O Casamento: Capítulo 07

Participei do treino na manhã seguinte. O meu espírito, impotente, estava entre a confusão e a raiva. Receio ter descontado nos soldados a minha frustração. Nominalmente, eu era o comandante das forças do meu senhor. Na realidade, eu delegava o comando a Boris Kancraft, um rude casanova com anos de experiência. Era um tático brilhante, um líder rigoroso e justo, e meu amigo. Os seus interesses coincidiam com os meus, e ele tinha assumido pessoalmente a direção dos meus treinos desde que eu era uma criança. É graças a ele que eu sou o espadachim que sou; muito bom, por sinal.

“Vamos trabalhar na cavalaria hoje, meu Senhor?” perguntou Kancraft. Ele apenas colocava a questão para manter, diante dos outros, a ilusão do meu comando. Normalmente, eu cavaria trincheiras se ele ordenasse. Hoje eu precisava aliviar a frustração acumulada desde a noite anterior.

“Sim, comandante. Depois eu gostaria de ‘escalar a montanha’,” respondi com firmeza. Boris tomou um susto com o meu acréscimo.

“Como ordena o meu Senhor,” disse Boris. Daí eu vi um sorriso nos seus lábios. “É uma ótima manhã para se testar a valentia.” Ele se voltou para os homens reunidos: “Como é que é, Leões?!” Uma série de três fortes urros sincronizados, seguidos de um grito de “poder de sangue,” ressoou pelo campo de treinamento. Era sempre animador ter tantos com a mesma mentalidade. Todos os exércitos podem ser derrotados, mas nós parecíamos indestrutíveis quando estávamos reunidos. O companheirismo é uma força poderosa, e Boris a nutria bem.

Storm estava serelepe hoje. Durante o treino, mantendo as nossas posições, eu percebi que ele queria o combate de verdade. Ficamos bastante tempo executando voltas táticas, mudanças de marcha e recuos coordenados para que os arqueiros e a infantaria testassem as suas forças. Era uma tarefa árdua, mas alguns dos novos recrutas precisavam seriamente de treinamento. Um cavalo pode enfraquecer metade de uma fileira se ele decidir não reagir em grupo. Ficou evidente que seria necessário treinar mais. Boris deixou isto muito claro ao rumarmos, todos suados, para guardar os cavalos no estábulo. Ele soltou palavrões de arrepiar os cabelos.

‘Escalar a montanha’ era uma competição criada pelos homens para testar a si mesmos. Muitas mulheres diriam, porém, que tinha sido inventada por garotos. Nos reuníamos no pátio principal, atrás da muralha externa, e os participantes tiravam a sorte. O comandante e eu também. Não havia patentes na montanha, nem vergonha na derrota, embora houvesse orgulho na vitória. Nos juntávamos em pares, conforme a sorte tirada, e lutávamos com espadas adequadas à competição. Eram cegas e cheias de marcas onde o metal havia colidido com metal. A honra determinava o vencedor de cada dupla. Se você fosse atingido de modo debilitante, no caso de espadas reais, você fazia uma reverência, parabenizava o vitorioso e saía.

Era uma competição exaustiva. À medida que os competidores diminuíam, os embates se tornavam mais freqüentes. Era de fato muito similar a escalar uma montanha. Eu tinha sorteado primeiro um novo recruta, Hanson, o qual despachei de pronto. Mostrei-lhe onde errou, e ele superou a falha. Um dia a espada pode salvar a sua vida e a minha.

Após seis lutas, tirei Paddi Scoreson no sorteio, um homenzarrão de cabelos ruivos, com tinha até músculos que apoiavam os seus músculos. Eu já tinha lutado com ele antes, e tinha me saído muito mal. Na última vez, a sua resistência me cansou tanto que eu fraquejei e acabei me descuidando. Hoje eu tinha um impulso a me guiar. Eu desejava gastar em Paddi a minha frustração reprimida. Ergui a espada com os meus braços doloridos e cansados, sorrindo diante da sua face barbuda.

“Peço perdão antecipado, meu Senhor,” anunciou Paddi em voz alta.

“Vai pedir depois de derrotado,” repliquei à altura. As nossas espadas se encontraram, a minha rebatendo o giro dado com as duas mãos. Eu podia jurar que era uma bigorna o que as minhas mãos sentiram no impacto do ataque. Fiz o melhor que pude para ignorar o golpe e contra-ataquei, com pouca força, a sua lateral esquerda. Ele defletiu facilmente, rindo da minha débil tentativa. Foi débil porque as minhas mãos ainda estavam tensionadas do golpe anterior. Recuei um passo e me realinhei para a luta. Eu respirava ofegante quando ele avançou novamente.

