A Presa: Capítulo 07 – Teegan

“Vovó vai chegar às 11,” gritou mamãe, da cozinha. Pren­di a respiração quando ouvi. Era almoço ou interrogató­rio? Não conseguia lembrar a última vez em que tínha­mos almoçado todos juntos num sábado. Não era para ser um evento especial. Fui na cozinha.

“Vovó?”

“Ela também quer conhecê-lo,” disse mamãe, continuan­do a jogar a salada numa tigela. Como eu ia fazer para parar a bola de neve que rolava pela montanha? Já esta­va saindo do controle. Mamãe estava preparando uma festa, e papai estava limpando o jardim. Eles estavam to­dos tentando, pelo visto, causar uma boa impressão. Nunca chegaram nem perto disso com meus outros ami­gos.

“Vocês não estão planejando me envergonhar, estão?” supliquei.

“Ele só vai almoçar com a nossa família,” disse mamãe sorrindo, “e nós vamos agir do jeito que sempre agimos.”

“Não é meu namorado,” argumentei. “Pra quê chamar a vovó?”

“É o preço a pagar,” mamãe riu, “por ter uma família que ama você.” Ela me inspecionou de alto a baixo e acres­centou: “É isso que está pensando em usar?” Eu normal­mente vestia jeans e uma blusa de algodão. Olhei para a minha roupa e não achei nada que fosse melhor trocar.

“É um concerto,” insisti, “não um encontro.”

“Só achei que fosse querer se vestir melhor para ir ao centro da cidade,” comentou ela cobrindo a tigela de sa­lada com um plástico para colocar na geladeira. “Você tem umas saias bonitas; você fica muito linda com aque­la preta que usou no aniversário da vovó.”

“Não estou tentando ficar linda,” suspirei. De repente me dei conta da minha aparência. Mamãe tinha uma maneira de me confundir com sugestões. Afastei a idéia e botei a minha teimosia no lugar. Trocar agora era uma derrota. Quase bloqueei a família, mas daí pensei me­lhor. “Mãe?”

“Que é?”

“Não faça disso nada mais do que é, por favor,” supli­quei. E se Caleb fugisse correndo da minha família insa­na, e para bem longe? Isso já estava virando o pior favor que eu já tinha feito para alguém. Precisava parar de me oferecer para fazer coisas.

“Um amigo vem almoçar,” disse mamãe abrindo o forno para ver como estava indo a caçarola de macaroni. “Nada mais, nada menos.” Revirei os olhos. Geralmente, se tivéssemos frios para o almoço já era sorte. Larguei-a ali com seus planos malucos de refeição e fui à sala de estar, atirando-me ao sofá perto de Zane.

“Mamãe tá exagerando?” perguntou Zane, achando en­graçado.

“É só um amigo,” afirmei categoricamente.

“Gostam dele,” disse Zane. Encarei-o meio confusa. “Mamãe e papai,” explicou ele. “Ouvi a conversa deles ontem à noite. Acham que é um genro em potencial.”

“Mas eles nunca nem o viram,” falei, meio surpresa. Zane deu de ombros. Não estava brincando. Geralmente eu sabia quando ele falava a verdade. Minha irritação ex­travasou, e Zane levantou as sobrancelhas.

“Não vai ser tão ruim,” disse Zane.

“Não é um encontro!” anunciei me levantando. Cami­nhei enquanto mamãe e papai tentavam me confortar à distância. Passando pela porta, fui direto na direção de papai. Não era preciso procurar onde ele estava. Com a ligação ativa, ambos sabíamos sempre a posição de cada um.

“Como é que você conhece Caleb?” exigi de papai, que rastelava um pouco da folhagem caída dos arbustos no ano anterior.

“Está tão irritada com o quê?” perguntou ele, ignorando a minha pergunta. Como ele continuou rastelando, eu ergui minhas muralhas e bloqueei a junção das nossas músicas. E desta vez fechei o resto do mundo. Ele parou de varrer e olhou para mim.

