A Presa: Capítulo 17 – Teegan

Eu ria com a imitação que o Gene fazia do Sr. Prichard. Os movimentos do braço para baixo. Se a voz dele fosse mais nasal, ficaria perfeito. Samantha ria tanto que esta­va desesperada tentando não cuspir o refrigerante que tinha na boca. Até Caleb riu antes de sair em socorro do pobre homem.

“Tenha dó,” disse Caleb, tentando parar de rir, “ele é um bom sujeito depois que você o conhece.” Com isto um pinguinho de Coca-Cola surgiu dos lábios da Samantha. Ela tapou a boca com a mão e virou para o outro lado, na esperança de ficar séria o bastante para engolir.

“Você conseguiu de novo, Sr. McGuire,” disse Gene, ba­lançando a mão num floreio sobre a cabeça como o Sr. Prichard fazia cada vez que devolvia uma prova ao Ca­leb. Samantha não agüentou e cuspiu o refrigerante no gramado. Todos nós tivemos um acesso de riso.

A festa do Henderson era mesmo o agito do ano. Todo mundo estava ali, espalhado pela casa em pequenas ro­dinhas. A sala de estar acabou virando a pista de dança, a música tocando sem parar nos alto-falantes. No quin­tal queimava um fogo de chão; era onde nós estávamos, já que de pirotécnico todo mundo tinha um pouco. Os pais de Billy Henderson estavam fora da cidade – um fato que eu omiti da mamãe – o que nos dava liberdade. Gene estava mais divertido do que o normal.

“Pare!” disse Samantha, rindo tanto que ficou sem fôle­go. Andei até ela para dar-lhe uns tapinhas nas costas. Metade do refrigerante tinha subido pelo nariz.

“Minha namorada,” disse Gene com um suspiro, “sem­pre teve problema com a bebida.” Eu não agüentei o tro­cadilho e virei a cabeça para não rir na cara da Saman­tha. Samantha se endireitou e, com o queixo cheio de Coca-Cola, começou a socar o peito de Gene. Ela não conseguia parar de dar risada, e Gene fazia o possível para que ela continuasse.

“Deixe-a respirar!” gritei em meio ao meu próprio riso. Gene abraçou Samantha, fazendo-a se acalmar em seus braços. Depois que Samantha começava a rir, quase nada a fazia diminuir. Era bom se soltar, e todos nós precisávamos.

Flagrei Caleb encarando inconscientemente Gene e Sa­mantha. Algo em seu semblante denunciava um desejo insatisfeito. Samantha tinha parado de rir e parecia se afundar em Gene. Notando a minha atenção, Caleb rapi­damente desviou o olhar. Levou imediatamente o copo aos lábios para cobrir a breve vergonha.

“Seu próximo concerto é quando?” perguntei ao Caleb.

“Uma semana antes da formatura,” respondeu Caleb. “Não que eu seja muito fã da música que o Sr. Simpson escolheu, mas a orquestra já começou a se reunir.”

“Ele não deixa vocês escolherem suas próprias canções?” perguntou Gene.

“Não,” respondeu Caleb. “De tempos em tempos ele per­mite uma escolha entre duas ou três, mas em geral tenta aumentar o nosso repertório.” Ele deu de ombros. “Ele incluiu uma montagem com as músicas de Piratas do Caribe. Acho que faz assim para a platéia não ficar muito entediada.”

“Vocês deviam fazer uma noite de filmes,” acrescentei. “Star Wars, Caçadores da Arca Perdida.”

“Ia ser maneiro,” concordou Gene. “Ponha também Caça-fantasmas e Jurassic Park.”

“E dum, dum, dum, dum,” eu disse, mal imitando a tri­lha de Tubarão. Uns caras atrás de nós, com vozes mais grossas, repetiram a trilha, e ela não demorou muito a se espalhar pelo resto do quintal. “Tá vendo,” falei, “a esco­la inteira entraria nisto.”

“Vou passar pra ele,” disse Caleb com uma risadinha. “Mas saiba que o Sr. Simpson gosta de compositores mortos e enterrados há pelo menos 100 anos.” Ele er­gueu as sobrancelhas para mim: “Quer mais uma bebi­da?” Meu copo já estava vazio há tempos.

“Claro, Sprite,” eu disse com um sorriso, entregando meu copo.

“E um pouco desses pretzels,” gritou Gene enquanto Ca­leb entrava na casa. “Pelo menos ele já beijou você?”

“Somos apenas amigos,” insisti. “E vou agradecer se não colocar minhoca na cabeça dele.”

