A Presa: Capítulo 21 – Teegan

Escapei da mãe de Caleb e da minha antes que a raiva tomasse conta de mim. Elas estavam presas à idade das trevas em se tratando de família planejando a vida de um filho. Não que as suas idéias fossem erradas. Só não eram as minhas. O fato de nem considerarem as minhas palavras é o que mais me desanima. Tentei me acalmar desligando mamãe, mas daí lembrei que era um tipo in­fantil de punição. Ao religar a conexão, percebi que não conseguia pensar sozinha; então desliguei de novo. Quando religuei, mamãe me inundou de amor. Era um pé no saco ver uma raiva tão boa se esvair assim. Como é que eu ia raciocinar com todo mundo contestando os meus sentimentos? Eu quase podia sentir o tom irônico de papai diante do meu dilema.

Usei o tempo para ver como Caleb estava. Já que todos estavam lá embaixo, eu podia me esgueirar até o meu quarto e pensar em silêncio com ele. Ele dormia em paz. Sentada na beirada da cama, perto da sua cabeça, alisei os seus cabelos. Eu sorri diante da cabeleira, lembrando das suas últimas palavras para mim. Nele havia tanta música, tanta força que ele podia aproveitar de seu violi­no… Eu não tinha idéia do que eu queria fazer da vida, mas eu sabia o que Caleb queria. Eu queria o que ele queria. Eu queria vê-lo no palco de novo. Sôfrega, eu o queria a meu lado com as outras mulheres encarando e se perguntando como eu tinha tanta sorte. Eu queria sentir de novo o seu amor.

Minha mão desceu pelo seu braço até os nós dos dedos inchados da sua mão direita. Levei-a aos meus lábios e beijei delicadamente cada nó. A pele estava quente, mas, ao contrário do que eu tinha pensado antes, os ossos não pareciam quebrados. Três juntas estavam com hemato­mas escuros. Ele me salvou com aquela mão e com o seu amor. Nunca mais quero sentir esse amor substituído pelo ódio. A ira tinha sido tão poderosa e implacável… quase como se engolisse tudo o que ele era. Tinha absor­vido sua música.

O que ele sentia por mim era inegável. A conexão tinha me mostrado isso. Ignorar os meus sentimentos não era mais possível. Não importava o quão inteligente ele era, ou onde estava o seu futuro. A menos que algo mudasse, o que eu desejava era fazer parte dele ou fazer Caleb ser parte do meu. Por bem ou por mal, a ligação tinha nos cimentado. Eu esperava apenas que fosse pra valer.

Voltei ao andar de baixo para conversar com a mãe de Caleb e com a minha. Eu iria classificar os argumentos delas como sugestões. Era inútil convencê-las de que a música era o melhor para o Caleb. Vou só fazer que sim com a cabeça e fingir que absorvo as palavras delas. O que quer que aconteça com Caleb e eu, nós não podemos renegar as nossas famílias.

O estranho era que o assunto tinha mudado quando eu retornei. Chegamos a algum acordo velado para deixar de lado o tema polêmico, e voltamos à natureza da liga­ção. Grace tinha mais perguntas, que eu respondi da me­lhor maneira possível. Ela parecia particularmente inte­ressada no modo como afetava Caleb. Percebi que ela achava que tinha algo a ver com o quanto ele gostava de mim. Bom, eu também.

Papai e Jack roncavam no sofá quando a noite afinal ce­deu lugar à aurora. Grace aguardava pacientemente que Caleb acordasse, e mamãe e eu lhe fazíamos companhia. Estávamos na quinta ou sexta xícara de chá quando eu senti.

No meio de um bocejo, um afeto verteu na minha mente. De primeiro pensei ser papai, mas daí um amor mistura­do com toda a sua novidade afugentou o resto dos meus pensamentos superficiais. Pedi licença depressa para ir ao banheiro, quase não agüentando segurar meu sorriso crescente. Eu não sabia o quanto Caleb entendia, mas não podia ignorar a força das suas transmissões: eram prazerosas demais.

Encontrei Caleb sentado na cama, um largo e confiante sorriso no rosto. Ele sabia exatamente o que estava fa­zendo, e eu respondia à altura e sem controle. Todo o meu corpo se arrepiava com as emoções partilhadas. Le­vei meu dedo ao sorriso que estava em meus lábios, si­lenciando as palavras que eu sabia que ele queria gritar.

