A Presa: Capítulo 08 – Caleb

Aquilo tinha tudo para ser um inferno, mas foi quase agradável. A família de Teegan não era o que eu pensa­va. A mãe e o pai não foram tão críticos quanto eu imagi­nava. A avó foi a maior surpresa: era como uma ‘filha das flores’ dos anos 60. Não fazia mais o tipo, mas o de­sejo de liberdade e felicidade era contagioso. Na verda­de, a única coisa estranha era que ela adorava Bob Dy­lan. Sempre achei a música dele muito sombria e áspera. “O segredo está na letra,” contou ela. Por causa dela, tal­vez eu experimente ouvir a música dele mais uma vez. Pode ser que eu tenha perdido algo.

A Sra. Fuller insistiu para eu ir de novo qualquer dia. Aceitei sem muita convicção porque percebi que o pedi­do deixou Teegan desconfortável. De qualquer maneira era uma mera formalidade de momento, dessas que ne­nhum dos lados fazia muita questão de cumprir. Coisa estranha: eu parecia ter feito mais progresso com a famí­lia de Teegan do que com ela mesma. Não que ela não fosse amigável. Só que não houve nada mais forte do que aquelas mãos dadas que me deram equilíbrio no início.

Teegan viu o meu receio ao chegar, e eu odiei isso. Dar quatro voltas no quarteirão antes de finalmente estacio­nar serviu muito pouco para diminuir meus batimentos cardíacos. A mão dela fez maravilhas, e eu não queria largar. Foi coisa de amizade, pelo menos do lado dela. Quando ela pegou, senti uma vontade quase irresistível de beijá-la. Teria sido a hora errada, e ela provavelmente me mandaria embora.

O teste da família tinha acabado. Me dei um “B”, mesmo sabendo que provavelmente só eu estava ligando para essa nota. Teegan pareceu concordar: o sorriso era bem evidente ao entrarmos no carro.

“Foi tão horrível quanto você imaginou?” perguntou Teegan afivelando o cinto no banco do passageiro.

“Na verdade,” respondi, meu sorriso acentuando as pa­lavras, “foi bom. Gostei da sua família.” Teegan deu risa­da, coisa que eu não esperava.

“Acho que gostaram mais de você do que de mim,” brin­cou Teegan. Dei a partida, contente por vê-la bem hu­morada. Não era verdade, mas era bom saber que eles gostavam de mim.

A viagem iniciou com poucas palavras. Meu cérebro con­gelava em temas extra escola. Depois de discutirmos so­bre o grupo de estudos que ia começar, coloquei uma música para preencher o vazio. Teegan ficava confortá­vel no silêncio. A única coisa que passava pela minha ca­beça era convidá-la para o baile de formatura, e eu não sabia como puxar o assunto. Precisávamos conversar mais, isso era certeza. Ir ao baile juntos exigiria que con­seguíssemos manter uma conversa. Decidi ser franco, o que provavelmente era uma idiotice.

“Não consigo pensar em nada para falar,” disse eu, olhando a estrada. Ao menos os meus olhos tinham o que fazer.

“Você acha que temos de falar?” perguntou Teegan.

“Temos,” respondi, “o silêncio parece inadequado.” Co­mecei a desejar ter permanecido em silêncio.

“Talvez eu não queira falar com você,” disse Teegan. Olhei chocado para ela e vi um enorme sorriso que ia até os olhos. Olhei de volta para a estrada, retorcendo os lá­bios.

“Por um segundo você me pegou,” admiti. Por que será que eu gostava que ela brincasse comigo?

“É muito fácil zoar você,” disse Teegan toda gentil. “Com a prática você vai melhorando.” Olhei para ela e lá estava de novo aquele sorriso. Tinha um certo orgulho nele.

“Você pretende me ensinar?” perguntei.

“Todas as vezes que eu puder,” riu Teegan. “Suas boche­chas ficam vermelhas e você faz uma expressão de pâni­co. Não devia ser engraçado, mas é.”

“Tem razão, eu acho,” disse eu, tentando fazer graça, “te­nho dificuldade em entender as mentes mais fracas.” Vi­rei para o lado e ela estava com o olhar distante, a mão próxima aos olhos. Olhei para a estrada em pânico. “D… desculpe,” gaguejei, “só tentei ser engraçado.” Por que raios eu tinha começado esta conversa? Olhei e vi que ela estava tentando segurar uma risada.

