A Presa: Capítulo 15 – Teegan

Tio Hank estava sentado sozinho na sala de estar, bebe­ricando café. Fiquei olhando da escada por um momen­to, vendo a sua careca do tamanho de um punho atrás da cabeça. O resto do cabelo não era mais do que uns fios cinzentos penteados de qualquer jeito da esquerda para a direita. Mamãe e papai tinham saído caminhar, e Zane ia ficar fora até mais tarde. Depois de saber a verdade, mamãe e papai tinham a intenção de me deixar escolher o meu próprio destino. O tio Hank até então tinha sido meu amigo, mas agora alguma coisa se meteu no meio, algo de rival.

“Dia, tio Hank,” eu disse quando afinal resolvi descer a escada. Ele depôs a xícara de café na mesa e se levantou, mostrando ao se virar o seu sorriso sempre amável.

“Teegan!” disse Hank, “você fica mais bonita a cada dia. Quanto tempo faz, quatro meses?”

“Quase cinco,” respondi, corrigindo-o. Não podendo evi­tar, abracei-o. Ele abraçava como um urso abraçando seu filhote. Tinha um novo significado; estava faltando boa parte daquele conforto costumeiro. Tentei ser cor­tês, mas um pouco do meu desconforto ficou visível. Ele desfez o abraço e sentou-se, me levando a fazer o mes­mo. Fiquei na outra ponta do sofá. O sorriso dele não parecia mais tão verdadeiro.

“Mamãe e papai me contaram tudo,” informei. Hank suspirou e assentiu com a cabeça.

“Já era hora, eu acho,” disse Hank, seu rosto pendendo ligeiramente, “vou sentir falta da garota, e acolher a mu­lher. Suponho que tenha perguntas.”

“Descobri que não ligo para os óbvios porquê e como,” falei. “Eu existo e tenho uma família. O que eu não en­tendo é a sua conexão com os militares. Será que vou ser estudada por eles pelo resto da vida?” Minhas palavras deixavam transparecer um pouco de raiva.

“Espero que não,” respondeu Hank. “Eles, encorajados por mim, foram perdendo o interesse ao longo dos anos. Tenho lhes enviado uns relatórios bem compridos e cha­tos, sem nada muito proveitoso. É um jeito de niná-los até dormirem. Você tem que entender que na época eles eram um mal necessário.”

“E se eu não quiser mais um cão de guarda?” Hank olhou para o teto, e ergueu a mão passando-a pelo quei­xo e pela boca. Puxou o lábio superior, meio ausente. Depois de acabar de pensar, seus olhos encontraram os meus.

“Podemos simular,” disse Hank, “dar-lhes informação suficiente para acreditarem que estamos nos encontran­do. Estão já bastante acostumados a relatórios sem gra­ça. Com o tempo, talvez uns cinco anos, eles podem tirar do orçamento e encerrar.” Ele virou o corpo inteiro para mim. “Você vai ter que enviar pedacinhos de verdade: onde resolveu estudar, o que está estudando. O resto eu invento.” Havia tristeza em seu olhar, coisa que eu não esperava. Antes ele estava sempre tão contente perto de mim.

“Você me deixaria?”

“Se é o que você quer,” respondeu Hank, “então sim.” Eu via que os seus olhos diziam a verdade.

“E se mentíssemos para eles, mas continuássemos ami­gos?” ofereci. O rosto inteiro dele se iluminou de novo. O sorriso que eu recordava voltou aos seus lábios.

“Eu gostaria muito,” disse Hank, enfatizando as palavras com todo o seu corpo. Sorri de volta e sentei mais perto, como uma proposta de paz. Ele recebeu bem.

“Não gosto da idéia de que fui projetada,” falei. “Estou presa a isso, mas não gosto de ser diferente.”

“Desculpe,” admitiu Hank, “eu nunca olhei além do pro­cesso. Nunca vi de verdade a mulher que iria emergir, só a ciência.”

