A Presa: Capítulo 13 – Caleb

A mão de Teegan estava na minha. Minha intenção era fazer um gesto amável, mas agora eu só pensava nisto. Sua pele era tão macia, e o seu jeito de envolver leve­mente a minha palma com os dedos me dava uns tremo­res difíceis de disfarçar. Era um calor que parecia au­mentar ao subir pelo meu pulso e se espalhar pelo braço. Tomei consciência dos movimentos do meu braço: não queria nem arrastá-la e nem parecer um bobão molenga.

“Você pareceu tão confiante lá em cima, como se fosse o seu lugar,” disse Teegan, me puxando mais perto e fa­zendo nossos ombros resvalarem. Vi o sorriso dela. Pa­recia tão calma, mesmo estando tão perto. “Não faço idéia de como você consegue uma coisa dessas. Tanta gente aqui.” Ela levantou a mão junto com a minha, in­dicando vagamente o entorno.

“A música me traz confiança,” eu disse. Era verdade. Gostei de como ela deixava as nossas mãos balançarem juntas, despreocupada com o movimento delas. “Assim que eu comecei a tocar, a quantidade de pessoas aqui deixou de importar.”

“Estou feliz por ter vindo,” continuou Teegan. Apertou minha mão para reforçar. “Da próxima vez você tem que convidar mais gente, assim todo mundo pode ver o quanto você é bom.” O elogio era gentil. Convidar outras pessoas parecia drástico. Eu não queria dividir Teegan, pelo menos não até conhecê-la melhor.

“Você e Wendy se divertiram nas compras?” perguntei, mais para manter a conversa do que por real interesse.

“Mais falamos do que compramos,” disse Teegan. “É gostoso conversar com ela. Não fala de um pedestal, se é que me entende.” Assenti com a cabeça, sem compreen­der muito. Eu não tinha muitos amigos adultos, fora os professores. Acho que Tom me tratava como igual, prin­cipalmente por causa do nosso amor pela música.

“Parece que você ficou ligada nela rapidinho,” falei. Tee­gan, por algum motivo, ficou tensa e olhou para o outro lado. “Ela deve ter gostado de você também,” acrescen­tei, imaginando o que eu tinha dito de errado. Teegan voltou a olhar para mim, e sorriu.

“Nos demos muito bem,” concordou Teegan.

“Tom também gostou de você,” continuei. “Causou uma boa impressão à primeira vista. Geralmente eu preciso de duas ou três antes das pessoas se acostumarem comi­go.”

“Besteira,” Teegan dissimulou o riso. “Não se desvalori­ze. Você esteve brilhante na loja de smoking, e aquela foi a nossa primeira impressão. É só você aparecer mais, su­bir no palco mais vezes.” Tive que rir alto, e Teegan me olhou curiosa.

“Confissão,” falei, fazendo soar mais como uma pergun­ta.

“Quê?”

“No dia anterior eu estava na sala de espera do dentista,” eu disse encolhendo os ombros, “e li um artigo sobre smokings.” Teegan começou a rir. “Estava entediado. Nem fazia idéia de que ia ser útil.” Ela até me puxou mais perto quando as risadas começaram a sacudir o seu braço. Era delicioso fazê-la sorrir.

“Bom, você enganou todo mundo,” disse Teegan. Tive que soltar sua mão para abrir a porta. Ela me surpreen­deu ao oferecê-la depois de sairmos do clube. “Gene acha você um super-herói que fica escondido atrás de um disfarce de educadinho.”

“Ele é muito mais gentil do que eu pensava,” admiti.

“Ele é meio extravagante,” disse Teegan, “mas não há ninguém mais leal do que ele.” A calçada larga nos dei­xava mais afastados, nossas mãos balançando em coro. Era quase como se Teegan quisesse fazê-las dançar. “O Gene está ansioso pelo grupo de estudos. Não quer per­der a bolsa do basquete por causa das notas.”

“Não sei se sou bom professor,” falei, preocupado que a expectativa de Gene fosse grande demais. Senti a mão de Teegan apertar a minha.

“Não seja bobão,” disse Teegan com um sorriso nos olhos voltados para mim. “Você vai se sair bem. Ele não tem para onde ir; só para cima.” Eu dei risada. Ela tinha razão. Talvez eu não conseguisse fazê-lo tirar A, mas su­bir para um B não era impossível. “Você oscila muito,” acrescentou ela.

“Que quer dizer?”

“Num instante está no comando, como quando estava no palco,” disse Teegan. “No instante seguinte perde a con­fiança em si mesmo.” Eu quase tirei minha mão, mas ela segurou firme. Tive que desviar os olhos dela e escolher a calçada como novo alvo. Fiquei aterrorizado por me verem como fraco. Ela parou e me fez parar também. “Desculpe,” falou num tom amável.

“Por quê?”

“Por analisá-lo. Não tenho direito,” respondeu Teegan. “Eu mesma não estou muito serena.”

