O Casamento: Capítulo 03

Não poderia haver um dia mais bonito para selar o destino de alguém. O tempo estava tolerável, mesmo com o inverno tão próximo. O céu estava azul, com grandes nuvens brancas movendo-se muito lentamente através do firmamento. Uma guarda cerimonial estava montada na muralha externa, vinte homens vestidos com cotas de malha e túnicas vermelhas adornadas com o brasão de um grande leão de ouro. O mesmo leão era agitado pelo vento nos estandartes presos no topo das seis agulhas, e mais dois no topo do portal da entrada. Eu usava uma túnica similar, mas com um leão menor e sobre o lado esquerdo do peito. A minha túnica era presa por um cinto feito de anéis de ouro, minha insígnia oficial como herdeiro do trono. Estava de pé, um passo à direita e um passo atrás do meu pai. Ao lado dele, a minha mãe se mostrava majestosa em um vestido longo e branco, amarrado com uma faixa vermelha justa. Acima do seu seio esquerdo se fixava um grande broche representando o mesmo leão espalhado por todo o castelo. Apenas o meu pai não tinha um leão. Ele era o Leão.

O Urso, montado num grande garanhão negro, cavalgou através do portal de entrada liderando um destacamento de dez cavaleiros, um dos quais segurava no alto o estandarte do Urso – um urso negro em um campo verde balançando ao vento. Minha mãe deu um passo à frente diante do grande cavalo.

“Bem-vindo a Southerson,” anunciou ela em voz alta, “é com prazer que nós oferecemos o conforto do nosso lar. Entre e fique à vontade.” Era uma saudação formal, geralmente pronunciada em voz baixa, e com um sorriso, aos visitantes. Neste caso foi exclamada aos quatro ventos para que todos soubessem o que estava acontecendo: as duas casas unidas por um grilhão preso ao meu coração. O Urso desmontou com uma agilidade que desafiava o seu porte e a sua idade. Com um largo sorriso, ajoelhou-se diante da minha mãe.

“Nós aceitamos com muito prazer.” A voz do Urso propagou-se até fazer eco. A minha mãe pareceu um pouco deslocada: um rei a seus pés era algo inesperado. O meu pai riu do gesto; deu um passo à frente e se ajoelhou.

“Ou nos ajoelhamos juntos, ou não nos ajoelhamos,” retumbou a voz do meu pai. Os braços dos dois reis se agarraram, as mãos sobre os punhos, e um viva subiu da guarda de honra até ecoar no destacamento do Urso. Era o início da aliança, Southerson e Douderson juntos, uma força de dois reinos que ninguém mais afrontaria. Senti uma onda de orgulho ocupando o espaço da dor no meu coração. Isso tinha que ser feito, pelo bem de todos. Tinha que ser gravado em matrimônio, algo que não pudesse ser desfeito. Os dois reis ficaram em pé ao mesmo tempo, e os estribeiros correram adiante para cuidar dos cavalos.

“Rei Toric Douderson, permita-me apresentar a minha rainha, Mary Dewayne Southerson.” Meu pai apresentou a minha mãe com um floreio.

“Encantado, minha Senhora. Sempre me ajoelharei à sua beleza,” declarou abertamente o Urso, provocando um rubor de contentamento nas faces da minha mãe. Ele tomou a mão da minha mãe e beijou delicadamente os nós dos dedos.

“Eu fico lisonjeada, meu Senhor,” comentou a minha mãe. O restante do destacamento do Urso tinha desmontado, alguns acompanhando os estribeiros para averiguarem os cavalos. Eu, embora fosse o elemento chave por trás dos eventos, assistia neglicenciado. Um dia as cortesias ficariam sob a minha responsabilidade, de modo que eu decidi aprender o que tinha de fazer.

“Meu caro Rei Kalin Southerson, permita-me apresentar a minha rainha, Tareen Wanours Douderson.” O Urso deu um passo para o lado e deixou que a esposa caminhasse para frente. Seus longos cabelos ruivos brilhavam imensamente ao sol, mais realçados ainda pelo seu traje verde de montaria. Mesmo a idade se mostrando em seu rosto, havia nos gestos apenas graça e jovialidade.

“Minha Senhora,” bajulou o meu pai, “eu não esperava uma beleza assim presa ao braço de um urso.” Ele fez uma pequena mesura ao beijar os nós dos seus dedos. A rainha Tareen não corou, mas o seu sorriso era genuíno. O Urso riu e ela trocou beijos no rosto com a minha mãe antes de me apresentarem.

“Apresento-lhes o meu herdeiro.” Meu pai deu um passo para o lado. “Príncipe Cayden Southerson, oitavo na linha sucessória.” Prontamente eu dei um passo à frente.

“Vossas majestades,” disse eu, firme, fazendo a reverência profunda que lhes era devida. Quando me endireitei, o rei Toric tinha um sorriso largo e a mão estendida. Agarrei o seu punho, surpreso pela saudação oferecida de igual para igual, e ele agarrou o meu.

“Encantado, príncipe.” O rei apertou forte o meu braço e eu retribuí a firmeza, abrindo um sorriso no rosto. Era como um encontro de amigos: eu não sofreria com sogros sem graça, pelo menos. Ele riu ao notar o meu esforço para retribuir o que eu recebia; a luta me deixou sorrindo de uma orelha à outra. Ele soltou o meu braço com um floreio. “O rapaz é forte e teimoso, Southerson,” declarou o rei para o meu pai, “gosto dele.” Meu pai, todo orgulhoso, bateu no meu ombro.

A rainha Tareen se aproximou de mim com olhos enevoados. Suspeitei que ela já vinha esperando este dia há muito tempo. Segurou as minhas mãos e beijou o meu rosto. “Encantada, príncipe. Você honra a nossa família.” Assenti e retribuí o seu sorriso.

“Permitam-me apresentar a minha filha,” disse exultante o rei Toric. Eu me aprumei um pouco, com receio do que estava vindo. Eu sabia muito pouco sobre ela, e tinha preferido não saber mais. Tinha deduzido ser caseira e sem graça; deveria ter se casado há tempos. Depois de vinte e seis invernos, este casamento deve ser o seu maior desejo. Repeti para mim mesmo: “o dever.” Sua figura apareceu por detrás do palafrém cinzento no qual ela provavelmente veio montada. “Princesa Angelica Douderson.” O orgulho real era evidente no tom de voz.

Feia ela não era. Movia-se com a mesma graça materna, e veio como que planando na minha direção. Os cachos dos seus cabelos ruivos tinham sido agitados furiosamente pela cavalgada. O rosto era alegre e os olhos verde-escuros. Foi onde eu vi. Nesses olhos verdes, muito bem encoberto por um sorriso falso: eu não era o seu maior desejo. Suspeito que ela tenha visto o mesmo em mim. Angelica pode ser agradável aos olhos, mas nunca seria agradável ao meu coração.

“Me sinto honrado, minha Senhora,” declarei formalmente com uma profunda reverência.

“E eu do mesmo modo, meu Senhor.” Angelica retribuiu com austeridade, estendendo a mão. Tomei-a e beijei delicadamente os nós dos seus dedos, devolvendo-lhe um sorriso majestoso, correspondente ao dela. Enquanto eu me esgueirava para trás, meus pais a incensaram, ambos impressionados pela sua beleza. Prenunciava netos bonitos. Olhei para trás, para a torre principal, sabendo que de algum lugar Alia estava observando de coração despedaçado. Teria sido melhor se Angelica fosse sem graça. Isto que os meus pais tinham forjado para mim era uma gaiola dourada.

Como esperado, eu tomei Angelica pela mão e guiei-a até a torre, acompanhando os nossos pais. No interior nós nos separamos, os Doudersons para o seu conjunto de quartos a fim de se limparem da viagem. Meus pais e eu seguimos até a sala de reuniões para aguardar a volta da minha noiva.

