O Casamento: Capítulo 17

“Achou-se o que se perdeu, meu Senhor.” Lucius falou com um sorriso. Eu tinha decidido me recolher, e encontrei-o do lado de fora do meu quarto. “Se não precisa de mim para mais nada, eu vou me recolher.”

“Há alguém no meu quarto, Lucius?” perguntei, mesmo sabendo a resposta.

“Sim, meu Senhor,” inclinou-se Lucius em reverência, e daí partiu sem a minha licença. Ele sabia que já a tinha. Respirei fundo algumas vezes. A noite passada não tinha corrido nada bem. Esperei que as lembranças se desvanecessem; não as queria comigo lá dentro. Abri a porta e entrei sorrindo.

Alia estava sentada na mesma cadeira da noite anterior. Segurava uma taça cheia de vinho, e outra me aguardava. Como anteriormente, o fogo realçava os seus cabelos. Em vez de sedas, ela usava o vestido rosado do jantar – e tinha o mesmo sorriso no rosto. O meu era mais tímido, a minha mente inundada novamente pelas recordações da noite passada. Mirando-me, ela cruzou as pernas com calma e doçura.

“Você tem o hábito de deixar uma senhora esperando?” perguntou Alia, áspera. Encarei-a enquanto ela tomava um pequeno gole do vinho. Eu não sabia se valia a pena arriscar uma brincadeira. Uma repetição da noite anterior seria mais do que horrível.

“Alia… é meio cedo para… isto,” disse eu do jeito mais amistoso que pude. Ela tomou outro pequeno gole do vinho, levantou-se e depôs a taça sobre a mesa. Sorrindo, soltou os laços nas laterais do vestido, e tirou-o passando pela cabeça. Nua, pegou de volta a taça de vinho, sentou-se novamente e cruzou as pernas de volta. Não parecia mais a noite anterior.

“Você está sem as roupas de baixo, minha Senhora,” falei com um largo sorriso.

“Achei que iriam atrapalhar.” Alia girou o vinho em sua taça, e tranqüilamente bebeu outro gole.

“Desculpe-me por tê-la feito esperar, minha Senhora,” disse eu, entrando no jogo. Alia fez um gesto na direção da taça sobre a mesa. Tomei-a e senti o gosto daquele mesmo vinho inebriante da última noite. Sentei-me na cadeira mais próxima a ela, vendo a sua expressão se alterar.

“Você senta assim sem ser convidado?” perguntou Alia, sisuda. Ela se controlava, com dificuldade, para manter uma cara de séria. Simplesmente adorável. Fiquei de pé num pulo.

“Mil perdões, minha Senhora,” disse eu, contrito. Ela acenou com a mão, com ar ausente, como se desculpasse o meu erro. Como não me deu permissão para sentar, permaneci de pé.

“Agüentei o dia todo sem ninguém para me satisfazer,” suspirou Alia, inspecionando a sua taça de vinho, “tenho dúvidas se você é capaz.” Ela me fitou de alto a baixo, como quem avalia um cavalo. Eu tentava, desesperadamente, não dar risada. Senti também um forte comichão por entre as pernas. Sua nudez me despertava.

“Mais do que capaz, minha Senhora,” disse eu, sem conseguir controlar o riso. Alia franziu os lábios para segurar o próprio riso, e olhou para o vinho.

“Dispa-se. Verei se algo me agrada.” Alia acenou, ordenando novamente. Depus a minha taça de vinho.

“Como queira, minha Senhora.” Removi a camisa, atirando-a a um canto. Lutei para tirar as botas sem me sentar, uma tarefa difícil para qualquer um acima dos dez anos. Quase caí, o que provocou uma risadinha abafada. Logo, por sobre a minha camisa, formou-se uma pilha: minhas botas, minha calça, minhas roupas de baixo. Permaneci de pé, a minha virilidade rígida pela expectativa.

