A Presa: Capítulo 18 – Caleb

Era incrível o quanto eu estava me divertindo. Eu tinha acabado de me aproximar de Teegan. Gene tinha toma­do por missão se certificar de que eu não ficasse desam­bientado. Não lembro quando ri tanto pela última vez. Até Samantha me deixou entrar.

“Então,” perguntou Samantha, “quando é que vai fazer a sua jogada?” Ela estava empacotada nos braços de Gene e movia as sobrancelhas para cima e para baixo ao falar. Gene olhava atentamente enquanto aguardava a minha resposta. Eu não precisava perguntar do quê ou de quem eles falavam.

“Ela não está pronta,” respondi. Senti um leve descon­forto por ter com eles um diálogo assim tão pessoal. De­via ter ido ao banheiro com Teegan.

“Ela está,” corrigiu-me Samantha, “só não admite para si mesma.” Senti meu rosto queimar. Eu odiava corar a cada coisa que dizia respeito a Teegan. Não me agradava ser tão transparente.

“Está envergonhando o rapaz,” Gene disse à Samantha.

“Desculpe,” falou Samantha. Ela pôs a mão no meu ante­braço. Era um gesto tão amigável, e de uma garota tão linda… Tudo o que tinha acontecido desde aquele encon­tro fortuito no shopping era tão novo… Samantha gosta­va de mim, não no sentido romântico, mas como uma amiga de verdade.

“Não esquente,” eu disse sorrindo. Ela retirou a mão e retribuiu o sorriso. “Estou lhe dando espaço. Parece que ela precisa disto agora.” Samantha arregalou os olhos e o sorriso.

“Então admite que gosta dela,” Samantha pronunciou.

“Não admito nada,” disse eu, em seguida corando mais ainda. Gene deu uma risada e um tapa no meu ombro. Samantha piscou um olho. Encobri o meu sorriso ama­relo tomando um gole de refrigerante. Gene mudou de assunto e apontou a Betty Morrison derrubando bebida em Todd Black. Foi difícil não rir do esforço dela em limpar sem ficar tocando muito no colo dele.

O medo, vindo do nada, tomou conta da minha mente. Me virei esperando ver alguma ameaça inesperada che­gando em mim. Só vi as pessoas se divertindo. Meu cére­bro começou a trabalhar como louco, apesar de não ha­ver nenhum perigo à vista. A adrenalina que me inundou logo após sentir o medo cedeu lugar a uma paz. A deci­são de não ir para o MIT ou para Stanford era a certa. Estava bem claro agora. O futuro devia ser decidido por paixão, não pela melhor aposta conservadora.

“Tudo bem?” perguntou Gene. Percebi que eu estava en­carando o céu noturno, e que não fazia idéia do porquê de eu não estar surpreso ao sentir a mente de Teegan se juntar à minha. Parecia tão normal e exatamente do jeito que as coisas deveriam ser. Olhei para baixo, vi o copo pela metade, e descartei a idéia de alguém ter batizado a minha bebida. Sorri me entregando à conexão.

“Caleb?” chamou Samantha. Uma dor atingiu o meu pul­so e eu derrubei a bebida. Senti como se o meu cabelo estivesse sendo arrancado do crânio. Meio segundo de­pois, eu sabia que era Teegan que estava numa encrenca.

“Ele a está machucando,” falei voltando-me na direção da porta deslizante de vidro.

“Caleb!” gritou Gene ao me ver correr na direção da por­ta.

“Ele está machucando Teegan,” berrei abrindo violenta­mente a porta e correndo para a escada. Minha mente se encheu de uma fúria que eu não imaginava ser possível. O pensamento de alguém machucando Teegan explodiu em meu cérebro. Pela primeira vez na vida, eu queria matar alguém.

“Merda!” gritou Gene meio confuso, “estou atrás de você.” Era uma sensação estranha, saber que algo que eu não tinha visto era um fato. Saber que Gene, um atleta extraordinário, nunca iria me acompanhar era mais es­tranho ainda. Eu sabia que tinha de subir pela escada, e exatamente qual porta abrir. Tudo estava claríssimo, perfeitíssimo.

Passei pela sala de estar mais rápido do que jamais corri na vida. Não senti nenhum de meus músculos doerem, e meu corpo tendeu de maneiras que sabia serem as corre­tas mas que nunca tinha aprendido antes. Meu equilí­brio estava uma perfeição quando cheguei na escada. Num instante os meus olhos analisaram o padrão de movimentos que me permitiria subir ao segundo andar sem tocar em ninguém. Sorri ao pensar na dor que eu infligiria ao Mason. Como eu sabia que era ele não im­portava. Ninguém fere o meu amor.

Pulei sobre a parte inferior do corrimão como se fosse uma sela de cavalo. Uma garota gritou quando meu pé passou a um centímetro da sua perna; me joguei para cima no embalo. Meus membros nunca tinham feito mo­vimentos tão precisos quantos as idas e vindas que eu fa­zia agora, encontrando os espaços previamente identifi­cados sem a menor apreensão. Ignorei os arquejos e ex­clamações que me seguiram pelos degraus.

“Caleb!” berrou Gene, tentando acompanhar. Ele estava ao pé da escada, subindo pelo caminho lento.

