O Casamento: Capítulo 19

O jantar foi esquisito. Todos tinham um estado de espírito radiante e arejado, exceto Uri, que era uma nuvem negra. Notei que ele tinha falado com os pais, e que estavam se evitando. Qualquer tentativa de incluir Uri numa conversa era rechaçada com respostas monossilábicas. Ele insistia em sua desgraça, e queria que todos se juntassem a ela. Evitei-o para não acabar numa troca de socos.

Mylle, acanhada, não participava das conversas. Me sentei entre ela e Angelica, com Alia do outro lado da minha noiva. Imaginamos que assim seria melhor para evitar que a familiaridade desse na vista. Era meu dever, portanto, penetrar a armadura de Mylle. Minha mãe se esforçava para ajudar.

“É um esplêndido vestido esse que você está usando, minha Senhora,” disse eu, tentando mexer com os seus pensamentos.

“Obrigada, meu Senhor,” respondeu Mylle, tímida. Seus olhos me fitaram de relance antes de voltarem ao prato de pato assado que ela mal tinha tocado. Não estava acostumada à atenção.

“Onde foi que achou um corte tão bonito?” perguntou minha mãe.

“A costureira escolheu, vossa Alteza,” respondeu Mylle. Respostas educadas, mas jamais elaboradas. Eu ia parar por receio de envergonhá-la, mas daí pensei melhor. Ela faria parte da minha família esquisita. Seria uma vida tediosa para ela se não conseguisse se abrir.

“Vocês recebem muitas visitas no castelo dos Douderson?” A pergunta era genérica, e eu esperava obter mais do que uma resposta monossilábica.

“Não muitas, meu Senhor,” respondeu Mylle. Eu já estava achando que esta pergunta também tinha fracassado, quando ela me surpreendeu detalhando a resposta. “Tivemos, sim, um mercador turco uns meses atrás.” Escutei com toda a atenção. “Ele trouxe o jogo mais fabuloso que eu já vi: chama-se Tavia.” Minha mãe sorriu para mim. Eu tinha achado um assunto.

“Tavia? Nunca ouvi falar,” respondi com interesse.

“Joga-se num tabuleiro com peças coloridas e um dado.” O rosto de Mylle se iluminou de entusiasmo. “Você usa o dado para mover as suas peças até tirá-las do tabuleiro, antes que o seu adversário o faça.” As mãos de Mylle gesticulavam, tentando traçar um tabuleiro no ar – como se me ajudasse a entender. “Você pode mandar as outras peças de volta para o início se elas não estiverem protegidas.” Ela ergueu os olhos, viu o meu sorriso, e percebeu que eu tinha apenas uma vaga noção do que ela descrevia. Era adorável o seu sorriso confiante.

“Eu adoraria lhe ensinar, meu Senhor.” Mylle encerrou a lição e recorreu à oferta.

“Nada me daria mais gosto,” disse eu, “trouxe um tabuleiro com você?”

“Ó, sim, meu Senhor.” Recebi então uma descrição animada de um tabuleiro feito de madeira de sequóia e das peças de onyx. Minha mãe voltou a se intrometer na conversa e quis saber a história do jogo. Mylle atendeu e explicou o que sabia. O assunto começou a mudar, e Mylle não vacilou. Sua timidez tinha ficado para trás. Fiquei bem orgulhoso de mim mesmo.

“Eu realmente adoro você,” sussurrou Angelica ao meu ouvido. Me virei e vi nos olhos dela. Eu tinha trazido Mylle para casa e feito com que se sentisse acolhida. Maior presente do que este eu não podia dar. Alia, por sua vez, se inclinou para frente, por trás de Angelica, e me deu um sorriso de amor. Teria sido mais satisfatório se não fosse a aspereza no olhar de Uri.

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