A Presa: Capítulo 11 – Sam

“Que diabos foi isto?” perguntei a Natalie abaixando o jornal. Natalie estava dando uma olhada em algum con­trato com o qual não era para ela estar lidando no fim-de-semana. Ela sempre passava o fim-de-semana espi­ando o trabalho do sócio, conferindo antes de assinar o nome dela. Significava menos tempo para nós. Eu tinha me acostumado, o que não queria dizer que gostava.

“Eu não a sentia assim desde que era um bebê,” disse Natalie, largando o trabalho na mesa e erguendo os olhos para mim. “Você não acha que ela se ligou àquele garoto?”

“Acho que não,” respondi. “alguma outra pessoa talvez. Foi tão forte, como se ela tivesse ligado o turbo ou coisa assim.” Natalie deu uma risadinha e me lançou aquele olhar indicativo de que a coisa ia esquentar à noite.

“Você não gosta que eu trabalhe nos fins-de-semana,” disse Natalie. Eu já tinha falado isso antes, de um jeito delicado e casual. Era querer demais exigir tanto tempo. “Eu vi o que você quer,” acrescentou ela ao levantar-se da cadeira para vir na direção do sofá.

“Pervertida,” eu disse sorrindo, “há anos que você não trapaceia.” Natalie tirou o jornal da minha mão e atirou-o de qualquer jeito na mesa de jantar.

“Faz tanto tempo que não olho dentro de você,” conti­nuou Natalie. “Ainda me enxerga nua em pensamento.” Peguei a sua mão e puxei-a para o sofá, em meus braços.

“Você não devia ficar fuçando na mente de um homem,” repreendi, colocando a mão por trás do pescoço dela e acariciando com o polegar atrás da orelha. Ela foi de en­contro à minha mão, acomodando mais o corpo junto ao meu. “Além disso, você já sabe que amo você.” Trouxe seus lábios até os meus, sentindo aquele arrepio ardente que vem quando nossos desejos se movem na mesma ve­locidade. Os lábios dela se abriram, e o beijo passou do agradável à paixão luxuriosa.

“Criança na sala!” gritou Zane descendo as escadas. Na­talie riu e encerrou o beijo. Um pensamento riscou mi­nha mente: alguma coisa sobre não ter filhos. Assim como veio se foi. “Será que eu posso dormir na casa do Rick? Ele pegou um monte de filmes de terror, e o pesso­al vai lá.”

“Mande mensagem quando chegar lá,” eu disse, empur­rando-o mentalmente para a porta. Natalie deu um tapa no meu ombro e levantou-se. A doçura do sorriso ame­nizou o golpe.

“Você vai ter de levá-lo,” disse Natalie, “já está escuro.” Suspirei e de novo pensei em não ter filhos. Desta vez o pensamento durou um décimo de segundo. Levantei, e ela envolveu meu pescoço com as mãos e beijou meu rosto.

“Vou ficar aqui esperando,” sussurrou Natalie no meu ouvido, falando devagar e fazendo cócegas em meu ouvi­do. Adorei aquele seu jeito de me olhar. Eram seus olhos jovens, aqueles que só eu podia ver.

“Pegou tudo?” perguntei depressa ao Zane. O percurso de carro levava só dez minutos, mas se eu violasse algu­mas leis podia fazer em cinco.

“Sim,” disse Zane, erguendo sua mochila. Sorri.

“E se tivéssemos falado não?”

“Você é previsível,” respondeu Zane, encolhendo os om­bros. “Só diz não quando eu encho o saco.”

“Então agora eu quero falar não só para ser espontânea,” brincou Natalie.

“Mãe!”

“Vai, vai,” disse Natalie com doçura. “Quero que esteja em casa amanhã para a janta. Você tem que estudar amanhã à noite para aquela prova de história.” Agarrei as chaves e praticamente enxotei meu filho pela porta.

***

“O que a Teegan fez?” perguntou Zane logo que começa­mos a andar. Tinha muita curiosidade na sua voz.

“Sentiu aquilo?”

“Acho que o mundo sentiu aquilo,” respondeu Zane. “Não sabia que funcionava daquele jeito. Quer dizer, eu sinto vocês e sei quando estão bravos e tal, mas foi dife­rente desta vez.” Senti que o meu rosto queimava imagi­nando o quanto ele sentiu. Natalie viu coisas que só ela devia ver, e certamente não queríamos partilhar essas coisas com os nossos filhos.

“O que você sentiu?” perguntei com cuidado.

