A Presa: Capítulo 19 – Teegan

“Caramba,” disse Gene ao entrar no quarto. Desespera­da, eu tentava levar Caleb na direção da cama e não deixá-lo desabar no chão. Tinha tanto sangue em seu rosto… Alguém deve tê-lo acertado antes de entrar no quarto. Ele foi tão rápido; Mason nem encostou nele.

“Socorro,” exclamei. Gene se mexeu rápido e suportou quase todo o peso de Caleb. Deitamo-lo na cama e Gene empalideceu diante do sangue.

“Mason fez isto?” perguntou Gene.

“Nem encostou nele,” respondi. Gene viu Mason no chão. O rosto de Mason parecia ter sido atingido por um caminhão. Ele me olhou de volta com o olhar confuso.

“Mason estava machucando você?” perguntou Gene. Fiz que sim com a cabeça enquanto tentava limpar o sangue no rosto de Caleb com a manga da minha camisa. Estava saindo do nariz. “Como é que ele soube? Porque ele sim­plesmente saiu voando como Jackie Chan. Eu nem sabia que ele sabia lutar.”

“Acho que ele quebrou a mão,” eu disse. Gene acompa­nhou meu olhar até a mão direita de Caleb. Os nós dos dedos estavam começando a inchar. Minhas lágrimas voltaram, desta vez pelo que eu tinha feito ao Caleb. Er­gui com cuidado a sua mão contundida e encostei-a em minha face. Meu Deus, eu o amava.

“Puuuuta meeeerda!” uma voz à porta esticou as pala­vras. Olhei para cima e vi Traci segurando o iPhone di­ante de si, filmando o quarto.

“Temos que tirá-lo daqui,” sussurrei ao Gene. Ele assen­tiu e me ajudou a colocar Caleb de pé. Era reconfortante ouvir a respiração de Caleb, quase como se estivesse dor­mindo. “Meu pai vem vindo,” acrescentei sem racio­cinar. Eu vi o Gene processar o que eu acabava de dizer, e deixar passar. Haveria perguntas. Gene era um bom amigo, o suficiente para esperar hora melhor.

“Deve ter sido uma briga épica,” disse Traci enquanto passávamos os braços de Caleb por sobre os nossos om­bros e começávamos a carregá-lo. “Ele atravessou pelos outros como se não fossem nada,” ela acrescentou fasci­nada. Mais gente metia a cara no quarto, e um murmú­rio de surpresa começou a percorrer o corredor.

“Estamos passando,” anunciou Gene ao manobrarmos pela porta. As pessoas ficaram paradas em choque en­quanto descíamos a escada. Alguns estavam atenden­do os amigos de Mason, que pareciam em melhor estado do que Mason. Todos estavam encarando o inconsciente Caleb, e podíamos ouvir os sussurros ao passarmos. Sem chance disto ficar em segredo. Na segunda a escola intei­ra saberia. Na terça, o mundo.

Samantha encontrou-nos de olhos esbugalhados ao pé da escada. Gene deu-lhe uma ordem silenciosa para se calar por enquanto. Graças a Deus ela obedeceu e abriu caminho para nós pela porta da frente.

“Vocês… vocês não podem sair assim,” disse Billy Hen­derson ao ver-nos dando um jeito de passar à varanda. “Ele bateu em três caras e alguém chamou a polícia.”

“Como se alguém fosse acreditar que o Caleb começou,” disse eu do jeito mais inocente que pude. “Mason nocau­teou-o,” menti. “Temos de levá-lo ao hospital. Ou você quer uma ambulância aqui também?”

“Não, eu acho que não,” disse Billy. “Mas o que eu vou contar à polícia? O que eu vou contar aos meus pais?”

“Diga-lhes que Mason e seus amigos entraram numa bri­ga,” disse Gene. “Eles não vão admitir que Caleb teve qualquer participação. Aliás, você nunca deveria tê-los convidado.”

“Não convidei,” disse Billy, os olhos postos no chão. “Es­tou fodido.”