“Faria de novo?”

“Se farei de novo?” reformulou Hank. “Não. Meu traba­lho foi todo destruído. Farei tudo o que puder para que nunca se repita.” Parou um momento. “E quanto a des­fazer o que eu fiz?” Balançou a cabeça. “Nunca. Eu nun­ca iria desfazer você. Você é preciosa além da conta.”

Ofereci a minha mão e ele a tomou. Bloqueando o resto do mundo, misturei minha música com a dele. Observei seu sorriso crescer enquanto o mundo se enchia de um fulgor imaculado. Dentro dele havia amor por mim, o mesmo amor que ele tinha por seus próprios filhos. Sen­ti que ele precisava me proteger; minha felicidade era mais importante do que as outras considerações. Na mi­nha mente ele retornou completamente ao status de meu tio. Deixei que o meu amor fluísse para ele também.

“Uau!” respirou Hank depois que soltei sua mão e a co­nexão se desfez.

“Não está mais bloqueado,” informei-o. “Coisas aconte­ceram ontem. Aprendi a controlá-lo, ou melhor, abri-lo. Acho que é a palavra correta.”

“Está mais potente do que quando você era um bebê,” observou Hank.

“Não sei se gosto realmente,” admiti. “Tem jeito de tra­paça. Nem mesmo sei se me engano ao acreditar nele.”

“Estou certo de que o puro pensamento pode enganar,” disse Hank, “mas não creio que seja a intenção.” Esten­deu a mão de novo. “Bloqueie agora,” falou sorrindo. To­quei nele, consciente de que o cientista precisava ver a coisa não funcionar quando assim ordenado. “Espanto­so. Foi esse Caleb quem derrubou as barreiras?”

“Prefiro não dizer,” respondi. “Como você sabe do Ca­leb?” Observei seu rosto ficar vermelho e ele engolir as palavras que ia dizer. “Papai!” deduzi.

“Não falei isso,” implorou Hank.

“Você guarda os meus segredos,” falei sorrindo, “que eu guardo os seus.” Gostei de ter um trunfo para usar com o tio Hank. Hank assentiu com a cabeça, como se tivesse escolha.

“Você cresceu depressa,” disse Hank com uma risadinha. Tomei como elogio.

“Descobriu como funciona?” perguntei.

“É como a gravidade,” respondeu Hank, balançando a cabeça, “um monte de teorias e nenhum fato. Lembra daquelas amostras de sangue que eu colhi de todos um tempo atrás?” Fiz que sim com a cabeça. “Seu pai possui algumas das mesmas seqüências de DNA que você pos­sui, as tais que ainda precisamos compreender.” Ele er­gueu as sobrancelhas, “biologicamente, acho que ele é o seu parente mais próximo.”

“Ele é meu pai,” falei. Fazia sentido pelo jeito como a música dele se unia quase perfeitamente à minha. Ainda havia diferenças, mas sem dúvida tínhamos uma cone­xão especial.

“Todo mundo sabia,” continuou Hank. “O amor dele e o seu transbordaram para fora da conexão quando você era bebê. Não sei como, por instinto você sentia a proxi­midade dele e ele tinha uma enorme empatia reprimi­da.” Hank sufocou o riso. “Ele precisava de você tanto quanto você precisava dele. Ainda hoje eu sinto isso na sua ligação.”

“É difícil trancá-lo para fora completamente,” admiti. “Bloquear os outros é como trocar de roupa. Eu coloco as muralhas e elas ficam erguidas até eu derrubá-las. Com papai dá mais trabalho.” Sorri maliciosamente. “Acho que eu não conseguiria mantê-lo para fora duran­te o sono. Sua ligação retornaria sorrateiramente em meus sonhos.”

“Por que iria querer isso?”

