O Casamento: Capítulo 15

Adentrei, limpo e tranqüilo, o quarto da minha mãe. Tinha dito coisas das quais me arrependia agora, e torcia muito para que não tivesse chegado a um ponto sem volta. De imediato, não a encontrei: as cortinas todas cerradas, a ante-sala às escuras. Meu medo era que ela tivesse se recolhido mais cedo.

“Fui uma mulher estúpida,” a voz da minha mãe veio, fraca, de uma cadeira escura no canto. Eram as minhas próprias palavras, e me doeram profundamente.

“E eu, um filho estúpido,” disse eu, avançando na direção de uma cadeira perto dela.

“Fui vazia e tola,” continuou minha mãe, “não queria que amasse tanto assim uma criada.”

“Você fez dela uma senhora,” sugeri, sentando-me perto dela.

“Ela é mais senhora do que eu,” disse a minha mãe, com tristeza, “preferi, em vez de enxergar isto, causar um enorme estrago. Estou envergonhada, e acabei perdendo o meu filho no processo.” Eu sabia que ela chorava, mesmo que não revelasse pela voz. Eu tinha feito um enorme estrago.

“Você não me perdeu,” disse eu, “só queria que perdoasse as minhas palavras. Quem berrava à noite passada era o meu coração partido.”

“Então você não me tem ódio?” perguntou minha mãe. Compreendi inteiramente a dor que eu lhe havia imposto ontem à noite, e as lágrimas me vieram aos olhos. Caí de joelhos diante dela e apoiei a cabeça em seu colo.

“Apenas amor,” disse eu, recebendo na cabeça os carinhos da sua mão. Assim eu havia estado muitos anos antes, um jovenzinho buscando conforto para os seus tormentos. Era a isto que precisávamos voltar, mesmo que só por um instante. Ela seria sempre minha mãe.

“Eu não sabia sobre Angelica,” disse a minha mãe a modo de desculpas, “imagino que esta Mylle seja especial para ela?”

“Sim, muito especial,” respondi.

“Estou compreendendo melhor o que vocês dois fizeram,” confessou minha mãe, “apoiarei, e seu pai também, mas é uma coisa estranha.”

“De fato é,” disse eu.

“Amanhã você vai trazer Alia e Angelica ao chá?” perguntou minha mãe, “queria discutir algumas coisas e fazer ajustes. Talvez eu possa cuidar de alguns detalhes práticos desta união. Quem sabe aliviar o seu fardo.”

“Não há nada que eu mais deseje,” respondi honestamente. Com certeza uma rainha poderia cuidar das coisas. Minha mãe me forçou a levantar, e ficou de pé ao meu lado.

“Nada do que eu fiz foi para ofender,” disse minha mãe, “fiquei obcecada pelo que pensava ser o melhor para você. Avaliei mal, muito mal.” Abracei-a, então. Bom era sentir o seu amor novamente.

“Meu pai parece achar que você não quer vê-lo,” disse eu. Minha mãe se apartou de mim, e foi abrir as cortinas. Era evidente que ela não tinha se cuidado esta manhã. Era raro vê-la tão desgrenhada.

“Ah, sim,” pensou minha mãe em voz alta, “raiva e vergonha fazem com que você diga coisas que preferia não ter dito.” Assenti com a cabeça, sem querer repassar a minha ignorância. Ela apertou o meu rosto entre as suas mãos e beijou a minha testa. “Pode dizer ao seu pai que venha me ver,” um sorriso malicioso se formou em seu rosto, “diga-lhe que eu desejo ter uma longa conversa com ele.”

Encontrei o meu pai conversando com um pedreiro. Uma das torres laterais mostrava sinais de deterioração causada pelas intempéries. A discussão girava em torno do melhor modo de fazer os reparos sem derrubar a estrutura toda.

“A rainha se sente melhor, Sire,” disse eu, formal por causa das outras pessoas presentes. Meu pai sorriu e fez um movimento com a cabeça. Retornou aos debates. Me virei para ir embora, mas então lembrei das palavras da minha mãe. “Ela deseja ter uma longa conversa com você,” acrescentei, olhando para trás. O rosto do meu pai se iluminou.

“Retornaremos a isto amanhã pela manhã,” disse meu pai, apressado. A discussão terminou numa torrente de reverências a que o rei não esperou para assistir. Ele já ia longe, com um sorriso grande e bobo no rosto. Caiu então a ficha: minha mãe tinha me usado para montar um joguinho amoroso. Várias imagens vieram à minha mente, sem serem convidadas, e eu forcei-as a sumirem. Só me restava supor que o meu pai aceitaria as desculpas.

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