“Senti mais de mim mesmo,” respondeu Zane. “Foi como se eu pudesse repensar as coisas sem qualquer preocupação, algo assim.” Eu sorri, aliviado por ele não ter penetrado inadvertidamente nas minhas idéias por­nográficas sobre a mãe dele.

“A última vez em que ela fez isso você era um nenê,” res­pondi com sinceridade. “Nós achamos que isso tivesse desaparecido, mas é óbvio que não. Ela conseguiu desli­gar bem rápido.”

“Está errado gostar disso?” perguntou Zane.

“Não,” eu disse depois de pensar um pouco, “mas eu não contaria com isso de novo. Já faz 15 anos que eu senti isso a última vez.”

“Papai, quem é ela?”

“Sua irmã,” respondi. Olhei para ele esperando ver o medo em seus olhos. Não havia, só curiosidade.

“Isso eu sei,” disse Zane, “quer dizer, eu quero saber as coisas que vocês não me contaram.” Mesmo não contan­do tudo a Teegan, ela tinha ciência da certidão falsa de nascimento e, em parte, de como veio ao mundo. O Zane nós deixamos mais na escuridão, e pela primeira vez ele expressava uma vontade de saber.

“Acho que demoramos muito para contar,” eu disse. “Mas é Teegan que tem o direito de contar a você, não eu ou a mamãe.” Era uma espécie de desculpa esfarrapada, mas eu achava que tinha uma certa verdade nela. Teegan já era uma jovem mulher, e era a história dela.

“Ela já me contou uma parte,” admitiu Zane. Fiquei sur­preso. “Sei que ela é adotada, e que, assim como o seu poder, ninguém deve saber disto.”

“Pois então você sabe bastante,” falei. “Ela é da nossa fa­mília e sempre será,” acrescentei para o caso dele pensar que ela era menos por não ter laços de sangue.

“Papai,” suspirou Zane. Quase pude ouvir o revirar de olhos em sua voz. “Não estou tentando me livrar dela. Só estou tentando entender as coisas. Ela sempre vai ser minha irmã, e saber coisas não vai mudar isso.” Ele cres­cia diante dos meus olhos. Não era a primeira vez que ele podia sentir as minhas sutilezas e responder as dúvi­das que eu não tinha expressado.

“Você tem razão,” eu disse. “Eu só não queria que você pensasse que a amamos menos por ser adotada.”

“Como se eu não sentisse isso todo dia,” disse Zane com o mesmo tom de revirar os olhos. Tive de rir, mais de mim do que dele. Evidentemente, ele sabia o quanto amávamos uns aos outros. Ninguém na família podia es­capar disto. Eu precisava mesmo parar de achar que tudo tinha de ser explicado. Ele raciocinava por conta própria e nem sempre precisava das minhas conclusões.

“Desculpe,” disse eu, “você cresceu quando eu não esta­va olhando.”

“Lembre disto quando eu fizer 16 anos,” disse Zane. “Es­tava pensando em um Corvette de aniversário.” O lado sério da conversa acabou ali. Expliquei-lhe que ia nevar no inferno antes que ele tivesse um Corvette antes de mim. Ele avisou que os aparelhos de ar condicionado já estavam bem sofisticados. Gostei de ver que a viagem de carro serviu para nos ligar um pouco. Quando ele foi para o colegial, de repente sair com os amigos ficou mais importante do que passar tempo com o pai. Era raro ter um diálogo que envolvesse mais do que algumas poucas palavras. Percebi que fazia falta.

“Obrigado,” disse Zane ao sair do carro. Repeti para ele estar em casa para o jantar, mas ele só ouviu metade en­quanto corria para a porta da casa do Rick. Tinha acaba­do o nosso tempo, e os amigos reinavam supremos nova­mente.

Parei num semáforo e mais uma vez senti o amor de Teegan explodir dentro de mim. Mais potente do que nunca. Sem me importar com o motivo daquilo, acolhi-o de braços abertos. Enviei de volta tudo o que eu tinha: um amor de pai totalmente sem reservas. A noite estava magnânima. Os problemas da vida se dissolviam em pe­dacinhos de fácil solução. Em meio a isso tudo, encon­trei Natalie e nossos queridos entrelaçados numa dança que era só nossa. A conexão se desfez, meu riso não.

Ao chegar em casa, me admirei por encontrar quase to­das as luzes apagadas. Como a única acesa era a do alto da escada, segui-a como se fosse um farol. Um abajur na suíte principal me levou até lá. Chamei a Natalie.

“Aqui,” escutei do banheiro. Entrei e vi pelo espelho uma vela tremulando levemente sobre a pia. A banheira, ra­ramente usada, estava cheia de água, e a mulher mais bonita do mundo estava submersa até a metade.