“Seus pais estão lá embaixo,” sussurrei sentando-me na borda da cama. Caleb ignorou minhas palavras e conti­nuou transmitindo ondas e mais ondas de amor como se a ligação fosse algum brinquedo novo a reivindicar aten­ção. Não pude evitar de retornar as minhas. Sua música era tão pura, tão sincera, e era mais divertida do que eu jamais pude imaginar. Tentei falar de novo, mas ele in­terrompeu. Inclinou-se para frente, sua mão amparando suavemente a lateral do meu pescoço, e uniu seus lábios aos meus com uma confiança inesperada. A conexão ti­nha apagado qualquer hesitação. Seus lábios eram admi­ravelmente macios e sólidos ao mesmo tempo. Eles aca­riciaram os meus com uma determinação que fez com que eu, apaixonada, me rendesse a eles.

“Eu não achava que você pudesse ser ainda mais bonita,” sussurrou Caleb quando respirar se tornou necessário. Com suas palavras veio um jorro tão forte de emoções que ameaçou eclipsar todos os outros pensamentos. Ata­quei os seus lábios empurrando-o de volta ao travessei­ro. Adorei como os seus braços me envolveram, me pu­xando mais perto até a nossa paixão inundar a conexão. O resto do mundo se dissipou, e nos tornamos um. Nós cabíamos um no outro como se fôssemos desenhados as­sim, o conforto cada vez maior quanto mais próximos fi­cávamos.

“Como é que eu sei que você me ama?” perguntou Caleb. Seu sorriso era autêntico e seu olhar excitado. O motivo era secundário, só o amor importava. “Eu sinto a minha música em você.”

“É a minha música,” eu disse com uma risadinha. Gostei de enrolar, sabendo, mesmo que por um instante, mais do que o Caleb. Novamente ele me puxou mais perto, seus lábios quase a tocar a minha orelha.

“Nossa música,” sussurrou Caleb. As cócegas da sua res­piração iniciaram um tremor que percorreu meu corpo. Senti o seu sorriso crescer em minha face. Se eu pudes­se, teria ficado deitada ali com ele até o tempo acabar. Seus braços eram ternos e não julgavam nada. Eu estava protegida do mundo. Tive de usar toda a minha força para me sentar.

“Venha,” falei, oferecendo a mão, “sua mãe precisa ver você, e eu tenho muito que explicar.” Ele suspirou, dese­jando como eu que ficássemos um nos braços do outro. Sorri e me apoiei para puxá-lo até ficar sentado. Ele aproveitou o impulso para roubar outro beijo. Eu segurei seu rosto com as mãos e garanti que o beijo compensas­se o roubo. Seus beijos eram tão diferentes de todos que eu já tinha experimentado antes… Eles invadi­am todo o meu corpo, gerando a cada batida do coração um calor excitante.

“Prefiro ficar aqui,” comentou Caleb, seus braços envol­vendo a minha cintura. Dei risada, levantando e forçan­do o meu homem guloso a ficar de pé. Ele fez uma careta ao levantar. “Sinto como se tivesse sido atingido por um caminhão.”

“Um caminhão Mason,” falei com tristeza no olhar. “Desculpe por você descobrir daquele jeito. Eu estava tentando chamar meu pai, e de algum modo você entrou no meio.”

“Salvei você,” sorriu Caleb.

“Salvou mesmo,” eu disse, mantendo-o firme enquanto ele flexionava as pernas. “A raiva dá algum jeito de in­crementar a conexão. Não gostei do que ela fez a você.”

“Conexão?”

“Vamos descer e eu explico,” respondi. “Sua mãe teve paciência a noite toda. Realmente eu não quero que ela tenha aversão a mim.”

“Salvei você,” repetiu Caleb, sua mão buscando a minha durante a descida pela escada. Eu vi o orgulho em seu olhar. Gostei do que isto lhe fez, mas não consegui evitar de me sentir meio desigual no relacionamento. Acho que ele curtia estar por cima.

***

“Caleb!” berrou Grace, acordando papai e Jack, que esta­vam travando uma guerra de roncos no sofá. Caleb foi na frente, quase me arrastando para ir cumprimentar sua mãe. Grace enquadrou nas mãos as suas bochechas, e lançou-lhe um olhar crítico.

“Estou bem,” disse Caleb, sorrindo quando sua mãe lhe beijou a testa. Os lábios dela se demoraram, evidente­mente tirando a temperatura. “Mãe, por favor,” Caleb tentou se livrar, nada contente por ser tratado como cri­ança também. Grace baixou os olhos, vendo a mão dele na minha; um sem fim de expressões passou pelo seu rosto. Acabou ficando com um sorriso, e era dirigido a mim.

“Fiquei sabendo que você derrubou três caras,” disse Jack, mais animado do que um pai respeitável estaria.

“Nós não aprovamos brigas,” anunciou Grace, mais para o marido do que para Caleb.

