A Presa: Capítulo 09 – Teegan

Wendy era justamente o que eu precisava. Tinha receio de ficar sentada sozinha, brincando com os polegares durante o ensaio. Não que eu não aceitasse ficar. Mas sentar aquele tempo todo ia amassar minha bunda e, sem ninguém para conversar, ia parecer mais do que duas horas. Wendy mostrava ter prática com a coisa toda, e também queria a minha companhia. Gostei do seu senso de independência. Não pediu licença para o Tom, nem ele questionou a saída dela. Era óbvio que eles eram um casal, mas não estavam grudados pelos quadris. Acabei de conhecê-la e já a admirava.

“Que bom que você veio,” disse Wendy ao deixarmos o clube. “Tom vai começar a tocar, e o mundo some. Até que a música acabe, é como se eu nem existisse.”

“Ele parece amar você,” comentei. As mãos dele que se moveram daquele jeito em volta da cintura dela, o beijo delicado. Tinha significado.

“Quando não está tocando,” disse Wendy com uma risa­dinha. “A música é a sua amante, e é uma cadela exigen­te.” Eu ri, surpresa por ela me achar madura o su­ficiente para uma linguagem dessa. Geralmente os adul­tos maneiravam o tom na minha frente. Fiquei contente por ela me considerar digna. “Caleb não é igual?”

“Não sei,” respondi, corando de leve. “Acabei de co­nhecê-lo. Não estamos namorando.” Wendy riu e deu si­nal para virarmos à direita na esquina.

“Você lhe contou que não estão namorando?”

“Não com palavras,” respondi. “Ele sabe que eu vim só como amiga, para ouvi-lo tocar.”

“Bom, não parta demais o coração dele,” continuou Wendy ao dobrarmos a esquina. “Tom me disse que ele é um bom menino. Se o Tom gosta dele, eu gosto dele.”

“Não estamos namorando,” repeti, dando uma risada forçada. “Como é que vou partir seu coração se nunca nem saímos para um encontro?”

“Arrume uns óculos, menina,” disse Wendy, me puxan­do para perto enquanto andávamos. “Aquele garoto não tira os olhos de você. Se ele fosse o Super-Homem, agora você estaria com furos no traseiro.” Suspirou e me lar­gou: “Eu lembro quando Tom me olhava desse jeito. Era bom aquele olhar de novidade.”

“Não estamos namorando,” eu disse de novo, olhando bem à frente e tentando me lembrar dos olhares de Ca­leb. Exceto alguns sorrisos fora de hora, não me lembra­va de nenhuma atenção indevida. Wendy riu mais uma vez.

“Você gosta dele, então,” deduziu Wendy.

“Não falei isso.”

“Não,” concordou Wendy, “também não falou ‘ele não é meu tipo’ ou ‘nem matando.’” Ela tinha razão. Não des­cartava a possibilidade.

“Ele vai para o MIT,” disse eu, pensando alto. “Com tudo pago.”

“Caramba,” disse Wendy com espanto, “cérebro e músi­ca. E você tem que concordar que ele não é exatamente um modelo de feiúra.”

“Precisa cortar o cabelo,” falei sem pensar.

“É o lado artista,” disse Wendy. Ela riu: “Se você pedir para ele raspar tudo, ele raspa.”

“Raspa nada!”

“Hoje sim,” disse Wendy. “Os homens perdem todo o juí­zo quando estão apaixonados.”

“Ele não está apaixonado!”

“Se você acha…” disse Wendy, indicando o fim do quar­teirão. “Eu queria olhar aquela loja de antigüidades ali. Pode ser?”

“Pode,” respondi, “não sou tão inteligente quanto ele.”

“Vamos atravessar aqui,” disse Wendy, aproveitando o pouco tráfego. “O que isto tem a ver?”

“Não tenho talento musical,” admiti.

“Como se eu tivesse,” riu Wendy. “Já contei que o Tom me prendeu uma vez?”

“Quê?” perguntei, “tipo voz de prisão por cidadão co­mum?”

“Não, não,” continuou Wendy. “Muito tempo atrás ele era policial. Um atendente de bar se engraçou comigo e, bem, digamos que o atendente acabou me acusando de agressão, e Tom foi o policial que apareceu.” Tentei se­gurar a risada, sem sucesso. Wendy achou divertido. “Levou dois minutos para ele entender que o bundão mereceu a cerveja na cara, mas mesmo assim ameaçou me prender. Ele me olhava do mesmo jeito que Caleb olha você. Na metade do caminho até a delegacia de po­lícia eu já tinha concordado em namorá-lo.”

“É ilegal,” comentei.

“Foi lindo,” disse Wendy, com um sorriso enorme. “Ele não era o homem mais bonito. Não era o mais articula­do, nem o mais romântico. Ele só viu alguma coisa em mim e ficou doido por isso.” Wendy me olhou. “Nada mais importava então. Depois de três dias eu o queria nu mais do que qualquer outra coisa.” Levei a mão à boca. Wendy gostou de me chocar. “O amor não tem regras.”

“Ele arriscou o emprego por você,” falei, aproveitando o romance.

“Nem tanto,” Wendy me corrigiu. “Ele já tinha dado o aviso prévio.” Ela abriu a porta da loja de antiguidades para mim. O lugar cheirava a madeira mofada.

“Mesmo assim ele arriscou bastante,” falei, tentando manter o romance.

“Ah, olhe aquela escrivaninha xerife,” disse Wendy, indi­cando uma antiga mesa cheia de pequenos recantos. Co­meçamos a andar pela loja. “Tom teve algum tipo de ex­periência religiosa. Você pode chamar de epifania. Acho que eu fazia parte dela. Começou a tocar sax e nunca mais parou.”

