O Casamento: Capítulo 12

Eu invadi, sem ser anunciado, o quarto da minha mãe. Não ligava mais para protocolo ou propriedade. A minha ira só cresceu no caminho. Quando a porta abriu violentamente, a minha mãe interrompeu a escovação e virou-se de costas para a penteadeira.

“Cayden!” berrou minha mãe, indignada. Eu não queria nem saber.

“Papai disse para deixar comigo,” berrei de volta, “você foi longe demais ao falar com Alia.” Eu sacudia o meu dedo para ela.

“A sua mão está sangrando,” disse minha mãe, preocupada. Eu não queria saber disto também.

“A sua intromissão custou caro, e você sabia muito bem que custaria.” Diminuí o tom de voz, mas aumentei o veneno. “Não era o seu lugar!”

“Eu sou sua mãe!” Ela fincou pé, a sua própria ira crescente. “É o meu lugar, e sempre será o meu lugar. Eu dei informações a ela, e nada além disso.”

“Você lhe deu dúvidas,” eu retaliei. “Arrancou-me a felicidade para satisfazer os seus próprios desejos.”

“Angelica cuidará da sua felicidade,” disse a minha mãe, convicta. Eu não me comporto bem quando a minha raiva transborda. Falei coisas que, eu bem sabia, me causariam remorso, embora eu quisesse mesmo dizê-las na hora.

“Mulher estúpida! Você não sabe nada sobre este casamento que inventou.” Cheguei mais perto, a mão ensangüentada e tudo. Notei o medo no olhar da minha mãe, coisa que saboreei vergonhosamente. “Angelica nunca fará um homem feliz. Ela não sente desejo por homens. Só o que você fez foi mandar a minha felicidade embora,” rosnei de frustração por entre os dentes.

“Se eu tiver de gastar a vida toda para consertar o que você fez, eu vou gastar.” Dei um passo atrás, desconfortável por deixar a minha ira tão perto dela. “Se o estrago for muito grande,” perdi um pouco do veneno pensando no fracasso, “então,” interrompi, olhando-a, “o meu ódio será grande demais para nós.” A minha mãe estava para além de chocada. Não se tratavam rainhas desta maneira. Tratavam-se mães.

Abandonei-a ali, o meu sangue no piso. Eu sabia o estrago que havia feito. Possivelmente eu tinha perdido o meu amor e a minha mãe. Na hora pareceu uma troca justa. Se ela descarregasse a raiva em Alia, eu abdicaria e buscaria consolo em um casamento do meu jeito. O reino que se transforme em ruínas! Sem herdeiro e sem proteção, eu afundaria todos eles.

Foi Lucius quem me encontrou, pôs bandagem na minha mão, e me acalmou.

“A rainha está chorando, meu Senhor,” disse Lucius, “o rei me ordenou que o mantivesse aqui, no seu quarto.” Disso eu dei risada.

“Quer dizer que me mandaram para o meu quarto?” perguntei, sarcástico.

“Acredito que Sua Alteza deseja que se acalme, meu Senhor.” Lucius, então, acrescentou: “E que ninguém o veja.”

“Pode ser que eu a tenha perdido, Lucius.” Me sobreveio uma tristeza repentina. A ira se esgotou, deixando no lugar o vazio.

“Você já achou isto antes, meu Senhor. E não era.” Lucius sempre foi otimista. Agarrei a garrafa de vinho, vazia pela metade, e bebi um enorme gole. Lucius não pareceu aprovar. “Pode ser que amanhã melhore, meu Senhor.” Eu ri novamente. Era a mesma coisa estúpida que as pessoas sempre falavam quando as catástrofes aconteciam.

“Amanhã eu terei que acertar as coisas com Alia.” Ergui os olhos para Lucius, que pareceu desconfortável. “Talvez eu não seja mais o seu senhor quando acabar.” Tomei outro trago irritado.

“Você tem treino amanhã, meu Senhor,” me lembrou Lucius, “vou perguntar por aí, enquanto você extravasa a fúria. Pedirei que Alia encontre-o sozinha. Você não vai desejar que ela o veja deste jeito.” Ele tinha razão, é claro. Vê-la agora faria mais mal do que bem. Respirei fundo e expeli o ar.

“É, você tem razão,” disse eu, lentamente, colocando a garrafa de volta sobre a mesa. Nada do que eu tinha feito desde que Alia tinha saído era solução de modo algum. Eu tinha conseguido deixar a minha mãe tão mal quanto eu. Pouco servia de consolo, embora eu estivesse bastante convencido de que ela merecia. Lucius sumiu com a garrafa, fingindo estar limpando. Deixei que acreditasse que tinha me enganado. A sua intenção era boa: ele era um dos poucos a quem eu confiava o meu bem-estar. Dormi na cadeira essa noite, pois a cama estava simplesmente muito distante.

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