A Presa: Capítulo 28 – Teegan

A melhor semana da minha vida estava chegando ao fim. Alguns momentos houve em que os pais, super preocu­pados com a rapidez dos acontecimentos, deixaram as águas um pouco revoltas, mas o meu tempo com Caleb foi insubstituível. A retomada iminente da escola na se­gunda-feira não era uma idéia agradável. Eu não queria dividir Caleb, e sabia que ele também não queria me di­vidir.

“Então,” perguntou Zane, “vocês compartilham, tipo, tudo?” Estávamos a caminho do shopping para buscar as nossas roupas de baile e Zane estava no banco de trás. Eu não estava empolgada com a idéia de trazê-lo junto, mas Caleb achava necessário para não isolarmos com­pletamente o resto do mundo. Além do mais, ele gostava de Zane, o que era bom. Não que importasse muito, já que Zane ia sumir no meio dos amigos tão logo descêsse­mos do carro.

“Sim,” respondi; Caleb assentiu com a cabeça.

“Não é meio esquisito?” perguntou Zane, “quer dizer, nem sempre você controla as coisas que passam pela sua cabeça.” Eu dei um sorriso ao recordar que, por um bre­ve instante, Caleb tinha achado uma graça a moça loira da loja. Caleb, dirigindo, revirou os olhos com a lem­brança. Eu adorava provocá-lo com aquilo.

“Você distingue o que é real do que é secreto,” eu disse. “A parte estranha é apenas destilada e rapidamente es­quecida, como acontece na sua própria mente.”

“Eu que não ia querer isso,” avisou-nos Zane. “A mera idéia de alguém dentro do meu cérebro é assustadora.”

“Não é muito diferente das emoções,” acrescentou Caleb. “Só muito mais forte.”

“As emoções parecem normais,” disse Zane. “Talvez por­que eu nunca conheci nada diferente. Acho que as outras pessoas achariam isso esquisito também.”

“A esquisitice faz parte da família,” brinquei. Zane riu. Era reconfortante sentir mamãe e papai contentes com a alegria dele. Caleb estendeu o braço e afagou de leve a minha coxa, um gesto de concordância desnecessário mas extremamente bem-vindo. O toque reforçava os nossos sentimentos. Cobri a sua mão com a minha até que, relutantemente, ele puxou-a de volta para a direção.

A conversa mudou para assuntos mais ordinários. A es­cola. O Mason que não voltou. Mesmo sem as autori­dades se pronunciarem, ficou subentendido que ele não era mais bem-vindo na escola. A realidade da sua trans­gressão não podia ser provada, mas a maioria tinha compreendido. O fato de um CDF da orquestra tê-lo ar­rebentado foi a pá de cal: ele nem contestou a semi-expulsão. Disseram que ele foi viver no Alabama com o pai, mas certeza mesmo ninguém tinha. Eu descobri que não me importava com o destino dele, já que não afetava mais o nosso.

“Duas horas,” lembrei ao Zane quando paramos no esta­cionamento do shopping.

“Eu ligo em duas horas,” concordou Zane. Eu ia exigir que nos encontrasse em duas horas, mas os pensamen­tos reconfortantes de Caleb dissolveram o meu espírito contencioso. Podíamos fazer muita coisa juntos enquan­to Zane perambulava com seus amigos. Sorri ao ser ma­nipulada desse modo assim tão carinhoso. Ele tinha ra­zão, obviamente: não havia motivo para engrossar com Zane, afinal era sábado.

Saímos do carro de mãos dadas, um casal mais unido do que nenhum outro em toda a história. Zane foi quase correndo na frente para alcançar os amigos. Foi um pas­seio tranqüilo, e me encantei com os pensamentos de Caleb sobre as nossas mãos. Ele repassava as mudanças no nível de conforto durante as últimas semanas. Não fazia muitas semanas ele se embaraçava todo ao segurar a mão e não queria soltá-la, e agora era tão natural… O fato de ainda não querer soltar me fez sorrir.

“Olhe, podemos ver um filme e deixar o Zane se diver­tir,” disse Caleb.

“É, podemos,” concordei, “ele é meu irmão mais novo e de vez em quando eu sinto que preciso controlar as coi­sas.”

“Não queremos que ele leve vantagem sobre você,” disse Caleb, assentindo de leve com a cabeça. “Sugiro deixá-lo pensar que ficou com a barra limpa, e que portanto lhe deve uma.” Com isto Caleb ganhou um beijinho no rosto. Ninguém jamais poderia me entender como ele. Era toli­ce, mas era importante que eu sentisse estar por cima com Zane. Não queria me sentir um capacho.

“Você me conhece,” disse eu com uma risadinha.

“Isto é óbvio,” disse Caleb me puxando para si. Nosso amor se misturou onde ninguém podia ver, bem no fun­do das nossas mentes.

***

“Ok, esse foi o pior filme que eu já vi,” comentei ao sair do cinema. Caleb riu, já perfeitamente consciente da mi­nha opinião antes que eu a expressasse.

“Qual será que foi a gota d’água, a interpretação horrível ou a trilha sonora exagerada?” perguntou Caleb.