“Fiquei preocupado,” disse papai calmamente, “e dei uma checada nele.”

“E agora você e mamãe pensam ter achado um futuro marido para mim,” falei alto a ponto dos vizinhos escu­tarem. Papai largou o ancinho e abriu os braços. Agüen­tei firme por alguns instantes, mas a tensão da coisa me venceu. Abri minha mente e me lancei em seus braços. Ambos, mamãe e papai, me preencheram com amor. Queria minha raiva de volta.

“Desculpe,” disse papai com sinceridade, abraçando-me mais forte.

“Não devia tê-lo investigado,” disse eu. “É só um amigo. Devia confiar em mim.”

“Nem sempre penso direito quando me preocupo com você,” sussurrou papai. “Está certa; não devia ter inves­tigado. Só não posso prometer que não serei estúpido no futuro.” Como eu odiava gostar da capa de proteção dos seus braços, além daquela que ele criava na minha men­te. Estava muito velha para precisar tanto daquilo.

“É só um amigo,” falei, mas as lágrimas começaram. A tensão do almoço tomou conta de mim, e o refúgio nos braços de papai foi demais.

“Desculpe,” ele ficava repetindo baixinho, enquanto eu chorava em seu ombro. Eu tinha de sair disso tudo. Pre­cisava de uma vida própria. Ainda bem que a formatura estava chegando.

Só confiei na minha voz de novo depois de alguns mo­mentos. Enxuguei o rosto e me endireitei, escapando dos braços de papai. Seus olhos também não estavam enxu­tos. Sabia e sentia que tinha me ferido. Agora eu tam­bém me sentia mal por tê-lo magoado. A conexão era uma verdadeira amolação.

“Admito,” confessou ele, “ficamos meio empolgados. Ele vai pro MIT com tudo pago, e eles não dão isso pra qual­quer um.” Encarei-o, e vendo aquele olhar de cachorri­nho desesperado pelo meu futuro, não me conti­ve: comecei a rir.

“Não vou me casar com ele,” eu disse entre um riso e ou­tro.

“Só queríamos causar uma boa impressão,” disse papai sorrindo.

“Vocês vão assustá-lo,” disse eu. “É um cara bacana que acaba de sair da zona de conforto. Só quero que ele te­nha uma amiga no show.”

“Ok, ok,” capitulou papai, “nós vamos moderar o tom.” Abracei-o bem forte e voltei para casa. Continuava apreensiva com o almoço, mas pelo menos papai me en­tendia melhor. Esperava que ele conversasse com ma­mãe antes que Caleb fugisse correndo em desespero. Ca­ramba, com tudo pago, ele disse.

– Alerta: pais passando dos limites

Enviei uma mensagem ao Caleb. Quem sabe assim ele não perderia o juízo ao chegar aqui. Minha família é meio estranha, mas é minha, e fui eu que os escolhi até onde sei.

– Os meus acham que eu devia usar terno

– LOL, mamãe estava me empurrando uma saia

Nenhuma resposta a isto. Comecei a me perguntar se ele achava que eu devia me vestir melhor para o concerto. Que bom seria se mamãe não tivesse botado a idéia na minha cabeça…

– Jeans ok?

– Tomara, é o que estou usando.

O alívio foi enorme. Não sinto que ficaria confortável de saia. Num encontro, talvez, mas não em um show casual com um amigo. Mamãe ia ficar desapontada, talvez, mas ela não entendia que a moda hoje era o conforto. Subi as escadas e troquei a camisa por uma mais clara. A outra estava um pouco desalinhada.

“Aí está a minha neta preferida,” disse vovó ao me ver descendo as escadas. Fui abraçá-la, sofrendo um beijo em meu rosto. Ela é exatamente o que todo mundo ima­gina de uma avó. Cachos grisalhos e um eterno sorriso. Um pouquinho mais baixa do que eu, só que aparente­mente mais energética. Como se ela tentasse espremer a vida nos anos finais para compensar uma certa falta dela no começo.

“Oi, vovó,” respondi.

