A Presa: Capítulo 23 – Anthony

Odeio o cheiro de hospitais. A cozinha, em torno da qual o meu mundo costuma girar, tem cheiros tão agradá­veis… O pão saído do forno é uma via de mão única para o céu. Deixei de respirar pelo nariz para conter a invasão da catinga medicinal esterilizada. Se eu usasse demais as minhas narinas, o fedor forte iria penetrar nas glândulas olfativas e torná-las inúteis para sentir os temperos por muitas horas.

“Eu quero ver o Sr. Sabbatini,” falei à enfermeira na re­cepção.

“Nome?”

“Anthony Lewis,” eu disse. Tapei meu nariz com a man­ga da camisa na esperança de que ela filtrasse os cheiros novos que bafejavam pelo corredor. A enfermeira virou algumas folhas do livro e encontrou o meu nome.

“Quarto 108,” disse a enfermeira com um sorriso. Eu as­senti e andei rápido, torcendo para que no quarto dele ao menos uma parte dos odores estivesse contida.

O quarto estava escuro como sempre. As cortinas esta­vam fechadas como se o sol fosse fazer mal ao velho aca­mado. Sabbatini já tinha vivido uma vida e meia. Toda a sua pele exposta era enrugada e apresentava manchas que mais pareciam doença do que aquelas pintas nor­mais dos idosos. Seus olhos, com suas íris negras, eram ainda extremamente vivos. Eles nunca tinham perdido o estado de alerta e nem a capacidade de exigir a minha le­aldade.

“Bom dia, Sr. Sabbatini,” eu disse com formalidade. Nada era informal no homem. Mesmo preso à cama, ele exigia respeito; eu o fazia de bom grado.

“Tem notícias, Anthony?”

“Acho que encontramos a coisa, senhor.” Saiu menos confiante do que eu pretendia. Eu detestava que o Sab­batini me fizesse sentir tão fraco.

“Acha?”

“Estou bastante confiante,” eu disse com mais força. “Terei a confirmação em um dia ou dois.”

“Levou o quê, 20 anos?”

“17, senhor,” eu disse, empalidecendo por corrigir um homem tão poderoso.

“Você sabe o que isto significa para mim,” disse Sabbati­ni. “É impensável encontrar o meu criador sem livrar o mundo desta cria de demônios. É o único motivo para eu ter sido posto aqui na Terra, e o motivo porque insisto em respirar ainda hoje.”

“Sim, senhor,” concordei, como se o contrário fosse pos­sível.

“Por que acha que encontrou a coisa?”

“Parece que a moça se meteu em…”

“Moça?!”, berrou Sabbatini.

“Coisa, senhor,” corrigi, esquecido de que humanizar um demônio era o primeiro passo para a danação.

Eu tinha seguido tantas pistas falsas por 17 anos… Agora a busca pode estar no fim. E pensar que uma vez eu tive a coisa nas mãos e fracassei, mais preocupado com a mi­nha vida do que com o destino do mundo.

“Foi atacada por um jovem garoto,” eu disse.

“Um mensageiro de Deus,” assentiu Sabbatini. Todo o incidente se tornou público por causa do garoto. Sorri diante do sinal que eu não tinha reconhecido. Deus esta­va nos convocando.

“Outro jovem garoto, com habilidades de luta, chegou com toda a violência possível para proteger a coisa,” continuei. “O incidente foi gravado num telefone e pos­tado na Internet.”

“Está montando um exército,” concluiu Sabbatini. “Você vai ter de se mexer rápido antes que seu número aumen­te.” Me deu um calafrio de pensar em mais guerreiros da coisa lutando como aquele no vídeo. O homem parecia alimentado incontrolavelmente pelas chamas do infer­no. “Como você sabe ao certo que era o demônio?”

“Sua mãe adotiva estava lá,” respondi orgulhoso. “Nunca vou esquecer seu rosto.”

“Cuidado,” disse Sabbatini, “a coisa corrompe os próxi­mos a ela. Depois de se converterem, vão defendê-la com as próprias vidas.” Eu fiz que sim com a cabeça, o ataque à casa do Corbett ainda bem vivo na memória.

“Assim que tivermos certeza,” eu disse, “vamos abater a coisa à distância. Vamos ver se desvia de uma bala.” Sabbatini sorriu e alisou os poucos fios de cabelo grisa­lho que ainda pendiam de sua cabeça manchada. Um homem que não conhecesse como eu a força da sua fé te­ria considerado de mau agouro aquele sorriso amarelo. Eu sabia o que era: o servo do Senhor finalmente vendo a vontade de Deus sendo cumprida.

“Sim,” disse Sabbatini, “o que for preciso. Todos os meus recursos estão à sua disposição.” Ele ergueu os olhos para o teto e o sorriso cresceu. “Pena que o Blackstone não está vivo para ver a culminação de nossos esforços.”

“Não vou fracassar desta vez,” prometi.

“É bom mesmo que não,” afirmou Sabbatini. “Avise-me logo que estiver feito.”

“Sim, senhor,” eu disse e saí, dispensado do quarto por um gesto de sua mão. Ao sair do hospital, respirei fundo deixando o ar puro limpar o meu nariz. Era um contra­tempo deixar a besta atingir a maturidade. Nada que não pudesse ser corrigido, mas teria sido mais fácil e menos público se pudéssemos ter dado um jeito anos atrás. Não importa. Como soldado de Deus, mesmo com obstáculos diante de mim, vou clamar a vitória em Seu nome. Sorri pela leveza dos meus passos. Era como se Deus mesmo estivesse me elevando.

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