A Presa: Capítulo 06 – Sam

“Bom dia, Cindy,” falei, fazendo uma surpresa para a nossa recepcionista. Chadwick Construction era uma empresa grande, mas tinha poucos funcionários admi­nistrativos. A maioria dos empregados ficava em campo. Eu fazia as duas coisas.

“Sam!” falou Cindy com um agradável sorriso, “Acháva­mos que você só viria amanhã.”

“Enfrentamos uns problemas, infelizmente,” falei sério, mas depois sorri também. “O bom é que serviu para eu fazer uma surpresa para a Natalie ontem à noite.”

“Deve ser melhor ter uma esposa feliz do que um chefe feliz,” brincou Cindy. Percebi a mudança no cabelo dela. Duas vezes por ano, mais ou menos, ela fazia alguma coisa dramática com ele. Tinha cortado curto desta vez, quase como um garoto, e tingido de castanho escuro. Deu-lhe uma cara mais atlética, embora eu soubesse que as atividades que exigiam esforço não estavam em sua agenda.

“Por que é que eu vou ficar infeliz?” perguntou Jerry, chegando por detrás. Debruçou-se sobre o balcão da re­cepção. “Você sempre pode arrumar uma esposa nova; os chefes assinam o cheque.” Estava de terno cinza, aquele que ele vestia quando queria impressionar al­guém. Esse alguém nunca era eu.

“Tive que atrasar o projeto Pinckney,” respondi, “mais três meses, talvez.” Jerry resmungou e acenou na dire­ção da sua sala. “Cabelo bacana,” elogiei a Cindy em voz baixa. O corte anterior era melhor, mas o sorriso dela valia a mentira. Segui o Jerry.

Jerry fez um sinal para eu me sentar nas cadeiras diante da mesa, e ele foi ao bufê para fazer o café. Sempre havia um jarro de água ao lado da cafeteira. Coisa da Cindy, pensei comigo. Por isso ela provavelmente nunca vai perder este emprego.

“Por que estou jogando 150 mil dólares fora?” perguntou Jerry, sem olhar para mim; continuava preparando o fil­tro e o café. Os atrasos em um projeto do tamanho do Pinckney custavam cerca de 50 mil dólares por mês. Es­tava planejado, então boa parte do palavrório de Jerry era só bravata.

“Teor de carbono muito elevado,” suspirei. “Tive de re­jeitar o aço.” Sou o expert em materiais na Chadwick Construction. Levei 5 anos para conseguir o diploma de engenharia, e até hoje me surpreendo como alguém con­fia em mim para cuidar do serviço. Graças a Teegan. Mi­nha vida é assim hoje por causa dos eventos que ela, sem saber, desencadeou quando bebê.

“É bom que tenha evitado a queda do prédio, ou eu vou comer o seu rabo,” falou Jerry, despejando a água.

“Não agüentaria o stress lateral do jeito que planeja­mos,” expliquei. “Um terremoto ou um vento forte en­fraqueceria muito a estrutura. A Alloy Partners pressio­nou bastante, mas eu não assinei.”

“Que vão à merda!”, disse Jerry indo para a mesa dele. “Quero que esteja na fábrica quando as novas barras saí­rem da produção. Vamos testá-las ali mesmo para não termos mais atrasos.”

“Acabei de voltar de casa, Jerry,” reclamei.

“É, eu sei. Esposa feliz e tal,” falou Jerry arrumando al­guns papéis sobre a mesa. “A família vai bem?”

“Vai bem,” disse eu, sentindo que era uma armadilha, “mas não vai ficar se eu estiver sempre na estrada.” Jerry riu. Acho que ia usar o meu “vai bem” contra mim.

“E se você fizer um bate e volta no início da semana que vem? Uma noite?” perguntou Jerry levantando as so­brancelhas.

“Uma noite pode ser,” respondi.

“Jóia, eu não confio na Alloy Partners, e prefiro pressi­oná-los,” continuou Jerry. “Deu uma olhada no projeto de Nova Iorque?”

“De relance,” respondi, “vou ver melhor agora pela ma­nhã. Mas o que eu vi parece bom. Nenhuma luz verme­lha óbvia.”

“Quero você na reunião inicial no dia 10,” ordenou Jerry.

“Sem problema.”

“Sanders vai chefiar isto, e eu não quero outra pisada na bola como da última vez,” disse Jerry, socando a mesa com o punho fechado. “Avise-o para chamar você se ele cair nalguma encrenca, ok?”

“Claro.” Por alguns instantes, conversamos sobre o novo corte de cabelo da Cindy. Jerry queria apostar que o próximo seria de moicano. Ele lidava com os emprega­dos como se eles fossem todos irmãos e irmãs mais no­vos. Seus comentários eram quase rudes às vezes, mas quando é que alguém é gentil com um irmão mais novo? Ele não fazia por mal.

Fomos cada um para um lado; Jerry tinha que se prepa­rar para uma reunião com potenciais clientes. Este era o motivo para o terno cinza. Fui até a minha sala, que ti­nha metade do tamanho da sala de Jerry. Era até um pe­queno milagre que eu tivesse alguma sala. Sorri ao lem­brar de Rose, mãe de Natalie. Ela sempre me imaginava sentado em uma sala assim, e acreditava que um dia eu conseguiria. Um salto gigante para quem içava redes e vivia na miséria.

Empurrei a foto de Natalie que estava no meio da mesa para o canto. Antes de sair eu sempre movo a foto para o centro, para lembrar porque eu trabalho. Ainda hoje aquela mulher ganha mais que eu, mas não sou pregui­çoso mais. É mesquinharia achar que ainda preciso con­quistar o amor dela, mas não consigo evitar; há muito tempo já admiti para mim mesmo. Sorri ao ver a ima­gem, lembrando de como ela estava sexy ontem à noite. Quando perdemos é que valorizamos. A ausência tam­bém deixa a cama apimentada, mostrando que ainda so­mos jovens em espírito.