“Memaw!” gritou Zane do alto da escada. Vovó sorriu e acolheu-o nos braços. Mesmo com a idade avançada, ela ainda trabalhava o dia todo na biblioteca. Sua diversão era ler para os alunos da pré-escola e cumprimentar a ci­dade que passava por ali. Zane sempre parecia mais novo perto dela, o que lhe custava mais beijos. O batom tinha deixado pequenas marcas vermelhas no rosto dele. Limpei o meu, que provavelmente tinha as mesmas cica­trizes.

“Olá, mãe,” disse papai, atraído pelo grito de Zane. Papai ganhou um beijo e um abraço também, embora menos piegas.

“Sammy, cadê a Natalie?” perguntou vovó.

“Na cozinha,” respondeu papai, “aprontando as coisas.” Vovó agarrou minha mão e me arrastou para a cozinha. Na presença dela eu sempre me sentia uma garotinha de 10 anos. Ela era a nossa principal babá quando éramos pequenos. Zane e eu passamos tanto tempo com ela quanto com papai e mamãe. Antes do jardim de infân­cia, ela até morou conosco para que papai fosse à escola e mamãe pudesse trabalhar. Fazia um queijo quente chinfrim, uma das poucas coisas que eu comia na época.

“Natalie,” exclamou vovó entrando na cozinha.

“Oi, Mary,” disse mamãe alegremente, tirando a caçarola do forno. “Que bom que você pôde vir.”

“Não ia perder por nada no mundo,” disse vovó vol­tando-se para mim, “seu primeiro encontro de verdade.”

“Não é um encontro!” falei em uníssono com mamãe. Vovó contraiu os lábios de susto. “E se fosse não seria o meu primeiro,” acrescentei em tom mais baixo. Tive al­guns encontros e até mesmo um segundo encontro. Não era minha culpa que eles eram chatos.

“É só um amigo,” me ajudou mamãe. “Caleb McGuire vai tocar com uma banda de verdade no centro. Teegan vai lhe dar apoio. Vai ser a primeira vez diante de uma platéia.” Percebi uma troca de olhares horrivelmente suspeita entre a vovó e a mamãe. Quase como se não acreditassem em mim.

“Não é a primeira,” falei em defesa de Caleb. Não é que ele esteja com medo ou algo assim. “Já tocou em casa­mentos e coisas do tipo. Além da orquestra na escola.”

“É mesmo?” instigou vovó. “Que instrumento ele toca?”

“Violino,” respondi. “Vai ser a primeira vez que vou ouvi-lo tocando fora da orquestra. Um dos caras da ban­da, o saxofonista, pediu a ele para subir no palco. Não faço idéia de como ele consegue tocar assim na frente de todas aquelas pessoas.”

“Deve ter muita confiança,” continuou vovó. “Vai ser bom ter uma amiga na platéia.”

“É,” concordei, “foi o que pensei quando ele convidou.”

“Ele convidou você, então?” inquiriu vovó. Mamãe parou de tirar os pratos do armário, à espera da minha respos­ta.

“Não é um encontro,” suspirei, revirando os olhos, “é só um amigo, e estávamos conversando. Eu mencionei que nunca o tinha ouvido tocar, e ele ofereceu uma entrada.”

“Ele é muito inteligente,” acrescentou mamãe, mas daí viu a minha careta e voltou a retirar os pratos.

“É mesmo?” continuou vovó.

“Sim,” falei, tentando não alongar o interrogatório com uma resposta mais demorada.

“Bolsa de estudos para o MIT,” falou mamãe vendo que eu não saía do meu silêncio.

“Ah! MUITO inteligente, você quer dizer,” vovó deu risa­da. Mas depois viu a minha cara e apagou o sorriso. “Só estamos cutucando,” disse ela, apertando-me em outro abraço. “Vamos tratá-lo como amigo, não se preocupe.”

“Obrigada, vovó,” disse eu sinceramente. Ela entendeu mais rápido do que mamãe e papai. Minha ligação com ela não era tão forte quanto era com o resto da família, mas ainda assim era terna e reconfortante. Deixei vazar o meu apreço e de volta recebi o seu amor.