“Claro que não,” disse Jack, “mas se forçam você a isto, é melhor você vencer.” Ele irradiava de orgulho. Papai concordou dando-lhe um tapa nas costas, antes de dar a volta no sofá e estender a mão para Caleb.

“Serei eternamente grato por você estar lá,” disse papai. Caleb corou ao soltar a minha mão para apertar a de pa­pai. Papai puxou-o com força para abraçá-lo. No olhar de papai era evidente o temor do que poderia ter aconte­cido. “Obrigado.”

“Pra falar a verdade,” disse Caleb, meio desconfortável no abraço, “não sei muito bem como eu fiz.”

“Talvez possamos ajudar nisto,” disse mamãe, dando-lhe também um abraço depois que papai finalmente o lar­gou. “Teegan é… bom… especial. Agora eu acho que você já sabe disto.” Caleb se voltou para mim, e eu senti o seu amor me bombardear. Ele ficou satisfeito quando enviei de volta bem embrulhadinho com o meu. Ele estendeu a mão e eu coloquei nela a minha.

“Ele sabe,” contei à minha mãe.

“Ela sempre foi especial para mim,” disse Caleb com confiança. Seus olhos dançavam pelo meu rosto todo en­quanto eu estudava o dele. Adorei seu jeito de torcer os lábios quando os nossos olhos se encontraram. Ele des­pia a minha alma, descascando o resto da minha apreen­são. Eu nadava em sua música.

“Partilhamos a mesma música,” eu disse a ele, embora fosse mesmo dirigido a mamãe e papai. Ele apertou leve­mente a minha mão, fazendo uma onda de agradabilíssi­ma ternura percorrer as minhas veias. Se era culpa da li­gação, então eu estava viciada. Não tinha mais volta.

“Vamos nos sentar,” disse mamãe, rompendo meu tran­se. Ela sorria para mim e mordia o lábio inferior. Troca­mos olhares: eu sabia que ela sabia o que eu sentia. Me­lhor ainda era que ela tinha gostado. Guiei Caleb até o sofá, e sentamos juntos numa ponta. Eu o queria ao lado, e sentia que ele desejava o mesmo.

“Vai destruir se eu souber?” sussurrou Caleb em meu ouvido. Sacudi a cabeça, sabendo que ele se referia à co­nexão que tínhamos estabelecido. Senti sua felicidade com a minha resposta. Também ele estava viciado.

Sem entrar em cada detalhe, explicamos ao Caleb tudo o que pudemos. Deixei de fora, de caso pensado, Wendy e Tom, considerando que era para um lugar mais reserva­do. Era melhor para os seus pais se não conhecessem to­das as particularidades. Discutimos o suficiente para que entendessem que a ligação devia continuar um segredo. Jack sentiu que iria virar um espetáculo circense se va­zasse algum dia. Mamãe e papai ficaram enormemente aliviados.

Durante a conversa, Caleb ouvia só pela metade. Ele brincava com a conexão, transmitindo jorros de senti­mentos para mim. Eram intensos, depois suaves. Tentei ignorar o que ele fazia, mas às vezes eram tão doces que eu os identificava com as carícias que ele pretendia que fossem. Um gemido quase escapou dos meus lábios, e no mesmo instante eu transformei-o numa tosse. Tentei dar uma bronca nele com um olhar, mas uma visão se for­mou na minha mente. Vi a mim mesma, mas não era eu. A imagem era infinitamente mais bela, mais graciosa, e bem nua. A imagem sorriu junto comigo.

“Eu… com licença,” falei e corri para o banheiro. Os sen­timentos de Caleb me seguiram. Todo o meu corpo esta­va mais vivo do que eu jamais tinha sentido. Cada poro tentava saltar para fora da pele enquanto eu tentava conciliar o jeito do Caleb me ver e a realidade. Joguei água no rosto para tentar acalmar as emoções que esta­vam explodindo dentro de mim. Seu cabelo não impor­tava mais. Eu queria ficar e me sentir como a mulher dentro da sua cabeça. Para ele, eu era essa mulher. Ela era tão forte, tão confiante, e sabia exatamente o que queria. Saí quase correndo do banheiro.

Passei direto pelo pessoal reunido, em direção à varanda da frente. A conexão puxou Caleb, deixando o resto com olhares meio confusos. A ligação mandou o meu desejo para Caleb enquanto eu abria a porta da frente. Escutei quando ele tropeçou para me acompanhar, e uma risadi­nha me escapou. Um segundo depois a porta se abriu e tudo o que eu mais queria apareceu na varanda. Ele não ficou nem um pouquinho surpreso quando os meus lábios atacaram os seus. A ligação era uma droga poderosa demais.

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