“Ela é adorável, Cayden,” disse a minha mãe, sorrindo. Notei o alívio em seu olhar. Ela vinha pensando o mesmo que eu, e estava na expectativa de alguma toupeira. Alia teria ficado mais adorável no traje verde de montaria que Angelica estava vestindo. A idéia me fez sorrir. Minha mãe interpretou como um ‘sim’ e me apertou num abraço. Deixei que ela acreditasse do que quisesse.

“Há modos piores de passar a vida, filho,” declarou meu pai com uma cutucadinha masculina. Mamãe lhe lançou um olhar de reprovação. Papai só deu risada. Quando mamãe não estava olhando, fiz que sim com a cabeça; era o que ele esperava. Podia ser ter sido pior, ele tinha razão nisto. Também podia ter sido melhor. Deixei os meus pais pensarem que eu estava contente. Para mim não existia outra opção disponível. Ao menos eu podia permitir que acreditassem na minha satisfação.

“Eu confiei o segredo à minha irmã,” afirmou minha mãe em voz baixa. Meu pai chegou mais perto. Pelo tom de voz, o mesmo que ela usava quando eu ficava doente na infância, ela não acreditou no meu sorriso. “Ela vai receber Alia na casa dela; será muito bem tratada lá.” Meus olhos se umedeceram e eu baixei a cabeça. O ombro da minha mãe estava ali e ela me puxou para junto de si. Ela já sabia.

“Nada vai faltar a ela,” meu pai repetiu a ordem anterior. Ergui a cabeça e sequei rapidamente os olhos. Sacudi a nuvem de mágoa e empurrei para as profundezas. O reino exigia um rei. O sacrifício era necessário.

“Agradeço,” disse eu com clareza, olhando diretamente para eles. “Saber que ela está bem vai me deixar alegre.”

Meu pai assentiu e colocou a mão no meu ombro: “um rei não poderia fazer menos do que isto.” Falou com orgulho. Creio que estava feliz por Alia não ser um tipo de brinquedinho. Era um lado dele que eu não conhecia bem. Ele sempre pareceu muito insensível antes. Eu tinha deixado de ver o homem no rei.

“A casa toda está ciente?” perguntei. Forcei a voz para emular a do meu futuro reinado. Estava na hora.

“Apenas os que conhecem o seu coração,” respondeu mamãe, “não os de olhar sobranceiro.”

“Já é hora de ser um príncipe.” Encarava o meu pai ao falar. Havia orgulho em seu olhar. Ia ter de bastar. “Eu tenho uma noiva, e o reino, uma aliança. Os nossos antepassados merecem nada menos que isto.” Me senti mais nobre. Meus pais estavam me dando um jeito honroso de lidar com o impossível. Ia ter de bastar. Não havia outra opção.

“Fazemos escolhas difíceis,” falou meu pai, me tratando de igual para igual, “para o bem da família e do lar. São as suas escolhas que farão de você um rei. Eu vejo que existe sabedoria em você, e rogo para que você também a veja.” Estendi a mão e apertamos os punhos.

“Eu possuo apenas a sabedoria que já notei em você,” declarei, “e rogo para que falte ainda muito tempo até que eu precise usá-la.” Enquanto estávamos ali um diante do outro, eu vi os olhos marejados da minha mãe. Pai e filho, ligados como um só. Eles conheciam a minha dor e tentavam ficar com um pouco dela. Eu não podia querer mais do que isto. Minha mãe colocou a mão sobre as nossas.

“Vamos acolher Angelica em nosso lar,” disse ela de modo sereno, “ela será amada da melhor maneira possível. Eu rogo para que, em breve, um herdeiro com sangue Cayden nos una a todos.” A família em primeiro lugar. Mentalmente eu envelheci vinte invernos com a idéia de um filho, de mim como pai. Não havia escolha aqui; apenas o dever e o amor dos meus pais, que eu não sentia tão poderoso assim desde que eu era um bebê.

“Amo vocês dois,” declarei convicto. Vou amar Alia para sempre, só que vai ser à distância. Ela vai reconhecer esse amor pelos cuidados da minha tia. Era o melhor dentre alternativas desesperadas. Era a alternativa que um rei deve escolher. Ainda bem que a minha família era forte. O casamento com Angelica a fortalecerá ainda mais.

Depois de se restabelecerem da viagem, os Doudersons se juntaram a nós. Mais tarde os seus serviçais se juntariam a nós para o banquete. Por ora, eram apenas Angelica e seus pais. O assunto das bodas iminentes estava no primeiro plano. Nem Angelica nem eu estávamos interessados nos detalhes. Minha mãe e a rainha Tareen guiavam a conversa. Os dois reis, relaxados, decidiam com delicadeza algumas poucas discordâncias menores. Era tempo de me separar e conhecer realmente aquela com quem eu deveria passar o resto da vida.

“Permite que lhe mostre os jardins, minha Senhora?” perguntei polidamente a Angelica. O olhar da minha mãe se iluminou. Ela tinha a esperança de que eu tomasse a iniciativa.

“Eu apreciaria, meu Senhor,” respondeu Angelica solenemente. Me levantei e ofereci a mão. Ela a tomou, levantando-se da cadeira. Mantive a mão diante de mim, como se estivesse numa avaliação formal. Ela estava acostumada ao gesto, sua mão sobre a minha enquanto andávamos com toda a formalidade até a porta. Assim que saímos do campo de visão, no corredor, ela soltou a minha mão; seu corpo relaxou visivelmente, e ela cruzou as mãos atrás das costas. Me endireitei diante da súbita independência.

“Esta obrigação causa tanto desconforto em você quanto em mim,” disse Angelica em voz baixa. Eu assenti mirando o chão do corredor. Não era uma conversa para a torre.

“O jardim é por aqui.” Indiquei para o leste com um aceno da mão. “Podemos conversar abertamente longe dos ouvidos dos outros.” Vi o seu rosto corar; ela entendeu o risco da sua declaração. Descobri que gostava dela com o equilíbrio abalado. Era errado, mas me agradava. Ela apressou o passou, e eu também.

O jardim era a alegria da minha mãe. As pequenas árvores, as flores, e até o caminho para a fonte, eram invenção sua. Nenhuma pedra tinha sido posta ali sem que ela determinasse a posição. O outono estava chegando ao fim, mas ainda havia brotos bem cuidados, e a cor predominante ainda era o verde. Notei que Angelica ficou impressionada.

“É realmente muito lindo,” disse Angelica. Era a primeira emoção sincera que eu ouvia dela. O sorriso era verdadeiro, e os olhos verdes pareciam felizes, mesmo que só por um instante.

“É o orgulho de mamãe,” falei acrescentando a minha própria satisfação, “se você deseja que as suas orelhas caiam, pergunte-lhe sobre o jardim.” Apontei para o banco sob uma macieira, agora carente de frutos. A folhagem ocultava mais ou menos o banco da vista dos outros, e as vozes não se propagavam para longe. Angelica se sentou, e eu fiz o mesmo. Era óbvio que ambos tínhamos escolhido pontas opostas, mantendo a distância máxima entre nós.

“Sobre as suas palavras anteriores,” respondi em voz baixa, agora que estávamos sozinhos, “eu gostaria que o dever não exigisse tanto.”

“Não pode impedir isto?”

“Não,” disse eu na defensiva, “a minha família precisa da sua. O meu reino precisa do seu. Não cabe a mim negar.”

“Então está feito.” A cabeça de Angelica caiu para frente e ela entrelaçou os dedos no seu colo. A declaração seguinte foi tão silenciosa quanto surpreendente. “Eu serei a meretriz da minha família, e você se deitará comigo pelos herdeiros.” Ela levantou o rosto com um olhar reluzente. “Meu ventre será seu, meu Senhor.” Fiquei de pé com a intenção de fazer alguma coisa drástica, mas nem com enorme esforço eu consegui pensar o que seria. Bufei e tentei falar, mas nada inteligente veio à minha boca. As minhas mãos não tinham idéia do que fazer consigo mesmas, indecisas entre a cintura e os gestos que nunca eram acompanhados por pensamentos. Eu não esperava por isso. Sentei-me novamente, enfim, derrotado e incapaz de combater ou defender o que estava acontecendo.