“Não tanto quanto Caleb,” disse Gene, erguendo a cabe­ça de Caleb para mostrar o sangue ao Billy.

“Ok,” disse Billy, “leve-o daqui. Vou pensar em alguma coisa. Se os meus pais não me matarem, Caleb fica me devendo.” Sorri e assenti. Senti pena de Billy. Uma festa não-autorizada e agora estava numa fria. Gene e eu se­guimos pelos degraus da varanda.

Eu senti meu pai antes de ver o carro estacionar. Ele sa­bia que tinha acabado, mas ainda a sua ansiedade fluía em mim. Mamãe estava fora de si, e saiu do carro antes mesmo de papai tirar o cinto. Acenei do jeito que pude, sustentando metade de Caleb.

“Fiquei aterrorizada,” disse mamãe chegando perto, suas mãos ainda tremendo. Revirei os olhos apontando o Gene, torcendo para que ela lembrasse que havia outras pessoas presentes. “Nossa, é o Caleb?”

“Ele salvou Teegan,” disse Gene orgulhoso, pensando es­tar prestando um favor ao Caleb.

“Mason estava ficando pegativo,” falei, tentando rapida­mente colocá-los a par das coisas, “e Caleb não gostou. Não sei ao certo o quão ferido Mason está.”

“Ou os dois caras pelos quais ele atravessou para chegar ao Mason,” acrescentou Gene. “Nunca vi ninguém se mexer tão rápido.”

“Eu sabia que gostava deste garoto,” disse papai, alivian­do a minha metade da carga. “Vamos botá-lo no carro,” acrescentou, usando o queixo para indicar o caminho. Mamãe me envolveu nos braços. Senti que ela ainda tre­mia e que mal segurava as lágrimas.

“Estou bem,” sussurrei. Percebi o seu sorriso em meu rosto. Ainda assim ela não me soltava. “Você vai me en­vergonhar,” informei-lhe. Ela me soltou mas me segurou diante dela. Me olhava de alto a baixo para ter certeza de que todas as minhas partes estavam presentes. Ergueu meu braço e examinou o sangue na minha manga com preocupação. “É do Caleb,” eu disse. Ela assentiu e fo­mos todos ao carro de papai.

“Acho que isto não é necessário,” disse papai irritado. Olhei em volta e vi Traci ainda filmando o evento.

“Se fosse você,” perguntei, “ia querer que filmassem?”

“Não,” respondeu Traci, baixando o braço. “Desculpe,” acrescentou e voltou para a casa. Um monte de jovens estava indo embora. Acho que o rumor sobre a polícia estava se espalhando.

Gene e papai deitaram Caleb no banco de trás, e eu subi pelo outro lado, colocando sua cabeça sobre o meu colo. Ele parecia tão calmo. Se não fosse pelo sangue que se­cava abaixo do nariz, eu poderia jurar que estava apenas dormindo. Tirei do rosto o seu cabelo indomável, e aca­riciei sua face. Ele ia matar o Mason. Eu senti. Ele só pa­rou porque eu lhe pedi. Mesmo com o sangue, seu rosto estava lindo.

“Gene e Samantha vão nos encontrar em casa,” disse pa­pai entrando no carro. “Querem algumas respostas, e eu não os culpo.”

“Às vezes temos que confiar,” disse mamãe, virando no banco para me olhar. “Podem muito bem ser amigos.” Ela mudou de expressão, e seu olhar se encheu de preo­cupação. “Achei que você estivesse bem.” Minhas lágri­mas tinham voltado.

“Veja o que eu fiz a ele,” gaguejei. Uma noite comigo e eu o destrocei. Coitada da mão dele: talvez nem consiga su­portar o arco do violino.

“Não foi culpa sua,” disse mamãe.

“Ele vai ficar bem,” acrescentou papai. “É como o cansa­ço de uma ressaca. Uma boa soneca e ele estará novo em folha.” Ele pôs o carro em movimento. “Pensei ter ouvi­do você dizer que não tinha se ligado com ele.”