“Sax e violino,” comentou vovó, “acho que nunca vi esses dois juntos.” Graças a Deus a conversa rumou para longe do assunto ‘encontro’ e ficou agradável. Enquanto vovó e eu ajudamos mamãe a arrumar a mesa, discutimos so­bre as mudanças que a música sofreu ao longo dos anos. Foi uma surpresa ouvir sobre alguns concertos a que vovó assistiu na juventude. Minha impressão foi de que ela viveu com gosto os anos 60. Ela parecia ter um certo carinho por aquelas memórias, pelo menos.

Caleb chegou meio-dia. Vi quando ele ajeitou três vezes a roupa, se curvando para olhar no espelho retrovisor do carro e consertar o cabelo. Estava aterrorizado, mas en­frentou a situação mesmo assim. Não sei como, mas a reação dele diminuiu meu medo. Não suportei ficar olhando enquanto ele se esforçava para tocar a campai­nha: saí para cumprimentá-lo no passeio da frente.

“Oi,” falei o mais animada que pude. Caleb se acalmou e sorriu. Com certeza encontrá-lo na frente foi a idéia cer­ta, quebrando um pouco o gelo antes que minha família desabasse nele.

“Oi,” devolveu Caleb, “é meio-dia.” Sorri para o Sr. Ób­vio. Era quase visível que ele tremia.

“Nervoso?” perguntei.

“Sim,” respondeu ele, fazendo ‘não’ com a cabeça. Me aproximei, fazendo-o parar para que retomasse o fôlego.

“Do almoço ou do show?” perguntei calmamente. Por que será que o fato de ele estar nervoso me divertia? Era reconfortante de certo modo, mas totalmente inapropria­do tirar proveito daquilo.

“Do almoço,” respondeu Caleb baixando os olhos. Aca­bou a diversão. Agora ele estava envergonhado, e eu queria o Caleb confiante de alguns dias atrás. Fiz algo inesperado: peguei sua mão, bloqueando a música dele antes que a conexão começasse.

“Não precisa impressionar ninguém,” contei ao Caleb. “Quero ver você tocar, e meus pais querem saber quem caçar se eu não voltar. Só isto.” Caleb riu da última parte e apertou firme a minha mão, com mais coragem.

“Tinha medo de um interrogatório,” admitiu Caleb, vol­tando a sorrir.

“Ah, vai ter isso,” falei rindo. “Mas não tem como dar er­rado. Sou a única juíza que conta.” Seu olhar ficou vivo, e ele pareceu crescer. Foi estranho, mas me orgu­lhei de mim mesma. “Venha, quem sabe a gente escapa mais cedo.” Tentei retirar a mão enquanto íamos na di­reção da porta, mas com gentileza ele a manteve na dele. Foi meio desconfortável ver que ele estava tão confortá­vel. A sensação era melhor do que eu esperava, quase como se fossem moldadas uma na outra.

“Pior do que uma prova de matemática não deve ser,” brincou Caleb. Eu ri e me senti melhor por ver a confian­ça dele quase restaurada. Subimos os degraus da varan­da balançando as mãos dadas. Não soltamos até passar­mos pela porta.

“Caleb, meus pais e minha avó,” apresentei-o.

“Sr. Fuller,” disse Caleb com vigor, estendendo a mão, “obrigado pelo convite para o almoço.” Sua apreensão havia sumido, e estava altivo ao apertar a mão do meu pai.

“Me chame de Sam, Caleb,” disse papai, aparentemente mais interessado nele do que eu. Mamãe e vovó insisti­ram em abraçá-lo, coisa que coloriu mais ainda as bo­chechas de Caleb.

“Ei, Caleb,” disse Zane do sofá, quase sem levantar os olhos. Estava entretido com um jogo no tablet.

“Oi, Zane,” respondeu Caleb. Por um segundo achei que fôssemos todos sentar na sala de estar para bater papo, mas mamãe decidiu que era muito sofrimento.

