O Casamento: Capítulo 09

Quando cheguei ao estábulo, um sorriso largo e bobo estava no meu rosto, abaixo das olheiras. Pela primeira vez eu tinha acordado de propósito ao lado de Alia. Foi bem agradável ver o seu olhar relaxado às primeiras luzes da manhã. Os beijos sem pressa, o amor em palavras. Um leve sabor da vida real, que, fora da realeza, é algo muito natural. Angelica já alisava o pescoço de Sunrise quando apareci. Cory aguardava com toda paciência junto a Storm.

“Bom dia, minha Princesa. Cory,” disse eu, com uma voz levemente rouca. Cory cumprimentou com um assentimento de cabeça.

“Dormiu bem, meu Príncipe?” questionou Angelica. Eu sabia que era provocação, mas não era possível perceber na sua voz.

“Satisfatoriamente, minha Senhora,” menti. Se eu tivesse escolha, me encolheria no feno de Storm para dormir o dia inteiro. “Obrigado, Cory,” disse eu ao receber dele as rédeas de Storm. Montamos e rumamos lentamente na direção do pomar.

“Foi agradável?” perguntou Angelica. A sua voz não tinha provocação. Penso ter ouvido um leve tom de ansiedade, mas no geral era interesse verdadeiro.

“Podia morrer assim,” respondi com a verdade. Angelica sorriu, orgulhosa. “Por que é que eu tive uma noite assim magnífica?” perguntei. O seu sorriso desapareceu. Ela tentou por várias vezes responder, mas sem sucesso. Concedi-lhe o tempo necessário.

“Estou assumindo um grande risco,” respondeu Angelica, relutante, “os meus segredos põem marcas em mim. Arrisco receber o seu desdém. Arrisco a união. Arrisco a minha família – a nova e a velha.” Ela se voltou para mim toda séria. As nossas montarias prosseguiram, alheias à conversa.

“Você é canibal?” perguntei, tentando deixar a conversa mais leve. Eu não conseguia acreditar que houvesse algum segredo real que me fizesse tê-la em menor consideração.

“Pior que isto, para alguns,” respondeu Angelica. Não havia gozação na voz. Ela falava sério.

“Sou todo ouvidos,” falei. Chega de brincadeiras.

“Eu também amo outra pessoa,” disse Angelica. Eu já tinha adivinhado que fosse algo desse tipo. Seria difícil culpar o seu coração, dado que o meu próprio já tinha feito uma escolha. Ia ser complicado o que ela, aparentemente, estava planejando. Podíamos dar conta, e, depois da última noite, eu pretendia tentar.

“Eu o colocarei como meu serviçal,” declarei. Já que eu seria amado, não havia motivo para ela viver a nossa união sem amor.

“Não é tão simples,” respondeu Angelica. Havia uma certa vergonha na sua voz. Algumas idéias passaram pela minha cabeça. Descartei-as.

“Não será fácil, mas Alia também não foi. Irei cuidar para que aconteça. Você não ficará infeliz sem necessidade.” Ergui os olhos e vi as lágrimas de Angelica. Me preparei.

“Não é ‘ele’,” disse Angelica, relutante.

“Oh,” falei de modo estúpido. Estava pensando em muitas coisas, algumas horríveis, algumas tristes, mas não estava pensando nisto. Olhei para o outro lado, um erro que eu, agora, reconheço. Tentei alcançar o significado disto para a união, o significado disto para nós. Me faltava uma medida de comparação. Eu tinha ouvido falar de coisas assim, meninos gostando de meninos, meninas gostando de meninas. Nunca tinha conhecido alguém que o admitisse. Não tinha certeza do que sentia a respeito. Não tinha nem mesmo certeza do que devia sentir a respeito.

Uma certeza eu tinha: Alia sabia. Agora fazia sentido ela concordar com o arranjo: as duas mulheres teriam pouca coisa de que sentir ciúmes. Como é que se produz um herdeiro com uma mulher que não gosta de homens? Idéia estúpida: as partes funcionam do mesmo jeito. Será que eu causava repulsa em Angelica? Outra idéia estúpida. Agora eu percebia a razão dela demorar tanto para se casar. A razão dela detestar a idéia toda. Bastaria eu abrir a boca e desfazer a união. Eu permaneceria solteiro, Angelica ficaria de escanteio para o resto da vida. Ela, de fato, corria um enorme risco.

