A Presa: Capítulo 05 – Teegan

“Você vai sozinha dirigindo até Bangor? No sábado à noite?” perguntou mamãe, com aquela voz de desapro­vação.

“Tenho 18 anos,” rebati. Não esperava que houvesse uma reação à minha decisão.

“Eu sei.” Mamãe sorriu. “Não quer dizer que você pode arriscar a sua vida e o meu coração.” Lancei-lhe um olhar severo. “Seria bem melhor se alguém fosse com você. E quem é esse tal de Caleb McGuire?”

“Um amigo, só,” disse eu, tentando não ficar irritada. Ela não confiava em mim.

“Deve gostar dele para dirigir tudo isso,” salientou ma­mãe.

“É um amigo,” insisti, “vou lá como apoio.” Saiu mais ás­pero do que eu queria. Respirei fundo: “você não confia em mim.”

“Não é questão de confiar,” disse mamãe. “É questão de experiência. Tem um monte de bêbados na estrada sába­do à noite, sem falar do álcool que provavelmente haverá por lá.”

“Você sabe que eu não bebo,” quase gritei. Parte da raiva vazou, e eu sabia que ela tinha sentido. Recebi de volta um remorso inesperado.

“Estou pensando, Teegan,” resmungou mamãe, “não disse não.” Calei minha boca e bloqueei todo mundo. Odiava quando os sentimentos ruins saíam junto com minhas palavras. Ela suspirou. “Agora ficou mais brava ainda.”

“Prometi que estaria lá,” disse eu. “Como é que agora eu vou contar que não posso ir?”

“Não disse que não podia,” disse mamãe, decidida.

“Está indo nessa direção. Dá pra perceber na sua voz.”

“Estou pensando,” disse mamãe. “E você não está aju­dando.”

“Você está é puta porque eu cortei papai,” despejei.

“Estou,” admitiu mamãe, “é minha punição por ser mãe?”

“Por ser uma mãe opressora,” falei e virei-lhe as costas. Não fazia nem idéia do porque ela pensaria em dizer não. Só pensei em contar para ela saber aonde eu ia. Será que eu teria de manter segredo sobre as futuras via­gens? Larguei-a na cozinha e fui para o meu quarto. Bati a porta para um efeito melhor. Eu não tinha acabado de levar Zane ao shopping? Minha família devia me dar mais por tudo o que me tomava.

Me joguei na cama e mandei mensagem para Samantha. É duro botar a raiva no texto. Resumir tudo em uma fra­se curta é tarefa complicada.

‘Mamãe está sendo estúpida sobre sábado >:(‘

‘Está surpresa’

‘Não confia em mim’

‘A minha também não corta o cordão’

‘Que eu falo pro Caleb’

‘Ela disse não’

‘Ela vai – eu sei’

‘Ele vai entender’

‘Vai nada – eu prometi’

‘Sinto muito’

Samantha estava errada. Caleb vai levar pro lado pesso­al: uma amiga nova o abandona logo ao primeiro pedi­do. Fiquei me perguntando se ele ia mesmo acreditar em mim. Conhecia o tom de voz da minha mãe, e calculei que ela já tinha decidido pelo não; estava só procurando um jeito de fazê-lo soar razoável. Odeio quando os pais decidem e depois arrumam algum motivo para justificar.

Botei uma música qualquer no fone de ouvido e fechei os olhos. Para Caleb não pensar mal de mim eu tinha de bolar alguma explicação. Ainda havia uma chance, por mínima que fosse, de mamãe falar sim. Ou eu podia ir mesmo com um ‘não’: eu já era grande o bastante para tomar minhas próprias decisões. Caí no sono, e continu­ei no mesmo dilema.

Uma batida na porta rompeu a música. Sentei e removi o fone quando ouvi meu nome. Era papai.

“Tá em casa,” falei estupidamente abrindo a porta. Ele só devia voltar para casa amanhã, pois seu trabalho sem­pre o obrigava a viajar para obras em diferentes lugares.

“Teegan,” falou papai sem o meu sorriso normal de sau­dação, “por que sua mãe está chorando?” Seu olhar de desaprovação feria mais do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Eu queria vê-la tão irritada quanto eu, não chorando.

“Ela… eu,” vacilei, “foi meio que uma discussão.” Dei um passo para trás e encarei o piso. Papai chegou perto e me envolveu num abraço.

“Senti saudades,” sussurrou papai. Abracei-o de volta, contente por não estarmos também discutindo. “Vá fazer as pazes com sua mãe,” acrescentou ele, me soltando.

“Mas ela não confia em mim,” falei na tentativa de soar sensata.

“Eu confio,” disse papai, “confio que vai se desculpar por usar a sua ligação como uma arma.”

“Eu bloqueei,” disse eu. “A mente é minha, e posso fazer o que eu quiser com ela.”

“É,” disse papai, “mas fazê-lo de forma rude contra a sua mãe é crueldade.”

“Você está do lado dela,” falei.

“Sempre,” disse papai, voltando-se para a porta, “mas é porque ela sempre está do seu lado.” Me senti com cinco anos de novo. Agora eu tinha ficado brava comigo e com mamãe.

Acompanhei papai saindo. Ele estava mais certo do que eu queria. Ele sempre gritava tão silenciosamente… Às vezes seria bom uma irracionalidade, para que eu pudes­se desabafar. E se eu ficasse em meu quarto até que ma­mãe viesse aqui? Talvez ela só viesse amanhã de manhã, quando a minha raiva toda já estaria acabada.

Se eu for até ela agora, confesso a derrota. Se eu não for, demonstro que sou uma criança. Papai torna qualquer discussão duas vezes mais difícil. Suspirei: a discussão tinha acabado no instante da chegada dele em casa. Abri minha mente e deixei minha família entrar.

