O Casamento: Capítulo 11

Ao me retirar à noite, Alia aguardava em meu quarto. Lucius, rapaz sempre atencioso, se fez ausente. Algo havia mudado em Alia. Eram as suas maneiras, o modo de sustentar a cabeça, onde fixava o olhar. Estava confortavelmente sentada em uma das cadeiras próximas ao fogo. Tinha uma taça de vinho na mão e uma outra me esperando sobre a mesa. A luz das chamas cintilava e refletia em seus cachos, dando-lhe uma espécie de aura alaranjada. O efeito era encantador.

“Você está bem bonita,” disse eu, me aproximando. O seu sorriso melhorou ainda mais a vista. Ela estendeu a mão e me entregou a taça, enquanto eu me sentava numa cadeira que estava a um braço de distância, longe demais para o meu gosto.

“Angelica acha que você é o melhor homem do mundo,” disse Alia, sorrindo e bebericando o vinho. Não havia mais apreensão. Era isto que estava diferente. Eu não era mais o seu amo e senhor. Era inebriante.

“Não fiz mais do que ela fez por mim,” falei humildemente. O vinho estava morno, com um traço de amargo quase imperceptível. Depois de engolir, veio um sabor de tons frutados. Era apropriado para a lareira.

“Cayden, qual você acha que é o meu lugar nisso tudo?” perguntou Alia. Ela deu a impressão de se divertir esperando a resposta. Eu diria que ela mesma já tinha definido, previamente ao acordo com Angelica. Me perguntei se existia uma resposta correta. Me perguntei se ela podia ficar ainda mais provocante do que estava, sentada naquela cadeira.

“Minha verdadeira esposa,” respondi. Me ajeitei no assento para conter o desconforto que tinha resolvido aparecer. O vinho subia à cabeça. Ergui os olhos e vi um terço da garrafa vazio. Me perguntei quanto tempo ela tinha esperado.

“Você esconderá segredos de mim?” perguntou Alia com um sorriso amplo e malicioso. Ela tinha esperado bastante. Era evidente que queria jogar. Não sei como eu sabia. Só posso adivinhar que foi o meu coração que captou.

“Não, minha Senhora,” disse eu, sorrindo. Alia sorriu mais. Eu tinha razão: ela queria jogar. Era um lado dela que eu não conhecia. Ela inclinou a taça e esvaziou-a, engolindo com graça. Apresentou a taça e me olhou. Levou um segundo, porque eu não estava acostumado às pessoas me olhando desse modo.

“Desculpe, minha Senhora.” Me atrapalhei para levantar do assento e encher-lhe novamente a taça. Que sorriso delicioso ela deu… Eu nunca a tinha servido antes; bem, não fora da cama. Contra o meu apetite crescente, retornei ao assento. Alia deu a mais gloriosa risada.

“Não posso continuar,” disse Alia, “mas você gostou?”

“Muito mesmo,” respondi, “vou servi-la sempre que desejar.” Ela era simplesmente adorável.

“Podemos apenas conversar um pouco?” perguntou Alia.

“É claro, minha Senhora,” eu sorri e me acomodei no assento.

“Eu gosto quando você me chama assim.”

“Eu gosto de chamá-la assim.”

“Você ficará entediado comigo?” perguntou Alia, não mais sorrindo.

“Deus, imagino que não!” repliquei, “Acho que o meu receio maior é que você fique entediada comigo.”

“Você me avisará,” Alia fez uma pausa, “se eu me tornar velha e sem graça para você?”

“Sim… quer dizer, não! Eu nunca vou achar que você perdeu a graça… por que está perguntando isto?” Eu estava perdido; de onde tinha vindo isto? Tentei pensar o que eu tinha feito para atemorizá-la.

“A rainha conversou comigo hoje,” disse Alia, em voz baixa, “ela não estava contente. Não que estivesse com raiva, note bem. Ela me disse que provavelmente eu era apenas uma fantasia para você. Me fez refletir.” Controlei a minha ira, impedindo que se manifestasse. Graças a Deus que a minha mãe não estava ali, porque eu teria dito muita coisa de que me arrependeria.