“Que é que tem de mais?” perguntou Samantha. “Você gosta dele, e obviamente ele gosta de você.”

“Tenha dó,” eu gemi. “Einstein vai para o MIT. Você quer que namoremos por dois meses e daí rompamos.” Balancei a cabeça. “Não há futuro para nós. Ele é muito inteligente para uma pessoa como eu.”

“Não sei,” sorriu Gene, “eu me rebaixei ao nível da Sa­mantha.” Segurei uma risada enquanto Samantha o em­purrava para longe. Seus lábios sorriam, mas os olhos eram só maldade.

“Quer falar de notas?” disse Samantha com as mãos na cintura. “Vamos, Sr. Cérebro! Aqui mesmo, agora.”

“Eu vi o seu boletim, Gene,” avisei.

“Eu estava falando de altura,” disse Gene com um olhar inocente. “Me sinto insultado por vocês terem pensado outra coisa.” Revirei os olhos de modo que Samantha pudesse ver.

“Como você agüenta esse cara?” perguntei.

“Um dia de cada vez,” respondeu Samantha, voltando aos braços de Gene. “Um dia de cada vez.” Eu de fato in­vejava a proximidade que crescia entre ambos. Queria um pouco disto para mim, com alguém que tivesse comi­go algum futuro.

“Aqui está,” disse Caleb atrás de mim. Ele tinha três co­pos equilibrados nas duas mãos. Tive de pegar primeiro o copo cheio de pretzels para evitar que tudo aquilo fos­se parar no chão.

“Obrigada,” falei, atirando um salgadinho na boca antes de passá-los ao Gene.

Ficamos do lado de fora ajudando a alimentar a foguei­ra. As pessoas iam e vinham, deixando o nosso pequeno grupo e se juntando a ele. As conversas eram fúteis, mas sempre divertidas. Caleb estava se alimentando do Gene como se o conhecesse a vida toda. Não sei como, mas ele tinha aprendido a antecipar as piadas bobas do Gene e colaborava com elas. Gene trocava as palavras e prepa­rava a armadilha para Caleb cair. A mente de Caleb era muito veloz quando ele estava relaxado, e fazer um due­to com Gene não era problema. Rimos com ambos até os nossos pulmões doerem.

Quando Caleb decidiu vir à festa, acho que não pensava que seria tão divertido. Eu estava curtindo a curtição dele, sentindo ter uma pequena parcela na sua expansão social.

“Preciso achar o banheiro feminino,” disse eu, imaginan­do que o próximo ataque de riso seria embaraçoso. To­dos assentiram; eu me virei e segui para dentro da casa.

“Por que está tão feliz?” perguntou Traci Finland. Ela es­tava na minha classe de literatura inglesa, e uma vez fi­zemos trabalho em dupla. Eu não percebi o meu sorriso congelado no rosto até ela falar alguma coisa. “Algo a ver com aquele cara com quem você está saindo?” Ela apon­tou o copo na direção das portas de vidro. Inconsciente­mente, eu acompanhei com os olhos e descobri que esta­va apontando para Caleb.

“Ah, não,” disse eu, frustrada por todo mundo achar que Caleb e eu éramos objeto de interesse. “Caleb e eu somos só amigos. Ele e Gene estão contando piadas, e não paro de rir.”

“Bem que você poderia namorá-lo,” disse Traci, forçan­do distraída o cabelo ruivo por sobre a orelha, “vocês dois não se desgrudaram a noite toda.” Senti meu rosto queimar ao pensar em como aquilo era verdade. Ela es­tava certa. Eu gostava de estar junto de Caleb. Parecia que agora alguma coisa faltava quando eu não estava perto dele.

“Acho que preciso me misturar,” falei casualmente, “meio que perdi a noção do tempo. Esses dois são engra­çados demais juntos.”

“Não há regras,” disse Traci. “Não deixe de se divertir por causa de mim. Eu só estava puxando papo.” Ela sor­riu amigavelmente, e parecia mesmo não ter intenção de falar muito a sério ao dizer o que disse. “Que tal um sel­fie?” perguntou ela, segurando o telefone, “estou docu­mentando a última festa.”

“Claro,” respondi me inclinando junto de Traci. Sorri­mos para ela tirar a foto. Ouvimos um impacto, seguido de risadas e aplausos, atrás de nós. Um garoto de nome Tommy tinha derrubado uma bandeja cheia de prataria. Traci foi rápida como uma repórter e começou a filmar a breve humilhação do rapaz.