Tirei o telefone do bolso e achei o número do Hank. O governo amolava um pouco, mas podia ser útil desta vez. Apertei “ligar” e me senti meio culpado. Não parecia coi­sa muito correta espionar Teegan, mesmo eu tendo au­torização, mas um pai sempre usa aquilo que está à dis­posição para proteger os filhos.

“Dia, Hank,” falei quando ele atendeu.

“Dia, Sam. Algum problema?”

“Bom… nada devastador. Teegan tem um encontro,” dei risada.

“Ela já saiu antes,” disse Hank, “nada incomum na idade dela. Na verdade eu diria que está meio atrasada, coisa que até me surpreende bastante.” Fiquei com raiva ao pensar que Teegan estava abaixo da média na escala de sex appeal. Não foi o que Hank quis dizer ao falar.

“Ela está se enganando desta vez,” disse eu. “Teima que não é um encontro, mas brigou com Natalie por não po­der ir. Desligou todos nós quando não foi do jeito dela.”

“Ela já fez isso antes,” lembrou Hank.

“Foi de raiva desta vez,” expliquei, “para punir Natalie, eu creio.”

“Funcionou?” perguntou Hank.

“Não exatamente,” respondi, “tive de dar uma de pacifi­cador, e ela amoleceu, mas também cedemos um pouco.”

“Ela tem 18,” disse Hank. “Não dá pra esperar que não tenha vontade própria. Eu fico admirado mesmo é de ela não ter usado mais o seu poder.”

“Não está tão forte quanto antes,” expliquei. “Nunca foi tão forte para ela quanto para mim. Mas também não te­mos precisado. Aquela vez em que ela quebrou o braço, acho que uns seis anos atrás, foi a última vez em que acessei a ligação dela como antes.” Tive que dar risada, “A porcaria doeu pra burro, e ela estava sentada debaixo da árvore gritando por mim. Agora são só sentimentos partilhados, e alguns até agradáveis.”

“Você sabe que eu chego aí em duas semanas,” disse Hank, “tem outra razão para me ligar?”

“Queria ver se os militares davam uma olhada nesse ‘não-encontro’ dela,” falei. “Se eu estiver certo, e ela sen­tir algo por ele, o interesse deles deve ser tanto quanto o meu.” Hank riu.

“Você quer que o governo americano verifique o cara que vai sair com sua filha?”

“Fomos sempre bonzinhos,” falei, tentando fazer minha voz sair séria. “Podem trabalhar para nós só desta vez.”

“Você sabe que o interesse deles diminuiu,” disse Hank depois que o fôlego votou. A situação era particularmen­te engraçada para ele. “Vou ver o que posso fazer, mas já aviso: cada vez mais eles acham que ela é inofensiva, e não uma arma como imaginavam.”

“É inofensiva,” disse eu, “ambos sabemos disto. Ela não se ligou a ninguém novo em anos. Se a vida dela conti­nuar nesse ritmo, duvido que o faça novamente algum dia.”

“Vamos guardar segredo disto por ora,” disse Hank, “ainda há malucos lá fora, e os militares já foram muito úteis na hora de esconder sua família. Pode ser que ape­nas não tenha surgido nenhuma necessidade para as ha­bilidades dela. Eu sempre suspeitei que fosse mais uma reação de sobrevivência.”

“Acho que está ficando mais velha,” eu disse, “e seu cére­bro menos livre para sair por aí de bobeira. Foi ficando lotado de experiências.”

“Talvez,” concordou Hank, condicionalmente. Eu sabia que ele não estava me contando tudo. Nunca contava, e nem nós. Acho que os militares estavam ainda mais no escuro. “Qual o nome do cara?”

“Caleb McGuire,” respondi, “daqui da cidade. Nunca o vi antes. Algum amigo novo fora do círculo normal de ami­zades dela.”

“É um completo abuso dos recursos do governo,” riu Hank, “mas vou ver o que posso fazer.”

“Só quero saber se ele não é um psicopata assassino, ou coisa assim,” eu disse.

“Cuide para que Teegan nunca descubra,” disse Hank. “Vai ser péssimo para você se ela souber que não confia nela.”

“Bom, prefiro que ela me odeie a vê-la sair com um ban­dido,” eu disse.

“Imagine se a Rose pensasse assim?” disse Hank, segu­rando uma risada.

“Pensei que estivesse do meu lado.”

“Estou do lado de Teegan,” Hank deu risada, “depois Natalie e Zane. Você é no mínimo o quarto da lista.”

“Ok, então faça por Teegan,” falei.

“Claro,” respondeu Hank de bom humor. “A propósito, consegui um daqueles mini-drones para o Zane. Espero que a Natalie não se importe muito.”

“Caramba, dane-se ela,” falei animado. “Eu estava de olho num desses no shopping no Natal. Vai ser uma di­versão só. Sei que Zane vai inventar todo tipo de idéia para arrumar confusão.” Eu estava pensando num jeito de fazer um desses passar pela muralha da Natalie, que não queria mais ‘coisas frívolas’ em casa.

“Bom,” disse Hank, “sempre quis experimentar um. Zane é uma boa desculpa.” Hank tinha o mesmo proble­ma que eu. As mulheres são muito práticas às vezes. “Ligo se descobrir algo sobre o Caleb.”

“Obrigado,” acrescentei antes de desligar. Sabia que era arriscado contestar o julgamento de Teegan, mas eu era pai. Usamos todos os instrumentos que temos para asse­gurar o bem-estar de nossos filhos. Eu esperava, no mínimo, não ser uma aberração.

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