O Casamento: Capítulo 06

Eu fiz a única coisa que podia fazer para não espalhar maçã pela mesa. Os rostos da minha mãe e do meu pai ficaram brancos, mas Angelica ignorou. “Você está certo, pai, esta família à qual me uniu é, de fato, muito honrada.” Engoli dolorosamente tudo o que estava na boca, olhando alternadamente os meus pais em pânico e o rosto tranqüilo de Angelica. Ela se fez muito bem de inocente, enganando a minha mãe, me surpreendendo, e assegurando a decisão com uma trava política.

A minha mãe, desesperada, tentava achar um jeito de rejeitar a proposta. Olhou para o meu pai, que, escandalizado, resumiu tudo encolhendo os ombros. Eles não podiam recuar sem um bom motivo. O verdadeiro motivo teria envergonhado a família. Enfim, a minha mãe consentiu silenciosamente com um movimento da cabeça. Houve um breve instante em que o meu olhar se conectou com o dela. Eu não sei se o que eu vi foi tristeza ou raiva, misturada a uma preocupação maternal…

“Que é que você fez?” sussurrei bruscamente quando a conversa mudou e nos ignoraram. Senti na perna, por baixo da mesa, o toque da sua mão.

“Fiz o que podia.” Não cabia condenação à resposta de Angelica. “Falamos depois.” Não era a conversa com ela que me preocupava. Como é que isto iria funcionar com os meus pais era o que estava em primeiro plano na minha mente. Mais tarde eles tentariam desfazer, e seria doloroso para mim e para os outros. Foi a primeira vez que eu questionei o julgamento de Angelica. Ela estava tomando decisões para a vida toda, sem mim. ‘Para uma mulher, a idéia de igual é diferente da de um homem.’

Fiéis às minhas previsões, os meus pais me encurralaram depois do jantar. Foi um encontro privado na sala de contabilidade, fora do percurso normal da maioria dos moradores.

“É intolerável,” resmungou meu pai, “deve ser desfeito antes que a princesa detecte o óbvio.”

“Ela já sabe,” declarei humildemente. Foi evidente o choque deles.

“Ela me manipulou.” A ira da minha mãe começou a se acumular. “Será que ela está tentando desfazer tudo? Ela brinca com a nossa honra como se fosse alguma espécie de brinquedinho de criança.”

“Não!” gritei. Saiu mais alto do que eu queria. “Não,” repeti, mais controlado, “ela o faz por mim, embora eu pense que seja um equívoco.”

“Que é que se ganha?” ranhetou meu pai, “não faz sentido nenhum.”

“Acho que ela preserva o meu amor,” falei em voz baixa. Quanto mais eu refletia, mais me comovia. “Os pais dela não sabem de nada. Rebater isto agora só vai colocar em risco a aliança.”

“A sua noiva está salvando o seu amor?” perguntou meu pai, incrédulo.

“Sim, eu acredito que seja isto,” respondi, “ela era contra esta união, mas está resolvida a fazer funcionar. Creio que ela considera uma necessidade. Sua cabeça trabalha rápido. Rápido demais. Eu já comecei a admirá-la.”

“Por que é que Alia concordaria?” perguntou minha mãe, “ela fez de tudo para preservar a sua honra, mas agora se arrisca com isto.”

“Eu não sei,” respondi sinceramente, “pretendo descobrir, discretamente.”

“Agora você sabe o que está em jogo,” disse meu pai, se referindo às reuniões estratégicas, “deixo a seu cargo manter a aliança intacta. Pode ser que a princesa tenha alguma outra intenção, então tenha cuidado.”

“Ela tem alguma intenção, nisto eu concordo. Não acho que o objetivo seja causar dano a mim ou à aliança,” afirmei. A minha mãe me abraçou, solidária. Bem lá no fundo ela tinha desejado um casamento de amor para mim. Sabia que seria de Estado, mas desejava que, mesmo assim, fosse de amor. Alia, e agora isto, estavam fazendo dela mais mãe do que rainha. Percebi a sua preocupação. Era a primeira vez, em muito tempo, que eu a abraçava na esperança de fazê-la se sentir melhor.

Não consegui conversar sozinho com Angelica à noite. Ela, estrategicamente, tinha ficado com os pais, tornando impossível uma conversa. Quando me despedi, Alia estava ali, toda contente, rindo com a princesa. O rei e a rainha me deram boa noite, e Angelica se levantou para beijar-me no rosto.

“Vai ficar tudo bem, meu Príncipe,” sussurrou Angelica, bem baixo para os outros não ouvirem. Eu não me deixei levar pela confiança dela, mas não demonstrei no rosto. Alia sorriu, trespassando de amor a minha alma, e fez uma leve inclinação de cabeça. O meu corpo estremeceu. Ela me encarava sem reservas, o olhar fixo em mim mesmo na presença dos outros. Era inebriante e aterrorizante. Eu não tinha controle algum sobre isto; entre o meu amor e a minha noiva havia algum plano em andamento. Roguei para que não envenenasse a nossa casa até a sua completa ruína.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s