Os dois parceiros do Mason estavam encostados na pa­rede junto à porta que eu precisava abrir. Não desacele­rei um segundo, minha avaliação da situação indo mais rápido do que eu. Frank – acho que era este o nome dele – se mexeu primeiro, sentindo para onde eu ia. Eu sabia, de algum modo, que eles não deixariam ninguém entrar no quarto.

“Dê meia-volta,” ordenou Frank. Acelerei em sua dire­ção; era certeza que ele me subestimava. Seu rosto fez uma expressão determinada ao tentar me alcançar para me pegar. Normalmente, alguém daquele tamanho teria me matado de medo, mas não agora. Mergulhei andan­do agachado, e instintivamente ele se inclinou para cima de mim, decidido a me agarrar perto do chão. Meu om­bro empurrou sua cintura com ele dobrado, e eu levantei usando as pernas. Num instante eu decidi que por cima do guarda-corpo era melhor do que pela escada lotada. Usando o que me sobrava do embalo, endireitei as cos­tas e ele voou gritando por trás de mim. Ignorei o baque do seu corpo ao atingir o piso do primeiro andar e fui na direção da porta.

Desviei por baixo do golpe violento que o outro amigo do Mason desferiu. Minha mente bolou um plano rápido. Joelho, diafragma, mandíbula. Meu pé direito se proje­tou, minha perna esquerda compensando, e fez contato com o joelho do homem num repugnante esmagamento. Finquei o pé e subi meu punho até o tronco do homem logo abaixo da caixa torácica. Ouvi seus pulmões soltan­do o ar involuntariamente. Usando o que restava do meu embalo da subida, levei meu cotovelo por baixo da sua mandíbula. Ele caiu para trás numa pilha que agora eu ignorava.

Desloquei meu peso e me alinhei com a porta. Toda a física da aplicação de pressão máxima no menor ponto passou num flash pelos meus pensamentos. Meu corpo respondeu como se a memória muscular estivesse pre­sente desde sempre. O calcanhar do meu pé bateu com toda a força na porta, logo abaixo da maçaneta; ouvi o batente se estilhaçar quando a porta escancarou.

Diante de mim estava Mason. Teegan estava enredada nos braços dele, e ela chorava copiosamente. Nenhuma morte seria rápida o bastante para ele.

“Caia fora daqui!” ordenou Mason. Eu acho que ele não esperava que eu me mexesse mais rápido ainda. Acelerei para cima do seu desamparo. Ele tinha decidido, tola­mente, que se apegar a Teegan era mais importante do que me enfrentar. Eu vi, ao chegar perto, que o medo co­meçava a crescer em seu olhar. Era muito tarde para o medo, o inferno tinha chegado.

Apoiado por todo o meu peso, enfiei meu punho na late­ral do seu rosto. Um som alto, como de estalo, ecoava em meus ouvidos enquanto eu tentava empurrar até o fim para sair do outro lado do seu rosto. Minha raiva ir­rompeu e levei meu joelho para a lateral dele, exatamen­te onde eu sabia que ficava o rim. A expressão de choque em seu rosto alimentou o meu ódio. Teegan, agora livre, recuou para trás. Eu via os lábios dela se movendo, mas o único som que eu queria ouvir era o de Mason supli­cando a clemência que ele nunca teria.

Mason tentou erguer o braço, mas eu joguei o meu peso sobre o pé esquerdo e girei para a direita 180 graus, al­cançando a máxima velocidade, concentrando todo o meu peso no pé que encontrou a lateral do seu rosto. Ele bateu no chão ao mesmo tempo em que eu retornei ao estado estacionário. Caí sobre ele e descarreguei a minha raiva, espancando seu rosto com um punho de cada vez, alheio ao fato de que ele não se movia mais.

“Caleb,” ouvi ao fundo. Uma onda de afeto me inundou. Diminuí o ritmo com a minha mão recuada e pronta para um golpe que iria esmigalhar o nariz de Mason para dentro do seu cérebro. “Caleb,” chamou a bela e sua­ve voz. O amor preencheu a minha alma e confundiu a minha raiva. Olhei para baixo e vi a massa sanguino­lenta que era o rosto de Mason. Outro surto de alguma coisa indescritivelmente linda se tornou tudo. Abaixei a mão e olhei para Teegan.

Teegan estava sorrindo para mim, seu coração comple­tamente aberto e transbordando no meu. As lágrimas em seus olhos eram por mim, não pelo que Mason havia feito. O resto do meu ódio fugiu e, com ele, quase toda a minha força. Cambaleante, me levantei.

Abri os braços e Teegan desabou neles. Deixei a minha felicidade fluir para ela, aceitando o seu amor em retri­buição. Tentei puxá-la mais perto, mas a minha energia estava minguando.

“Eu vou pagar pelo buquê,” informei-lhe. Teegan levou os lábios ao meu ouvido.

“Ok,” sussurrou Teegan. Eu queria dizer um milhão de coisas. Eu queria fazer um trilhão de perguntas. Por al­guma razão, a minha mente estava perdendo uma bata­lha pela consciência. Lutei arduamente para permanecer em seus braços, mas os meus músculos estavam ficando inúteis. Uma visão passou como um raio pela minha mente, e eu sorri.

“E vou cortar o meu cabelo,” falei, e então tudo ficou es­curo.

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