“É fácil demais com você,” disse Teegan. Desta vez eu ri.

“Lembre que estou dirigindo,” comentei. “Um ataque do coração e você vai parar numa maca.”

“Está me ameaçando?”

“Com certeza,” respondi. “A regra aqui é ‘zoe por sua conta e risco’.” Adorava o jeito dela sorrir. Se fosse mais por mim do que pela piada, seria melhor ainda.

Teegan fez algo que para mim era complicado imitar: mudou de assunto sem que ficasse esquisito. Falamos de filmes e fofocas inofensivas. Para ela era coisa que não demandava esforço algum. Depois de feito, era simples de copiar. Brinquei de desviar a conversa, e ela foi se­guindo junto. Depois de algumas vezes, esqueci que es­tava tentando falar e apenas falei. O tempo passou rápi­do e chegamos ao clube antes que eu tivesse a chance de convidá-la para o baile.

“Então é aqui que você vai tocar,” disse Teegan enquanto caminhávamos na direção da porta da frente. Era um pequeno lugar de eventos chamado ‘Tangerines’, com um toldo cor de laranja sobre duas portas de vidro. Pro­vavelmente uma fábrica velha, com uma fachada sólida de tijolos, cheia de nichos onde antes havia janelas. Duas barras grossas como os meus braços margeavam a entra­da, uma de cada lado, desde a calçada até se curvarem na lateral do prédio. Luzes em formato de bolinhas cor de laranja pendiam ao longo da barra, como se tangeri­nas crescessem em parreiras. Deve impressionar à noite.

“É aqui,” concordei. “Espero que não fique muito entedia­da durante o ensaio. Ainda faltam algumas horas até começar.”

“Não se preocupe,” disse Teegan sorrindo. Era visível uma certa excitação em seu olhar. Ela estava gostando da idéia do concerto. Tomara que a realidade seja tão sa­tisfatória quanto o sonho. Alcancei a porta antes e abri para ela. Recebi um “obrigada” e um sorriso, ambos tí­midos. Eu e a caixa do violino manobramos atrás dela, os olhos tardando a se ajustar à luz fraca do interior.

“Caleb!” alguém gritou do outro lado do salão. Sorri, re­conhecendo a voz do Tom. Sem pensar, segurei a mão de Teegan e fui na direção da voz, desviando das mesas to­das. Sentia que a mão dela se ajustava na minha, acostu­mando-se como da última vez. A vista melhorou ao nos aproximarmos, e enxerguei Tom com o resto da banda sentados a uma mesa bem diante do pequeno palco, à esquerda da pista de dança, que também era pequena. Relutei em soltar a mão de Teegan. Só quando chegamos é que notei que estávamos sendo seguidos.

“Estão com a gente, Matt,” disse Tom. Voltei-me e vi um negão gigante vestido todo de preto, o logotipo do Tan­gerines estampado na camisa. Ele sorriu, transformando sua presença ameaçadora em algo amigável.

“É só sair da porta por um segundo,” disse Matt, “e todo mundo entra de fininho.” Ele veio mais perto. “Vocês dois têm identidade?”

“Sim,” respondeu Teegan, sem se perturbar pelo tama­nho do homem, “mas não temos 21 anos. Só vim ver o Caleb tocar.” Gostei do jeito dela sorrir para mim ao mencionar meu nome.

“Não tem problema,” disse Matt. “Apenas preciso colo­car pulseiras brancas em seus pulsos. Pra ficar dentro da lei.” Depois de alguns instantes prendendo as pulseiras em nossos pulsos, ele deu um pequeno sermão sobre sermos expulsos caso nos pegassem com álcool, ou mes­mo tentando comprar. “Aquele bar menor ali,” disse Matt apontando para uma lateral próxima à placa do ba­nheiro, “não tem álcool. É lá que vocês devem procurar bebidas e salgadinhos. As pulseiras brancas não são per­mitidas no bar principal, só as pulseiras vermelhas.” E apontou para o outro lado do salão, onde um bar ocupa­va quase a parede toda.

“Acho que entendemos,” disse eu. Teegan acenou con­cordando.

