Relíquia

Eu sei que morro, e se já não sou crido,
É mais certo o morrer, como é mais certo
Ver-me a teus pés, ó bela ingrata, morto,
Do que de venerar-te arrependido.

Poderei ver-me na região do olvido,
De vida e glória e de favor deserto,
E ver-se poderá em meu peito aberto
O teu formoso rosto ali esculpido.

Que esta relíquia guardo para o duro
Transe que ameaça minha teimosia,
Que em teu mesmo rigor se fortalece.

Ai deste que navega, o céu escuro,
Por mar não usado e arriscada via,
Onde norte ou porto não se oferece!

— Miguel de Cervantes, 1600

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