“Sim, está feito.” Resignei-me à verdade. “O seu tormento me magoa, e eu sinto muito por ser a causa. Se houvesse um caminho honroso de sair disto, eu o teria tomado há tempos e nos poupado a ambos.” Examinei as lágrimas de Angelica. Ela deve me achar asqueroso. Eu nunca examinei pelo lado dela. Ela é que teve de abandonar o lar, ela é que deve abrir as pernas e dar à luz filhos indesejados. “Saiba o seguinte: eu prefiro morrer velho e sem filhos a violentar você. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para tornar a sua vida tolerável, minha Senhora.” Com as minhas palavras, o seu olhar serenou.

“Não quis dizer…,” Angelica balançou lentamente a cabeça, “eu não… você não é desagradável. Deus! Isto é insuportável.” Olhou para o alto, para o céu que escurecia. “Cumprirei o meu dever e me empenharei para não tornar as coisas duras para você. Saiba o seguinte: você só ficará sem filhos se esta for a vontade de Deus.” Foi uma surpresa quando ela chegou mais perto e tomou as minhas mãos nas suas. “É estranho: o seu desconforto me conforta. Eu não sou gado para você, e isto deve significar algo.”

“Não,” eu sorri, “eu desafiarei qualquer um que compare você com uma vaca.” O riso de Angelica foi tímido, mas não forçado.

“Vamos ter segredos?” perguntou Angelica, olho no olho, “podemos ser parceiros, ou devo ser somente um quadro na parede?”

“Estou longe de ser perfeito. Suspeito que nos daríamos melhor juntos,” respondi sinceramente. Angelica tentava discernir o seu lugar. Sua mente era veloz e organizada.

“Iguais?” Angelica estava contando comigo. Percebi o seu desejo de não ser uma figura decorativa. Eu não tinha pensado nas fronteiras da união. Um dia eu seria o rei, e ela, a rainha. Uma mulher que eu só tinha conhecido há poucos instantes. Ela pedia muito de uma primeira conversa. Pensei no casamento dos meus pais: todas as suas decisões tinham tanto de rainha quanto de rei. Um pouco da mesma faísca transparecia nos pais de Angelica. Se os pais de cada lado nos julgaram um par perfeito, então um par perfeito nós seremos. Fiquei de pé e soltei as mãos dela.

“Princesa Angelica Douderson,” fiz uma reverência profunda, “eu ofereço a metade de tudo que é meu, em troca da metade de tudo que é seu. Eu prometo que seremos iguais em todas as coisas.” Ela ficou de pé e fez uma profunda mesura.

“Eu aceito, meu Príncipe.” O sorriso de Angelica era autêntico, e ficou muito bem nela. “Agora eu vejo que seremos ao menos amigos.”

Voltamos à biblioteca após o nosso acordo. Antes de passarmos pela porta, Angelica estendeu a mão e sorriu. “As aparências importam, mesmo diante dos nossos pais.” Tomei a sua mão e coloquei um sorriso sincero nos lábios. Ela daria uma boa rainha.

“Como quiser, minha Princesa.” Entramos na biblioteca e o diálogo entre os monarcas cessou. Estávamos de mãos dadas, sorrindo alegremente. Seus rostos se iluminaram por nos verem juntos e aparentemente felizes. Fiquei satisfeito com isto, e acho que Angelica também ficou.

“Mãe, você não pode deixar de ver o jardim da Sua Majestade,” anunciou Angelica. A diplomacia não era novidade para ela. Com uma frase curta, ela ganhou o coração da minha mãe. “Eu queria aprender o segredo do florescimento fora de época.”

“Tem botões agora?” perguntou a rainha Tareen, aproveitando a deixa da filha. “Você nos mostra, Mary?” O ponto fraco da minha mãe era o jardim. Ela ficou de pé e acenou na direção da porta.

“Mas é claro, Tareen. Acho que ainda teremos luz bastante por mais algum tempo.” As rainhas olharam ansiosas para Angelica.

“Me concede um instante, meu Príncipe?” Angelica não estava pedindo a minha permissão, estava desempenhando o seu papel. Levei a sua mão aos meus lábios e beijei de leve os nós dos dedos.

“É claro, minha Princesa,” respondi, fazendo o meu papel. Nos daríamos bem juntos, ao menos em público. Trocamos sorrisos que aparentemente impressionaram os nossos pais mais uma vez. As senhoras saíram para visitar o jardim, minha mãe flutuando ao lado de Angelica. Daí caiu a ficha: o jardim, um dia, seria de Angelica. A ligação da minha mãe com ela seria pelas flores.

“A conversa parece ter sido boa,” cutucou o rei Toric.

“Sim, muito boa,” disse eu. Não revelei mais nada, o que provocou um sorriso do meu pai. Notei a apreensão no rosto do rei Toric.

“Qual é o segredo, rapaz?” O rei não estava acostumado a ficar no escuro. “Eu não tinha dúvida de que você a conquistaria, mas não chegamos nem na janta ainda…”

“Eu disse a ela que seríamos iguais,” falei orgulhoso. Os reis trocaram um rápido olhar e explodiram em gargalhadas. Fiquei perdido olhando alternadamente para os dois.

“Depois você me conta se funcionou, filho,” declarou meu pai entre uma risada e outra.

“Vocês queriam que eu a dominasse?” perguntei, incrédulo.

“Não, é claro que não,” replicou o rei Toric, “e eu lhe agradeço por dar espaço para a opinião de Angelica. É só que…” Ele olhou para o meu pai em busca de palavras.

“Numa mulher, a idéia de ‘igual’ é diferente da nossa,” acrescentou meu pai.

“Disse bem, Kalin,” declarou o rei Toric, “é o seu raciocínio, Cayden, que nos diverte. Vocês dois nem sempre estarão de acordo, e uma mulher sabe como conduzi-lo por caminhos não tão ‘iguais’ assim.” Ele trocou um outro olhar com o meu pai. Meu pai ficou de pé e colocou a mão no meu ombro mais uma vez. Hoje alguma coisa tinha mudado em nosso relacionamento. Ele me tratava mais como se a minha opinião fizesse diferença para ele. Ainda era meu rei e meu pai, mas eu percebi que ele também achava importante expressar alguma camaradagem; alguma inclinação para a amizade. Ele demonstrava respeito.

“Logo, logo você vai descobrir,” disse meu pai com um sorriso, “você tinha razão ao partilhar o futuro trono. É isto que coloca garras nesta aliança. Nós brincamos de propósito com as suas expectativas – é só.”

“Tenho muito o que aprender,” falei. A minha experiência era Alia e, por mais que eu tentasse valorizar a sua opinião, ela sempre voltava a me lembrar que eu era Senhor. O pensamento alvoroçou novamente o meu amor. Angelica, mesmo com a sua astúcia afiada, não será uma substituta à altura. Eu esperava que a dor não permanecesse tão forte no futuro, a ponto de enfraquecer o meu casamento. Não sei porque, mas eu achava que poderia, se eu permitisse.

“É, eu ainda aprendo até hoje,” disse o rei Toric, tomando um decanter e enchendo três taças de vinho. A óbvia ausência de servos, e toda aquela conversa informal, me fizeram perceber que eu começava a fazer parte do clube. Promovido de garoto a homem, e depois amigo, tudo no mesmo dia. Fazia sentido: eu teria de perpetuar a aliança, e conexões eram importantes para este fim. Me perguntei se algo semelhante acontecia no jardim. Os reis ficaram de pé simultaneamente, cada um tomando uma taça de vinho. Segui o exemplo e tomei a minha.

“Às mulheres que temperam o nosso governo,” brindou o rei Toric, erguendo a taça.

“À aliança entre Urso e Leão,” acrescentou o meu pai.

