A Presa: Capítulo 26 – Teegan

Sair do carro foi uma atividade divertida: havia sempre mais um toque, mais um beijo, e mais um monte de risa­das. Caleb esticou mais um pouco insistindo em abrir a porta para mim. Eu esperei, pois sabia que significava ainda mais beijos. Não ligava para quem via. O resto do mundo não era tão importante quanto alguns dias atrás.

Caleb esperou até eu chegar à varanda. Quando senti que ele observava o meu traseiro, dei-lhe um pouquinho mais de movimento do que o normal. Valia a pena pela satisfação dele. Entrei em casa com um sorriso nos lá­bios.

“Longo dia?” perguntou mamãe. Ela esperava na sala de estar, sentada de olho na porta da frente. Havia indife­rença em seu rosto, mas eu sabia que isso queria dizer que ela não estava contente. Foi daí que eu lembrei que tinha bloqueado o mundo, ou melhor, as partes que não tinham ‘Caleb’ no nome. Derrubei alguns blocos e a mi­nha família voltou inundando tudo. Mamãe sorriu.

“Desculpe,” eu disse sem poder desfazer o sorriso, “pre­cisava de alguma privacidade.”

“E por que precisaria disso?” perguntou mamãe. Meu sorriso se abriu, e mamãe arregalou os olhos. Eu pensei em mentir ou ignorar a pergunta, mas a minha felicida­de fluía pela conexão. Ela podia sentir, eu sabia.

“Minha ligação com Caleb meio que mudou,” respondi. Meu rosto ficou corado com a lembrança dele sobre mim, sem roupa e suado. Percebi que ele sentiu os meus pensamentos, e estes despertaram os dele sobre o nosso encontro. Tínhamos ficado sem tempo antes de ficarmos sem vontade.

“Como assim, mudou?” disse mamãe, mexendo as per­nas para me dar espaço no sofá. Ela adivinhou o que ti­nha acontecido e desejava conversar sobre isso. Ela não sabia nem a metade.

“Ele sabe que estou conversando com você,” eu disse. Caleb sorriu através da ligação e me mandou beijos vir­tuais quase tão bons quanto os reais. Eu estava viciada.

“É claro, ele acabou de deixar você aqui, não?”

“Não, quero dizer que ele sabe quais palavras estou fa­lando,” eu disse, “assim como eu sei que ele está dirigin­do pela rua Goshen neste exato instante.”

“Ele sabe o que eu estou dizendo?” perguntou mamãe. Fiz que sim com a cabeça, e observei a sua surpresa au­mentar. Para mim era muito natural, mas mamãe esco­lheu as palavras seguintes como se ele estivesse em pé ao meu lado. “Isso é bom?”

“Muito bom,” respondi, segurando o riso porque Caleb concordava me lembrando dos nossos momentos mais íntimos. Ele era uma criança na loja de doces, e eu o seu chocolate. Caleb me mandou uma imagem de um Reese’s, e daí não pude evitar o riso. Mamãe me olhava minuciosamente, avaliando a minha sanidade. “Nós nos unimos completamente,” eu disse, tentando esconder a risadinha fora de hora.

“Fisicamente?”

“Sim,” eu disse, “e muito, muito mais.” Mamãe franziu os lábios. Eu sabia que ela queria conversar, mas tinha receio de chegar ao Caleb. A nossa proximidade de famí­lia acabava de ser abalada.

“Você consegue desligar?” perguntou mamãe. Quase perguntei porque ela iria querer que eu fizesse isto. Não fazia sentido. Caleb se preocupava com o relacionamen­to entre mim e minha mãe, e não desejava ser a causa de qualquer discórdia. Sua idéia era darmos à nossa família algum tempo para que se acostumassem com a coisa. Ele me pediu para tentar, mas não ficar longe muito tempo caso funcionasse.

Interromper o fluxo entre mim e Caleb era como pressio­nar o dedo numa torneira aberta. A música fluía ao redor, passando tanto mais rápido pelas beiradas quanto mais força eu fazia para fechar. Por fim o meu bloqueio cresceu para tapar os buracos e selou a passa­gem. Com ela se foi o meu sorriso.

“Sim,” respondi. Era quase uma dor, como a de perder um braço ou coisa assim. “É duro de conseguir, mais que papai.”

“Ele se foi agora?”

“Eu o amo,” eu disse como se isso fosse a resposta para tudo. Meu olhar foi ao chão, e eu me perguntei se a liga­ção tinha nos fundido além do que destinava a natureza. Será que a minha mente era ainda minha? E será que importava?