Papai me inundou de amor, enfraquecendo ainda mais a minha resolução. Era quase como se eu pudesse sentir o seu sorriso, que não era de vitória mas de orgulho. Era tão difícil ficar brava quando compartilhávamos…

O amor de mamãe vinha logo atrás, envolto em um manto de perdão que desarmava o que sobrava da mi­nha ira. Devolvi meu amor junto com as inevitáveis des­culpas. As desculpas da minha mãe me surpreenderam.

Encontrei-os ambos na sala de estar: papai relaxado no sofá, mamãe aninhada nele.

“Desculpe,” falei com a voz enfraquecida, tentando ser sincera.

“Eu também,” disse mamãe com clareza. Seu sorriso me convenceu a sorrir.

“Afinal, o que é que tem no sábado?” perguntou papai. Contei calmamente sobre o Caleb e a promessa que fiz de ir vê-lo tocar. Baixei os olhos e expliquei porque eu pensava ser adulta o suficiente para ir sozinha até Ban­gor numa noite de sábado. Não sei porque era difícil en­carar mamãe enquanto eu expunha as minhas razões.

“Tenho medo, Sam,” disse mamãe. Ergui os olhos e vi a apreensão em seu olhar. Não pude conter o amor esca­pando de mim, nem bloquear o que vinha dela. Era medo, e não desconfiança, a causa da hesitação dela. “Ela vai estar totalmente sozinha se alguma coisa acon­tecer.”

“Concordo,” disse papai, “mulheres não devem viajar so­zinhas à noite pela cidade. Menos ainda numa casa de shows.” Meu coração parou. Ele também queria me bar­rar.

“Você viaja sozinha toda hora,” eu disse com mansidão, avançando na direção de mamãe. Eu sabia que era um argumento horrível, mas estava ficando sem idéias para debater. Raiva já estava fora de questão.

“Querida, eu nunca vou sozinha a um bar ou a um show,” sorriu ela amistosamente, “seu pai me leva.”

“Parece que você precisa de alguém para ir junto,” disse papai.

“Não sei se consigo outra entrada,” falei.

“Ligue pra ele,” continuou papai, “se não arrumar outra, talvez sua mãe e eu possamos levá-la e achar algum lu­gar por perto para jantar.” Mamãe apertou-o e sorriu. Senti seu alívio. Sei que a vergonha de ir com meus pais escapou e voltou direto para eles. Aparentemente não se incomodaram.

“Algum dia vou crescer,” acrescentei numa última tenta­tiva.

“Mas não neste fim-de-semana, Fedidinha,” falou papai, rindo. Mamãe deu-lhe um tapa no ombro pela grosseria, mas seu sorriso era muito gentil para que ele levasse o castigo a sério. Revirei os olhos e peguei meu celular. Rezei para conseguir outra entrada; talvez Samantha vá comigo.

“Os ingressos estão esgotados, mas você pode ir comi­go,” ofereceu Caleb todo animado. Fiquei em silêncio tentando elaborar uma resposta. Cada vez mais a noite se tornava um encontro, e não sei se Caleb entendia que não era. Ele parecia muito entusiasmado. “Você vai che­gar lá algumas horas antes e vai ter que agüentar o en­saio, mas acho que vai gostar,” acrescentou ele quando não respondi.

“Caleb falou que posso ir com ele,” contei aos meus pais, na esperança de que soubessem o que responder. Caleb escutou e esperou pacientemente.

“Quero conhecê-lo,” disse mamãe, precavendo-se. “Diga para ele vir almoçar antes de vocês saírem.” Deu um branco em mim. Não esperava essa resposta, mas pro­messa é promessa.

“Ouviu isso?” perguntei ao telefone. Eu devia ter ligado do meu quarto para ter mais privacidade e liberdade.

“Hm… ouvi,” respondeu Caleb. Fiquei tão aliviada de ou­vir sua resposta desajeitada. Talvez ele também não queira que se pareça com um encontro.

“E?”

“Hm… claro,” Caleb concordou, hesitante. “Só que temos que sair às duas, mais ou menos.” Repeti a resposta, e minha mãe fez o impensável.

“Jóia,” disse ela, “diga para ele vir ao meio-dia; almoça­remos tranqüilamente.” Fiquei sem fôlego imagi­nando um almoço de duas horas com Caleb e meus pais. Eu era muito velha para esse tipo de supervisão. Aquilo que era para ser uma noite de apoio a um amigo tinha virado um pequeno pesadelo. Vamos ficar encarando uns aos outros em silêncio por duas longas horas.

“Hm… meio-dia?” perguntei, torcendo para ele reconsi­derar.

“Ok,” respondeu Caleb depois de uma breve pausa. Ele devia estar suando tanto quanto eu. Saber que ambos fi­caríamos consternados era um pequeno consolo. A espe­rança era o concerto: tomara que fosse tão bom que compensasse o esforço.

“Certo,” concordei, “vejo você no sábado, Caleb.”

“Até sábado, Teegan,” disse Caleb, a voz aparentando um certo temor. Desliguei e o sorriso do meu pai ficou maior, beirando a vitória.

“Feliz?” perguntei.

“Sim,” respondeu ele, “gosto de conhecer os homens que saem com a minha filha.”

“Não é um encontro!” Eu falei muito mais alto do que deveria. Mamãe sorriu da minha reação. “Agggh,” acres­centei virando as costas e largando-os com as risa­das que deram às minhas custas. Devia bloquear os dois, mas papai estava me inundando de amor e segurança. Acho que eu não queria viver sem este maldito remédio.

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