Alia mordeu o lábio inferior para abafar um sorriso. Com ar ausente, ela acenou para que eu avançasse. Me aproximei, um pouco envergonhado pelo balançar da minha masculinidade. Ela estudou-a, depois estendeu a mão, segurando com dois dedos a haste. Ergueu-a; daí deixou cair. Estremeci sem querer. “Impressionante, mas será que foi lavado?” Bebeu outro pequeno gole do vinho, enquanto aguardava a minha resposta.

“Eu nunca apareceria diante da minha senhora sem antes me lavar,” falei, prosseguindo com o jogo.

“Que sabor tem?” perguntou Alia. Desta vez os seus lábios austeros estavam prestes a rebentar num sorriso. Eu não tinha resposta. Inábil, só consegui bolar uma meia-resposta.

“Sabor de homem, minha Senhora,” disse eu. O riso e a excitação se acumulavam. Era um jogo divertido. Alia sacudiu a cabeça.

“Tsc, tsc, tsc… isto não serve.” O sorriso de Alia se transformou em malícia. Olhou-me de relance, e então despejou o conteúdo da taça ao longo da minha virilidade. Desta vez ela soltou o riso, e o estímulo me fez prender a respiração. Surpreendido, ameacei dar um passo atrás, mas a sua outra mão agarrou o meu traseiro e me puxou. Os seus lábios me envolveram suavemente, e ela me colocou na boca.

O calor de Alia tragou a minha rigidez. A vista dos seus lábios indo e voltando lentamente pela minha virilidade era mais prazerosa do que tudo o mais que eu já havia sentido. Me esforcei para permanecer imóvel e aproveitar as suas maquinações. Senti a sua língua mexer vigorosamente no lado inferior, me tentando com mais prazer. Suas bochechas cederam à medida que ela foi me puxando mais fundo, sempre mais fundo. Escutei a sua taça de vinho cair no tapete, e senti a sua mão subir pelo lado interno da minha coxa. Quando chegou à junção, ao ponto onde as pernas encontram o meu sexo, a sensação passou dos limites.

“Alia…” avisei. Me segurei, num esforço quase dolorido, para dar-lhe tempo. Ela me puxou mais fundo, amando tudo em mim. Perdi então o controle do meu destino, e me esvaziei com um forte gemido. Delicadamente, ela me convenceu a continuar até a plenitude, sem me soltar um segundo. As minhas pernas ficaram bambas, e eu me sustentei em suas mãos. Amei-a profundamente pelo amor que ela demonstrou. Minha verdadeira esposa.

Alia beijou levemente a ponta quando retomei o controle do corpo. Ela se ergueu, mirando em meus olhos. “Nunca mais haverá outra noite como a última, Cayden.” Disse isto com uma convicção tal que o meu coração acreditou sem reservas. Puxei-a junto a mim e beijei-a com fervor, sem me importar com o meu próprio gosto.

“Minha Senhora ainda não está satisfeita,” sussurrei em seu ouvido.

“Hmmmm, isso é com você, meu Senhor,” arrulhou Alia. Carreguei até a cama a minha bela desnuda e deitei-a ali. Comecei pelos dedos do pé. Na hora em que ela se deixou estar em meus braços, completamente satisfeita, somente brasas tinham restado no fogo. Adormecemos imóveis, presos um no outro.

Foi delicioso despertar com Alia. Ela acordou bastante sensual, espreguiçando-se lentamente, como se espera de uma gata. Meus ouvidos acolheram os seus gemidinhos femininos e os seus suaves mimos. Beijei-lhe o ombro, e ela se aconchegou mais um pouco. Se eu não tivesse prometido ir cavalgar com Angelica, ficaria o dia todo ali.

“Venha cavalgar conosco,” sugeri. Alia abriu os olhos castanhos, sonolentos. Olhou para mim, tentando discernir o significado.

“Jamais montei a cavalo,” respondeu Alia, como se a idéia fosse absurda.

“Vou ensiná-la, então,” falei, “se eu pudesse, preferia vê-la mais fora da cama.” Alia sorriu para mim. Seu sorriso matutino era mais adorável do que o vespertino.

