A Presa: Capítulo 10 – Teegan

Voltamos ao Tangerines, que agora estava bem lotado. Wendy ficou contente com a quantidade de gente que ti­nha pagado para ver o concerto. Tivemos que ficar na fila para passar pela porta da frente. Acho que podíamos ter ido direto ao início da fila, mas pareceria meio rude. A fila nem era tão grande, e assim tínhamos tempo para observar as pessoas.

“Devem gostar do Smooth Gliders,” disse eu à Wendy.

“Não enchemos um Coliseu, mas nunca morremos de fome,” respondeu Wendy. “Estamos negociando com a PBS. Se der certo, vai botar a venda de discos nas altu­ras.”

“Achava que era música de velho,” disse eu sem pensar.

“De modo geral,” disse Wendy sorrindo, “é música boa tocada por músicos velhos. Jovens não contribuem com a PBS.”

“Desculpe,” disse eu, “não quis dizer…”

“Não esquente,” interrompeu Wendy, “você tem bunda, eu tenho sabedoria.” Ela me fez rir. Por algum motivo, senti a necessidade de juntar minhas mãos para trás, co­brindo meu traseiro. Ainda bem que ela riu comigo.

“Olá, Matt,” falei depois de finalmente chegar na porta. Mostrei-lhe a minha pulseira e ele sorriu, feliz por eu ter lembrado seu nome.

“Cadê seu namorado?” perguntou ele. Deixei passar, já que eu talvez não o visse nunca mais.

“Praticando,” falei, “ou me esperando.” Com um aceno gentil da cabeça, ele sinalizou para entrarmos. Me senti especial ao ser reconhecida pelo segurança. É o meu pri­meiro clube, e o segurança me conhece. Sou da turma.

Passamos pelas mesas, algumas sem cadeiras, em dire­ção ao palco. Wendy agarrou a minha mão e avançou de­cidida. Segui com um largo sorriso no rosto, sentindo a animação crescente. Dos pedacinhos de conversa que ouvi, percebi que havia gente que seguia a banda pelo país todo. Eu nunca tinha ouvido falar dos Smooth Gli­ders, mas certamente eles tinham seus fãs.

A nossa mesa estava à nossa espera, e tinha até uma pla­quinha de reservado. Eu sabia que tinha uma entrada, mas não imaginava que seria na primeira fila.

“Nós sempre temos os melhores lugares em qualquer es­pelunca,” exclamou Wendy, elevando a voz acima do ba­rulho. Sorri ao ser puxada por ela até a mesa. ‘Nós’ que­ria dizer acompanhantes importantes dos músicos. Não era um encontro, mas eu era a convidada do Caleb. Uma convidada especial, na verdade: ficar mais impressiona­da era impossível.

Caleb veio até a mesa. Estava tão contente em nos ver que eu achei que o seu rosto ia explodir com o sorriso. Ele deve ter gastado um bom tempo explicando o motivo da melhor mesa da casa estar quase vazia, com apenas uma pessoa sentada nela. Ele me falou qualquer coisa, e eu balancei a cabeça sem ter nenhuma idéia do que era por causa do vozerio. Segui os sinais que fez com a mão e me sentei ao seu lado.

“Pensei que você estava nos bastidores,” eu disse incli­nada em seu ouvido.

“Tom vai me chamar no intervalo,” disse Caleb, sua res­piração fazendo cócegas em meu ouvido. Se não quería­mos gritar, o único jeito de nos comunicarmos era falar diretamente no ouvido. Havia gente demais no clube. “Arrumei uma jarra de limonada com raspberry,” conti­nuou ele, indicando o suco de cor rosada no centro da mesa. “Tá bom?”

Inclinei-me em seu ouvido e falei que estava ok. Um tre­mor percorreu o corpo de Caleb, e eu sorri. Acho que a minha respiração também fazia cócegas nele. Caleb co­meçou a despejar no meu copo, e eu me inclinei na dire­ção da Wendy para lhe perguntar se queria um pouco. Eu meio que entendi a recusa pela falta de vodca. Sorri, percebendo que não devia colocar no copo dela.

Caleb me deu o copo. Tomei um golinho e agradeci mo­vendo os lábios para formar as palavras. Ele sorriu, mos­trando que entendeu. Lembrei da conversa com a Wendy e decidi que era uma boa hora para esclarecer as coisas. Até porque ia ser meio difícil termos uma briga com aquele barulho todo.

