O Casamento: Capítulo 10

Na hora do almoço eu pedi para ficar um instante a sós com o rei Toric. O encontro foi marcado no jardim, distante dos ouvidos da côrte.

“Preciso pedir um favor, meu Senhor,” comecei, “uma espécie de presente de casamento.”

“Se estiver ao meu alcance, você o terá,” disse o rei, confiante.

“Está ao seu alcance, mas não será do seu agrado,” disse eu, encarando-o sem titubear. Este diálogo com ele me dava a sensação de ser rei. Não queria demonstrar fraqueza.

“O que é?” perguntou o rei, ligeiramente exasperado. Ele percebeu algo fora do lugar.

“Antes de pedir, quero que saiba o seguinte.” Construí a minha estória. “Sempre que o Urso pedir socorro, eu guiarei o Leão em seu auxílio. Nenhum obstáculo ficará no caminho desta decisão. Terei, com a sua filha, herdeiros que conhecerão Urso e Leão como família. Eles o conhecerão, e aos seus, um pé em cada reino pelas gerações vindouras. Se uma espada for remetida contra a sua filha, saiba que terá que me atravessar primeiro. Tudo isto eu prometo – não importando a sua resposta.” O rei me observava, medindo a minha obstinação. Assentiu com a cabeça.

“Peça,” disse simplesmente o rei.

“Desejo que me mande a sua pupila, Mylle Paumera.” Eu falei de modo distinto, para que não houvesse engano sobre as minhas intenções. Não usei nenhum pronome de tratamento no pedido. Era para ser entre iguais. Se ele estava esperando alguma coisa, isto é que não era. Foi pego de surpresa.

“Que boatos você ouviu?” O rosto do rei ficou vermelho. A sua voz subiu de tom e em seu olhar surgiu a ira. Eu não queria argumentar, e nem discutir a verdade dos fatos.

“Você honrará o meu pedido?” perguntei de novo. Observei a sua face trocar de expressão diversas vezes. Levou um tempo até ele perceber que seria inútil discutir, e que eu não tinha feito o pedido de modo a provocar vexame. Dei-lhe tempo, em silêncio.

“Ela lhe contou, então?” concedeu o rei.

“Conversamos sobre muitas coisas, e esta foi uma delas,” respondi, “nós somos uma força, Angelica e eu. Não tome este pedido por uma fraqueza. Ele nos fortalece.”

“Você deve saber o que pede,” disse o rei, “vai ficar sozinho na cama. Um homem não pode…” A sua frase tropeçou no meu sorriso intrometido. Fui rápido para fazê-lo sumir, mas não rápido o bastante para a sua mente. Agora eu sei de onde Angelica tirou o seu raciocínio ágil.

“Aquela criada,” deduziu o rei, “na qual Angelica insistiu. Havia um motivo.” Fiz que sim com a cabeça para não falar em voz alta. Numa situação diversa, um pai sacaria a espada diante de tamanho insulto. Esta união pedia uma abordagem diferente. O rei se virou para o outro lado e pôs as mãos às costas. Deu alguns passos, pensativo. Eu fiquei parado, esperando pacientemente a sua vontade.

“O seu senhor, ele sabe disso?” perguntou o rei após alguma reflexão.

“Pela metade; com o tempo saberá de tudo,” respondi com a verdade, “a aliança, e portanto a união, é importante para ele. Ele deixará que eu cuide do seu fortalecimento.” Esperei alguns instantes, em silêncio, e depois acrescentei: “O destino arranjou uma solução para ambos os reinos. Não deixe de enxergar isto devido a algum insulto imaginário. Ofereço uma aliança duradoura, e felicidade para a sua filha. Você não busca o mesmo?” O rei deu risada.

“Bem colocado!” sorriu o rei, “não discutirei os méritos. Na verdade, a infelicidade de Angelica me seria um peso. Você está construindo uma união esquisita, meu Príncipe. Esquisita, mas melhor do que aquela que eu mesmo teria inventado. Enviarei Mylle, e rogarei para que três mulheres não o levem prematuramente à sepultura.” Com isto, eu ri.

“Seria melhor se você contasse a Angelica,” falei, “seria muito apropriado para ela saber que você não a tem menos em conta por causa disso.” O rei ergueu as sobrancelhas, me considerando um instante.

“Eu agradeço,” disse o rei, com mansidão, “é hora de fazê-la saber que o meu amor não diminuiu. Não pretendo compreender, mas ela é, e sempre será, a minha filha.” Refletiu por uns momentos. “Ela vai ficar tão feliz…” deu uma risadinha, “realmente eu gosto de fazê-la sorrir.” E eu que pensava ser o único a apreciar isso.

Observei, do outro lado do saguão, o rei Toric sussurrar no ouvido da filha. Houve um instante de choque na sua fisionomia. Daí ela sufocou o pai num abraço de urso. O rei tinha um sorriso de orelha a orelha enquanto a filha beijava o seu rosto e depois voltava ao abraço. Foi bom ver Angelica sorrir. Eu teria uma esposa feliz, uma amante voluptuosa que eu adorava indescritivelmente, e, em breve, uma nova irmã. Não era o que eu imaginava, mas era estranhamente satisfatório.

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