“Às vezes eu só quero ficar sozinha,” respondi. “Geral­mente quando estou chateada. Todo mundo simples­mente fecha a porta e liga a música.” Meu suspiro saiu mais alto do que eu pretendia. “É difícil fazer beicinho quando a família fica entrando furtivamente para estra­gar.”

“Acho que todos precisamos soltar uns bufos de vez em quando,” concordou Hank.

“Mamãe é viciada,” eu disse. Talvez fosse a palavra erra­da. “Ela já está acostumada a sentir todos nós para saber se estamos vivos e bem. O que vai acontecer se isto aca­bar?”

“Se você pudesse engarrafar o que tem, duvido que algu­ma mãe no mundo não comprasse,” respondeu Hank. “Sua mãe usa as ferramentas que estão à mão. Se a máquina de lavar quebra, você lava na mão. Se você romper a ligação, eu suspeito que ela vai usar o telefone então. Não acho que ela esteja viciada, só acostumada à conveniência.”

“Acho que tem razão,” eu disse. “Mesmo assim, se algu­ma coisa acontecer comigo, não quero que tudo se des­mantele.”

“Você ainda acha que a ligação é o fundamento,” disse Hank, pondo um sorriso paterno. “A verdade é que você não é nada mais do que uma máquina de lavar.” Foi bom dar risada. Eu estava levando tudo muito a sério. Hank estava certo, eu acho: meu poder é mais conveniência do que necessidade.

“Então,” disse Hank, movendo rapidamente as sobran­celhas, “me conte sobre esse cara, o Caleb.” Contei-lhe tudo sobre Caleb, enfatizando que era só um amigo. Hank ficou impressionado sobre o MIT, embora eu sen­tisse que ele já soubesse. Pensando bem, acho que ele e Caleb se dariam muito bem juntos. Ambos tinham a ca­pacidade de condensar assuntos complexos em pedaci­nhos de fácil digestão.

“Você já me contou como é que sente a conexão,” disse Hank. “Talvez o que lhe atraia nele seja o talento musi­cal.” A mente de Hank funcionava tão rápido que quase dava medo. Juntava coisas que as pessoas medianas nem imaginavam estarem relacionadas.

“Somos apenas amigos,” repeti.

“Pensei ter ouvido você dizer que vai com ele ao baile.”

“Vamos lá juntos, e só,” insisti. “Não queremos perder o nosso baile de formatura.” Hank me lançou um olhar confuso que terminou num sorriso meio deslocado. “Que é?” perguntei.

“É que o seu rosto se iluminou ao falar dele,” disse Hank com um sorriso crescente.

“Iluminou nada!” O sorriso sumiu.

“Você não se ligou com ele,” disse Hank num tom que era mais de pergunta. Com ele era uma checagem. Ele já sabia a resposta.

“Não, óbvio que não.” Detestei o jeito como Hank assen­tiu com a cabeça e passou a mão no queixo. Ele estava refletindo, julgando, analisando. “E não é da sua conta,” acrescentei ao perceber que o seu raciocínio estava to­mando um rumo invasivo.

“Não, acho que não,” disse Hank. Ele afastou de mim o corpo todo. Doeu vê-lo se encolher, e notei que eu tinha sido muito rude.

“Desculpe,” eu disse com mais gentileza. “Todo mundo fica falando como se fôssemos um casal. Não gosto de ser encurralada.”

“Então não vamos discutir política, religião, ou Caleb,” disse Hank, se inclinando à frente com um sorriso. Ago­ra que ele entendeu, eu sorri de volta. Com isto ele relaxou e mudou de assunto. “Sua ligação está mais for­te, ou talvez eu não me lembre muito bem dela. Você já conseguiu chegar em pessoas não ligadas?”

“Não sei,” respondi. “Acho que percebi algumas emoções no concerto, mas todo mundo estava tão eletrizado que não sei se não era só animação da multidão. Por quê?”

“Uma coação ou uma necessidade séria já provocaram coisas diferentes antes,” explicou Hank. “Sua mãe e seu pai conseguiram se valer de pessoas que nem mesmo co­nheciam quando acharam que você ou um deles estava em perigo.”