“Sem espuma,” disse eu numa decepção fingida, en­quanto tirava a minha camisa e chutava para longe os meus sapatos.

“Eu vi o que estava em sua mente,” disse Natalie com doçura, seus seios balançando levemente na água. “Me senti jovem de novo. Você ainda me acha sexy.”

“Ah,” eu disse me livrando da cinta, “se você soubesse…”

“Mas eu sei,” disse Natalie com um risinho. É a atitude que torna uma mulher sexy. Não são tanto as partes visí­veis, mas uma aura de desejo que elas conseguem proje­tar. Estava casado há 17 anos com a mulher da banheira, e ela ainda conseguia me despertar só com o olhar. “Não vá cair,” acrescentou ela quando eu quase tropecei tiran­do a calça.

“Tem alguém gostando da idéia do banho,” disse Nata­lie, mirando no meio das minhas pernas. Eu ri e en­trei na banheira. Me senti vinte anos mais novo, prestes a cometer um ilícito com a nova namorada. Faz muito tempo que não nos aventuramos. Natalie se moveu para a frente da banheira e me fez sentar atrás. A água estava morna, quase fria. Mergulhei e ela se encaixou entre as minhas pernas de costas para mim.

Natalie virou a cabeça para trás e me beijou com a mes­ma paixão que eu senti no sofá. Ergueu-se, espirrando água, e me guiou para o meio de suas pernas. Descartei todas as preliminares que eu tinha planejado enquanto ela baixava sobre mim com um gemido.

“Agora está melhor,” suspirou Natalie, sorrindo em meus lábios. “Demorou tanto para você voltar aqui.” Senti que ela se ajustava para me deixar confortável den­tro dela. Era sensual demais. Comecei a me preocupar: assim como eu não tinha vinte anos a menos, também não tinha mais tanto gás. Deslizei a mão pela barriga dela, puxando-a para o meu peito para poder acariciar seus seios.

“Da próxima vez eu vou violar mais leis,” sussurrei. Nos­sos lábios se uniram de novo, com a Natalie se torcendo para tornar isto possível. Endireitei-a e fiz a sua cabeça encostar no meu ombro. Belisquei a ponta da sua orelha com os meus lábios, e ela começou a mexer os quadris. Não sei como, descobrimos um ritmo suave que se adap­tava aos limites da banheira. Natalie flutuava acima de mim, as costas arqueadas, no controle dos movimen­tos. Minhas mãos acariciavam seu corpo hiperexcitado, provocando tremores bastante sensuais. Depositei meus lábios em seu pescoço, e ela começou a perder o ritmo.

“Amo você,” eu disse ao perceber que Natalie começava a retesar-se. Usei meus quadris para me fazer afundar mais, e ela mudou de posição, o que me permitiu desco­brir lugares dentro dela que provocaram calafrios em nós dois. Senti o frisson começando em minhas entra­nhas, e deixei escapar um gemido. Os sons da Natalie entraram no compasso dos meus, e seus quadris come­çaram a vibrar. Juntos, encontramos o nosso céu parti­cular.

Natalie começou a dar risada quando voltamos à terra. Ainda estava bem dentro dela, tanto sentindo quanto ouvindo as risadas.

“E o que é tão engraçado?”

“A expressão no seu rosto ao entrar no banheiro,” res­pondeu Natalie. “Parecia uma criança de dez anos no Natal.” Mudei de posição para poder beijá-la.

“Tenho uma desculpa,” devolvi, “você estava sexy pra ca­ramba.” A vela piscava em seus olhos, destacando a ma­neira com que ela me estudava.

“Não acredito que você ainda me veja desse jeito,” disse Natalie, “estou ficando com pelancas e rugas em todo lu­gar.” Eu não acreditava que ela tinha perdido a confian­ça na beleza dela. Eu sempre a veria como ela era no pri­meiro encontro. As imperfeições não sobrevivem ao olhar amoroso.

“Então saiba que nunca vou ver nada além de beleza ao olhar para você,” eu disse. Era adorável como ela podia rir e me beijar ao mesmo tempo. Em algum momento ao longo do caminho eu tinha deixado de reforçar o meu amor por ela. Acho que educar crianças gerava uma ten­dência de desprezar a intimidade em nome do pragma­tismo. Beijei a minha esposa, cuidando para que ela sou­besse que eu ainda tinha aquele amor agressivo de quan­do éramos jovens. Nunca mais eu permitiria que ela es­quecesse de novo.

Teegan não fazia idéia do que tinha despertado em nós quando descobriu o seu poder total. Nunca vamos con­tar-lhe, mas mesmo assim seremos eternamente gratos.

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