“Para sempre,” disse eu, convicto. O caminho estava traçado, eu fazia questão de levar a cabo. Fazia questão de ver os meus filhos continuarem. O rei Toric ergueu as sobrancelhas e olhou para o meu pai.

“Para sempre,” disseram os dois reis simultaneamente. Nossas taças se tocaram no centro com um tinido audível. Bebi como um rei entre reis. Era uma transição estranha, mas acolhedora. O rei Toric, num gesto tipicamente masculino, me deu uma forte palmada nas costas. Fiz o que pude para não demonstrar surpresa, e ignorei a fisgada.

“Cayden, eu acredito mesmo que você é uma das minhas melhores decisões,” declarou o rei Toric. O rosto do meu pai se encheu de orgulho. Eu apenas desfrutei do elogio. Sempre soube que seria rei, mas pela primeira vez eu sentia de verdade o que significava isto. Agora eu fazia parte do círculo. Minhas idéias e decisões tinham significado.

Nos sentamos como iguais para discutir a aliança. O Lobo, o rei Sacor Uberson, tinha posto os dois reinos à prova, e podia despachar imensas tropas. Não era mais velho do que eu, e era cheio de ambições que o antigo senhor nunca tinha tido. A aliança era planejada para erguer pacificamente uma muralha e mantê-lo afastado. Eu não sabia que esta preocupação existia. Meu pai deu muitas explicações esta noite, coisas que eu precisaria conhecer. O rei Toric complementou as explicações, e eu comecei a ver a real importância da união. Sempre soube que era necessária; eu só não tinha noção da fragilidade de ambos os reinos caso ela não fosse feita.

Juntos, podíamos despachar 300 na cavalaria pesada, 1500 na infantaria e 200 arqueiros. Uma força capaz de rivalizar com a do Lobo ou com a de qualquer outro reino que buscasse se expandir através do combate. Discutimos a cadeia de comando para o caso de ser necessária, as estratégias de contingência, e os planos alternativos em caso de problemas. Intercalei as minhas opiniões, e fiquei surpreso por serem consideradas. A responsabilidade era assustadora, e a aliança apenas tornou-a mais fácil de carregar. Não havia dúvida de que o meu amor precisava ser sacrificado.

Quando nos informaram do banquete pronto, já estava bastante escuro. A minha cabeça estava esgotada pela discussão, mas ela era necessária. Esta e outras.

Meu pai nos encarou e sorriu. “Conversas de Estado me deixam faminto. Que é que vocês acham de nos fartarmos e retornarmos com isto aqui pela manhã?” Concordamos todos mais do que depressa. Ao sairmos em direção ao salão principal, éramos como amigos indo à taverna.

“A minha filha adora cavalgar, Cayden,” informou-me o rei Toric enquanto caminhávamos. “Leve-a para um passeio, se quiser conhecê-la melhor, mas devo avisá-lo: ela pode tentar lhe ensinar uma ou duas coisinhas.” Era um aviso simpático. Eu era bom no cavalo, e apreciaria um pouquinho de competição.

“Obrigado, meu Senhor. Vou convidá-la imediatamente. Teremos ao menos isto em comum.” O meu futuro sogro colocou a mão em meu ombro ao entrarmos no salão. Não passou despercebido aos vários serviçais reunidos para o banquete. Havia duas mesas compridas ao longo de cada lado da sala, quase tocando as duas colunas de pedra que sustentavam o impressionante teto no lugar. O lado esquerdo ocupado pelos homens e mulheres do Urso; o lado direito, pelo meu pessoal. A divisão me pareceu esquisita, considerando a aliança recém-constituída. Todos se levantaram quando os reis entraram.

As senhoras nos aguardavam perto da porta. O meu pai beijou a mão da minha mãe e conduziu-a até a mesa principal, menor, que ficava do outro lado da sala, perpendicular às mesas compridas. O rei Toric fez o mesmo com a sua rainha. Cumprido o protocolo, fiz menção de beijar a mão de Angelica. Ela, teimosamente, manteve-a baixada. Olhei para um par de olhos divertidos e vi que ela voltava ligeiramente o rosto para mim. Eu sorri, me inclinei para frente e beijei o seu rosto. Um agradável e bem-disposto viva se elevou das mesas compridas. Angelica cuidaria das apresentações; daquele momento em diante eu soube. Ficaríamos bem juntos.

“Por que é que o nosso pessoal está separado?” sussurrou Angelica assim que os meus lábios se apartaram do seu rosto. Ela viu o que eu vi, e achou desconcertante. Dei-lhe uma piscadela e me voltei para todo o pessoal reunido. Era hora de ser mais do que eu era.

“Minha noiva expressou uma certa preocupação com a divisão das mesas,” eu disse em voz alta, com o tom de comando que eu tinha sempre escutado dos lábios do meu pai. Os reis e as suas esposas se viraram, a confusão evidente nos rostos. “Eu…” interrompi, pensativo, e me voltei para Angelica, cujo sorriso irradiava por todo o salão. Recomecei: “NÓS gostaríamos que uma pessoa sim, outra não, trocasse de mesa para melhor exprimir a união que estamos formando.” Todo mundo tentou se mexer ao mesmo tempo, e foi uma risada geral. Após alguns instantes, as mesas se reacomodaram numa mistura bem uniforme de Leão e Urso. Próximos à mesa principal, os pais de cada lado estavam radiantes com um misto de surpresa e orgulho. Tomei a mão da minha noiva e caminhei vagarosamente na direção da mesa principal.

“Bom trabalho, meu Senhor,” disse Angelica em voz baixa.

“Iguais, sempre,” respondi em meio aos aplausos de aprovação. Éramos bons juntos.

“Bom trabalho. Devia ter pensado nisto eu mesma,” disse minha mãe ao chegarmos à mesa principal. Era dirigido a Angelica, não a mim. O meu pai sorria maliciosamente para mim, conhecendo a diferença entre ‘igual’ e o sentido disto para uma mulher. Gostei daquele sorriso secreto, e não liguei para o fato de Angelica receber todo o crédito. Ficava bom para nós dois.

O banquete foi um acontecimento luxuoso. Vários pratos foram servidos, e o vinho correu à vontade. Com certeza muitas amizades entre Urso e Leão se formaram nessa noite. Era bom sinal, caso algum dia precisássemos uns dos outros para assuntos menos civilizados. Fui pego de surpresa ao servirem as batatas cozidas. Os empregados estavam sobrecarregados, e Alia tinha abandonado as suas tarefas normais para ajudar nas mesas. A dor que ela deve ter sentido ao me ver com uma noiva que não era ela… Tentei desesperadamente não olhar, mas a minha vista parecia sempre encontrá-la. Em determinado momento, eu fechei os olhos e respirei fundo, na esperança de que, quando os reabrisse, ela tivesse sumido.

“Não se sente bem, meu Senhor?” perguntou Angelica. Abri subitamente os olhos e me voltei para a voz. Ela tinha um sorriso largo e perspicaz, o olhar focado em Alia. Roguei para que fosse uma coincidência.

“Um tiquinho a mais de tinto do que tino,” menti. Pela minha mente passou um ‘sem segredos.’ Eu não tinha concordado realmente com isso, mas deixei implícito que sim. Mudei de assunto. “Imaginei que poderíamos cavalgar pela manhã, minha Senhora.”

Angelica virou-se para mim e disse: “Seria muito agradável. Tenho desejo de ver a terra na qual passarei o resto da vida.”

“Informarei ao estábulo, então,” disse eu, animado, “você cavalga bem?” Obviamente, eu já tinha deduzido a resposta a partir do pai dela. Senti a necessidade de distraí-la de Alia.

“Sou confiante no cavalo. Mais do que a maioria dos homens,” provocou Angelica.

“Uma disputa, então. Vai nos despertar,” desafiei. Angelica sorriu, e eu me peguei torcendo para que Alia não tivesse visto. Já era ruim mandá-la para longe. Decerto que eu não queria que ela pensasse que eu gostava. Fiz um esforço para evitar olhar para as mesas compridas. Tentei manter a conversa mais formal, na esperança de não alertar Angelica para o meu passado por meio de espiadinhas furtivas. Era duro perder o amor e ser príncipe ao mesmo tempo.

