A Presa: Capítulo 24 – Teegan

A segunda-feira foi pior do que todos nós pensamos que seria. Caleb e eu fomos convocados à diretoria antes da chamada. Lá estavam a nos esperar os membros do con­selho e o diretor, Sr. Dickerson. Nos informaram que nossos pais estavam a caminho, e que a tolerância zero em relação à violência se estendia além dos limites da escola. Estavam especialmente irritados com o fato do vídeo estar associado ao nome da escola.

Mason tinha decidido não ir à escola nesse dia, o que não surpreendeu ninguém. Seus dois amigos, é claro, alegaram não terem idéia do motivo para Caleb subir a escada e bater neles. Era um argumento fraco, por causa da diferença de tamanho entre os jogadores de futebol e Caleb, mas o vídeo não tinha contexto além dos comen­tários sem provas que acompanhavam as postagens.

Mamãe, apoiada por papai e pelos McGuire, empregou o seu legalês. Ameaças de processos na justiça fizeram a escola negociar uma semana de homeschooling ao invés da suspensão. Os professores nos dariam as tarefas, e se­ríamos responsáveis pela lição de casa. Basicamente, o pessoal da escola nos queria longe para que pudessem tomar fôlego. Estavam sendo cobrados pela mídia e pe­los outros pais. A nossa presença iria apenas contribuir para aumentar a fúria.

“Está muito errado,” disse Jack ao sairmos para o estacio­namento. “Meu filho fez exatamente o que um homem deve fazer quando uma mulher está sendo ata­cada. Agora eles querem puni-lo por isto. E vão dar uma medalha a esse Mason ou o quê?”

“Daí eles vão encarar um processo,” sentenciou mamãe, convicta. “Caleb, você não fez nada de errado.”

“Um herói, na minha opinião,” se intrometeu papai. Pe­guei na mão de Caleb e transmiti os meus sentimentos sobre o assunto. Fiquei surpresa pela mãe de Caleb sor­rir com a minha familiaridade.

“Por que vocês dois não tiram o dia de folga,” sugeriu Grace. “Esqueçam o que aconteceu agora. Não falta ain­da o smoking para o baile, Caleb?”

“É… sim, eu acho,” disse Caleb.

“Parece um bom programa,” concordou mamãe. “Você ainda tem de achar um vestido, não tem?” acrescentou ela olhando para mim.

“Pode nos dar uma carona até em casa?” perguntou Jack ao meu pai. Caleb e eu ficamos assistindo enquanto os nossos pais davam um jeito na logística para que pudés­semos tirar o dia de folga. Caleb conseguiu o carro do pai, e acabamos ficando com os cartões de crédito dos nossos pais.

“Mamãe e papai gostam de você,” disse Caleb, surpreso. Eu estava tão chocada quanto ele de ver nossos pais indo embora juntos. Não era a reação que eu esperava depois de ser chutada para fora da escola.

“Suponho que eu deva pagar o almoço,” falei brandindo o cartão do meu pai.

“Está me convidando para sair?” disse Caleb abrindo um sorriso. Ele girava o chaveiro do carro no dedo, esperan­do pacientemente pela minha resposta.

“Seria o nosso primeiro encontro oficial,” pensei alto. “Sim. Caleb McGuire, quer almoçar comigo?” Mamãe es­tava certa: tudo bem a mulher convidar o homem. Espe­cialmente se esse homem já ama a tal mulher.

“Com certeza,” respondeu Caleb. Em seguida respondeu de novo com uma exibição pública de afeto em pleno ter­ritório escolar. Pela primeira vez na vida, nós éramos os rebeldes.

Já tínhamos percorrido um bom caminho em direção ao shopping, conversando confortavelmente, quando, para enfatizar algo, sem pensar eu coloquei a minha mão na coxa de Caleb. A conexão entre nós disparou de um modo absolutamente excitante. Não houve nada visível externamente, apenas um grito interno de júbilo vindo dele. Não tenho meios de explicar o quão mágica era aquela sensação de afetá-lo profundamente com tão leve toque. Fiz um teste: subi ligeiramente a minha mão até metade da coxa. Desfrutei de uma explosão amorosa en­volta em algo que eu só conseguia explicar como uma promessa de mais.

“Você gosta do meu toque,” falei. Graças ao meu sorriso, ele só pôde concordar.

“Você está trapaceando de novo,” disse Caleb sem tirar os olhos do trânsito. Ele sorria tanto quanto eu.