“Você sabe que Angelica vai ficar com ciúmes,” disse Alia, com voz doce. Era uma afirmação curiosa, na qual meditei enquanto brincava com as pontas dos seus cabelos. “Ela gosta de passar o tempo com você, pelo que me contou.” Eu também me divertia com as cavalgadas que dava com Angelica. Pareceu, à primeira vista, que acrescentar Alia tornaria a diversão ainda melhor. Pensando bem, e lembrando a preocupação de Angelica no jantar, eu me distanciava dela.

“Eu não tinha pensado além de você,” falei com um sorriso, “preciso lembrar que tenho uma noiva. Você terá que parar de ser tão atraente; deixar uma barba crescer, talvez.” Ficava cada vez mais fácil provocar risos em Alia.

“Cavalgue com a sua noiva hoje,” disse Alia, beijando-me, “faça o reino saber que os dois são um. Depois volte para mim.” Dei-lhe mais um beijo antes que ela se arrastasse para fora da cama.

“Um dia lhe ensinarei a cavalgar, minha Senhora,” falei, e o meu olhar absorveu a sua nudez. Ela se voltou para mim enquanto se vestia.

“Mal posso esperar,” sorriu Alia, “é sério, quero mesmo.” Saltei para fora da cama, contente com os meus pensamentos futuros. Fiquei imaginando que Alia e eu cavalgaríamos pelos campos e sentaríamos sob as árvores. Quando Mylle chegasse, Angelica desejaria o mesmo para si.

Cory me esperava segurando as rédeas de Storm. Angelica já estava passeando com Sunrise pela cocheira, evidentemente ansiosa para começar. Já que eu estava de bom-humor, brinquei com Cory.

“Você traiu o seu príncipe, Cory.” Me diverti com a sua expressão confusa. “A sua lealdade fica instável na presença de uma bela princesa.” Eu não esperava que ele captasse tão rapidamente, mas os gracejos anteriores o haviam escolado.

“Ai, meu Senhor, a princesa sorriu e eu entreguei tudo,” Cory entrou no jogo.

“Parece até que você prefere que ela vença,” caçoei mais um pouco. Angelica sorria, radiante, com o diálogo.

“Perdão, meu Senhor,” disse Cory, contrito, “não tenho desculpas para isto. O que a minha futura rainha deseja também está no meu coração.” Cory pensava mais rápido do que eu imaginava. Tive um renovado respeito por ele.

“Perdoado,” falei em voz alta, “a princesa me encantou do mesmo jeito. Nós, homens, não temos defesa contra tais beldades.” Angelica corou. Foi mais agradável do que deveria. Cory fez uma ligeira reverência e me entregou as rédeas de Storm. Montei com um floreio – estava me sentindo excepcionalmente bem. Angelica cutucou Sunrise para que trotasse. Storm e eu fomos atrás.

“Bom dia, minha Princesa,” disse eu, jovial, emparelhando.

“Bom dia, meu Príncipe,” replicou Angelica, “pensei, por alguns instantes, que fosse cavalgar sozinha.” A voz era afável, mas eu senti uma pontinha de mágoa.

“Eu me deixei… distrair,” disse eu a modo de desculpas, “seria doloroso perder a cavalgada com você. Gosto das nossas horas juntos. Me estimulam.” Angelica sorriu, e notei que o seu antigo eu retornava.

“Então… você acha que Alia é uma distração?” provocou Angelica.

“Admito que a minha mente se deixa levar por ela,” falei a verdade, “veja que eu valorizo também o que nós temos. O seu raciocínio é ágil, a companhia é agradável. Não posso imaginar ninguém melhor para ser a minha rainha.” Angelica fez Sunrise diminuir o ritmo, e Storm acompanhou o passo.

“Você não gostaria que Alia fosse a sua rainha?” perguntou Angelica.

“Alia seria uma boa rainha, você será excelente,” respondi com sinceridade, “tenho que pensar nos reinos, seu e meu.”

“Fiquei chateada hoje de manhã,” admitiu Angelica, “dividir a sua atenção é mais difícil do que eu pensava de primeiro. Isto o surpreende?” Fiz Storm parar, e Sunrise também parou.