Os golpes eram rápidos e fortes. As minhas mãos fisgavam mais a cada rebatida, e eu me senti perdendo energia rapidamente. Além disto, o seu ataque brutal me forçava a recuar. Então eu arrisquei, sabendo que ele acabaria comigo se eu permitisse que aquilo continuasse. Fingi a exaustão total, e ele girou com tudo para um golpe final. Abaixei e roguei para que o golpe não me acertasse. Lâmina afiada ou não, a sua força poderia arrancar a minha cabeça. Ele tinha exagerado no movimento, contando que eu rebatesse, e girou demais, demorando para retornar à posição de guarda. Girei por baixo e a parte chata da minha espada atingiu em cheio a sua perna, logo abaixo do joelho. A expressão do seu rosto foi imensamente agradável.

“Você me enganou, meu Senhor,” disse Paddi com surpresa na voz.

“É, já descobri que é impossível uma luta limpa com você,” falei bem-humorado. Paddi sorriu e fez uma reverência à minha astúcia. Apertamos os nossos punhos ao som de risadas na multidão. Ele esmagou o meu para eu não esquecer que nos encontraríamos novamente. Fiz o mesmo, apesar de duvidar que ele tenha percebido. Até hoje eu só tinha chegado à luta final uma vez. Como naquela vez, Boris estava de pé, sorridente, esperando por mim no centro do pátio. Mentalmente, eu já estava derrotado. Derrotá-lo seria uma proeza magnífica, mas anos sendo seu aluno tinham treinado a minha mente para a sua superioridade. Além do mais, eu estava no limite da exaustão e ele não parecia nem um pouco abatido.

Me coloquei diante de Boris, e um círculo se formou à nossa volta. Ele brincou confortavelmente com a espada na mão, fazendo a lâmina girar rapidamente enquanto me avaliava. Mesmo com a idade, a sua habilidade não tinha diminuído. Como eu já tinha demonstrado com Paddi, era a habilidade, e não a força, que dava a vitória. Suspirei e ataquei.

Boris rebateu, sem esforço, cada um dos meus golpes. Lutando para achar um ponto fraco, fui obrigando-o a recuar. Eu gastava as minhas últimas reservas, e ele deixava. Quando os meus giros começaram a perder velocidade, ele aproveitou o embalo e atacou. A minha espada se debatia para rebater as suas velozes dissimulações e pancadas. Eu ainda era o seu aluno, e até os meus ossos apavorados podiam sentir isto. Toda vez que eu tentava pressionar para frente, ele me obrigava a recuar dois passos. Não havia truques para combater a série de golpes implacáveis que se seguiram. Eu estava recuando, sem dúvida, e não via escapatória para a minha inevitável derrota.

O incrível aconteceu. Boris se comprometeu demais para tomar impulso, o pé esquerdo para a frente mas o peso do corpo ainda apoiado nos calcanhares. Era um erro que não combinava com ele. Rapidamente, eu girei a perna e atingi o seu pé dianteiro, e ele foi ao chão. Com ele estirado no chão, coloquei imediatamente a ponta da espada no seu peito. Eu respirava como se me faltasse o ar, enquanto ele sorria e, aparentemente, nem se incomodava com todo aquele esforço. Eu sabia que ele tinha se entregado de propósito. Estendi a mão, e ele a tomou para que eu o ajudasse a se levantar em meio aos vivas.

“Você se entregou de propósito para mim,” falei, meio irritado, mas em voz baixa o suficiente para os outros não ouvirem.

“Entreguei para a sua princesa,” disse Boris, deliberadamente, olhando de relance em direção à sacada. Olhei atrás de mim e o meu coração saltou no peito. A minha futura noiva estava lá, soprando-me um beijo pela vitória, mas era um passo atrás dela que eu estava vendo. Era Alia, agora não mais vestida com trajes rústicos; nada de avental, nada de trapos nas mãos. Sedas azuis agora abraçavam as suas curvas, os seus cabelos vibrantes e vivos com uma flor branca logo acima da orelha direita. O sorriso radiante. O seu olhar no meu. Soltei a minha espada e encarei, como um tolo, a mais linda vista que o mundo jamais possuiria. Fiz uma reverência para Alia, e o mundo achou que era para Angelica.

“Ela é bela, meu Senhor,” disse Boris, de homem para homem, a mão no meu ombro.

“Isto e muito mais,” disse eu, sorrindo. Boris nunca soube o verdadeiro significado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s