para mim. Cada uma de vocês faz a outra feliz, então que seja,” respondi. Não sei muito bem como, mas a jogada ideal me ocorreu; movi, ligeiro, as peças, bloqueando quase um quarto do tabuleiro. Fiquei satisfeito com a jogada.

“A maioria pensa que somos menos por causa disso,” Mylle chamou a minha atenção. Jogou os dados e moveu as peças, mais uma vez, com perspicácia. Demoraria um bom tempo até que eu alcançasse fazer uma dessas jogadas irrefletidas.

“Vamos tentar disfarçar diante daqueles que possam discordar,” disse eu, rolando os dados: um par de três. Era um lance animador. O jogo era viciante. “Entre nós quatro não haverá vergonha,” acrescentei. Consegui mover dois blocos simultaneamente. Era realmente divertido tirar pares.

“Acho que é por isto que a Senhora Alia e a princesa o adoram, meu Senhor,” disse Mylle, rolando novamente os dados. Me aprumei no assento após este comentário. Ela estava concentrada no tabuleiro, analisando o lance. Eu não via o que estava em seus olhos. Descobri que ela os estava escondendo. Nunca tinha demorado tanto numa jogada.

“Algo a preocupa, minha Senhora?” perguntei em tom suave.

“Você se cansará de mim e me mandará embora, meu Senhor?” perguntou Mylle. Era evidente, naquela frase, o medo de Uri. Ela ainda não confiava na sua posição. Provavelmente o tempo curaria isso, mas ela precisava de alguma coisa agora.

“Ir ou ficar será uma decisão sua,” falei claramente, “Angelica a ama muito; espero que escolha ficar.” Baixei os olhos na direção do tabuleiro e sorri: “Ficar, ao menos, até que eu tenha vencido uma partida.” As chances não eram boas para a partida corrente.

Mylle foi mais ágil do que eu imaginava ser possível. Ela contornou a mesa e, antes que eu pudesse reagir, estava em meus braços. Me abraçou, a cabeça afundada no meu ombro, e eu senti que ela tremia; passei, então, os braços ao seu redor. “Não quero partir jamais,” disse ela. Angelica tinha razão: uma filha seria a minha ruína. Senti uma necessidade natural de proteger Mylle contra o que lhe perturbava. Ela tinha o raciocínio veloz de Angelica, mas faltava-lhe força. Emprestei-lhe um pouco da minha.

Mylle e eu terminamos a segunda partida e jogamos mais três. Das cinco, venci apenas uma. Talvez eu tenha ficado um pouco exibido com a vitória. Uma onda de pares iguais tinha sido mais decisiva do que qualquer habilidade. Mesmo assim, foi uma sensação boa, e Mylle me deixou aproveitá-la. Insisti para que, em breve, jogássemos de novo. Isto pareceu agradar a Mylle mais do que a minha vitória me agradou.

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