Angelica me deu Alia. Um presente imensurável. Romper a aliança estava fora de cogitação. Magoar Angelica me horrorizava. Se eu pudesse amar Alia, por que é que eu ligaria para o amor de Angelica? Na verdade, eu não ligava. Seria algo com que se acostumar, mas amor era amor, e eu conhecia o amor. Não havia motivo para que, se tudo fosse discreto, a felicidade não pudesse recair sobre nós dois. Me voltei na sua direção para lhe dizer isto. Ela não estava ali.

Me virei na sela e encontrei Angelica atrás de mim, debruçada na sela, as lágrimas rolando soltas. Ela e Sunrise tinham parado enquanto eu olhava para o outro lado. De repente me dei conta da impressão que eu devo ter causado. Virei Storm e trotei ligeiro de volta.

“Me desculpe, minha Princesa,” falei, consolador.

“Me odiar, me arruinar. O que é que vai ser?” perguntou Angelica, erguendo a vista. Os seus olhos estavam turvos. Desmontei imediatamente e andei até Sunrise.

“Nenhum dos dois, minha Princesa,” disse eu, estendendo a mão para ajudar Angelica a desmontar. Ela pegou e desceu de Sunrise. “Caminhe comigo e me conte sobre ela,” falei. Mais lágrimas vieram, e ela enterrou a cabeça no meu ombro. Sustentei-a como pude, sem largar os cavalos. Eles não iriam longe, mas persegui-los agora não parecia apropriado.

“Alia disse que você faria isto, mais ou menos,” soluçou Angelica, “eu gosto mesmo dela…” Fiquei tenso. Não sabia se devia sentir ciúmes ou não. “Não assim!” Angelica ergueu a cabeça e deu um tapa no meu ombro.

“Você vai me desculpar por enquanto,” disse eu, “ainda tenho que me acostumar. Eu sempre me engano a respeito de coisas que eu não entendo.” Angelica sorriu e limpou as lágrimas. Daí, pegou a minha mão e nós andamos.

“Você não vai me considerar inferior?” perguntou Angelica.

“Não. Diferente, talvez; inferior, não,” respondi pensativo. “Agora faz sentido muito daquilo que era apenas sugestivo. Chega de segredos; acho que não posso agüentá-los.” Angelica me puxou mais perto enquanto andávamos.

“De acordo: chega. Eles só iriam nos arruinar,” declarou Angelica. A minha noiva estava de volta. Rumei na direção de uma arvorezinha no final da campina. Amarrei Sunrise e Storm e me sentei ao sol. O clima estava mais fresco, e o calor ameno do sol de final de ano era bem-vindo. Angelica sentou-se ao meu lado.

“Me conte,” eu repeti. Angelica tinha a minha total atenção, sem interrupções. Ela pegou as minhas mãos e começou a falar.

Mylle Paumera cresceu sob a tutela do Rei Douderson. Durante a adolescência e o início da idade adulta, ela dividiu o quarto com Angelica. O rosto de Angelica ficava radiante ao falar dela. Mylle foi descrita em termos de emoções que ela produzia em Angelica. Eu não tive escolha exceto gostar dela.

Angelica descreveu o medo que teve ao serem descobertas pelo irmão. O ódio que sentiu com a repreensão dele. Como o pai separou-a de Mylle e tentou mantê-las afastadas. Elas descobriram modos de contornar, mas nunca mais apareceram em público de novo. Uri e Angelica brigaram, e nunca mais foram irmão e irmã novamente. Uma situação que evidentemente lhe magoava. Uri não era favorável à união, temendo o vexame que recairia sobre a família quando as predileções de Angelica se tornassem conhecidas. Era favorável a prender Mylle e ela em algum lugar distante, ou forçá-las a entrar no convento.