“Estava procurando o banheiro,” eu disse, olhando ao redor. “Sabe onde é?”

“No fim do corredor, mas a fila está quilométrica,” disse Traci. Apontou com o queixo para a escada. “A do andar de cima está bem menor.”

“Obrigada,” eu disse, agradecida pela dica. Minhas en­tranhas estavam ficando ansiosas com aquela conversa de filas, de modo que decidida eu fui. Me repreendi em silêncio por não procurar alívio antes.

A subida da escada era um percurso com obstáculos hu­mano. Grupos de pessoas tinham decidido usar os de­graus como cadeiras, além de apoios para as bebidas. Por duas vezes eu quase derrubei um copo ao cruzar por entre as pessoas e por cima delas. A casa ficava mais apertada a cada minuto.

Apesar de eu precisar encontrar um toalete, parei para breves conversas com pessoas que eu conhecia bem. Eram papos fúteis e principalmente respostas educadas. Notei que algumas das pessoas estavam bebendo coisas mais fortes do que refrigerante. A fala enrolada e os ges­tos extravagantes dos braços eram a primeira pista. A se­gunda era o cheiro. Eu apenas sorri; eles que se divertis­sem. Esperava que a maioria deles passasse a noite de modo a não provocar nenhum anúncio severo na escola na segunda-feira.

Eu não fazia idéia do tamanho da fila no primeiro andar, mas a do segundo tinha sete pessoas. De novo eu desejei ter pensado em minhas necessidades mais cedo. Eu teria dado a minha carteirada feminina se a fila já não fosse toda de mulheres. Gemi um pouquinho alto demais.

“Há um outro banheiro aqui dentro,” disse baixinho uma voz pela qual eu acabava de passar. Voltei-me e dei com Mason Crawford e seus dois amigos apoiados numa porta que eu imaginei ser a de um quarto. Ele tinha um sorriso pouco confiável. “É a suíte master,” ele sussur­rou. Rapidamente eu comparei a minha desconfiança com a necessidade biológica que aumentava.

“Sem sacanagem?” perguntei, imediatamente me arre­pendendo de botar as minhas dúvidas em palavras.

“Palavra,” disse Mason, erguendo as duas mãos, uma de­las segurando uma garrafa de cerveja. Ele fez o que pare­cia ser uma expressão inocente. Um de seus amigos – de nome Frank, acho – assentiu concordando. Mason abriu a porta e ficou de lado.

“Obrigada,” falei entrando no quarto. Fiquei surpresa quando Mason então fechou a porta, ficando do lado de fora e me deixando em paz. Era a suíte master. Uma gi­gantesca cama com quatro colunas e uma pequena área de estar num nicho da janela. Era decorado com bom-gosto, sem pender nem para o feminino nem para o masculino. Eu abri a primeira das duas portas e encon­trei um enorme closet. A porta seguinte dava para um banheiro magnífico. Cuba dupla e um box de chuveiro onde cabiam dez. O espelho refletiu uma cabeça com um cabelo que parecia ter passado as últimas horas num conversível.

Usei rapidinho o banheiro, lavei as mãos e daí gastei uns instantes abrindo gavetas até achar uma escova. Eu ti­nha como regra evitar usar escovas dos outros, mas meu cabelo precisava de uma arrumação. Não demorou mui­to para ajeitá-lo. Guardei tudo como tinha encontrado, satisfeita por não ter mais cara de sem-teto. Me pergun­tei se incomodou Caleb. Ele não deu nenhum sinal de es­tar perturbado pela minha aparência.

Saí do banheiro e a minha gratidão ao Mason acabou como começou: num átimo. Ele estava postado dentro do quarto, entre mim e a porta para o corredor. O sorri­so malévolo em seu rosto era tudo menos amistoso.

“Obrigada por me avisar do banheiro,” eu disse num tom amistoso. Mason não se mexeu quando eu me aproximei da porta. Tentei afastar o medo que crescia. Ele não ti­nha feito nada de errado, mas sua postura indicava que estava cheio de idéias.

“Você vai com o CDF?” perguntou Mason. Ele era como uma muralha entre a porta e eu. Eu tinha que diminuir o passo ou tentar empurrá-lo para fora do caminho. Com mais de um metro e noventa e mais de noventa quilos, ia ser uma tentativa inútil.

“Não conheço CDF nenhum,” respondi. Botei minhas mãos na cintura e fiz a expressão que minha mãe fazia quando estava contrariada. Se não fosse pelos quadris apoiando firmemente as minhas mãos, com certeza elas estariam tremendo.