“Eles me contaram,” eu disse.

“Você não experimentou nada disso?” perguntou Hank. “Nada de informação de fonte desconhecida, ou novas habilidades que ninguém lhe ensinou?”

“Nada parecido,” disse eu, dando um risinho depois. “Acho que seria bom arrancar uns números da loteria de dentro da cabeça de alguém. Sempre sonhei com uma mansão na praia.”

“Não acho que você funcione desse jeito, e nem a lote­ria,” disse Hank com uma risada. “Acho que algumas das suas habilidades estão dormentes por causa da vida que seus pais lhe deram. Sem eventos traumáticos, a mente perde a prática.” Pensei no show e na música que tinha provocado as coisas. Foi um evento surpreendente, mas não sei se cabia na categoria traumática. Foi quase como se eu estivesse me ligando comigo mesma por alguns instantes; mais confusão do que outra coisa.

“Estou mais fraca porque não preciso ser forte,” deduzi.

“Exatamente,” disse Hank. “Porém eu não acho que você está mais fraca, apenas seu poder. Você está mais forte de certo modo, aprendendo a viver sem o seu poder to­tal.” A idéia me fez sorrir. Ele parou um instante antes de continuar. “O que viria quando você amadurecesse, era o que todos nós perguntávamos. Fico feliz em ver que a empatia está em primeiro plano ao invés do egoís­mo.” Senti um calor no rosto ao pensar em como eu re­colhi meu poder quando fiquei brava com mamãe. Usei-o como uma ferramenta mais para puni-la do que para me isolar.

“Não sou perfeita,” admiti.

“Não,” riu Hank, “adolescentes em geral não são. Eu mesmo era um terror. Até hoje não entendi como foi que meus pais sobreviveram aos meus anos de colegial.” Eu o incitei e ele foi logo explicando o que quis dizer com ‘terror.’ Foi bom saber que eu não era tão horrível quan­to pensava. Havia outras pessoas na terra cujos defeitos excediam os meus. Nunca tirei o carro de papai da gara­gem, antes de ter carteira, e bati num carro da polícia. Nunca fabriquei fogos de artifício caseiros e botei fogo na garagem. Fugir de casa às duas da madrugada nunca passou pela minha cabeça, muito menos pichar insultos ao diretor na lateral da escola.

“Para mim você era um nerd,” eu ri.

“As coisas se acalmaram quando eu entrei na faculdade,” disse Hank. “Conheci Victoria, que era uma nerd. Um jo­vem faz muitas coisas para impressionar uma mulher. Ela gostava de boas notas. Eu a amava.”

“Você é romântico,” disse eu.

“Ela é que é a romântica,” corrigiu Hank. “Sou só o tolo que não vive sem ela.”

“É isso que eu quero!” eu disse. “Sem ligação. Só alguém que me ame pelo que eu sou.”

“Mas a ligação é parte de quem você é,” disse Hank em voz baixa. Dava pra ouvir a hesitação na voz dele. Ele via como um bem, e sabia que eu não sentia o mesmo. É verdade que é uma parte de mim. Não vou deixar que seja uma coisa que joga um homem qualquer para os meus braços.

“O que você vai contar aos militares sobre a visita?” per­guntei, mudando de assunto.

“Nada,” respondeu Hank. “Há tempos que eles aprende­ram a confiar em mim. Eu viajo para todo lugar e presto consultoria para muitos acadêmicos. Esta será somente uma dessas viagens, isso se souberem e vierem pergun­tar.”

“Obrigada,” falei, inclinando-me para frente e abraçando meu tio. Eu sabia, sem a ligação, que o meu bem-estar estava acima do ‘need to know’ dos militares. Senti seu corpo relaxar no abraço, e algumas reservas se dissipa­ram. Éramos tão família quanto amigos.

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