A Presa: Capítulo 29 – Levi

Droga de caminhão! Para um tiro certeiro eu só precisa­va de mais um segundo ou dois. Teria sido um tiro di­fícil, mas daí eu não teria mais que permanecer no topo desta droga de loja de tecidos. O vento ficava mudando, dificultando o cálculo, e eu me sentia exposto. Preferia o nível do chão onde as rotas de fuga eram abundantes, mas era impossível por causa dos carros no estaciona­mento e a falta de esconderijo. Por 50 mil, eu ficaria no telhado a noite toda se fosse preciso.

Um sorriso surgiu devagar em meu rosto: lembrei do meu tempo no Iraque. Antes daquela guerra eu era um zé ninguém, sem nenhum rumo na vida. Eu era um exí­mio atirador, é claro, mas isso porque eu tinha passado a adolescência caçando pequenos animais no bosque que ficava atrás de casa. Eu ainda conseguia lembrar a exci­tação de assistir ao meu primeiro alvo cair do galho. O esquilo deu umas duas viradas ao tombar pelo ar, caindo quase sem som no chão do bosque. Eu nem sabia que eles produziam sons, mas esse emitiu várias vezes algo parecido com um gemido invertido. Observei fascinado o esforço para se mexer, suas pernas traseiras inutiliza­das. Minha primeira morte e eu só tinha dez anos. Até gostei do som dos ossos estalando quando es­maguei seu crânio com o pé. Foi a primeira vez em que experimentei um verdadeiro poder. A sensação intoxi­cante de ser um deus.

Tudo isso não foi nada comparado à primeira vez em que enfiei uma bala num homem. Observei a lateral do seu rosto colapsar e então borrifar do outro lado depois da bala atravessar o cérebro. Foi perfeito, e me pagaram para fazer. Na verdade eles me deram uma medalha pe­las dezesseis mortes confirmadas. Ri interiormente: tão tolo esse termo ‘confirmadas’… Houve muitas mais. Na guerra você pode atirar praticamente em qualquer um que lhe dê na telha. E atirar foi o que eu fiz.

Minha favorita foi a expressão do garoto árabe. Ele esta­va no meio do que pareciam ser seus pais, de mãos da­das a ambos. Derrubei primeiro a mãe, depois uma bala no pai antes da mãe cair no chão. Nunca cheguei a puxar o gatilho na criança. Seu rosto coberto de sangue era mais que satisfatório. Não houve lágrimas, apenas uma tremedeira descontrolada, sem saber decidir a quem so­correr. Como se fosse possível. Naquele instante eu sou­be que eu era um deus.

Olhei pela mira telescópica e mirei no carro ao qual a ga­rota teria que voltar alguma hora. Se eu soubesse que ela pararia ali, eu a teria pegado na chegada. Mas tive que fazer o reconhecimento com o meu carro, circulando até encontrar o veículo. A sorte é que levou apenas uma hora até eu avistá-los entrando no shopping. E mais cin­co minutos para encontrar a placa.

Não fiquei nem um pouco contente quando o alvo resol­veu ver um filme. Quase os perdi quando atravessaram na direção do cinema; a esperança era pegá-la na saída. Ela ficou sacudindo para lá e para cá aquele namorado dela, e daí o caminhão entrou de repente bem na linha de fogo. Quando consegui reenquadrar, já tinham chega­do ao prédio. Eu quase tentei um tiro arriscado, mas um erro teria alertado o alvo e aumentado a dificuldade no futuro.

A garota era bem bonita. Não que isso afetasse o meu desejo de acabar com a sua vida, mas me perguntei quem ela tinha irritado tanto a ponto de me pagarem o dobro do preço normal. As coisas das quais os idiotas pensavam poder escapar nunca deixavam de me sur­preender. Provavelmente ela meteu o nariz onde não era chamada, ou talvez um membro da família emprestou dinheiro das pessoas erradas. Dei uma risadinha, imagi­nando um pai ou uma mãe sendo informados dos miolos da filha esparramados pelo estacionamento de um shop­ping. Estar lá para ver as suas reações seria divertido. As expressões faciais eram tão excitantes quanto as pró­prias mortes.

Respirei mais lentamente; não queria que a animação iminente elevasse demais os meus batimentos cardíacos. Um pulso forte torna mais difícil acertar. Eu precisava esvaziar a mente, mesmo o tiro sendo a menos de 300 metros. Eu teria tempo de sobra para me divertir depois de puxar o gatilho.

Eles saíram pela mesma porta de entrada. O namorado e um outro garoto mais novo. Sorri ao pensar que poderia dar uma boa olhada nos dois garotos ao verem explodir a cabeça da menina. Como previsto, eles carregavam roupas novas. Geralmente eu não recebia informação tão boa de inteligência assim.

Minha mira focalizou numa cabeça que pulava, mas que eu sabia que iria ficar imóvel ao se aproximar do carro. Provavelmente eu conseguiria acertar o tiro com ela se movendo, mas a paciência garantiria um resultado me­lhor. Iniciei os exercícios de respiração, lentos e contí­nuos. A ponta do dedo tocou o leve gatilho como se ti­vesse nascido ali, aguardando o comando para pressio­nar.

O alvo estava dando risada ao se aproximar do carro. Tentei não rir da ironia: misturar felicidade com morte era o meu métier, e agora eu estava prestes a comparti­lhar com ela. Ela parou enquanto o namorado se adian­tava para abrir a porta do carro. O retículo se imobilizou próximo ao olho esquerdo, levando em conta o vento cruzado. Apertei o dedo e meu poder, como de um deus, saiu berrando pelo cano.

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