Poema da Terra

I

O cheiro da terra tem certa mágica
Que me rapta nesta posição fágica;
Que eu agarro como agarro os cabelos
Do invisível amante que me invade.
Os impulsos de sua hombridade
Eu consumo um após outro sem vê-los.
Meu pescoço se dobra à sua vontade
Que sem ternura nem brutalidade
Atende exatamente aos meus apelos.

Eis então como viemos a isto:
O lugar em mim que lhe é mais quisto
Primeiro ele ocupa, determinado.
Depois me conduz em bom andamento
Às alturas de um arrebatamento,
Qual praga que se espalha pelo prado.
Me contrai e rasga o deleitamento
Em um tão completo aniquilamento
Que “petite mort” em francês é chamado.

Enquanto este varão por mim desliza,
Dentro de mim há uma parte indecisa,
Pois vejo que ele tende a se afastar.
Será que, pelos partos maltratada,
Lhe enfado por ser menos apertada,
E o volume perco de degustar?
Ou será que na verdade lhe agrada
A musculatura fortificada
Que ganhei de tanto me exercitar?

Porém o ímpeto logo arrefece
E se derrama em mim, como benesse,
Onda bondosa de serenidade.
Como praia banhada em água calma
À gentil bonança abandono a alma
E o meu ventre repleto de umidade.
Sendo ainda fresco o selvagem trauma,
Desfruto a sensação de leve pluma
Que neste breve intervalo me invade.

De repente, aproveitando o macio,
Carne escancarada pelo rocio,
Mergulhou como jamais percebi.
Explorou por todas as direções,
Provocando em minha mente visões
De toques que eu nunca nem concebi.
Aos poucos converteu as incursões
Na mais sábia de suas decisões,
E assim deitado em mim o recebi.

As mãos dele estão perto do meu rosto.
Dos dedos em meus lábios sinto o gosto.
Me cobre com seu corpo grande e forte,
Me dá proteção, me deixa segura,
Afaga os meus cabelos com ternura,
E volta a se mover, pra minha sorte.
E ronca: “Vire de costas, doçura.”
Desatendida num lance a fissura,
Quase babando eu me vejo sem norte.

II

Quando obedeço ele chega mais fundo.
De novo me perco em seu grosso mundo,
Nos movimentos, nas sensações, nele.
O cheiro do solo fica mais perto
E, como se eu não fosse um livro aberto,
“Esta é de quem?”, saber exige ele.
Digo “Toda sua, sua, decerto”.
E para não deixá-lo descoberto,
Eu me jogo pra trás, pra cima dele.

Estocadas viram devastação
De prazer, que arrebenta em vagalhão
Após vagalhão, tal cadela brava.
Terra e gravetos tenho nos joelhos,
Golpes mil me açoitando como relhos,
Rosto na grama; tudo me deprava.
Na confusão de recontros vermelhos,
Nossa sintonia é como a de espelhos:
Do jeito que eu quero ele me desbrava.

Agarra meus quadris com mãos enormes,
Soca os meus sentidos (já estão disformes);
No fundo me faz bagunça molhada.
Seus embalos possantes tanto abundam,
Que o meu atormentado corpo inundam
De tremor e emoção acalorada.
Quando em descarga elétrica se mudam,
Não resisto às artes que me desnudam,
E de novo acabo convulsionada.

Enquanto acontece esta noite escura,
Contra o céu contemplo a linda figura
Do meu homem na relva ajoelhado.
Alimentada nos outros sentidos,
Também teria os meus olhos nutridos
Se em missionária tivesse ficado.
Aos tempos primitivos compelidos,
Não sei quando estaremos exauridos,
Nem quando chegará pro meu amado.

Desnorteada no embate de cinturas,
Em transe, abalada nas estruturas,
Eu sinto ao redor outra realidade:
Prazer e suor e alguma batida
Suave e constante, quase sumida.
Nunca parece acabar de verdade,
Porque sempre que estamos nesta lida
O tempo se detém na sua corrida,
E vivemos como na eternidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s