“Você acha que isto é um encontro?” perguntei no ouvi­do dele. Ele afastou rapidamente a cabeça, olhando-me nos olhos. Vi uma mistura de medo e espanto. Talvez eu tenha feito uma besteira. Talvez eu devesse ter pergunta­do depois de ele tocar. Mas a confiança desceu sobre ele e ele se inclinou no meu ouvido.

“Não, mas quero que seja,” disse Caleb claramente. Wendy estava certa, essencialmente. Um milhão de pen­samentos atravessaram a minha mente. Eu podia termi­nar agora, arrasando-o antes de ir para o palco. Parecia inviável. Eu não queria arrasá-lo. Não queria que pen­sasse que eu era a favor da idéia ou contra ela. Por mais que eu me esforçasse, não conseguia saber o que eu que­ria, ou porque tinha feito a pergunta. Pisquei os olhos e tentei tomar a melhor decisão no momento. Bei­jei seu rosto.

Caleb deu um sorriso que cobriu seu rosto inteiro. Ainda bem que ele não me beijou de volta, porque isto teria au­mentado ainda mais a minha confusão. Eu não fazia idéia do porquê de tê-lo beijado. Ele me fez um elogio à sua maneira, e eu devolvi. Foi melhor do que quaisquer palavras que eu pudesse arranjar. Levou só um segundo, e Wendy estava certa: ele certamente não era um exem­plo de feiúra. Na verdade ele ficava muito bonito com aquele sorriso feito para mim.

“Agora sim,” disse Wendy no meu outro ouvido. Eu per­cebi o riso nos olhos dela. Não deu tempo de comentar, porque o MC surgiu para anunciar a banda. Todos nos voltamos, e eu me livrei de ter de explicar o inexplicável. A banda me daria tempo para raciocinar.

Fiquei fascinada com a explosão causada pelo apareci­mento da banda. Evidentemente eles tinham um fã clu­be dos grandes, do qual agora eu fazia parte. Quando dei por mim eles estavam no palco, e eu estava em pé ber­rando junto com todo mundo. O eco da multidão abafou todos os outros sons e ajudou a aumentar a animação. Wendy me segurou quando meus pulos saíram do con­trole. Caleb sorriu e chegou perto de mim. Me disse qualquer coisa no ouvido, e eu sorri e concordei com a cabeça. Era mais fácil do que tentar fazê-lo repetir.

Tudo começou a se acalmar quando Tom passou a alça do sax pela cabeça e se aproximou do microfone coloca­do à frente da banda. O tamanho do sorriso era um sinal do quanto ele apreciava os aplausos. Não seria de estra­nhar se ele tivesse problemas para achar as palavras.

“Obrigado!” gritou Tom, e depois repetiu mais uma vez, com os braços erguidos a pedir silêncio. “Adoramos es­tar de novo em Bangor! De verdade!” Isso causou outro acesso de aplausos e gritos. Olhei ao redor e calculei ha­ver espaço só para algumas centenas de pessoas, mas o barulho era de milhares. Mais uma vez ele esperou a pla­téia se aquietar.

“Wendy,” disse Tom bem alto, “eu te amo.” A multidão ficou maluca de novo, e eu olhei para a Wendy que joga­va um beijo para o palco. Tom levou o sax aos lábios, er­gueu a mão. A multidão se calou imediatamente. A mão desceu, a bateria e o baixo começaram, e Tom entrou com um sax grave que mais soava como um vocalista do que como um instrumento.

“É a minha música,” disse Wendy ao meu ouvido, toda contente.

“Como se chama?” perguntei.

“Wendy, Eu Te Amo,” respondeu Wendy. Olhei para ela e notei que ela o amava na mesma medida. Seus olhos não desgrudavam do palco, e Tom esvaziava o coração para dentro do sax. Era uma mistura de blues e rock. Quando a guitarra entrou, alguma coisa bela aconteceu. Eu senti a música fluindo por mim, quase igual à ligação, mas muito menos séria. O arranjo tinha risadas e diver­são, a bateria marcando e pavimentando a estrada pela qual os outros passavam. De jeito nenhum eu podia vol­tar a me sentar, não com o meu pé se movendo por con­ta própria.