“Que você o admita, sim,” respondi. “Pareço desinteressado?”

“Agora não, mas quando Alia está perto, sim,” respondeu Angelica. Não havia mágoa na voz. Não estava perturbada. Estava me informando.

“Preciso equilibrar melhor as coisas,” falei. As palavras do rei Toric me voltaram à mente: “Rogue para que três mulheres não o levem prematuramente à sepultura.”

“Assim como eu, quando Mylle chegar,” acrescentou Angelica. Por causa de Angelica, eu não via a hora da chegada de Mylle. Ressentia aquilo, estranhamente, lá no fundo. Não podia desvendar o motivo. A felicidade de Angelica era tão importante quanto a minha. Dias atrás eu fui intransigente com o rei, e fiquei orgulhoso de fazer o pedido. Não havia razão para negar. Me incomodava, simplesmente.

“Ah, também está na sua cara,” disse Angelica, “melhor agora, que ambos percebemos.”

“Percebemos o que?”

“Que estamos nos apaixonando, seu idiota,” disse Angelica, em tom irritado por ser obrigada a colocar em palavras. “Não o amor que sentimos por Mylle e Alia, mas, mesmo assim, amor. Tenho ciúmes de Alia. Você fez cara de quem chupou limão quando mencionei Mylle. Nega?”

“Vai tornar as coisas mais difíceis,” disse eu, percebendo que ela tinha razão.

“Ou mais fáceis, eu não sei,” acrescentou Angelica. “O que será que Alia e Mylle acham? Montamos esta família, e acontece isto agora. Devemos contar a elas?”

“Deus! Acho que ela já sabe,” falei, lembrando a conversa matutina a respeito do ciúme de Angelica. Minha mãe só precisou pressionar um pouquinho para Alia duvidar de mim. As perguntas a respeito do meu tédio por não estar com ela durante o dia. A conversa de gerar um herdeiro. Ela se via competindo e perdendo. Agora me jogava para cima de Angelica – tinha decidido partilhar. A mente de Angelica estava exposta para qualquer um ver. A de Alia era mais sutil, mas tão cheia de cálculos quanto a da outra.

Storm relinchou e agitou as pernas dianteiras. Estava entediado com a parada. Virei-o em direção a um caminho de carroça, e para ali rumamos a passos lentos.

“O ciúme acabaria arruinando tudo,” sugeri.

“Só se nos rendermos a ele,” disse Angelica. “Arrumamos tempo um para o outro. Não ignoramos nenhum de nós.”

“E a paixão, onde fica?” perguntei. “Talvez seja outra coisa, isto.”

“Talvez seja. Crescerá, e daí veremos. Acho que a paixão não fará parte disto.” Angelica olhou para mim e sorriu. “Você me intriga. Vê-lo nu, não.” Tive que dar risada.

“Tampouco eu a desejo,” falei com um largo sorriso. “Porém, sendo homem, vê-la nua seria intrigante.” Angelica esticou o braço e tentou me estapear no ombro. Desviei rapidamente e ela errou o alvo.

“Está vendo aquela árvore, uma de galhos pendentes?” Apontei para o outro lado do campo, em cujas fronteiras estivemos cavalgando. Parecia distante cerca de um furlong. Angelica fez que sim com a cabeça.

“Um desafio?” o sorriso de Angelica se abriu.

“Vai!” berrei. Minhas rédeas estavam muito soltas. Storm deixou orgulhoso o seu sire, mas Sunrise se deu melhor no percurso em linha reta. O grito de vitória de Angelica era música para os meus ouvidos. Realmente eu gostava do seu contentamento.

Passamos o resto da manhã cavalgando pelos arredores, observando as partes que ela ainda não tinha visitado. Foi relaxante, depois das revelações anteriores. Planejamos cavalgadas mais longas para os dias seguintes. Cavalgadas que nos levariam perto das fronteiras do reino. Havia muita coisa que ela queria ver. Havia muita coisa que eu queria lhe mostrar. Se fosse amor, seria uma vela comparada ao inferno ardente de Alia.

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