“Tenho medo de desapontar as pessoas,” admiti. “Meus pais, amigos, você. Mesmo que seja algo muito pequeno, eu entro em pânico com a idéia de decepcionar as pesso­as.” Acho que eu não tinha percebido antes. Teegan ti­nha arrancado de mim a verdade, e nem era tão dolorido assim. Rezei para que ela não visse isso como fraqueza.

“Uau,” disse Teegan, “quem dera eu me conhecesse as­sim tão bem.” Ela retomou a caminhada, agora com o olhar fixo na calçada. Ela ainda pegava a minha mão, en­tão concluí que estava pensando, não repensando. “Ca­leb?”

“Sim.”

“Dou permissão para você me desapontar,” disse Tee­gan. Eu estava mais do que surpreso com a declaração. Ela levantou os olhos com aquele sorriso mágico. “Vou avisar quando acontecer, e já o perdôo agora. Só que eu vou querer que faça o mesmo.” Quis beijá-la. Não o fiz porque alguma coisa não estava certa, e eu não queria já gastar todo o meu perdão.

“Isso eu posso fazer,” concordei.

“Tá vendo,” disse Teegan, “somos mestres em amizade. Agora ambos podemos pisar na bola sem perder um ao outro.” Fiquei eufórico e devastado. Teegan olhou adian­te e balançou as nossas mãos como se estivéssemos no jardim de infância. Eu queria mais do que amizade. Qualquer tentativa hoje à noite estava fora de cogitação. Era como um sanduíche de pasta de amendoim sem a geléia. Eu não podia recusá-lo, mas ficava faltando a do­çura.

Fiz questão de abrir a porta do carro para Teegan. Era meio démodé, mas eu queria dar-lhe pistas de que eu desejava mais do que amizade sem pronunciar as pala­vras. Ela sorriu e entrou. Fechei a porta e rangi os dentes sem que ela visse. Minha meta de convidá-la para o baile estava arruinada pela declaração de amizade. Se eu abu­sasse muito da sorte, podiam sobrar apenas destroços do pouco que eu tinha ganhado.

“Quem você vai levar ao baile?” perguntou Teegan quan­do saímos com o carro.

“Ninguém,” respondi olhando para Teegan ao invés da rua. As palavras dela ficavam me pegando desprevenido. Ela sorriu e apontou a rua. Meus olhos voltaram a cum­prir sua obrigação e eu devolvi o sorriso.

“Pensei que ia convidar alguém?”

“Não deu certo,” eu disse. Ela provavelmente pensou que a pessoa disse não. Eu não ia explicar.

“Você não quer ir?”

“Não sei mais quem convidar,” menti.

“Ninguém me convidou também,” disse Teegan. “Pode soar esquisito, mas e se fôssemos juntos? Como amigos apenas. Não quero perder a formatura e você também não deveria.”

“Ok,” eu disse com os olhos fixos na estrada, mas sem enxergá-la de verdade. Era como um sonho distorcido: metade pesadelo, metade paraíso.

“Ótimo,” disse Teegan, animada. “Vou ter de achar um vestido. Tinha um que eu estava cobiçando e que torço para ainda estar lá. Sabe quando você acha roupas sim­plesmente perfeitas, mas não tem onde usá-las?” Passa­mos o resto da viagem falando de vestidos, de smokings e da insistência de Teegan em pagar pelo próprio buquê. Ela não queria que eu ficasse responsável; afinal, quem iria fazer isto por uma amiga? Quase encerrei a conversa despejando alguma coisa sobre não querer ser só amigo, mas daí eu não iria ao baile com ela. Não sei como eu ti­nha perdido o controle sobre os planos da noite, e não fazia a menor idéia de como recuperar.

Teegan me impediu de sair do carro e abrir a porta para ela. Me abraçou e me agradeceu mais uma vez pelo con­certo. Prometemos nos chamar para coordenar a noite de formatura. Fiquei assistindo ela subir os degraus da varanda, iluminados pelo meu farol. Ela acenou e sumiu para dentro. Só então é que soltei a respiração que esta­va presa. Dirigi atordoado até em casa.

“Como foi?” perguntou minha mãe quando entrei.

“Vamos juntos ao baile,” respondi já subindo a escada para o meu quarto.

“Isso é bom, não é?”

“Não tenho idéia,” respondi. Subi rápido para evitar maiores explicações. Era melhor do que não ir ao baile com Teegan. Não era tão bom quanto eu esperava. Tudo o que eu fiz podia ser interpretado como um ataque à nossa amizade. Senti a minha decepção aumentar.

“Caleb,” minha mãe chamou ao pé da escada, “fale comi­go.” Era preocupação aquilo na voz dela. Eu não queria piedade. Queria ser forte e confiante, então virei e acer­tei onde doía nela.

“Decidi não ir ao MIT ou a Stanford,” falei claramente, “vou atrás da minha música.” A expressão de choque da minha mãe me fez sentir melhor de certo modo. Ótimo, agora éramos dois confusos.

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