A Fadista

Vestido negro cingido,
Cabelo negro comprido
E negro xaile bordado.
Subindo à noite a avenida,
Quem passa julga-a perdida,
Mulher de vício e pecado.
E vai sendo confundida,
Insultada e perseguida
P’lo convite costumado.

Entra no café cantante
Seguida, em tom provocante,
Pelos que querem comprá-la.
Uma guitarra a trinar
E uma sombra, devagar,
Avança pró meio da sala.
Ela começa a cantar
E os que a qu’riam comprar
Sentam-se à mesa a olhá-la.

Canto antigo e tão profundo
Que, vindo do fim do mundo,
É prece, pranto ou pregão.
E todos os que a ouviam
À luz das velas pareciam
Devotos em oração.
E os que há pouco a ofendiam
De olhos fechados ouviam
Como a pedir-lhe perdão.

Vestido negro cingido,
Cabelo negro comprido
E negro xaile traçado,
Cantando pr’aquela mesa
Ela dá-lhes a certeza
De já lhes ter perdoado.
E em frente dela, na mesa,
Como em prece a uma deusa,
Em silêncio, ouve-se o fado.

— Manuela de Freitas, 2015

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