A Presa: Capítulo 14 – Teegan

As luzes externas estavam acesas, mas só uma lâmpada iluminava a sala de estar. Mamãe e papai estavam senta­dos praticamente no escuro com taças de vinho na mão. Ambos vestidos de roupão, mamãe sentada sobre as per­nas dobradas e reclinada nos braços de papai. Eles sem­pre demonstraram afeto mútuo, mas fazia muito tempo que eu não os via assim tão confortavelmente próximos.

“Ah… oi?” falei, certa de ter perturbado alguma coisa. As idéias do baile ficaram para trás.

“A noite foi divertida?” perguntou mamãe. Ela tinha um sorriso aberto no rosto, como se guardasse um segredo que só ela e papai sabiam.

“Muito,” eu disse, franzindo a testa.

“Sente,” disse papai, indicando a poltrona. “Queremos saber tudo.” Sentei-me e afundei-me desconfortavel­mente. Não era uma boa cadeira para um interrogatório, não tinha apoio para sentar direito. O sorriso de papai também era amistoso. Eu não lembrava de jamais tê-los visto tão relaxados.

“O tio Hank vem amanhã,” disse mamãe. “Ele sentiu você em Portland e reservou o próximo vôo.” Eu nunca tinha me conectado remotamente com Hank. Nem acha­va que sabia sua música tão bem assim. Acho que a mi­nha foi mais alta do que eu esperava.

“Tudo isso por Caleb?” perguntou papai. Corei pela insi­nuação que vi nos olhos deles. Tinha acabado de conhe­cer Caleb e aquilo tinha sido um meio-encontro. Quem eles pensavam que tinham criado?

“Não,” respondi rápido, “foi um acidente. Caleb nem desconfiou que aconteceu. Foi tão forte assim?”

“Você não sabe?” disse mamãe com um sorriso furtivo.

“Acho que sei,” respondi. “Algumas muralhas mentais desmoronaram, como se fossem uns bloqueios que eu não sabia que estavam ali. Tom e Caleb tocaram a minha música e elas todas caíram. Não se preocupe, eu as ergui de volta. Não vai acontecer de novo.”

“Sua música?” perguntou papai.

“Tom sabia um pedaço,” falei. “Não faço idéia de como o Caleb sabia o resto. Me senti devassada quando eles co­meçaram a tocar; a Wendy me abraçou e eu perdi o con­trole. Não consegui não me ligar com ela, foi tudo tão rápido.”

“Quem são Tom e Wendy,” perguntou mamãe, “e de que música você está falando?”

“A minha música,” respondi. “A coisa da ligação, já ex­pliquei antes, é como música de certo modo. Bom, acho que agora é mesmo música. É como eu me conecto, jun­tando com a música de outra pessoa. Bom, eles tocaram a minha.” Papai estava balançando a cabeça como se fos­se complicado de entender. “Tom a ouviu quando eu era um bebê. É ele o policial que tirou você e eu de Flags­taff,” contei ao papai. Eu não esperava a gargalhada. Os dois acharam hilário, e eu não tinha idéia do porquê de estarem tão contentes.

“Como vai o Tom?” perguntou mamãe. O interesse dela era verdadeiro, não uma cordialidade fingida.

“Está bem,” respondi, olhando para eles como se fossem gente desconhecida. “Ele toca com os Smooth Gliders. Wendy é a mulher dele.”

“Saxofone?” perguntou papai. Fiz que sim com a cabeça. “Queria estar lá. Seria bom vê-lo no palco.”

“Era o que ele queria,” acrescentou mamãe. Tomou um golinho de vinho, os olhos risonhos postos em mim. A noite não podia ficar mais esquisita.

“Você o paquerou,” disse a mamãe, tentando ganhar al­guma vantagem. Papai riu.

“Com certeza ela paquerou,” disse papai. “Acho que foi a primeira vez que fiquei com ciúme de um outro homem. Você estava usando aquele vestido de alcinha que a dei­xava bonitinha pra danar.” Mamãe sorriu e beijou o ros­to de papai, me fazendo sentir mais ainda uma vela. Eu não precisava da conexão para sentir o amor fluindo por eles. Minha ligação mais cedo tinha inflamado alguma coisa nova.

“Posso fazer de novo,” eu disse.

“Fazer o quê?” perguntou papai.

“Me ligar como hoje,” respondi. “Agora posso controlar. Eu só precisava sentir as muralhas caindo para saber que elas existiam.” Respirei fundo. “Posso até controlar quem sente. Hoje foi uma explosão, mas acho que eu consigo desligá-la para pessoas específicas.”