Angelica e eu estávamos no meio de um diálogo a respeito do irmão, o futuro Urso, quando aconteceu o inevitável. Estavam servindo pudim de pão para encerrar o banquete. Eu escutava as razões pelas quais Uri Douderson não tinha participado desta primeira reunião, quando um braço que eu reconheci bem demais colocou um prato na minha frente. A mão de Alia tremia, e o prato fez um pouco de ruído ao ser depositado. Eu tentei desesperadamente não me virar e, na ansiedade, acabei me atrapalhando com o vinho e derrubando uma parte no meu colo.

“Tem uma toalha?” pediu Angelica, divertida. Eu não ousei me virar, e mantive os olhos no vinho derramado.

“É pra já, minha Senhora.” A voz suave de Alia me inundou, e escutei-a saindo para ir buscar uma toalha.

“O vinho está lhe causando um monte de problemas hoje.” Angelica estava provocando, mas percebi algo a mais no tom de voz.

“Talvez eu devesse encurtar a noite,” sugeri.

“Ui! Vai ter música,” declarou Angelica com olhar brincalhão, “e teremos de dançar ao menos uma vez. Será que conseguirá ficar de pé?” Ela se divertia com a minha desculpa anterior.

“Eu conseguirei,” declarei num tom menos que amistoso.

“Eu sei que sim. Sinto muito por caçoar do vinho derramado,” propôs Angelica. O tom de voz tinha mudado para refletir o meu. Eu não tinha intenção de insultar.

“Peço desculpas, minha Senhora,” expressei com sinceridade, “há muita coisa na minha cabeça. Falei sem pensar.” O sorriso de Angelica retornou, mas não era para mim.

“Obrigada. Qual é o seu nome, minha querida?” Angelica esticou o braço para pegar a toalha. Travei com a idéia de Alia atrás de mim.

“Alia, minha Senhora,” respondeu Alia, tão tensa quanto eu. Senti um sopro na nuca, e me perguntei se seria a sua respiração.

“Obrigada, Alia,” repetiu Angelica. Então ela se voltou para mim, fazendo um gesto para que eu ficasse de pé. Começou a esfregar a borda da mesa, onde se concentrava o derramamento.

“Eu deveria fazer isto, minha Senhora,” gaguejou Alia, hesitante. Me senti horrível ao escutar o esforço que ela fazia para emitir as palavras. Queria virar e envolvê-la em meus braços. Em vez disto, fiquei ali em silêncio, de costas para ela.

“Alia, avise os músicos que estamos prontos, por favor.” Minha mãe me salvou. Ergui os olhos e vi a preocupação nos olhos dela.

“Imediatamente, vossa Majestade.” Alia já tinha se afastado alguns passos quando pronunciou as palavras. Pude escutar o seu alívio diante do auxílio da minha mãe. Delicadamente, tomei a toalha de Angelica e completei a limpeza na minha calça. Angelica manteve um sorriso malicioso no rosto enquanto observava Alia se mover rapidamente para a frente do salão. Eu temia que tivesse revelado demais. Não sabia se o sorriso era de humor ou de crueldade.

“É uma bela mulher,” disse Angelica em voz baixa enquanto eu retornava ao meu assento, agora seco.

“Quem?” fingi ignorância, fazendo de conta que limpava algum vinho que tinha sobrado na borda da mesa. Angelica não respondeu, então ergui os olhos e encontrei os dela me estudando. A música começou, e eu considerei a distração muito bem-vinda. Fingi esquecer a continuação do diálogo anterior. “Podemos dançar, minha Princesa?”

“Sim,” respondeu Angelica, e nos levantamos de mãos dadas. Seu sorriso era cortês e postiço. Eu estava aliviado com o fim da conversa.

Todos os olhares estavam sobre nós quando fizemos a reverência aos reis e às rainhas. Os músicos tocavam uma agradável balada. Dançamos uma basse simples, e Angelica repetiu os meus movimentos com destreza. A sua graciosidade era bem treinada, a minha era mais rígida e mais digna de um cavalheiro – assim eu esperava. Seu rosto estava fulgurante de felicidade. Era a dança, e não os olhares sobre si, que ela parecia apreciar. Eu consegui mover para o fundo da minha mente a situação com Alia, e me alimentar do deleite de Angelica. Para ela era um divertimento, e tive de admitir que me fazia bem vê-la feliz. A canção terminou com ambos encarando um ao outro. Fiz uma reverência, com um sorriso largo e tolo, em resposta à sua graciosa mesura. Quase não notei os aplausos.

“Carola!” gritou a rainha Tareen. O rosto de Angelica se iluminou de novo. A convocação foi ecoada por muitos. Eu me encolhi e comecei a abandonar a pista.

“Por favor, meu Príncipe. Seria tão divertido,” implorou Angelica agarrando a minha mão para me manter na pista. Me voltei para levantar argumentos contrários, especialmente a minha voz desafinada. Não consegui. O seu olhar de súplica, e o seu rosto que tinha se tornado incrivelmente suave como o de um bebê, me fizeram pensar nas palavras do meu pai: ‘Para uma mulher, a idéia de igual é diferente da nossa.’ Havia muitas coisas nas quais eu não teria igual autoridade, e esta era uma delas. Tratava-se de concordar ou de ser cruel. Não havia realmente escolha alguma.

“Se lhe apraz, então é claro,” respondi a uma princesa eufórica. Ela me puxou rapidamente para dentro do círculo que estava se formando. O acordo era que os passos seriam no estilo Urso, e gastamos alguns instantes até que os Leões atingissem um desempenho satisfatório. Começou a canção, uma música alegre sobre o verão, bem conhecida de todos, e nós cantávamos enquanto os nossos pés tropeçavam nos primeiros versos. Depois do quarto verso, o movimento fluiu e a coisa ficou divertida, com todos dançando em uníssono. Ergui a voz quando a minha confiança aumentou. Angelica riu do meu canto dissonante. Foi uma risada feliz que me encorajou a continuar.

Um dos homens, um Urso que eu ainda não tinha conhecido, foi para o centro sob alguns vivas e executou alguns passos complexos antes de retornar ao círculo. Chamaram a senhora ao seu lado e ela rodopiou para dentro do círculo antes de voltar para a borda, sorrindo. Um por um, todos nós fomos sendo chamados ao centro, e a mais disposta foi a princesa. Os seus movimentos espontâneos foram deliciosos de contemplar, e o modo como terminou na ponta dos pés foi formidável.

Eu não tinha a expectativa de achar a dança agradável. Não sabia se era a minha alegria ou a de Angelica que fazia a hora passar tão rápido. Finalmente deixamos o círculo na sexta canção, suando e rindo como crianças.

“Devo admitir que achei divertido,” disse eu, tentando recuperar o fôlego. Angelica fez para os nossos pais um discreto ‘sim’ com a cabeça. Eles ainda estavam calmamente sentados à mesa principal, fingindo desfrutar do espetáculo.

“Com o tempo será inapropriado para nós. Me prometa que nos divertiremos enquanto for permitido,” suplicou Angelica. Vi o pé da minha mãe marcando o compasso sob a mesa principal. Ela queria estar no círculo. Seria indigno para a rainha e para o rei serem vistos saltando para cá e para lá. Era um dia de revelações a respeito do meu futuro.

“Sim, claro,” respondi imediatamente, “até quando pudermos.” Fui recompensado de surpresa com um beijo no rosto. Terminamos o banquete na mesa principal, conversando com os nossos pais. Os quatro estavam contentes por nos darmos bem. O resto do banquete prosseguiu sem alarde, ao menos do meu ponto de vista. No momento apropriado, já tarde, trocamos cordiais saudações de boa noite. Mais uma vez eu beijei o rosto da minha noiva, recordando-lhe a cavalgada pela manhã.