“Não tinha, não antes disto,” eu disse. “Entrei em pâni­co, tentando encontrar você, e ele entrou no meio.” Ali­sei a face de Caleb. Estava tão calma e terna. “Eu o arrui­nei.”

“Arruinou nada,” insistiu mamãe.

“Você não sabe,” exclamei. “Ele ia matar Mason. Senti aquilo crescendo nele, e eu não conseguia deter.”

“E por que não matou?” perguntou mamãe. Ergui os olhos e me atrapalhei com a resposta, resmungando al­guma coisa sobre eu pedir para ele parar. “Entendi,” dis­se ela. “Então você conseguiu deter.” Meus olhos se ne­gavam a secar.

“Eu não sou boa para ele.”

“Talvez,” disse papai, “ou talvez ele não seja suficiente­mente bom para você.”

“Ele é perfeito,” falei alto demais. Ele era. Ao menos a sua música. Ou era que ele me inundava de sentimen­tos? Ou talvez fosse a sua vontade de deter Mason. Papai e mamãe trocaram um olhar que parecia conter uma montanha de informações que não eram para mim. “Eu que não sou boa o suficiente para ele.”

“Acho que Caleb não ia concordar com você,” disse ma­mãe com suavidade.

“Eu partilhei coisas,” sussurrei, “coisas que eu não que­ria que ele soubesse. Não consegui esconder, e agora ele pensa que eu o amo ou sei lá.” Acariciei a face de Caleb novamente, lembrando do seu amor que com tanta força tinha tomado conta do meu.

“Sei lá?” perguntou mamãe.

“Eu tentei evitar,” continuei. “Ele tinha um futuro tão brilhante. Podia descobrir a cura do câncer ou virar pre­sidente. Uma noite comigo e ele quase assassina al­guém.” Larguei minhas mãos do rosto dele e me recostei no assento. “Não posso mais tocar em ninguém. Ja­mais.”

“O que teria acontecido se você não tivesse se ligado com ele?” perguntou papai. “Ele ainda teria tentado deter Mason se pudesse?”

“Mason o teria matado,” eu concluí em voz alta.

“Então,” disse papai virando à direita num sinal de pare, “ele ia tentar proteger você de qualquer jeito. Parece que você o salvou ao mesmo tempo em que ele estava salvan­do você.”

“Lembra você,” mamãe disse ao papai com um leve sor­riso, “numa emergência, uma cabeça só.”

“Nenhum instrumento é brutal demais para proteger aqueles que amamos,” disse papai com uma pontinha de orgulho.

“Ele me ama mesmo,” sussurrei. “Eu senti. Foi irresistí­vel. Ele me vê de um jeito todo torto, como se eu fosse perfeita ou sei lá.”

“Eu não acho que a ligação fosse necessária para perce­ber isto,” disse mamãe. Ela segurava um sorriso. “Creio que são os seus sentimentos que você precisa botar em ordem.”

Fiquei meditando em silêncio, e mamãe aproveitou para virar para a frente no banco. Olhei para baixo, para o rosto do homem que pensa que eu sou melhor do que sou. Inclinei para frente e apoiei a cabeça dele nas mi­nhas mãos de novo. Ele conseguia me fazer rir, e era muito confiante quando decidia fazer as coisas. Seu cé­rebro era complexo, mas seu amor era simples. Ele não queria mudar nada em mim. Deslizei os dedos por seus cabelos, e um sorriso surgiu em meus lábios. Caleb viu o que eu pensava do seu corte de cabelo, e isto nem mes­mo abalou seu desejo. Me perguntei se eu podia ser tão clemente.

Eu lambi a minha manga sem sangue – sei que era no­jento – e comecei a limpar o sangue abaixo do seu nariz. Tentei fazê-lo suavemente para não despertá-lo. Os olhos dele abriram brevemente ao passarmos sob um poste de luz. Seu sorriso veio seguido de outra explosão de amor. Me pegou de surpresa. Desapareceu com seus olhos, e o sono dominou-o de novo. Era inútil continuar impedindo. Derrubei a minha última reserva. Caleb es­tava cravado em mim. Ele estava realmente fodido.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s