“É tão alto quando você pensa em mim,” devolvi. Era como se ele estivesse berrando o meu nome. Cada peda­cinho de mim desejava responder.

“Agora estou meio obcecado,” admitiu Caleb. “Talvez em vinte ou trinta anos esmoreça.” Dei risada ao perceber o lado verdadeiro da piada. Eu jamais estive tão feliz quanto estou agora. Encontrei o incomparável, ou ele me encontrou. Não importa quem achou quem. Tudo que eu sabia era que estava melhor com ele, e que ele es­tava melhor comigo. Wendy tinha razão: os problemas da vida se tornam menos. Muito menos.

O shopping ficava magnificamente vazio numa segunda de manhã. Caleb e eu fomos capazes de vivenciar um ao outro sem sermos empurrados por outras pessoas. A li­gação entre nós era tão forte que eu podia identificar as coisas que o interessavam pela sutil alteração da atenção que ele dava a elas. Passando por uma nova loja da Ca­lendars & Games, eu pude sentir o seu desejo de entrar, quase um comichão pela minha pele. Adorei o que ele sentiu quando eu mudei a nossa direção para a loja. Ne­nhuma palavra, apenas o seu contentamento misturado ao meu enquanto olhamos os quebra-cabeças e jogos.

Meu telefone vibrou e na tela apareceu ‘Tio Hank.’ Pedi licença, deixando Caleb com suas guloseimas de pape­lão, e fui atender fora da loja.

“Bom dia, tio Hank,” eu disse com um sorriso que de­nunciava a minha felicidade.

“Oi, Teegan,” respondeu Hank. “Seu pai me contou que está matando aula hoje.” Seu tom não era tão feliz quan­to o meu.

“Estou no shopping com Caleb,” falei enquanto meu sor­riso se dissipava. “E não estamos exatamente matando. A escola nos mandou para casa por uma semana.”

“Então está explicado,” suspirou Hank. “Acabei de che­gar no Bangor International. Precisamos conversar.”

“Estou com Caleb,” eu disse severa. Era um dia nosso, não do tio Hank.

“Almoço,” insistiu Hank, “e é até melhor que Caleb este­ja lá. Temos um problema, e ele faz parte dele tanto quanto você.” Não gostei do tom, nem do fato de que ele pretendia invadir o meu tempo com Caleb.

“Não pode ser amanhã?” perguntei.

“Tem que ser hoje,” disse Hank. “Precisamos coordenar as nossas estórias. O coronel Righthouse me ligou à noi­te passada. Parece que o filho dele viu o vídeo do Caleb. Assim como o resto do mundo, ficou impressionado com as habilidades combativas do Caleb, e surpreso por en­volvê-la. Ele desenterrou os antigos relatórios sobre as façanhas de luta do seu pai. Ele não é estúpido, Teegan. No momento eles apenas suspeitam, e nós precisamos arrumar uma boa desculpa para ele não cavoquem mais fundo.

“Ok,” concordei, triste por ver o meu dia diminuído. “Es­tamos no shopping aqui em Bangor.”

“Se não me falha a memória, há uma churrascaria aí,” continuou Hank. “Combinamos mais ou menos à uma?”

“Ok,” suspirei.

“Quanto Caleb sabe?”

“Muito,” respondi, “mas não tudo.” Refleti por um se­gundo e acrescentei, “mas logo vai saber tudo. Não vou guardar segredos dele.”

“Seus pais gostam dele,” disse Hank, “então eu também vou gostar.” Com uma frase ele descobriu o quanto gosto de Caleb. Sua mente funcionava tão rápido quanto a de Caleb.

“Nos vemos à uma,” falei e depois me despedi. Eu devia ter me ligado com Caleb antes da festa quando ainda tí­nhamos tempo um para o outro. Agora eu ia arrastá-lo para o meu mundo em vez de descer deliberadamente no dele. Senti Caleb chegar por trás de mim.

“Você sabe que não vai mudar nada,” disse Caleb.

“O quê?”

“Isso que a preocupa,” respondeu Caleb, seus braços en­volvendo a minha cintura por detrás. Era uma coisa tão ‘casal’… Sorri me apoiando nele, e seus lábios surpreen­deram o meu pescoço. “Nada vai impedir o que temos,” sussurrou ele, que tinha sentido a minha apreensão.

“O tio Hank vai almoçar conosco,” eu disse cobrindo suas mãos com as minhas, mantendo-as exatamente onde deviam estar: na minha cintura. Outro beijo acari­ciou a pele logo abaixo da minha orelha, fazendo passar por mim uma torrente de calor.