“Jóia,” disse Matt, “divirtam-se, então. É uma noite e tanto para um encontro.” E se foi antes que eu pudesse corrigir. Teegan deu um sorriso malicioso. Pelo menos ela não reclamou do Matt achar que era um encontro. Dei de ombros e deixei que achasse. Se Teegan não liga­va, eu também não.

Tom apresentou a banda. O baterista Alfred tinha cabelo e barba a la ZZ Top. Uma colorida faixa indígena pren­dia a barba na altura da cintura, provavelmente para que ficasse longe da bateria. O guitarrista principal, Zachary, era alto como Gene, mas careca e magrelo. Quando sor­ria, não ficava nenhum dente escondido. Lembrava um Drácula. O baixista era encorpado como Tom. Não gor­do, mas com aquele peso extra que denunciava a falta de exercícios. Ao contrário de Tom, Ray tinha o cabelo colo­rido, um vermelho vivo naturalmente encaracolado. O de Tom era grisalho, e combinava muito bem com o rosto.

“Esta é Teegan,” falei enquanto apertávamos as mãos.

“Oi,” disse Teegan, toda animada por conhecer a banda. Eu estava impressionado comigo mesmo por trazê-la aqui. Era a primeira vez em que saíamos só nós dois, e normalmente eu teria me atrapalhado até com um jantar barato e um cinema. Claro que aí seria um encontro. Aqui era infinitamente mais seguro.

“Caleb,” disse Tom com voz de surpresa, “você não me contou que ela era um avião.” Teegan se iluminou e meu rosto queimou. Tentei lembrar o que contei dela ao Tom por telefone. Eu estava tão empolgado que devo ter fala­do mais do que devia. “Quando ele pediu uma entrada a mais, nunca imaginei que era para uma mulher. Vou ser franco: você ilumina este lugar como o sol.”

“Pare de paquerar, véio.” Teegan e eu nos voltamos e ali estava uma mulher mais velha, contemporânea do Tom, usando jeans e com as mãos postas na cintura. Tinha um sorriso no rosto que contradizia o tom de voz. Os olhos eram mais jovens do que os pés-de-galinha que apareci­am em volta deles. Os cabelos longos e ondulados ti­nham uma cor loira que também desafiava a idade. Tom riu e deu a volta por trás de nós.

“Caleb, Teegan, esta é a bola de ferro mais bonita do mundo,” anunciou Tom. “Wendy, minha esposa e detec­tora de paqueras.” Ele prendeu as mãos ao redor da cin­tura dela e beijou-a no rosto.

“Prazer em conhecê-la, Wendy,” falei. Teegan fez o mes­mo e puxamos mais algumas cadeiras em volta da mesa. Wendy sentou-se ao lado de Teegan, e as duas começa­ram a papear; Tom e eu conversamos sobre a música que iríamos tocar. O resto da banda queria saber sobre a melodia; Alfred se ofereceu para acrescentar alguma percussão. A canção ficaria ruim com bateria, mas nem precisei recusar. Tom já estava inflexível: só eu e ele to­caríamos.

“Quer ensaiar um pouco?” perguntou Tom. “Assim sin­cronizamos tudo.” Era uma pergunta, mas eu sabia que a única resposta era ‘sim.’ Eu tinha vindo mais cedo para isto.

“Claro que sim,” respondi. Olhei para Teegan: “Vai ficar bem aí?”

“Claro,” respondeu Teegan.

“A dois quarteirões daqui,” interrompeu Wendy, “fica uma antiga rua do comércio. Tem algumas lojas bem di­ferentes. Que acha da gente ir ver as vitrines enquanto esses caras praticam um pouco?”

“Com certeza,” respondeu Teegan, levantando-se junto com a Wendy. Elas falaram tchau e prometeram voltar antes do concerto começar. Tom e sua banda se levanta­ram levando as bebidas ao palco. Eu esperei um pouco mais, assistindo à saída das senhoras. Os dois pares de jeans serpentearam por entre as mesas a caminho da porta. Teegan tinha um tiquinho menos de altura e uma silhueta muito melhor. Até onde dava pra ver, Wendy era apetitosa. Teegan era mais.

“Vai ficar aí olhando as bundas?” falou Tom. Zachary co­meçou a rir. Parei de olhar e fui para o palco com a caixa do violino. Com certeza era uma bunda sexy.

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