“Não dá pra colocar um monitor nisto,” eu disse meio aérea, olhando a mesa.

“Não,” disse Wendy, sorridente, “é um móvel pré-email.” Tive de admitir que tinha um certo charme com todos aqueles cubículos. Ela acariciou a borda curva como se fosse seda. “Imagine escrever uma carta e esperar uma semana ou mais pela resposta.”

“Mensagem de texto é mais rápido,” eu disse.

“Sim,” suspirou Wendy.

“Então,” falei, “o Tom virou a vida no avesso por você.” Wendy riu.

“Acho que fui eu que mais mudei,” disse Wendy. “Ele es­tava num caminho de descoberta e sabia que eu queria ir junto. Me tornei uma pseudo-gerente, e o resto é histó­ria. Vida boa, claro. Somos felizes e, ao contrário de al­guns músicos, ele não pula a cerca.”

“Gosto destas,” eu disse, apontando umas mesas de bor­da oval. Eram envernizadas em cor escura, mas com in­crustações florais feitas de madeira bem mais clara. Passei o dedo por elas e não consegui sentir as emendas das incrustações.

“São bonitas,” concordou Wendy. “Não fazem mais mó­veis como antes. Agora tudo é utilitário.”

“IKEA.”

“Justamente,” disse Wendy. Circulamos pela loja admi­rando o artesanato. Algumas coisas eram meramente ve­lhas e talvez feias na época em que foram fabricadas. Ti­nha de admitir: ficava bonito quando o artista aplicava um esforço extra, esculpindo desenhos na madeira. Não era como os móveis de agora; era um trabalho para dar orgulho, não para dar lucro. Saímos da loja contentes com o que vimos.

“Você compra muita antigüidade?” perguntei.

“Não muito,” respondeu Wendy. “Estamos metade do tempo na estrada e metade do tempo em casa. Pode ser que algum dia eu comece uma coleção.”

Passamos sem pressa por outras lojas. Tapamos o nariz numa loja de velas, e fizemos caretas numa loja de arte. As pinturas tinham qualidade mediana, mas preços as­tronômicos. É verdade que eles tinham um quadro boni­to de uma menininha sentada à beira de um lago. O ar­tista lhe deu uma aura que parecia fazer o vento partir dela. A flor e as árvores tinham todas uma sutil curvatu­ra, como que magneticamente repelidas pela garotinha. O quadro estava quase me chamando. Mas, por 1500 dó­lares, eu não atenderia nem morta.

Wendy insistiu em me pagar uma xícara de café no Car­men’s Coffee. Era um lugarzinho só com cinco mesas. Pedi uma barra de chocolate e um frappuccino duplo de chocolate. Wendy ficou com o café. Eu nunca fui muito fã de café, mas o chocolate tinha um lugar de honra na minha língua.

“Você sempre soube o que queria?” perguntei. Era uma pergunta que eu não podia fazer à mamãe, nem ao pa­pai. Mamãe sempre aparentou saber, e papai apenas se­guia o fluxo da vida, como se ela fosse dada de graça. Vovó me daria uma resposta esquisita da qual eu só en­tenderia a metade. Wendy e eu não tínhamos laços, e ela podia me contar a verdade.

“Ai, Deus, não,” respondeu Wendy, “na sua idade eu era confusa pra caralho.” Tomou um gole de café, alheia ao palavrão. Eu queria a liberdade que parecia emanar dela.

“Eu nem opções tenho,” admiti, “não faço idéia do que eu quero. Tenho que tomar decisões e ‘não sei’ é a única resposta disponível.” Depois que partilhei a angústia, senti o peso esmagador do futuro se mover um pouco. Não que tenha ficado mais leve, mas talvez eu tenha me tornado mais forte ao falar sobre ele.

“Que bom,” disse Wendy, sorrindo, “que não sou a úni­ca.”

“É assustador,” admiti.

“Não ligue muito,” disse Wendy. “Escolha aquilo que pa­rece o melhor na hora. Alguma coisa acontecerá e a con­duzirá ao seu caminho. Eu vejo isto em você.”

“Não sou tão feliz quanto eu acho que deveria,” continu­ei. “Vejo pessoas como você e estão todas contentes. É como se eu estivesse excluída disso tudo.” Wendy depo­sitou a xícara na mesa, quase demonstrando piedade no olhar. Desejei desesperadamente retirar o que eu havia acabado de dizer, para não arruinar os momentos com ela.

“Eu estava onde você está,” disse Wendy. Às palavras dela, o meu corpo inteiro deu um suspiro. Ela entendia. “Não tenho menos angústia ou azar do que você. O que eu tenho, sim, é alguém com quem compartilhar.” Ela olhou ao longe por alguns instantes, depois voltou. “O que eu posso afirmar é que os problemas ficam menos. Menos importantes, menos preocupantes, e menos insu­peráveis. Você acha alguém para partilhar, e o pequeno se apequena mais ainda.” Deu uma risadinha e ergueu a xícara novamente. “Não faz muito sentido, faz?”

“Faz todo o sentido do mundo,” disse eu, compreenden­do exatamente o que ela dizia. Era um alí­vio saber que não era só eu que tinha medo do futuro. Também era bom saber que as preocupações se tornam menos preocupantes.

“Eu invejo sua juventude às vezes,” disse Wendy. “Ou­tras vezes sou grata por minha sabedoria. A idade torna a carne mais fraca, mas o espírito mais forte.” Ela suspi­rou. “Pensando bem, eu trocaria um pouco de sabedoria para ter de novo uma bunda parecida com a sua.” Caí­mos na gargalhada. Eu precisava, e ela se divertia. Na­quele instante, eu trocaria a minha bunda por um pouco de sabedoria.

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