O Casamento: Capítulo 18

Dez dias se passaram até que a comitiva de frente viesse com a notícia de que o irmão de Angelica e – o mais importante – Mylle chegariam em poucas horas. Tínhamos mergulhado em preparativos para o casamento. Parecia que as duas rainhas tinham tomado por missão engrandecer o evento. Angelica, que de primeiro não parecia se importar, agora já se envolvia de coração em cada pequeno aspecto. Eu tinha feito questão de encontrar tempo para ficar a sós tanto com Angelica quanto com Alia.

Consegui dar a Alia a sua primeira lição de equitação. O medo inicial que ela teve do cavalo manso que Cory lhe escolheu se dissipou rapidamente, reemergindo em forma de adulação. Alia, em pouco tempo, criou vínculos com Apple. Apple era um bicho feio, quase todo marrom, com metade do traseiro pintada de branco. Embarrigava no meio, era atarracado de pernas, e mais lento que uma lesma. Alia achava que ele era o supra-sumo dos cavalos. Cory me contou que Alia fazia inúmeras visitas a Apple para dar-lhe regalos. Apple sabia de onde vinham os seus benefícios, e fazia-lhe carinhos com o focinho sempre que podia. Não tive coragem de dar-lhe uma montaria melhor. Quando o seu amor sorri, você vai na onda e aproveita.

Aguardamos a chegada no pátio principal. A guarda cerimonial estava vestida de vermelho. Os reis, as rainhas, Angelica e Alia estavam presentes. Alia, agora pupila da coroa, estava excitadíssima com a experiência toda. Eu achava uma bobagem, mas a tradição ditava que encontrássemos o futuro rei deste jeito. Angelica tinha me alertado para o estado de espírito de Uri: que eu me preparasse para os cumprimentos sombrios. Angelica, contra a sua natureza, tinha se calado desde que os cavaleiros tinham chegado. Imaginei que ela estivesse mantendo a animação sob controle, numa tentativa de não dar na vista.

Uri cavalgava à frente de dez cavalos. Seu rosto barbado e sombrio, suas costas eretas como uma prancha. Era o rosto do pai, sem o sorriso. Minha mãe avançou e fez a saudação formal. Uri agradeceu formalmente, sem abandonar em nenhum instante a sua expressão dura. O rei Toric avançou e apresentou o filho à família Southerson. Não houve gracejos, nem apertos de mão acalorados. Uma simples reverência foi tudo o que ele ofereceu, e foi tudo o que recebeu em troca. Causou-me aversão instantânea. Quando me apresentaram, o seu olhar, até então indiferente, se tornou indignado. Devolvi-lhe olhar semelhante, e fiz questão de fazer uma reverência menor do que a sua.

Em seguida o rei Toric fez a sua pupila, Senhora Mylle, avançar. Era uma mulher miúda, que batia no meu ombro. Tinha longos cabelos, e eram negros, combinando com os olhos escuros. Parecia apreensiva ao ser apresentada, seus olhos caindo repetidamente sobre Angelica, embora esta tentasse desesperadamente não chamar a sua atenção. Uri observava Angelica de perto, o que me pôs de sobreaviso.

Minha mãe e meu pai receberam um sorriso tímido de Mylle quando ela lhes foi apresentada. Pareceu nervosa ao ser apresentada a mim. Era evidente o pânico por detrás do salpicado de sardas que lhe cobria a porção superior do nariz.

“Príncipe Cayden,” disse Mylle com voz delicada, fazendo a mesura apropriada. Mostrei-lhe o que pensava ser um sorriso charmoso, dei um passo adiante, fiz uma reverência e tomei-lhe a mão que me oferecia. Beijei suavemente os nós dos seus dedos.

“Senhora Mylle, você é extremamente bem-vinda,” falei com clareza. Uri emitiu um grunhido de desgosto quase imperceptível. Ignorei-o. “Andava ansioso para conhecê-la. A princesa me contou muita coisa a seu respeito. Por alguma razão, ela esqueceu de mencionar a sua beleza, minha Senhora.” O enrubescimento das suas faces e o sorriso que recebi valiam mais do que cem grunhidos do Uri. Alia cumprimentou Mylle com um especial e extasiante sorriso. Com isto, Mylle pareceu melhorar. Eu suspeito que ela não sabia exatamente o que se passava aqui.