Logo a pequena pista de dança se encheu de corpos ro­dopiantes. Caleb agarrou minha mão e achou um peque­no espaço perto da nossa mesa. Dançamos, se é que se pode chamar aquilo de dança. Eu estava mais dando ri­sada, tentando acompanhar seus esforços ridículos de sincronizar os quadris com a música. Minha reação fez a expressão dele mudar, mas de jeito algum eu ia deixar que o seu ego arruinasse a energia gerada pela banda. Cheguei mais perto e pus as minhas mãos em seus qua­dris. Com um sorriso, guiei seus movimentos até que fi­cassem mais de acordo com o ritmo. Hesitante, ele colo­cou as mãos na minha cintura e nos mexemos juntos. Agora ele sabia que o meu sorriso era de felicidade. Pa­rou de pensar e começou a dançar.

Depois que começamos a dançar direito, eu soltei os quadris de Caleb e ele largou a minha cintura. O sorriso dele refletia o meu ao nos entregarmos àquela dança in­ventada por nós. Todo mundo trombava em todo mun­do, mas nós tínhamos os olhos um no outro enquanto a canção mexia os nossos corpos. Eu não podia mais negar que gostava de estar com Caleb. Eu tinha tentado fingir para mim mesma, usando alguma barreira mental. Era bom o olhar dele no meu. O relacionamento talvez não funcionasse, mas neste momento, com a música aparan­do as arestas, estava divertido. Parecia ser um encontro.

As canções seguintes eram tão originais quanto a pri­meira. A guitarra às vezes fazia a primeira voz, outras vezes era o sax. O arranjo era único e agradável, fazendo a minha mente querer mais a cada canção que termina­va. Tivemos de sentar para não suar muito, e também para dar lugar a outros que queriam dançar.

“Nunca escutei uma coisa assim,” eu falei no ouvido da Wendy.

“Eles têm mesmo um som doce,” devolveu Wendy. Caleb encheu de novo meu copo, e eu falei um ‘obrigada’ sem som. A banda foi mudando de música e o tempo passou voando. Pelo que eu via, eles estavam se divertindo tanto quanto o público: tocavam acordes ao acaso entre as músicas, riam de coisas que eu nem sabia o que eram. Depois de uma série bem longa, Tom voltou ao microfo­ne.

“A banda vai fazer uma pausa para molhar a boca e re­solver umas questões de bexiga,” disse Tom. A multidão riu da fraca piada. “Vou ficar aqui para um dueto breve.” Acenou para o Caleb subir ao palco. “Eu estava traba­lhando em uma melodia que não conseguia terminar. Fi­cava faltando alguma coisa. Caleb McGuire, que está vindo agora ao palco, completou intuitivamente as lacu­nas. Prometi-lhe uma certa fama para que pudéssemos mostrar a todos vocês algo diferente.” Houve aplausos aqui e ali quando Caleb subiu ao palco.

Sem hesitação nos movimentos, Caleb se instalou atrás da bateria e pegou o violino. Demonstrando uma confi­ança inabalável, ele parecia era estar se divertindo a jul­gar pelo sorriso no rosto. Ficou algum tempo afinando o violino, tocando algumas notas e ajustando as tarraxas até se dar por satisfeito.

“Será que termina logo?” disse Tom com um suspiro exagerado. Caleb sorriu e respondeu com o arco, fazendo um som de gato moribundo para o Tom. A multidão adorou a encenação. “Ok,” disse Tom, tapando os ouvi­dos. “Isto aqui, pessoal, é uma obra em construção, e não algo a que vocês estão acostumados. Espero que gostem.”

Tom iniciou com uma melodia suave que se arrastava como uma brisa, quase sem trocar de notas. Ouvi algu­ma coisa reconhecível, mas não consegui localizar na memória. Eu estava me inclinando para frente, quebran­do a cabeça, quando o violino entrou. Não era como a via­gem alucinada das músicas anteriores. Era uma me­lodia doce e tranqüila que entrelaçava perfeitamente as camadas dos dois instrumentos. A música relaxava e ba­lançava, fazendo a multidão toda ficar num silêncio de deslumbramento. Eu sabia que tinha ouvido aquilo em algum lugar, mais ainda quando o violino ecoou o sax para depois tomar seu próprio rumo.

Quanto mais eles tocavam, mais eu sentia a música no meu íntimo. Apesar de Tom dizer que era original, eu já tinha sentido antes. Quando Caleb chegou numa nota especialmente prolongada, ela me atingiu. Fechei os olhos que começaram a se encher de lágrimas. A música era eu. Era a versão sonora da minha ligação, parecida com a de papai, mas sem dúvida minha. Minha respira­ção ficou entrecortada, e tentei compreender como é que estava vindo dos instrumentos. Era a minha canção pri­vada, algo que eu pensava que nunca tinha partilhado.