“Eu senti,” disse Caleb orgulhosamente. Não era só eu que conseguia trapacear. “Não sabia que tinha um tio,” acrescentou ele, ser dar bola para o fato de que o nosso encontro para almoço tinha sido confiscado.

“Não é um tio de sangue,” eu disse, e então me virei nos braços de Caleb. Meus olhos encontraram os seus: vi e senti a confiança. “Ele me fez.” Não tinha certeza do que esperar da verdade, mas não era a ternura que recebi. Caleb afagou o lado esquerdo do meu rosto, empurrando o meu cabelo para trás da orelha. Lentamente se incli­nou e me beijou como se fosse o nosso primeiro. Sua mão manteve os meus lábios contra os seus, e o seu amor saturou cada pedacinho de mim.

“Então é alguém que preciso conhecer,” sussurrou Ca­leb. “Devo tudo a ele.” Tentei sem sucesso reprimir as lágrimas. Ele limpou uma lágrima da minha face. Tão confiante e instantaneamente mais maduro, ele deu um beijo onde a lágrima tinha rolado.

“Amo você,” eu disse no meio do shopping. Todas as mi­nhas muralhas caíram, e inundei Caleb com tudo que eu era. Ignorei o susto de mamãe e papai; meu poder au­mentava nos braços de Caleb. Ele abriu um sorriso e eu fui bombardeada com mais ainda do que eu tinha dado. Nos beijamos, e corei com a beleza que eu era em sua mente.

***

Levou apenas três horas para comprar um vestido de formatura e um smoking para o Caleb. Com o shopping praticamente vazio, as únicas esperas eram as das nos­sas próprias decisões. Adorei o olhar arregalado de Ca­leb quando experimentei o vestido azul que eu estava querendo. Era um vestido de chiffon aqua, de cintura alta, com um decote coração. Eu mal tinha seios para preenchê-lo. Percebi o quanto ele gostou. O que estava em sua mente era sexy com uma pitada de modéstia. Os pensamentos sensuais me fizeram sorrir, e seu conceito subiu. A ligação estava selando o nosso destino. Seu amor alimentava o meu, e era tão novo e fresco que fica­va difícil considerar o resto do mundo digno da nossa atenção.

“Vou levar,” falei ao vendedor. Caleb assentiu com entu­siasmo. O vendedor tirou as minhas medidas para fazer os ajustes, e eu lhe entreguei o cartão de crédito do pa­pai. Entre nós não havia mentiras, nem mesmo mentiri­nhas bobas. Por um instante eu me perguntei se isso não nos traria problemas no futuro; o excesso de verdade pode machucar. Afastei o pensamento. Não pre­cisava sabotar a perfeição.

Decidimos por um smoking preto com colete e gravata aqua. Quando Caleb saiu do trocador, desapareceu qual­quer dúvida de que ele era um homem. O garoto sumiu, e em seu lugar estava tudo que eu desejava. Seu olhar encontrou o meu: num segundo ele soube que era o smoking perfeito. Senti pena do resto das mulheres que estariam no baile. Elas nunca conheceriam o que eu co­nhecia. Nunca teriam o que eu tinha. Caleb fez uma pose e piscou para mim; dei risada do menino que ainda mo­rava no homem.

Tiraram as medidas de Caleb para os ajustes. Ele pagou, e assim como no meu caso, foi informado de que poderia pegar no sábado. Ele segurou a minha mão e voltamos sem pressa para o corredor do shopping.

“Caleb?” perguntou sorridente um homem mais velho. Pegou-nos de surpresa ao sairmos da loja de smokings. Vestindo jeans, camiseta e um paletó casual, fazia o tipo artista. Se tivesse um cachimbo, estaria pronto para um bate-papo esnobe ao pé da lareira.

“Perdão?” disse Caleb, retendo nós dois.

“Caleb McGuire?” perguntou novamente o homem.

“Quem quer saber?” eu disse dando um passo à frente. Não gostei do sorriso falso no rosto do homem.

“Chip,” disse o homem, “Chip Wellington.” Ele estendeu a mão. Segurei firme a mão de Caleb, e ele não estendeu a sua para cumprimentar Chip. Chip suspirou: “Veja, sou um repórter do Bangor Daily News, e você é o furo de hoje.”

“Não estou interessado,” disse Caleb, puxando-me deli­cadamente e contornando Chip para que pudéssemos continuar o nosso caminho. Sua força me fez sorrir, e eu o trouxe mais perto de mim enquanto andávamos.