Eu não havia esquecido Alia. Foi horrível ver os desdobramentos do vinho derramado, eu a ignorando até mamãe intervir. Eu tinha que falar com Alia para abrandar os nossos corações. Eu nem conseguia imaginar a dor que ela estava vivendo. O meu segredo para este encontro era Lucius. Interrompi-o quando ele coletava as roupas do dia para levar à lavanderia.

“Preciso ver Alia,” instruí, e então acrescentei, “sozinho.”

“Hoje, meu Senhor?” arquejou Lucius. Tive de sorrir do medo dele. Ele sempre temia a impropriedade das coisas.

“Não, receio que as noites acabaram, meu amigo. O que eu tenho a oferecer são desculpas e um futuro. Não lhe posso dar mais nada, mesmo que me doa pensar nisto.” Me deu uma tristeza anunciá-lo em voz alta… Não sei porque, mas a certeza foi maior saindo dos meus lábios. Lucius pareceu aliviado.

“Meus sentimentos, meu Senhor,” disse Lucius, conhecendo o meu verdadeiro coração, “qual é o plano?”

“Vou cavalgar com a princesa pela manhã. Depois ela vai tomar banho, e teremos tempo. Com hóspedes por aqui, a biblioteca deve estar livre,” deduzi, “peça que Alia me encontre lá.”

“Falarei com ela,” disse Lucius. “Sei o quanto isto o aflige. Eu sinto não poder fazer nada.”

“Os deveres da herança nos alcançaram, Lucius,” declarei, “e não vou mais lutar contra eles.” Fui para a cama e dormi bem. Tinha achado que a minha mente estaria cheia de preocupações, e que o sono me escaparia. Só pude supor que o encontro proposto a Alia deu algum descanso à minha mente. Eu precisava dormir. Envelheci demais num dia só.

Pela manhã, encontrei Angelica no estábulo. Sua égua malhada estava selada e na espera. Eu tinha assumido que o pequeno palafrém cinzento do dia anterior era dela. O estribeiro acabava de trazer Storm, o meu garanhão negro, quando me aproximei. Eu não teria escolhido para Angelica a égua grande, branca e preta. Parecia cavalo demais para uma mulher. Por outro lado, Angelica tinha a tendência de quebrar as normas. Era evidente, pelas roupas quase masculinas, que a sela feminina não era uma opção para ela. Seu longo cabelo ruivo estava preso em uma firme trança que descia pelas costas. Acho que eu fiz uma expressão de surpresa.

“Esperava uma novata, então?” perguntou Angelica, sarcástica. Cory, o estribeiro, riu da afirmação, mas tentou esconder com a mão.

“Bom dia, minha Senhora!” exclamei, ignorando o gracejo.

“De fato é, meu Príncipe,” replicou Angelica, “eu já estava deveras ansiosa pela disputa que você me prometeu.” Com isto eu sorri, sabendo que seria de verdade.

“O que é uma disputa sem aposta, minha Princesa?” Eu estava forçando. Tinha uma boa chance de eu perder. Mas é que havia algo num adversário confiante que me fazia querer correr um risco maior.

“Você é herdeiro do reino. Não consigo sugerir nenhum prêmio equivalente,” replicou Angelica. Eu só conseguia pensar em um.

“Humilhação,” eu ri. “O perdedor admite, no jantar, que o outro é melhor no cavalo.” Cory engasgou com a risada, e quase soltou as rédeas de Storm. Angelica olhou para o estribeiro com brilho nos olhos.

“Você acha que devo aceitar, Senhor?” perguntou Angelica com doçura.

“Não cabe a mim opinar, minha Senhora,” disse Cory, enrubescendo.

“Pode falar, Cory,” disse eu de bom humor.

“Storm tem pernas boas, e o meu príncipe cavalga bem,” disse Cory dando tapinhas na lateral do pescoço de Storm. “Sua égua não é de carga, e está entusiasmada esta manhã. Sua postura, minha Senhora, me diz que comanda bem um cavalo. Acho que tudo se resume ao peso, o que lhe daria a vantagem, minha Senhora.”

“Eis aí,” disse Angelica, olhando para mim, “vou aceitar porque você está gordo.” Os olhos de Cory quase saltaram das órbitas.

“Minha senhora, eu jamais…” Eu calei Cory com um aceno da mão.

“É gozação,” acalmei-o. “A princesa está apenas me provocando.”

“De fato, Senhor,” acrescentou Angelica, charmosa, “e obrigada por cuidar tão bem de Sunrise. Ela parece mais contente por isto.” Cory ficou radiante de orgulho, e fez uma reverência profunda. Angelica tinha conseguido um amigo leal naquele instante. O reino poderia ter arrumado uma rainha muito pior do que ela.

Saímos em nossas montarias e deixamos que se aquecessem. O dia estava ficando nublado, mas a temperatura ainda era bem confortável. Um enorme campo aberto se descortinava diante do castelo. Havia um bom caminho antes de começarem as primeiras terras cultivadas, e a cidade propriamente dita ficava do outro lado, fora de visão. Um punhado de ovelhas, nossas únicas companhias, pastava, indolente, na grama.

“Eu confesso: até antes de ontem eu achava que você seria meio pombo,” disse eu numa tentativa meio desastrada de elogio. Alguém tinha de começar a conversa.

“Os meus pensamentos eram mais ou menos os mesmos,” respondeu Angelica, “não estava nem um pouco ansiosa por esta união. Já que tem que ser, então eu estou contente que seja você e não algum velho inchado.”

“Um jovem gordo você topa, então?” zombei. Angelica riu.

“Você é um colírio para os olhos, meu Príncipe. Você me concedeu a dança, e você me faz justiça de igual para igual.” Angelica me olhou com sinceridade. “O que quer que façamos disto, você tem o meu respeito e a minha amizade. Tão cedo não posso oferecer mais.”

“Então somos dois, minha Princesa,” disse eu, “respeito e amizade são um bom princípio.”

“No jardim, eu lhe perguntei: ‘vamos ter segredos?’ Que acha agora?” perguntou Angelica. O único segredo que eu achava preciso ter era Alia. Eu não queria mentir.

“Na hora certa,” respondi, “vou lhe contar tudo. É melhor manter algumas coisas escondidas no início, quando estão frescas demais para partilhar.”

“Quando achar que deve, então.” Angelica cutucou Sunrise para fazê-lo trotar. “Você me contará os seus, e eu lhe contarei os meus.” Ela deu um sorriso matreiro ao ganhar distância. Eu não tinha pensado que ela pudesse ter segredos. Porque me incomodou, eu não sei. Piquei Storm e ele alcançou Sunrise no trote.

Cavalgamos até o pomar de maçãs. As frutas tinham acabado, mas a folhagem se mantinha toda verde ainda. O vento soprava suave, e no ar estava presente um leve acre de coisa apodrecida. Refreei Storm, e Angelica fez o mesmo.

“Do outro lado do pomar fica o lagar,” continuei após me certificar de que Angelica entendia, “as maçãs já acabaram, e o terreno está limpo; não vai grudar nos cascos. Que acha de corrermos entre as árvores, e o primeiro a chegar ao lagar vence?” Eu trapaceava um pouco. Eu conhecia o pomar e a disposição das árvores.

“De acordo.” Angelica sorriu então e gritou: “Vai!” Me pegou desprevenido, partindo pelo lado sul do pomar, onde as primeiras árvores eram mais espaçadas umas das outras. Sunrise arrancou rápida, e o grito assustou Storm. Ele deu um passo atrás antes que eu pudesse persuadi-lo a avançar. Eu fiquei atrasado quatro corpos até conseguir atingir o galope total. Angelica nem olhava para trás, demonstrando grande habilidade ao usar o seu peso no compasso de Sunrise. Entrei pelo lado norte do pomar, onde as árvores eram mais apertadas no início, mas se abriam um pouco mais para frente por causa do pulgão. Deixei Storm livre depois de atravessar as primeiras fileiras de árvores. Passamos voando pelos tocos das árvores cortadas, e só precisamos diminuir o passo para fazer zigue-zague umas duas vezes. Mesmo não podendo vê-la, eu sabia que ela devia estar fazendo curvas apertadas.

