Lucinda

Quem dilapida meus bens?
Desdéns.
E quem aumenta meus queixumes?
Ciúmes.
E quem testa minha paciência?
Ausência.
Desse modo, em minha dolência
Nenhum remédio se alcança,
Pois me matam a esperança
Desdéns, ciúmes e ausência.

Quem me causa esta lesão?
Paixão.
E quem minha glória repugna?
Fortuna.
E quem consente a minha dor?
O criador.
Desse modo, meu temor
É morrer desta estranha doença
Pois aumentam minha ofensa
Paixão, fortuna e o criador.

Quem melhorará minha sorte?
A morte.
E o bem de amor, quem o alcança?
Mudança.
E seus males, quem os cura?
Loucura.
Desse modo, não é cordura
Querer curar a paixão,
Quando os remédios são
Morte, mudança e loucura.

— Miguel de Cervantes, 1600

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