“McGuire,” esclareceu Mason. Ele cruzou os braços ma­ciços sobre o peito.

“Caleb e eu somos só amigos,” eu disse com alguma irri­tação na voz. Era melhor do que deixar escapar o medo.

“Você não me aceitou e deixou aquele nerd levá-la ao baile?” perguntou Mason.

“Você não pediu,” respondi. Ainda bem que retive o res­to da frase que veio à minha mente.

“Seu irmão se encarregou de inventar mentiras,” conti­nuou Mason. “Agora todo mundo pensa que aquele mer­dinha me pregou uma peça. Estou pedindo agora.”

“Eu vou com Caleb. Talvez se você tivesse pedido antes,” falei. Soltei os braços para os lados, e de repente fiquei sem saber o que fazer com eles. Uma postura agressiva estava fora de questão, mas eu não sabia o que pôr no lu­gar.

“É óbvio que você não sabe o que é um homem de verda­de,” disse Mason, fazendo soar mais como uma ameaça do que uma afirmação. Ele avançou e, com medo, dei um passo atrás. Rangi os dentes e decidi ficar firme, sem recuar mais.

“Desculpe,” eu disse, a voz saindo mais fraca do que eu queria, “já disse sim ao Caleb.”

“Desdiga,” disse Mason, dando um passo para encurtar a distância entre nós. “De qualquer modo ele não vai fazer nada a respeito.”

“Não!” gritei. Desta vez a palavra saiu com raiva mesmo. Caleb iria fazer algo a respeito e acabaria sendo morto por isso. Eu sei que iria. Eu via quando ele olhava para mim. Tentei contornar Mason, agora que havia mais es­paço entre ele e a porta. Não fui rápida o bastante.

Mason projetou a mão e agarrou meu pulso como uma morsa. Um grunhido involuntário saiu dos meus lábios quando ele me deu um puxão contra o peito dele, envol­vendo-me com o outro braço. Só consegui emitir o co­meço de um grito antes que a sua mão maciça cobrisse a minha boca. Agarrei o pulso dele com a minha mão livre, e ele riu de eu tentar tirar a sua mão do meu rosto. Um terror negro preencheu a minha mente enquanto ele me arrastava mais para o meio do quarto. Eu nada podia contra a sua força.

“Ah, você vai romper com ele,” disse Mason. “Uma noite comigo e sua vida vai mudar.” Tentei acertá-lo nos lados e arranhar seu rosto. Era como uma parede de tijolos, e isto só lhe fazia rir. Meu pulso parecia que ia quebrar, e meus olhos se encheram de lágrimas. “Silêncio,” orde­nou ele, movendo a mão da minha boca para o meu ca­belo. Segurando um punhado de cabelo ele deu um pu­xão para trás na minha cabeça, machucando meu pesco­ço. Um horror puro tomou conta de mim ao perceber a intenção em seu olhar. Derrubei minhas muralhas men­tais e gritei silenciosamente por papai.

Uma calma se instalou quando Mason forçou seus lábios nos meus. Papai estava mais perto do que eu pensava, e mais perfeito do que eu lembrava. Sua música rodopiou ao meu redor, e se uniu à minha com esforço zero. A dor no meu pulso e o golpe violento que senti no cabelo se dissiparam, e um amor maior do que jamais conheci me envolveu num cobertor de segurança. Tudo ia ficar bem.

Mason separou meus lábios e meu corpo relaxou. Ele en­tendeu que era um sinal de resignação, mas era simples­mente paciência. A ajuda estava chegando. Um surto de raiva, e depois ódio absoluto, me invadiu. Não era eu. Não era papai. Era horrível sentir aquilo crescer. Eu sen­tia o pânico de papai e mamãe, e até mesmo a preocupa­ção de Zane. Eles estavam vindo, só que ainda muito dis­tantes. O ódio – não, a pura e desenfreada hostilidade – já estava aqui. Era Caleb.

Tentei bloquear Caleb. A intenção que o devorava era maior do que eu podia suportar. Nada funcionava, e cada bloqueio mental espatifava antes que chegasse a se firmar. Sua música era a minha música, e eu não podia fazer nada. Não gostei do maligno crescendo em seu co­ração; era a sua ruína. Calmamente, me inclinei para trás, separando meus lábios dos de Mason.

“Você tem que me soltar,” eu disse, tentando fazer Ma­son entender. “Não posso pará-lo.” Imaginei Mason ma­tando Caleb, e as lágrimas começaram a escorrer.

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