Eu me sentia bem sendo um só com Storm. Fazia muito tempo que eu não lhe dava velocidade, e ele parecia satisfeito. Atravessei a última fileira e rumei diretamente, a pleno galope, para o lagar ao final do campo.

Angelica despontou bem atrás de mim e berrou para Sunrise, que respondeu aumentando a velocidade. Eu não deveria ter virado para olhar, já que isto desequilibrou um pouco Storm, permitindo que Sunrise se aproximasse. Me ergui nos estribos e encorajei Storm, que respondeu com o seu próprio esforço renovado. Alcancei o lagar dois ou três corpos adiante de Angelica, me sentindo feliz por ter sido quase um empate. Tive dúvidas se eu ainda seria o vencedor em uma corrida mais longa. Cory tinha razão: seu menor peso era uma vantagem clara. Isto, e o fato dela estar muito bem treinada no trato com cavalos.

Angelica riu quando enfim recuperamos o fôlego. Os cavalos espumavam e ofegavam junto conosco. “Bela vitória, meu Príncipe,” disse Angelica, aparentemente despreocupada com a perda. O jogo era o que a intrigava.

“Receio que eu teria perdido se o lagar fosse um pouco mais distante,” admiti. “Você monta bem, minha Princesa.” Angelica sorriu e desmontou. Fiz o mesmo. Puxamos os cavalos um pouco, dando-lhes um descanso depois do esforço extremo.

“O que foi discutido enquanto as rainhas e eu estávamos ontem no jardim?” perguntou Angelica. Senti que ela testava a dose de ‘igual’ do nosso acordo, para ver se eu lhe ocultaria os assuntos de Estado.

“Discutimos a aliança,” respondi sinceramente, “como funcionaria se fosse necessária. Estruturas de comando e estratégias, caso não se possa empregar um comando unificado. Continuaremos hoje à tarde.”

“Se eu perguntar, você me dirá o que foi decidido?” Angelica postulou a questão com uma certa desconfiança. Pareceu quase um apelo. Fiquei surpreso, e ligeiramente ofendido por ela duvidar de mim.

“A minha promessa de igualdade ainda vigora, minha Princesa,” declarei com firmeza, em tom ressentido, “não precisa duvidar. Se desejar saber, vai saber.”

“Não tive intenção de ofendê-lo, meu Príncipe,” replicou Angelica, “é só que no jardim… as rainhas… bom, elas disseram que, para um homem, a idéia de ‘igual’ é diferente da de uma mulher.” Caí na gargalhada, fazendo Angelica corar e se espantar. Acenei para afastar-lhe a angústia e controlei a minha risada.

“Os reis me alertaram a mesma coisa,” falei rindo, “eu devo ter cuidado com o senso de igual das mulheres.” O sorriso de Angelica abarcou a campina quando a justaposição se tornou clara. Ela estendeu a mão e eu a tomei, as nossas montarias seguindo logo atrás.

“Então nós definiremos o nosso próprio ‘igual’,” disse Angelica. Concordei e prossegui no relato da reunião do dia anterior com os reis. Ela escutou atentamente e fez boas perguntas. Falei sobre os sinais nos estandartes, os quais tínhamos idealizado para coordenar os movimentos no campo de batalha nos casos em que um conselho não pudesse ser reunido.

“Mas e à noite?” perguntou Angelica. “Estandartes não serão visíveis. E a distância e as árvores, além disto, poderiam introduzir dificuldades.” Ela tinha razão, obviamente. Ninguém tinha pensado em nada além de um campo de batalha aberto e iluminado.

“Você tem razão, minha Senhora,” concordei, “vou levantar a questão hoje à tarde. Talvez você devesse participar da reunião.”

“Meu pai não permitiria, mas estou contente que você tenha me convidado,” disse Angelica, meio perdida em pensamentos. “Cornetas! Elas podem sinalizar a grandes distâncias e à noite.”

“Verdade,” concordei, assentindo, “vou abordar o assunto na reunião.”

“Como se fossem idéias suas, não minhas,” disse Angelica, apertando mais forte a minha mão, “eles não estão preparados para as minhas palavras.” Era verdade. A mim não importava, mas os reis eram velhos e acostumados ao jeito deles. Guerreiros têm a tendência de achar que sabem o que é melhor para proteger as mulheres. Não levariam em alta conta as mulheres dizendo-lhes como.

“Você tem cabeça boa, Angelica,” disse eu, “o reino reconhecerá no tempo oportuno.” Ela me fez interromper o passo, voltando-se para mim.

“Juntos seremos bons, Cayden,” disse Angelica em voz suave, “não importa o que aconteça.” Eu sabia que era verdade. Sozinho eu seria mais fraco. A conversa ficou íntima pelo uso dos nossos nomes. Me inclinei para beijar-lhe o rosto, mas encontrei os seus lábios. Não eram tão macios quanto os de Alia. Eram mais firmes e secos. Preferi o rosto de Angelica. Ela riu quando rompemos o beijo.

“Temos que melhorar isto,” disse Angelica, “tornar menos irmão e irmã.” Eu sorri, percebendo o que ela queria dizer. Não havia paixão, somente conforto. Talvez depois que Alia partisse. Talvez cem anos depois que ela partisse.

“Quero revanche.” Angelica mudou de assunto. “Amanhã de manhã?”

“Não posso,” respondi, “tenho treino amanhã. Depois de amanhã, talvez?”

“Sim, depois de amanhã,” concordou Angelica. Dava uma sensação confortável ter a sua mão na minha; caminhamos até sair do pomar. Montamos de novo, tanto Sunrise quanto Storm se animaram, e rumamos de volta a meio galope. Devo admitir que encontrei prazer na alegria dela. Ela exibia um largo sorriso, inconsciente, enquanto atravessávamos a campina, as tranças balançando alegremente no ritmo da marcha de Sunrise. Preciso lembrar de convidá-la para cavalgar mais vezes.

Cavalos no estábulo, cada um seguiu o seu caminho. Angelica foi se lavar, e pensou que eu fui fazer o mesmo. Em vez disto eu corri para a biblioteca. Lucius me encontrou no meio do caminho, fazendo com a cabeça um movimento discreto para que eu soubesse que tudo estava conforme o que eu tinha pedido.

“Esperarei aqui fora, meu Senhor,” disse Lucius, em voz baixa, ao chegarmos perto da porta da biblioteca. Era a única entrada e saída. Ele cuidaria para que não fôssemos interrompidos. Dei um sorriso de reconhecimento, quase imperceptível, e entrei na sala.

A sala tinha cheiro de papel velho. Livros cobriam as paredes, assentados em prateleiras robustas feitas de carvalho. Um pequeno fogo, cercado por pedras, queimava na lareira bem distante de qualquer coisa inflamável. Havia quatro cadeiras de um luxuoso estofado vermelho em volta de uma pequena mesa redonda. Alia estava ali, de pé, atrás da cadeira mais distante. O meu coração pulou, os cachos castanhos envolvendo o seu rosto, seus olhos como sonhos profundos de um azul marinho. Encurtei a distância, e ela, hesitante, se moveu na minha direção. Ao chegar mais perto, eu vi as lágrimas; a sua dor me inundou. Não falei nada ao envolvê-la em meus braços e cobrir os lábios dela com os meus. Havia paixão naqueles lábios macios, promessas de amor e de perdão. Eis como eu desejava passar o resto da vida: com Alia nos braços.

“Você torna tudo mais difícil, meu Senhor.” Alia se afundou em mim. “Sinto a sua falta, e assim vai piorar mais.” Iria. Ela tinha direito. Ela enterrou a cabeça no meu peito. Baixei os lábios e beijei o alto da sua cabeça, entre os cachos que sempre pareciam tão vivos.