“Está na mesa,” disse mamãe. “Zane, desligue o jogo e venha.” Zane deu um grunhido ao soltar o tablet e veio se arrastando. Fomos todos para a sala de jantar onde mamãe colocou Caleb perto de papai e eu perto de Ca­leb. Mamãe sentou-se na frente de Caleb, com a vovó ao lado dela. Zane deu de ombros e sentou-se no lado opos­to a papai, normalmente o lugar da mamãe. Sei que Ca­leb se sentiu cercado, mas não demonstrou.

“Então,” começou papai, enquanto a comida passava de mão em mão, “quais são seus planos para depois da for­matura, Caleb?” Papai já sabia, mas pelo menos era uma pergunta fácil.

“Faculdade, principalmente,” respondeu Caleb, “mas não sei ainda do quê. Gosto de matemática, e a engenha­ria me parece interessante. Ainda gosto mais do violino, mas acho que posso tocá-lo em qualquer lugar.”

“Música e matemática são parentes,” se intrometeu ma­mãe. “Pelo menos é o que dizem…”

“São mesmo, Sra. Fuller,” concordou Caleb. “A mate­mática é mais limitada, mas as ondas sonoras são belas fórmulas que aderem a regras estritas. As duas discipli­nas se aprimoram uma à outra. A matemática fornece as regras para a música aplicar de infinitas maneiras.” Eu o encarava e via sua mente funcionar. Conseguia ouvir o amor pela música em suas palavras. Estava sentada ao lado de alguém que compreendia seu futuro, diferente de mim.

“Tudo indica que você quer ser um violinista,” disse a vovó, colocando a salada no prato.

“É difícil viver de música,” disse Caleb. Era a voz de seus pais naquelas palavras. “É melhor eu estudar alguma coisa mais prática.” Papai e mamãe concordaram com a cabeça. O que será que tinha acontecido com aquele dis­curso que eu sempre ouvia, ‘faça o que a faz feliz’? Eu queria me intrometer e dizer ao Caleb para fazer exata­mente isso, e só não disse para não envergonhá-lo.

“Tem que considerar a felicidade também,” arriscou vovó. Sorri para ela. Quero ver mamãe e papai irem con­tra ela.

“Se você está infeliz, de que serve o dinheiro todo,” acrescentei depois da frase de vovó.

“E quem disse que você vai ser um músico falido,” conti­nuou vovó, sorrindo para mim. “Um monte deles se dá muito bem, sem ajuda dos outros.” Caleb encheu a boca de macarrão e queijo para enrolar nas respostas. Acho que ele estava falando aos meus pais o que eles queriam escutar, para não contrariá-los.

“A música é um risco grande,” disse papai de improviso. “Engenharia, por outro lado, garante estabilidade para você e sua família.” Rangi os dentes quando papai citou a família.

“A renda deixa a vida bem mais fácil,” concordou ma­mãe. “Você tem chances que não teria sem ela.” Vovó olhava para ambos como se fossem desconhecidos.

“Renda é bom,” concordou vovó, “felicidade é melhor.” E imediatamente enfiou comida na boca para enrolar nas perguntas que poderiam vir. Fiquei com vontade de dar um beijo nela.

“A música o deixa feliz de fato,” acrescentei. Caleb me mostrou um sorriso forçado, a boca cheia de comida.

“Aonde pretende ir,” perguntou papai ao Caleb. Era cer­teza que Caleb tinha engolido sem mastigar.

“Fui aceito no MIT,” disse Caleb depois de limpar a boca com o guardanapo, “mas estou esperando a resposta de Stanford. Meu pai conheceu minha mãe lá.”

“As duas são excelentes,” comentou mamãe.

“Certamente,” concordou papai. “Qualquer uma das duas seria uma medalha no peito.” Medalha no peito? Que estava acontecendo com papai? Ele nunca ligou para a escola de ninguém. Sempre diz que o importante é o que você faz com sua vida, e não como chegou lá.