“Acho que começou com o roteiro,” disse eu, alegre pelo bom-humor compartilhado. Até mesmo uma experiência ruim era boa quando estávamos juntos. “Da primeira pa­lavra em diante foi só descida.”

“Eu achei a pipoca muito boa,” pontuou Caleb. “E depois teve aquela parte do beijo. Foi bem caprichada.” Não pude conter o riso. Devíamos ter notado os sinais: só ti­nha umas dez pessoas no cinema. Sentamos no fundo e acabamos dando uns amassos. Era incrível como tudo havia se tornado tão fácil: ele pensava em meus lábios e eu me virava oferecendo-os de bom grado. Nada de de­sencontros complicados ou choques de narizes.

Tínhamos dado ao Zane duas horas a mais, e ele ficou imensamente feliz. Recebi uma mensagem com as pala­vras “fico lhe devendo,” como Caleb tinha previsto. Ca­minhamos de volta ao prédio principal do shopping, atravessando o estacionamento, conversando sobre o fu­turo. Não era mais dele ou meu: era nosso.

“Precisamos achar um lugar onde você possa estudar música,” disse eu. Nada havia de muito grandioso que atraísse o meu interesse, de maneira que o natural era seguirmos o sonho dele até que o meu se manifestasse. Em sua mente eu vi o MIT e a resignação.

“Agora é diferente,” disse Caleb. “Precisamos de segu­rança para não termos de sofrer dia após a dia tentando pagar a faculdade.” Eu estava prestes a repreendê-lo quando as imagens de um casamento e de filhos anôni­mos passearam pelas nossas mentes. Ao invés disso eu sorri e quase comecei a dançar no estacionamento, ar­rastando-o para um lado e para o outro como se fôsse­mos as únicas pessoas no mundo.

“A família pode vir depois,” disse eu, mandando imagens de fãs berrando para ele no palco. Eu estava demais de feliz por ele planejar um futuro no qual havia um lugar permanente para mim. “Você vai ser um excelente pai quando chegar a hora,” acrescentei.

“O caminhão!” berrou Caleb. Eu quase pude enxergar pelos olhos dele o pequeno caminhão de entrega. Num primeiro momento eu saí para o lado errado, sem calcu­lar que ele olhava para o outro lado. Caleb me puxou à sua direita e o caminhão passou roncando sem diminuir a marcha. “Acho que temos que sobreviver ao estaciona­mento antes de planejar o futuro,” disse ele me seguran­do abraçada. Não foi tão perto assim, mas seu coração estava disparado. Passei o meu braço pela sua cintura e caminhamos mais atentamente até chegarmos a salvo na calçada.

“Então,” disse eu, agora que a agitação tinha passado, “será que a Northwestern é a melhor opção?” Caleb sor­riu e me puxou para si.

“Não estou certo se temos condição,” disse Caleb. O di­nheiro sempre ficou na esfera dos meus pais. Eu ganha­va algum com trabalhos de verão, mas não os milhares de que iríamos precisar.

“Eu posso trabalhar,” ofereci. “Juntamos com alguns empréstimos e podemos conseguir.” Caleb abriu a porta para mim ao entrarmos no shopping. Indiquei à direita, onde Zane deveria nos encontrar no GameStop.

“E os seus sonhos?” perguntou Caleb. “Trabalhar num serviço de salário baixo certamente não era parte deles.”

“Você é o meu sonho,” disse eu, e era a verdade. Eu não fazia idéia da razão para estar no planeta, e com certeza não tinha desejos que podiam competir com a música dele. “Além do mais, você não conseguiria pelo menos uma bolsa parcial?”

“Talvez,” respondeu Caleb, “ou eu podia escolher uma escola mais barata.”

“Ou podíamos ganhar na loteria,” acrescentei. Pelo me­nos podíamos dar risada juntos. “Meus pais ajudariam,” disse eu.

“Não com a minha escola,” disse Caleb, sacudindo a ca­beça. Viramos no balcão de informações e rumamos na direção de Zane. “Meus pais tinham algum dinheiro re­servado para a escola, mas estavam me pressionando por uma bolsa.” Ele riu: “Eu acho que papai planeja se aposentar mais cedo.”

“Então vamos ter que crescer,” disse eu. “Vou trabalhar, você vai à escola, e daí viveremos a vida boa depois que o seu primeiro álbum virar disco de platina.” As imagens do sucesso de Caleb percorreram a mente dele e se uni­ram às minhas. Eram pensamentos alegres que faziam aumentar o nosso riso e nos deixavam mais próximos. Como se fosse possível. Seu sonho era agora o meu so­nho, e era muito melhor do que sonho nenhum.

“Teegs,” chamou Zane. Ele carregava um pacote que por certo continha o mais novo e essencial jogo de matar zumbis disponível no mercado. Acenei-lhe com a cabeça e com a mão.

“A loja de smokings está com as nossas coisas,” disse eu quando Zane nos alcançou.

“E o filme, bom?” perguntou Zane.

“Horrível,” respondeu Caleb, “mas a companhia estava boa.” Zane, sem nenhum interesse em qualquer coisa que fosse sentimental, revirou os olhos. Pegamos o vesti­do e o smoking, que estavam envolvidos em capas de plástico, e fomos para o carro. Tudo considerado, tinha sido um belo dia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s