“Eu gosto de Caleb,” disse mamãe, “seu pai também. Só receio que esteja indo muito rápido.” Meus olhos come­çaram a se encher. Faltava a metade de mim, podada junto com as minhas esperanças para o futuro.

“É muito tarde,” falei enquanto rolava pela minha bo­checha uma lágrima solitária. “Não existe mais o lento. A ligação cuidou disto.” Minha mente entrava em crise de abstinência de uma droga poderosíssima. Ergui os olhos e mamãe arquejou. Quase pulou em mim.

“Deixe que ele volte!” disse mamãe completamente em pânico. Com uma mão ela obrigou a minha cabeça a se inclinar para trás, e com a outra ela limpou o meu lábio superior. A mão voltou coberta de sangue. Liberei o blo­queio que eu fazia com tanta força. Caleb me alagou, ali­viando a terrível pressão e permitindo à droga abençoa­da tomar novamente conta de mim. Exultante, respirei fundo. Eu não era nada; nós éramos tudo.

“O que aconteceu com você, minha filhota?” falou ma­mãe aos prantos como se alguma coisa ainda estivesse errada. Sorri para diminuir-lhe o medo, enquanto ela, com a mão, limpava mais sangue do meu rosto.

“Não consigo mantê-lo longe por muito tempo,” admiti. “E não quero tentar nunca mais.” O alívio de Caleb era tão grande quanto o meu. Ele tinha parado junto ao meio-fio depois de quase perder o controle do veículo durante a nossa breve separação. Eu só conseguia pen­sar que ele podia ter morrido. “Eu estou mais forte, mui­to mais,” acrescentei, corrigindo em seguida: “Nós esta­mos mais fortes.” Sem a conexão, nós mal éramos crian­cinhas.

“Vou pegar uma toalha,” disse mamãe, me fazendo recli­nar para trás no sofá. Sustentar a conexão com Caleb não exigia nenhum esforço. Era um gozo espontâneo. Romper a ligação demandava tudo o que eu tinha. Retê-lo do lado de fora por um longo período de tempo prova­velmente me mataria. Não fazia diferença. Eu não ia re­petir a dose nunca mais. Caleb me envolveu com a sua alma e me apertou bem juntinho. Segurança era um co­bertor enrolado com amor.

Mamãe voltou com uma toalha molhada. O rímel estava borrado onde ela tinha limpado os olhos. Caleb demons­trou sua preocupação através da ligação, não porque nos afetasse mas porque afetaria aqueles que amávamos. Era impossível para eles entenderem que a nossa conexão não era mais opcional. Cuidadosamente, mamãe come­çou a tocar de leve o meu rosto, tingindo aos pouquinhos de vermelho a toalha branca. Eu devo ter rompido todas as veias do meu nariz.

“Estou assustada,” admitiu mamãe.

“A minha mente não foi feita para funcionar sozinha,” eu disse abrindo um sorriso. As idéias de Caleb se mistura­vam muito claramente às minhas; coisas complicadas de entender eram atiradas instantaneamente de um para o outro, quantificadas e verificadas até que pudéssemos ti­rar as conclusões. “Sou feita para partilhar, e agora en­contrei a pessoa com quem quero partilhar tudo. É belis­simamente claro.” Mamãe nunca ia entender completa­mente.

“Estamos perdendo você?”

“Não,” eu disse, rindo com Caleb, “embora estejam ga­nhando Caleb.” Eu abri alguma coisa mais profunda e a música fluiu suavemente entre Caleb e minha mãe. Vi como os seus olhos se arregalaram com a percepção de um pouquinho daquilo que Caleb e eu tínhamos.

“Tem tanto amor,” disse mamãe abrindo um sorriso di­ante da droga que indicava o óbvio. Era tolice, mas eu fe­chei aquilo que cupidamente não queria partilhar. Senti o riso dissimulado de Caleb diante do meu desejo de tê-lo para mim. Uma imagem do meu traseiro recebendo um carinhoso tapa me fez corar.

“Por bem ou por mal,” eu disse, “estamos presos um ao outro. A conexão nos atrai como um ímã e nenhum de nós tem vontade de lutar contra ela.” Eu sorri para ma­mãe: “Foi uma tarde tão adorável…”

“Você cresceu depressa demais,” disse mamãe, agora vertendo lágrimas por alguma coisa perdida. Ela afagou o meu cabelo com a sombra de um sorriso. “Vou sentir falta da garotinha.”

“Amo você, mamãe,” sussurrei. O sorriso de Caleb era infinitamente maior do que o de mamãe.

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