A Presa: Capítulo 22 – Teegan

“Eu vi coisas,” contei à minha mãe assim que ficamos so­zinhas na cozinha. Os McGuire, inclusive Caleb, parti­ram logo que o sol surgiu por inteiro acima do horizonte. Eu estava desesperada para ter o Caleb só para mim, mas a mãe dele insistia em tirar um raio-X da sua mão. Estava realmente muito inchada, embora ele não tivesse dificuldade para dobrar os dedos. Eu ainda o sentia, na­dando confortavelmente na minha música. Eu nem ti­nha certeza se podia desligá-lo. Não que eu quisesse. “Ele me vê como aquelas modelos nas revistas, sabe? Não, melhor que elas.”

“É mesmo?” disse mamãe, virando o rosto para eu não enxergar o enorme sorriso que ela tentava esconder de mim.

“Não é real,” falei. “Não sou assim.”

“É encantador, não é?” disse mamãe. Ela se voltou para mim, e seu sorriso tomou conta do cômodo. Em seu olhar havia mais do que a minha aventura. Lembrei-me das palavras de Wendy, depois de eu me conectar com ela.

“Meu Deus,” eu disse, percebendo que mamãe provavel­mente via o que estava na cabeça de papai. Mamãe ten­tou em vão conter o riso. “Eu sou uma espécie de… ó, não!”

“Você viu o que estava no coração dele,” disse mamãe. “Quer dizer apenas que ele vê você desse jeito.” Ela pa­rou um instante e depois sorriu de novo. “Foi por isso que você foi lá fora.”

“Ele me ama demais,” eu disse.

“Você também,” disse mamãe, deixando de sorrir e fa­zendo uma expressão séria.

“Ainda o sinto,” eu disse. “Não quero que pare nunca. Nem tenho certeza se poderia bloqueá-lo se eu quises­se.” Mamãe se sentou à mesa e puxou uma cadeira para mim. Sentei-me.

“Ele já ama você há um tempão,” disse mamãe. “A liga­ção apenas tornou mais fácil.” Percebi que lágrimas se formavam em meus olhos. Era tudo tão poderoso ago­ra…

“É tão forte,” admiti, “e viciante. Tenho medo de não corresponder às suas expectativas. E se ele mudar de idéia?” Mamãe me puxou mais perto.

“Confie nele,” sussurrou mamãe, “e confie em si mesma. Você sente a beleza disto, não sente?”

“Sim.”

“Então deixe-o entrar totalmente,” continuou mamãe. “O futuro vai tomar conta de si mesmo. Sinta-se feliz por vocês dois terem se encontrado. Todos os seus proble­mas caem pela metade quando você tem alguém com quem partilhá-los.” Se ela tivesse acrescentado uns pala­vrões, as frases poderiam ser da Wendy.

“Eu voto no cara,” disse papai, surpreendendo tanto a mim quanto à mamãe. Ele estava apoiado no batente da porta. Me perguntei por quanto tempo ele escutava. “Que tal um café-da-manhã?”

“Rabanada,” mamãe respondeu rápida. Era uma das coi­sas que papai fazia bem e que tinha virado tarefa sua. Papai assentiu e abriu a geladeira. Eu sorri pelo fato de que nada parecia ter mudado na minha família, mesmo eu tendo acabado de trazer mais um.

***

“Acorde, Teegs,” disse Zane enquanto empurrava meu ombro. Eu tinha caído no sono em algum momento à tarde. A vigília noturna afinal tinha me pegado. “Seu na­morado está viralizando.”

“Ele não é meu…” Eu suspirei. Agora era. Daí o senti de novo e sorri. Certamente que era. “Do que você está fa­lando?”

“Facebook, YouTube, sabe, viral,” respondeu Zane. Catei meu telefone e tirei do silencioso. Tinha um monte de mensagens não lidas. Esfreguei os olhos, tentando acor­dar melhor, e comecei a ler. “Alguém fez um vídeo dele dando uma de Jackie Chan,” acrescentou Zane, virando então seu telefone para mim: eu vi o Caleb subindo a es­cada como um ginasta. No momento seguinte a câmera tremida virou e pegou-o arremessando Frank sobre o guarda-corpo. Até me encolhi ao ver o que ele fez com o outro colega do Mason.

O vídeo mostrou Gene subindo a escada, e eu consegui ouvir – mas não ver – a porta sendo arrombada. Ouvi os palavrões da Traci quando ela entrou no quarto. Mason estava nocauteado, seu rosto ensangüentado. Ela filmou Gene e eu sustentando Caleb – igualmente ensangüenta­do – de pé. Afastei o telefone da minha vista.

“Onde ela postou?” perguntei. Talvez eu pudesse obrigá-la a tirá-lo do ar. Meu telefone estava repleto de mensa­gens de amigos, alguns querendo saber se eu e Caleb es­távamos bem, outros me informando da existência do ví­deo.

“Em todo lugar,” respondeu Zane. “Estão passando como se fosse Davi contra Golias. Só que desta vez o Davi salva a garota.” Zane deu risada. “Mason vai ter de mudar de escola. Apanhar de um nerd da orquestra vai destruir a sua reputação.”

“Não tem graça,” informei a ele. “E se as pessoas erradas virem?”

“E daí?” disse Zane. “Ninguém está procurando Caleb.” Sua expressão mudou, “Ah, você gosta dele. Ele vai ter as garotas todas penduradas nele agora.” Revirei os olhos e deixei o acesso de ciúmes passar.

“Eu estou no vídeo,” corrigi Zane.

“Mamãe e papai também,” acrescentou Zane.

“O quê?!”