“Vou escrever a matéria com a entrevista ou sem ela,” gritou Chip. Ignoramos e continuamos caminhando.

“Espero que tudo isto acabe logo,” disse Caleb quando já estávamos fora de alcance.

“Sinto muito por botar você nisto,” eu disse.

“Ah, pois eu não sinto,” disse Caleb com um sorriso. “Não consigo imaginar não ter mais você dentro de mim.” A declaração fez soar um alarme na minha euforia da ligação. Fiz com que ele parasse.

“Nosso amor vem da conexão?” perguntei.

“Eu já amava você muito antes da festa,” disse Caleb, pu­xando-me para si. “A conexão só me fez saber que eu não estava sozinho. Eu teria sofrido por anos tentando chegar perto assim de você. Agora todas as bobagens e indecisões foram jogadas para escanteio. Amo amar você.” Nos beijamos no shopping pela segunda vez. Meu coração flutuava a 100 quilômetros de altura, dançando com ele numa nuvem. Coisa linda era a perfeição.

Interrompi o beijo com um sorriso. Se alguém me per­guntasse três dias atrás, eu teria dito que nunca partici­paria de uma demonstração melosa e pública de afeto. E aqui estava eu, praticamente arrancando a roupa de Ca­leb no meio do shopping.

“Mais tarde,” eu disse com um leve tempero de lascívia. O sorriso de Caleb foi um indício de que ele entendeu. Me perguntei se duas pessoas já tinham sido felizes as­sim algum dia. Será que a vida para a maior parte do mundo era ordinária e chata? A ligação era uma droga tão poderosa…

***

Hank apertou a mão de Caleb antes de se sentar conos­co. A garçonete anotou as nossas bebidas e deixou-nos à vontade com o cardápio. A conversa começou leve: o cli­ma ameno, como é a carne aqui… Hank perguntou so­bre a música de Caleb, sabendo de algum modo que ele preferia a ciência musical à das matemáticas. Fiquei sur­presa por Hank conhecer a área, usando palavras que eu não compreendia mas que faziam Caleb sorrir. Os dois se deram bem, o que ao mesmo tempo me agradou e me aborreceu. Eu estava feliz por Caleb e Hank gostarem um do outro, mas havia uma estranha decepção por par­tilhar Caleb, mesmo que por uma refeição.

“Quanto você sabe?” perguntou Hank ao Caleb depois que a garçonete saiu com os nossos pedidos. Enquanto esperávamos por Hank, eu tinha preenchido algumas la­cunas. Não foi surpresa Caleb regurgitar facilmente o que eu tinha lhe contado. Hank assentiu e, agora que re­conhecia a minha confiança completa em Caleb, acres­centou outros fatos.

“Neste momento os militares estão tentando descobrir onde você aprendeu a lutar daquele jeito,” Hank infor­mou ao Caleb. “Seu pai, infelizmente,” acrescentou olhando para mim, “me fez dar uma olhada em Caleb antes do seu primeiro encontro. Foram os militares que fizeram a pesquisa, e não apareceu nenhum treinamento em artes marciais.”

Suspirei alto. Eu sabia que papai tinha feito uma verifi­cação, mas não imaginava que tinha usado todos os re­cursos à disposição.

“Ele fez assim por amar você,” disse Hank, corrigindo os meus pensamentos evidentes. Ele voltou a olhar para Caleb: “Você não é a primeira pessoa a receber conheci­mento externo em situações de stress. Tenho mantido os militares no escuro a respeito dessa habilidade, mas eles sentem que alguma coisa não está certa.” Hank fez silên­cio e olhou entre Caleb e eu. “Quem é esse?” Viramos para onde Hank estava olhando.

“Um repórter,” disse Caleb. “Chip Wellington, do jornal local. Já falamos a ele que não estamos interessados.” Wellington tinha ocupado uma mesa em linha visual di­reta com a nossa.

“Droga,” disse Hank, “um terceiro problema para resol­ver.”

“Terceiro?” perguntei.

“Os dois primeiros se referem às ações de Caleb na fes­ta,” respondeu-me Hank. “Um: como ele soube que você estava encrencada? Dois: onde ele aprendeu a lutar como um perito? Além disso, agora temos que manter os dois longe de mais publicidade.” Hank suspirou. “Ele está tirando fotos com o telefone.” Eu e Caleb olhamos para trás e flagramos o Wellington enfiando rapidamen­te o telefone no bolso.

“Estou ficando de saco cheio de telefones,” falei.