“Tive que vir,” disse eu, “não pude… a idéia de você partir sem as minhas palavras… Era mais do que eu podia suportar.”

“A sua noiva é linda, meu Senhor.” Era quase um lamento. Acho que ela queria que ela fosse mais sem graça. Eu não ia mentir, não agora.

“Sim,” repliquei, “é inteligente, astuta a seu modo, e bela. Mas não é você. É o ponto fraco dela, e eu vou sofrer com isto pelo resto dos meus dias.” Alia ergueu os olhos marejados.

“Não deve, meu Senhor. Ela dará à luz os seus herdeiros. Você não deve mais pensar em mim.” Então Alia desabou. As lágrimas fluíram, livres. As minhas, também.

“É mais fácil eu decepar a minha própria cabeça do que fazer isso,” engasguei, “o meu coração será sempre seu. Já não posso mudar isto.” Ficamos abraçados por uma breve eternidade. Sem falar, sabendo ser talvez a última vez.

“A minha mãe descobriu. Ela cuidará do seu futuro, e o rei apoia,” rompi o silêncio. Alia me olhou e suspirou.

“Eu contei, meu Senhor. Você se recusou a me deixar partir. Fiz o que era o meu dever.” Agora eu sabia porque os meus pais a respeitavam, e desejavam que ela fosse bem tratada. Alia baixou os olhos ao chão, e eu senti que ela estava tomada pela vergonha. Delicadamente, levantei o seu queixo até que o nosso olhar se encontrasse.

“Você sempre foi mais sábia,” disse eu, “eu teria arriscado o reino.” Nos beijamos de novo. Seus lábios varreram para longe os problemas, mesmo que apenas por ora. Como eu queria que fosse por mais tempo…

“Lamento pelo banquete,” me desculpei, “eu queria tanto não ignorar você.” Passei a palma da mão pelo seu rosto suave, enxugando com ela algumas lágrimas.

“Eu sabia, meu Senhor. Fizemos papel de bobos antes que a rainha ajudasse.” Alia respirava fundo, tranqüilizando a dor. Apertei-a mais forte, querendo lembrar dela nos meus braços. Todas aquelas noites secretas, as explorações fabulosas, divertidas, alegres. Era tudo unilateral e nas sombras. Coisas que eu jamais poderia trazer à tona, expor à luz do dia. Me arrependerei por não ficar firme do lado de Alia e mostrá-la ao mundo. Acaba tudo em uma pequena biblioteca, em meio ao cheiro mofado de livros antigos.

“Sempre amarei você, Alia,” sussurrei o meu adeus. Ela me olhou.

“Sempre amarei você, meu Senhor,” respondeu Alia. Os nossos lábios se uniram pela última vez.

“Sim, minha Senhora, o príncipe está lá dentro,” disse Lucius, em voz alta o bastante para que nós pudéssemos escutar. Nos separamos num átimo, meu coração partindo com o movimento. Alia rumou rapidamente para a porta. Eu fui até uma prateleira, fingindo interesse nos volumes que estavam ali.

“Minha senhora.” Escutei Alia cumprimentando a princesa, e com certeza acrescentando uma rápida mesura.

“Bom dia para você, Alia,” declarou Angelica, confiante. Havia um sorriso no tom de voz, e não era diplomático.

“Pensei que estivesse no banho, minha Princesa,” afirmei, sem interromper a minha busca falsa. Escutei a porta se fechar. Houve uma pausa antes de Angelica responder. Só podia ser que ela aguardava a saída dos ouvidos indesejados.

“Ela é uma bela mulher,” Angelica repetiu a afirmação da noite passada.

“Quem, minha Senhora?” tentei ignorar uma vez mais. Tirei um livro da prateleira e abri para dar uma espiada. Eu não fazia idéia do título. Não houve resposta de Angelica. Quando o silêncio se tornou grande demais para suportar, eu olhei por cima do livro que não estava lendo. Angelica estava parada no meio da sala, as mãos nos quadris e um enorme sorriso no rosto. Eu não tinha enganado ninguém. Suspirei e devolvi o livro à prateleira.

“Ela é muito bonita,” disse eu, resignado à verdade, “ela está na minha mente quando eu acordo, e é a última coisa sobre a qual penso antes de dormir.” Angelica não se mexeu, e nem alterou a expressão. “Não vou me desculpar com você, por que ela é quem merece desculpas. Alia é dona do meu coração, e em breve vai levar embora com ela. O segredo, minha Senhora, é seu agora. Faça o que quiser com ele.” Eu não sabia o que esperar; possivelmente berros e gritos. O que eu recebi foi muito diferente.

“Eu soube ontem à noite,” disse Angelica, sem deixar de sorrir, “foi malvadeza minha obrigá-lo a confessar.” Não parecia incomodá-la. Ela parecia estar adorando a sua dedução.

“É doloroso. Fazer pouco disto machuca mais ainda,” falei, irritado. O sorriso de Angelica desapareceu.

“Não farei mais gozação,” disse Angelica, com doçura, “nem aceitarei a situação. Juntos, nós consertaremos.”

“Alia vai servir à família da minha tia.” Fiz silêncio um instante, daí acrescentei: “Você interrompeu o nosso adeus. Não haverá ameaças à nossa união, e não sobrará nada para consertar.”

“Jamais me senti ameaçada,” disse Angelica, com malícia, “eu sei a sua opinião, e você sabe a minha. Nos casaremos, e o nosso passado não importa.” Ela chegou mais perto de mim; por algum motivo, me senti desconfortável. Não me movi, apenas enrijeci. “Fico feliz que conheça o amor. Fico feliz que isto não seja mais um segredo entre nós. Se eu pudesse desfazer isto por nós, eu o faria.” Ela ergueu a mão até o meu rosto e acariciou-o. “Farei o que puder, por você e por mim.” Ela trocou a mão pelos lábios, um beijo discreto, quase inexistente. Ela transmitiu uma imensa dose de empatia com esse beijo. “Agora preciso encontrar os banhos antes do almoço,” o sorriso voltou-lhe ao rosto.

“Eu mostrarei o caminho, minha Princesa,” falei sem demora. O peso do segredo estava removido. Eu precisava apenas viver com um coração despedaçado agora. Será mais fácil de suportar, não tendo que esconder de Angelica.

“Lucius poderia fazê-lo, com certeza,” disse Angelica enquanto eu abria a porta. Lucius inclinou ligeiramente a cabeça à nossa saída. Ele tinha uma expressão confusa. Acho que também esperava uma gritaria.

“Lucius, você poderia fazer a gentileza de mostrar os banhos à princesa?” perguntei, me divertindo um pouquinho com o seu olhar perplexo.

“É claro, meu Senhor.” Angelica sorriu para Lucius, indicando com um gesto que ele deveria ir na frente. Ele hesitou, mas obedeceu. “Por aqui, minha Senhora,” disse Lucius, tomando lentamente a dianteira. Comecei a virar para o outro lado, quando então ficou clara para mim a intenção de Angelica.

“Lucius,” chamei, e ele se voltou, “a princesa tem a minha confiança. Desejo que fale a verdade com ela.” Notei os seus olhos arregalados. “Em todas as coisas,” acrescentei, convicto, para que assim ele soubesse que não era apenas fingimento para a princesa ouvir. Enquanto ele assentia com a cabeça, Angelica dava um sorriso sincero. Eu preferia que ela aprendesse a meu respeito de modo aberto, do único homem que melhor me conhecia. O fato de ele ser leal era uma vantagem a mais.

“Como queira, meu Senhor,” disse Lucius bastante surpreso. Olhando para Angelica: “Ao seu dispor, minha Senhora.”

“Nós temos um interesse em comum, Lucius,” disse Angelica em voz baixa, enquanto rumavam pelo corredor, “também eu tenho em mente o sucesso do príncipe…” Observei quando dobraram a esquina e sumiram. A princesa era eficiente na coleta de informações. Sua prioridade parecia ser o aperfeiçoamento da união. O dever acima de tudo.

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