“Você acha que ela devia contar ao Hank?” mamãe per­guntou ao papai. A pergunta me confundiu. Por que Hank não deveria saber? Eu sempre lhe contei tudo.

“Ele sempre esteve do lado dela,” papai falou olhando para mamãe. “E não passaria adiante nada que pudesse machucá-la.”

“‘Dela’ está bem aqui,” eu disse. Nada me faz sentir mais criança do que falarem de mim como se eu não estivesse ali.

“É hora de termos aquela conversa,” suspirou papai, e mamãe assentiu com a cabeça. Eu sabia que não era so­bre sexo. O que veio foi uma explicação completa sobre o meu nascimento, a colaboração do tio Hank, e tudo que aconteceu com mamãe e papai tentando proteger a mi­nha vida. Eu já sabia alguma coisa, mas os detalhes fo­ram reveladores. As ramificações políticas da minha concepção me fizeram sentir menos humana. Se não fos­sem meus pais me contando, eu teria virado um tatu-bola e desaparecido do mundo. Saber que havia gente que nem me conhecia mas me odiava… bom, abalou a minha auto-estima. Meu único escudo de verdade era o anonimato.

A participação de Douglas Corbett era uma surpresa. Fa­zia apenas quatro meses que a morte dele esteve estam­pada em todos os jornais. Ele tinha virado uma espécie de recluso, um eremita na própria casa, sem receber vi­sita alguma. Agora eu sabia que ele tinha endoidado muito tempo antes.

Mais surpreendente ainda era a participação dos milita­res no meu esconderijo. Papai explicou que eles acreditavam que eu poderia crescer e virar ou um recur­so ou uma ameaça. O tio Hank foi o meio-termo que me permitiu viver relativamente em paz. Ele ficava de olho em mim e fazia relatórios sobre as minhas habilidades. Em algum lugar do Pentágono tinha um arquivo que provavelmente sabia quando eu tinha feito xixi pela últi­ma vez. Eu sempre soube que era diferente, mas não que outras pessoas reconhecessem oficialmente isto. Eu ti­nha um milhão de perguntas, e mamãe e papai respon­deram todas pacientemente.

“Por que vocês me amam?” perguntei ao final. Eu sabia que sim; podia sentir. Como é que o resto do mundo pode achar que sou um ‘assunto’ e esses dois, por algum motivo, viam algo diferente? Mamãe foi rápida, papai meio segundo atrás dela. Responderam com um abraço.

“Contamos porque precisa saber,” disse mamãe, “não para feri-la.” Meus olhos começaram a ficar úmidos. Eu só conseguia pensar nas pessoas que me odiavam.

“Se as pessoas entendessem você como nós,” disse papai, “elas a veriam pelo que é: uma benção.”

“A ligação faz com que vocês me amem?” perguntei. Desta vez não pude conter as lágrimas. Eu era uma aber­ração que fazia as pessoas caírem em êxtase. O amor não seria real nunca para mim. Senti a dor que as minhas palavras lhes causaram: estava gotejando pela ligação fraca, aquela que eu deixava existir o tempo todo. Fe­chei. Completamente.

“Não,” disse papai, sem se atrapalhar pela falta da cone­xão. “Me apaixonei pela menininha que sorriu pra mim quando lhe chamei de Fedidinha.”

“A ligação não faz ninguém amar ninguém,” disse ma­mãe. “Pode cortar caminho pelo lixo que arruína alguns relacionamentos, mas nunca os cria.” Ela limpou com a mão as lágrimas da minha face. “Se não acredita, nunca mais ligue de volta. Nós sempre estaremos com você, com ou sem conexão.”

Eu sabia que a minha mãe detestava quando eu desliga­va. Gostava de sentir a família, saber que todo mundo estava bem. Ela se sentia segura assim. Mantendo desli­gado, eu a feria.

“Você é nossa filha,” continuou papai. “Nada vai mudar isto nunca. Não interessa onde você está ou o que faz. Sou seu pai.” Mamãe me apertou mais. Exceto a minha família, eu não tinha mais ninguém no mundo. Ninguém mais era como eu, em lugar nenhum. Eu soube imedia­tamente que não podia perdê-los, ou seu amor.

Abri a minha mente, mais do que antes. Cerquei a músi­ca de mamãe e papai, isolando do barulho do resto do mundo. Dei-lhes tudo de mim ao nadar em seu amor. Abri os olhos e vi a beleza de um mundo perfeito, onde a harmonia das escolhas só levava à felicidade.

“Zane,” sussurrou mamãe. Localizei com a minha mente e achei Zane lutando contra o medo de sei lá que filme de terror ele estava vendo. Cerquei a música dele e abra­cei-o junto conosco. Sua alegria duplicou a nossa.