“Ele não quer ir,” desabafei. Percebi tarde demais que mencionar isto era uma decisão de Caleb. Vovó ergueu as sobrancelhas.

“Northwestern tem um programa ótimo de cordas,” dis­se Caleb, abafando minhas palavras, “conheci o chefe do departamento de música no ano passado, e realmente gostei. Comem e respiram música ali.”

“Parece um excelente programa,” intrometeu-se a vovó.

“E é,” disse Caleb, que então continuou listando os deta­lhes do programa e tudo que tinha gostado nele. Sabia os nomes dos professores de violino, quem era o primeiro violino, e deu até mesmo uma descrição dos dormitó­rios. Em determinado momento ele fez uma pausa e sen­tiu que estava monopolizando a conversa. Se antes você não soubesse qual era a vontade dele, agora sabia.

“Ele gosta de música,” resumi.

“A paixão é importante em qualquer arte,” disse vovó. “Não lhe falta isto, certamente.” Mamãe e papai ficaram em silêncio enquanto Caleb descrevia as coisas. Ficaram desapontados, eu acho.

“Sua intenção é continuar no violino?” perguntou papai, de olhos baixos no prato, brincando com o garfo na co­mida, como se a resposta não fosse importante.

“Ambos, MIT e Stanford, têm uma orquestra,” respon­deu Caleb, “eu faço as aulas de música e posso tocar.” Deu de ombros, aparentemente feliz com sua sina. Papai se animou.

“O melhor dos mundos,” disse mamãe. Perdi a concen­tração e um pouco da minha irritação vazou. Não foi for­te, mas deixou papai e mamãe confusos. Será possível que estão empurrando Caleb para ir em busca de algo em que ele não põe toda a sua alma?

“Eu ficaria com a música,” comentou Zane, “mas seria guitarra.” Fez uma pequena guitarra no ar com o garfo e sacudiu a cabeça. Vovó riu e a conversa mudou: vovó mencionou as bandas da geração dela. Uma pequena guerra de gerações começou ao redor da melhor música. Quanto mais velho você é, mais acredita que a música nova é desalmada. Zane, Caleb e eu nos unimos para apontar aos antigos a infantilidade das músicas deles. Sinceramente, era uma conversa muito melhor do que as escolhas futuras da vida de Caleb.

À medida que a refeição ia acabando, o que me sur­preendeu foi o quão relaxado Caleb foi ficando. Quando sentamos ele parecia duro como uma tábua. Agora tinha um sorriso no rosto, e sua conversa era confiante. Até soltou um trocadilho na hora certa, arrancando garga­lhadas da mesa inteira por alguns instantes. Coisa inte­ressante trazermos um amigo em casa e a família tam­bém gostar dele. Aquilo legitimou a minha escolha, me fez sentir um tiquinho mais forte.

Antes de sairmos, Caleb e eu, a vovó me levou num can­to, longe dos olhares curiosos.

“Gosto dele,” disse ela com um sorriso que falava mais do que as palavras.

“Eu também,” concordei, “como amigo.” Ela que não ti­vesse idéias sobre o rumo que o relacionamento estava tomando. Eu não ia para o MIT, e Caleb estava na perife­ria do meu círculo social.

“Bom, se não está interessada,” falou vovó, “quem sabe você pode falar bem de mim para ele.” Dei risada da ma­neira como falou. Parecia 40 anos mais jovem, o olhar sério. Me abraçou e sussurrou na minha orelha: “Tudo bem gostar dele. Ele gosta de você.” Apertei-a para mos­trar o amor que eu tinha por ela; vovó era sempre tão agressiva em matéria de sentimentos… Papai me contou uma vez que ela estava tentando compensar por despre­zar a vida depois de tantos anos. Não sabia muito bem o que isto queria dizer, mas podia sentir.

“Não estou pronta,” sussurrei de volta. Era verdade. Ca­leb provavelmente não era para mim. Era inteligente pra caramba e já estava na pista expressa, enquanto eu ain­da esperava o sinal abrir. Não estava pronta para nin­guém.

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