Certas barreiras desmoronaram com a confusão. Papai, mamãe e Zane, mesmo não entendendo mas percebendo que eu precisava, me deram força. Respirei fundo en­quanto a música expunha toda a minha intimidade para o mundo. Me senti nua, como se estivessem lendo o meu diário em voz alta.

“Tudo bem?” sussurrou Wendy na minha orelha. Balan­cei a cabeça em sinal negativo, e ela se apressou em colocar a cadeira mais perto. Papai me inundou de amor e preocupação, e foi a única coisa que me impediu de desmoronar completamente. A música fluiu para dentro de mim, sincronizando com a minha ligação e fa­zendo-a incendiar. Nunca soube que ela era tão podero­sa. Mais algumas paredes internas ainda estavam caindo no instante em que senti o braço da Wendy passar pelo meu ombro, me puxando para perto. Muralhas mentais que eu nem sabia que tinha erguido se espatifaram. Wendy, preocupada, agarrou minha mão. Sem racioci­nar, uni a música dela à minha.

Uma lufada da respiração de Wendy chegou ao meu ou­vido. Seus movimentos reconfortantes cessaram quando ela percebeu tudo aquilo que eu era, em troca de tudo dela. A confusão se desfez à medida que a ligação se for­taleceu. A música era bonita, não maldita. O futuro, an­tes tão assustador, era só um desafio a ser facilmente conquistado. Abri os meus olhos e olhei o palco. Senti o amor de Wendy por Tom irradiando através de mim. As apreensões dela se dissipavam junto com as minhas en­quanto eu assistia ao Caleb tocar a minha canção no vio­lino. Consegui sentir as mentes da multidão adorando a música. Enxuguei meus olhos. O mundo inteiro era bo­nito demais.

A música terminou, e Wendy soltou minha mão. A reali­dade voltou de repente, e eu me virei para ela: seus olhos arregalados, sua pele correndo o risco de se partir pelo sorriso. Não tinha me ligado a ninguém novo em muitos anos. Não sabia que podia ser tão forte. Havia barricadas subconscientes que eu nunca tinha entendido, e que agora eu podia controlar. Antes pareciam algo maciço em mim, demarcações que eu não podia cruzar. Agora não eram mais do que portas que eu podia abrir e fechar à vontade.

“Pensei que você era um mito,” disse Wendy, incli­nando-se ao meu ouvido. A multidão estava de pé, aplaudindo a minha música. Não entendi a frase dela, mas deixei passar. Eu sabia, no íntimo, que ela era uma boa pessoa, e que não tinha nenhuma intenção ruim com aquilo. Fiquei de pé e encontrei o olhar de Caleb procurando os meus. Sorri e vibrei do jeito que eu pro­meti que faria. Eu não esperava ter aquele imenso orgu­lho em vê-lo ali em cima. Virei para a Wendy.

“Fica tão lindo no palco,” eu disse. Ela aprovava o Caleb, isto eu sabia.

“Tudo bem você gostar dele,” disse Wendy, “o futuro não está escrito.” Sorri para ela, e nos abraçamos como se fôssemos amigas eternas. A ligação tinha rompido toda a estranheza que normalmente se dissolvia apenas com o tempo. Respirei bem fundo e restabeleci minhas mura­lhas mentais. Compartilhar era uma coisa maravilhosa, mas eu não queria fazê-lo com o mundo.

“Obrigado!” falou Tom ao microfone. “Que bom que gos­taram. Faz 18 anos que tento terminar essa melodia. Precisou de um violinista talentoso para conseguir.” Apontou Caleb e a multidão aplaudiu Caleb novamente. “Suspeito que esta não é a última vez que vocês vêem Caleb McGuire no palco.” Mais vivas. Eu estava irradian­do alegria, mas nem de longe como o Caleb. Era óbvio como ele queria viver a vida.

“Vamos fazer uma pausa. Os Smooth Gliders voltam ao palco em uma hora,” disse Tom. Com isto ele e Caleb deixaram o palco.

“Eu meio que perdi o controle,” sussurrei no ouvido da Wendy. “Caleb não sabe. Na verdade, não é para nin­guém saber.” Ela demonstrou saber exatamente do que eu estava falando.

“Tom já conhece você,” disse Wendy. Confusa, olhei para ela. “Ele já encontrou você uma vez. Sempre achei que ele estivesse inventando.” Espremi os olhos e tentei entender o que ela estava dizendo. Ela chegou mais per­to: “Você é a Fedidinha,” acrescentou com uma risada.

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