“Esperem aqui,” disse Caleb ao se levantar. Senti falta da sua mão quando ele passou rápido por mim na direção do Wellington. Quase o segui, mas Hank me reteve no assento. Virei para ver Caleb se sentar ao lado de Wel­lington e ter uma breve conversa. Não era cordial, evi­dentemente, mas também não era hostil. Depois de al­guma discussão, Caleb retornou à mesa e Wellington foi embora.

“Use um problema para resolver os outros dois,” disse Caleb. Hank ergueu as sobrancelhas. “Contei a ele que um amigo me contou que Mason seguiu Teegan até o quarto. Expliquei que havia uma história entre Mason e Teegan, e que eu sabia que causaria problemas. Welling­ton está ciente agora de que eu venho treinando boxe com meu pai há cinco anos, usando a Internet para apreender defesa pessoal. O resto eu consegui graças à adrenalina. Vou ter de conversar com papai antes que al­guém o interrogue, mas isso deve acalmar quase todos com exceção dos mais ardentes teóricos da conspiração.” Hank deu risada, e eu fiquei cheia de orgulho. Meu amor tinha uma mente a jato.

“Você pensa rápido,” disse Hank. “Não que você precise da minha aprovação, Teegan, mas a tem.” Sorri e colo­quei a mão de Caleb na minha. Os problemas ficam mui­to menores quando partilhados.

“Então o que você pensa disso tudo?” Hank perguntou ao Caleb antes de dar outra mordida na carne. Enquanto esperávamos pela comida, Hank e eu tínhamos esgotado as anedotas divertidas da minha infância e adolescência. Eu vi Caleb somando mentalmente aquilo, se divertindo à beça com as minhas aventuras durante o meu desen­volvimento. Vou tentar não me esquecer de obter algu­mas informações dessa espécie com a mãe dele. Tudo vale no amor.

“Absolutamente impressionante,” respondeu Caleb. “A primeira vez que senti Teegan,” ele colocou a mão no meu pulso, “foi demais de forte. Minhas emoções fluí­ram muito naturalmente e quando eu senti as dela… bom, queria mais.”

“Tem gente que ficaria meio apavorada com isto,” men­cionou Hank.

“Eles não conseguem ver o anjo,” disse Caleb com um sorriso.

“Ou não foram feitos para mim,” acrescentei, enrubes­cendo às palavras de Caleb. Nossos olhares se encontra­ram e trocamos um milhão de palavras silenciosas. Pru­dente, Hank voltou à sua refeição para que tivéssemos o nosso momento.

“Fico contente por vocês terem um ao outro,” disse Hank após uma pausa apropriada. “Estava começando a me preocupar que você temesse demais as suas habilida­des.”

“Eu temia,” admiti. “Acho que quando a barragem se rompeu, tudo mudou. Agora parece natural que sinta­mos um ao outro.”

“Seria difícil parar com isto,” acrescentou Caleb. “A liga­ção é muito cristalina, e lava as tralhas que tornam tudo tão complicado. Eu vivia metendo os pés pelas mãos e então puf! a verdade acertou tudo num microssegundo.”

“Éramos um casal relapso,” disse eu, acrescentando uma risadinha. Relembrei a minha aversão ao rótulo ‘casal’: o tempo todo insistindo que fôssemos amigos quando o meu subconsciente estava gritando por mais. Era a pri­meira vez que o meu poder saía da categoria de ‘chatea­ção.’

“Este bife está excelente,” disse Hank, mudando de as­sunto. O resto do almoço foi mais amistoso, com o as­sunto da ligação posto de lado. Hank virou mais o tio que pretendia ser, perguntando sobre os nossos planos e não nos dando bronca por não termos nenhum. Falou que éramos muito novos para termos tudo resolvido, e que confiava na nossa capacidade de fazer tudo funcio­nar no final.

Hank e Caleb ficaram amigos; era um dos objetivos de Hank, eu acho. Hank se preocupava comigo, tratando meus problemas como se fossem os dele. Às vezes eu concordava com ele. Caleb assumiu uma parte da sua su­pervisão, e a amizade permitiu que Hank continuasse em contato. Fomos todos embora do restaurante com promessas de almoçar mais vezes no futuro.

Enquanto Caleb e eu andávamos pelo estacionamento, de mãos dadas, até o seu carro, eu tive mais visões de mim mesma na mente de Caleb. Com aqueles sonhos de um eu impossível vieram emoções que arrepiaram cada pedacinho de mim. Era impossível não desejar mais.

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