“O meu pai pensa que tudo isto é transitório,” disse Angelica, lamentando, “ele acha que um homem como você faria a diferença.” Ela sacudiu a cabeça: “Ele me ama, é claro, mas não compreende; acha que fracassou.”

“Como é que você sabe que é… permanente?” perguntei. Me arrependi da pergunta assim que saiu da minha boca. Angelica sorriu para mim, delicadamente.

“O que você sentiu quando eu levei Alia ao seu quarto noite passada?” perguntou Angelica.

“Bom, eu senti… foi como se… ela me fez…” Enrubesci, incapaz de achar palavras apropriadas para conversar com uma mulher.

“Mylle é assim para mim,” riu Angelica, “mesmo que fosse possível mudar o meu caminho, eu não ia querer. Ela é o meu nascente e o meu poente.”

“Então corremos um risco maior, você e eu,” falei, confiante.

“O que está feito será difícil de desfazer,” discordou Angelica, “eu contei para que você entendesse. Talvez com o tempo, mas agora o risco é muito grande.”

“Farei o que puder, por você e por mim,” repeti para Angelica as próprias palavras dela, “nenhum dos reis deseja o fim da aliança, e eu desejo a felicidade da minha noiva, não importando a forma que esta felicidade assuma.”

“Uri ficará duas vezes mais irado,” disse Angelica.

“Mais um motivo para deixar Mylle distante dele.” O meu propósito era firme. “Falarei com o seu pai em palavras que ele entenda. Eles criaram a união e colherão os benefícios. Terão que arcar com as conseqüências. Traremos Mylle para casa.” Angelica caiu nos meus braços e me apertou bem forte. Muito me alegrava fazê-la feliz. É estranho desejar ardentemente a satisfação de uma mulher, sem desejar nada além.

“Estamos construindo uma família esquisita,” sussurrou Angelica no abraço apertado.

“Da única espécie possível para nós,” acrescentei. Deixei para um outro dia a dúvida: como é que arranjaríamos um herdeiro? Levantei-me e coloquei Angelica de pé. Limpei as marcas de lágrimas que ainda estavam em suas faces. Era confortável tê-la por perto. Eu não precisava abrir espaço. Amizade e respeito. Amizade íntima. “Vamos exercitar as nossas montarias,” falei, animado. Angelica sorriu e foi pegar Sunrise.

Foi uma cavalgada alegre e divertida. Mostrei para Angelica um pouco mais da região. As fazendas, os engenhos e os poços ao redor do curtume. Cavalgamos até uma colina que nos permitiu enxergar mais longe. A vila de Southerson se descortinou abaixo de nós. Tinha crescido com os anos. A paz tinha o seu jeito de atrair os outros. Era para isto que a nossa união servia: paz duradoura para os dois reinos. Responsabilidade demais para um casamento cujo fracasso tinha sido planejado pelo destino. Não deixaríamos que estremecesse.

“Você se importa se eu lhe ceder a disputa desta manhã?” perguntei em meio à calmaria.

“Então você admite que ia perder?” provocou Angelica, “interroguei Cory a respeito do pomar, e sei do pulgão.” Eu sorri para ela.

“Ah, perdi a minha vantagem. Não lhe falta inteligência, minha Princesa.”

“Alia disse que faria o que pudesse para cansá-lo,” acrescentou Angelica, bem humorada.

“Eu perderia mil disputas por outra noite como esta,” falei, sonhador, “sim, admito que você ganha de mim agora pela manhã. Mas sou eu que ganho com isto.”

“Aceito a sua nobre derrota,” disse Angelica, “embora eu ainda queira testar Sunrise. Podemos cavalgar juntos?” Storm resfolegou ruidosamente. Ele percebeu o ânimo de Angelica e quis correr também.

“Storm concorda, minha Senhora. Vamos cavalgar.” Com isto, soltamos as rédeas dos nossos corcéis e cruzamos as campinas a pleno galope. Sunrise se manteve meio cavalo à frente, dando a impressão de apreciar a diversão tanto quanto aquela que lhe montava. Eu, sinceramente, gostei muito da alegria no rosto de Angelica.

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