“Minha família,” suspirou papai. Ele estava tão terno por dentro, um cobertor para a minha alma. Mamãe era a bússola, mas papai era segurança. Sem eles eu era nada. Com eles eu era tudo. Éramos peças de um todo, que se encaixavam como um quebra-cabeças. Nem que quisés­semos poderia ser diferente. A ligação não era a cola: o amor era. A ligação só expunha aquilo que já era. Derru­bei a conexão total, deixando apenas a fraca. Mamãe precisava para sentir a gente. Era isto ou ela ficaria nos chamando o tempo todo.

“Desculpe,” eu disse sem fôlego.

“Por que, querida?” perguntou mamãe, sorrindo de novo.

“Por duvidar de vocês,” respondi. Papai deu uma risadi­nha que pareceu fora de propósito. Olhei para ele com algo a mais do que mera curiosidade.

“Quando você era bebê,” explicou papai, “passamos pelo mesmo sofrimento. Eu simplesmente não conseguia crer que sua mãe podia me amar. Pensava que era você quem causava tudo.”

“Levou um tempão para que ele superasse isso,” disse mamãe, acariciando meu rosto. Me senti criança de novo, enrolada nos braços dos meus pais. Por alguma ra­zão eu não desejava sair.

“Zane vai lhe perguntar coisas,” disse papai. “Agora a história é sua. Você decide se vai contar pouco ou mui­to.”

“Ele merece umas respostas,” falei, assentindo com a ca­beça, mas daí mudei de assunto. “Eu sempre confiei no tio Hank. Agora não tenho mais certeza. Não quero ser uma ferramenta militar.”

“Acho que, no fundo do coração, ele quer o melhor para você,” disse papai. “Ele até me disse que os militares ha­viam perdido interesse. Mesmo assim, você pode contar uma mentira inocente. De repente você bateu a cabeça no concerto, e isso provocou o evento. Talvez seja me­lhor não envolver Tom. Ele fez um grande favor anos atrás e não merece uma inquisição militar.” Assenti com a cabeça, imaginando os xingamentos que receberia da Wendy se eu fosse a causa de alguém revirar sua casa. Me fez sorrir. Ela nunca segurava a língua.

A poltrona rangeu, marcando o fim do abraço familiar. Mamãe ficou em pé, temendo o colapso da cadeira. De­pois papai, e eles relutantemente voltaram aos seus lu­gares no sofá. A proximidade fazia falta, mas eu sabia que precisava ser adulta.

“Então,” disse mamãe depois de se aninhar no papai de novo, “você não contou como foi com Caleb.”

“Bem, eu acho,” falei. “Vamos juntos ao baile.” Vi a ani­mação explodir no rosto de mamãe, e vi papai erguer bem as sobrancelhas. “Como amigos, só,” expliquei.

“É assim que ele vê?” perguntou mamãe.

“Por que todo mundo fica fazendo isto?” reclamei. “So­mos só amigos. Ele vai para o MIT, ou Stanford, ou para algum lugar onde os cérebros são Einsteinizados. Não ia funcionar, mesmo se ele quisesse.”

“Hmmm,” disse papai com um sorriso, “isto me soa va­gamente familiar.”

“Só porque nos amamos,” eu disse endurecendo, “não quer dizer que eu tenho que gostar de vocês.” Mamãe riu.

“Ele é um bom rapaz,” disse mamãe. “Gosta de você, e não preciso da ligação para perceber.”

“Não estou pronta para gostar de ninguém,” falei. “Te­nho muita coisa para pensar, e agora ainda tem tudo que vocês me contaram hoje. Caleb não está nas minhas prio­ridades.”

“Pensei que ele fosse bonitinho,” disse mamãe, dando de ombros.

“Ele precisa cortar o cabelo,” eu disse ao levantar.

“Estou com Teegan,” disse papai. “Não há problema em esperar a hora certa.” Mamãe revirou os olhos.

“Obrigada, papai,” eu disse. Me inclinei e lhe dei um bei­jo de boa noite no rosto. Depois na mamãe, que parecia querer me falar algo mais. Eu só precisava do amor de­les. Conselhos de relacionamento eu não precisava de ninguém.

Subi as escadas sorrindo internamente. Eu era uma aberração, mas amada. Meus pais podem não saber ab­solutamente nada sobre namoro, mas sabem fazer me sentir querida. Até o Zane me amava daquele seu jeito pateta. Senti que ele gostava de ser uma parte de nós. Não interessa o que aconteça, tenho a minha família.

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