“No final,” continuou Zane, “papai e Gene carregam Ca­leb até o carro. Você e mamãe se abraçam.”

“Merda,” eu falei alto demais, e voltei ao meu telefone para procurar o número do Caleb. Sorri quando o vi ali, na ligação mais recente. Era bom tê-lo no topo da minha lista. Apertei para chamar e fui ao meu quarto. Ao pri­meiro toque eu já senti uma onda de amor a me inun­dar, quase me deixando zonza. O identificador de cha­madas funciona bem com a conexão.

“Oi,” disse Caleb.

“Oi,” retornei, tentando mandar meu sorriso pelo telefo­ne. Era a primeira vez que conversávamos desde a ma­nhã. Parecia tanto tempo… “Você viu o que está na In­ternet?”

“Não,” respondeu Caleb, “eu dormi. Tive alguns sonhos bons.” Podia ouvir o contentamento em sua voz, e torci para que ficasse assim.

“Traci Finland fez uns vídeos da festa,” suspirei, “e pos­tou a sua briga.”

“Não brinque!”

“É,” eu disse, “e suspeito que você vai ter um montão de amigas na segunda.”

“Enciumada?”

“Terrivelmente,” respondi dando risada. Sentia que ele reforçava a afeição, certificando-se de que nada poderia alterar seus sentimentos.

“Gosto de sentir você,” admitiu Caleb.

“Você não fica doido com isso?” perguntei.

“Não,” respondeu Caleb, “é como se fôssemos feitos para um dueto. Você não se sente bem com isso?”

“Tão bem que dá medo,” concordei.

“Sim, é meio irresistível. Eu gosto além da conta,” disse Caleb. “É sempre assim?” Eu dei risada e percebi a sua apreensão.

“Nunca foi assim. Pelo menos não que eu me lembre,” respondi. “Você tornou tudo muito mais forte.”

“É porque eu amo você,” disse Caleb, e imediatamente depois: “Droga, eu prometi a mim mesmo não contar isto por telefone.” Eu já sabia, mas ouvir era tão avassa­lador quanto a nossa ligação. “Teegan?”

“Eu idem,” gaguejei tentando segurar as lágrimas que brotavam. A ligação ficou mais espessa, algo mais pro­fundo entrelaçou nós dois num aperto e quase me dei­xou sem fôlego. Era como se fôssemos um.

“Uau,” disse Caleb.

“Uau duplo,” engasguei. “Não sei se é bom ou ruim.”

“Não pode ser ruim,” disse Caleb. “É só que juntos so­mos mais fortes.”

“Eu vi o que estava na sua cabeça hoje de manhã,” eu disse. É melhor Caleb saber até onde vai.

“Quando?”

“Imediatamente antes de irmos à varanda,” respondi. “Eu vi como você me vê, ou como quer me ver.”

“Uhm…”

“Tudo bem,” eu disse.

“Não consigo parar de pensar nas coisas,” confessou Ca­leb. “Você está meio que dentro da minha mente. E… bom… eu sinto muito.”

“Eu não,” falei, soltando meu sorriso em viagem pela li­gação. “Gosto que você me ache sexy.”

“O que você viu?” perguntou Caleb. “Quer dizer, não foi tão ruim, foi?” Segurei uma risada que tentava escapar. Pude ouvir a preocupação em sua voz, e também senti pela conexão. Eu só vi o lado mais decente dos seus pen­samentos.

“Ah, foi ruim,” provoquei.

“Sou humano, Teegan,” defendeu-se Caleb. “Não consigo deixar de pensar em você. Essas coisas aparecem na mente de um homem.”

“Tipo me ver nua?” perguntei. Houve um longo silêncio. Esperei por suas inúteis desculpas.

“Você está me provocando!” disse Caleb, animado. “Pos­so sentir.” O alívio em sua voz era evidente. Aquele ar sem jeito evaporou da conexão. “Você sabe que é injusto isso de ficar espionando assim a minha cabeça.” Eu per­di a vantagem, então parti para o plano B: choque.

“Eu também imagino você nu,” falei. O silêncio tinha fi­cado até palpável. “Caleb?” O que me inundou foi amor puro seguido de um desejo como eu nunca tinha visto. Era tão selvagem quanto manso. Uma parte era tão sua­ve, e mesmo assim igualmente inexorável… Todo o meu corpo voltou a dançar.

“Estou tão feliz por ter passado no shopping aquele dia,” anunciou Caleb. Me perguntei se o corpo dele reagia como o meu. Só podia. Eu quase podia sentir o seu fogo.

“Eu também,” concordei. Houve em seguida um peque­no silêncio reconfortante. Imaginei o sorriso em seu ros­to: confiante, feliz.

“O vídeo vai ser um problema?” perguntou Caleb, mu­dando de assunto. Ainda bem. Eu não tinha certeza se queria ir mais fundo com ele pelo telefone.

“Tem papai, mamãe e eu nele,” respondi. “Não sei se al­guém ainda procura por nós. De qualquer modo não me reconheceriam. Mamãe e papai com certeza vão surtar.”

“Quer que eu vá aí?” perguntou Caleb. Não precisava.

“Sim,” eu disse, “mas não por meus pais.” Foi divino sentir a sua reação às minhas palavras. Não esperava co­meçar a flertar. Nunca manipulei um homem desse jeito. Era muito mais divertido do que eu imaginava. E era se­guro por ser o Caleb.

“Estarei aí em quinze minutos,” disse Caleb. Sua voz veio com uma excitação que eu adorei. A lembrança de como ele tinha me visto ainda estava na minha cabeça. Quem sabe eu conseguia um outro vislumbre?

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