“Eu fantasio com você hoje. Fantasiarei com você amanhã. E, quando formos velhos, você terá que me repelir com a sua bengala,” disse eu, tentando aplacar a minha ira, “amo você, e não tenciono parar.”

“Sei que é minhoca da minha cabeça.” Alia começava a engasgar. “De repente eu fiquei com medo de não conseguir mantê-lo feliz.” Não era correto o que eu pensava da minha mãe naquele instante. Ela ainda estava brava por Angelica tê-la manipulado. Ela estava agitando as coisas. “Pensei que se eu agisse mais como uma dama, talvez fosse melhor.”

Dei-lhe um sorriso. “Faz o meu desejo aumentar, embora o meu amor permaneça o mesmo,” disse eu, honestamente, “não consigo ver esse amor mudando algum dia.”

“Você tem que produzir herdeiros,” afirmou Alia. O que a minha mãe tinha começado era visível nos olhos de Alia. Ela duvidava de si mesma. Uma rainha pode abrir, em segundos, um buraco na mente de uma criada. Emudeci por alguns instantes, procurando formular uma resposta.

“Uma vez eu beijei os lábios de Angelica,” disse eu, como que arrependido, “e foi como beijar a minha tia. Angelica e eu devemos produzir um herdeiro, disto não podemos escapar. Prometo que será como um dever, e não como eu e você. Não vou mentir e dizer que a criança não será amada.”

“Como a sua tia?” repetiu Alia. Acho que foi a única coisa que ouviu.

“Sim, agora damos beijo no rosto.” Quando Alia sorriu, eu sorri.

“Então eu não estou abaixo de você?” perguntou Alia. Eram as palavras da minha mãe que lhe saíam da boca. A minha raiva crescia, e eu sabia que não era dirigida a Alia. Engoli a ira, tentando aparentar calma.

“Você nunca estará abaixo de mim,” disse eu com doçura, “eu sempre enxerguei você como alguém maior do que eu. Ninguém jamais lhe substituirá, e eu não me cansarei de você. A minha mãe fala sem saber.” Alia sorriu, mas não era um sorriso confiável. Neste ritmo, levaria anos para convencê-la.

“Mylle chega quando?” perguntou Alia, mudando de assunto, para meu alívio.

“O rei enviou um mensageiro hoje; talvez em duas semanas. Com certeza antes do casamento,” respondi.

“Ela também é uma dama?” questionou Alia, dando a impressão de não ter interesse na resposta. Senti subir a bílis. Eu sabia para onde isto ia.

“Com ou sem títulos de nobreza, ela não estará interessada em mim, nem eu nela,” respondi imediatamente. Alia tomou outro golinho do vinho, digerindo mentalmente as minhas palavras e misturando-as com as da minha mãe. Amanhã eu teria uma conversa com ela, e esperava que uma noite de sono temperasse as palavras.

“Angelica e Mylle desempenharão funções com você. Elas verão todos que você conhece, e falarão com eles. Eu estarei reclusa, e pode ser que isto nos afaste,” continuou Alia, “tem certeza que uma vida de noites será suficiente?” Eu não tinha planejado escondê-la. Não tinha descoberto o que fazer, mas uns poucos dias não eram suficientes para encontrar uma solução. Tudo havia acontecido rápido demais. A minha mãe trabalhava mais rápido do que eu. A minha frustração ferveu e transbordou.

“Não perderei você de novo,” falei, mais irritado do que deveria. Alia se encolheu e o meu coração se partiu. Ela depositou a taça e se levantou com cautela. “Desculpe, meu amor,” falei em voz baixa, “eu acho que esta dúvida é da minha mãe, e não sua. Eu não tenho nenhuma no meu coração.” Foi uma surpresa ela se inclinar e, com doçura, me beijar nos lábios.

“Pensarei no assunto; amanhã conversaremos novamente, meu Senhor,” disse Alia, com formalidade. Observei-a enquanto saía do quarto. A porta se fechou e a taça de vinho se despedaçou na minha mão. A minha ira não esperaria o sol nascer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s