“Senhora Alia,” interveio minha mãe quando as apresentações estavam completas, “você pode mostrar o quarto à Senhora Mylle, e ajudá-la a se acomodar?”

“Sim, vossa Alteza,” disse Alia, toda contente. Rapidamente, ela tomou Mylle pela mão e desapareceu para dentro da torre principal.

“O Príncipe Uri fica a seus cuidados,” disse minha mãe olhando para mim. O olhar era de desculpas, mas um dia eu hei de ser rei. Serei forçado a suportar diversas missões questionáveis. Perto da maioria delas, esta seria quase nada.

“Príncipe,” falei, indicando a porta. Ele me acompanhou em silêncio. Estávamos subindo a escada quando o silêncio passou a incomodar. “A viagem foi dura?” perguntei, assumindo que o seu mau humor se devia em parte pelo dia ruim. Ele ignorou a pergunta, mas fez uma outra.

“Por que é que Mylle foi convocada para cá?” perguntou Uri, rudemente.

“Porque eu pedi,” respondi com firmeza. Isto não parecia nada bom. Eu não tentaria fingir boas maneiras.

“Está ciente da história dela?” retrucou Uri. Parei no degrau e me voltei para ele.

“Inteiramente,” disse eu, marcando território. “Você veio para perturbar a aliança?”

“A palavra do meu pai está valendo,” disse Uri, rispidamente, “assim como a minha opinião.” Assenti e continuei a subida. Não seríamos amigos. Levei-o pelo corredor, na direção do quarto dos seus pais, e parei no que lhe era imediatamente anterior. Abri a porta. “Você vai permitir que a vergonha dela perdure?”

“A sua preocupação com ela está no fim,” disse eu, “sua opinião não tem peso algum aqui.” Deixei-o ali no corredor. Não me importava mais se ele achava o quarto confortável. Eu mal podia esperar pelo dia da sua partida.

Voltando ao meu quarto, respirei fundo algumas vezes e sacudi o encontro para longe. Não desejava levar os dissabores aos outros. Fiquei surpreso ao achar três mulheres no meu quarto. Alia, Angelica e Mylle estavam sentadas, e obviamente me esperavam. Mylle soltou abruptamente a mão de Angelica quando entrei, evidentemente um ato reflexo adquirido em anos de dissimulação.

“Deu certo?” perguntou Angelica.

“Nos entendemos,” respondi, “a palavra do seu pai continua valendo.”

“Pelo menos isto,” disse Angelica.

“Como foi a sua viagem, minha Senhora?” Eu me dirigi a Mylle em tom amistoso.

“Longa, meu Senhor,” respondeu Mylle. “E agora estou confusa com as palavras da minha princesa.” Angelica sorriu suavemente para mim. Era óbvio que a explicação tinha sido demais.

“É estranho mas é simples, minha Senhora,” disse eu, com toda a calma, “os reinos exigem uma aliança através de um casamento. A minha noiva e eu amamos outras pessoas. Decidimos ficar com ambos: o amor e o casamento.” Angelica estendeu o braço e pegou novamente a mão de Mylle. Mylle me olhou, à espera da desaprovação. Em vez disto, sentei-me junto a Alia e peguei a sua mão.

“Você permitirá isto?” perguntou Mylle, enquanto segurava a mão de Angelica.

“Só se você desejar,” disse Alia antes que eu tivesse a chance de responder. Foi melhor que ela tenha falado. Não me cabia permitir ou proibir. Notei que se formava uma lágrima no olho de Mylle.

“Podemos ficar juntas?” Mylle questionou Angelica.

“Para sempre, minha querida,” respondeu Angelica, com doçura. As lágrimas começaram a rolar, e eram contagiosas. Alia ficou de pé e me guiou para fora do quarto. Deixamos as duas lá, juntas. Ninguém as procuraria no meu quarto. Alia me arrastou para o estábulo a fim de paparicar Apple.

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