O Casamento: Capítulo 02

“Sire!” escutei uma batida insistente na porta. “Sua majestade vem vindo, Sire!” A minha mente despertou de imediato. Olhei ao redor da cama e Alia já tinha ido, me deixando ao mesmo tempo aliviado e desapontado. Talvez, se o meu pai nos encontrasse, eu pudesse exigir o amor acima do dever. Suspirei e tomei o meu robe, uma coisa feia e gigantesca feita para aquecer um elefante. Eu não fazia idéia de porque precisava ficar majestoso em meus próprios aposentos.

“Já acordei,” gritei eu. Lucius irrompeu no quarto com um olhar atormentado. “Ela se foi,” acrescentei em voz baixa. Ele diminuiu o ritmo e assentiu, enquanto começava a arrumar a cama. Lucius, meu mordomo, meu amigo, o mais confiável depois da própria Alia. Ele não falou, sabendo que dia era. Ele conhecia os meus pensamentos e respeitava a minha dor.

“Deus! Garoto! A comitiva de frente já chegou,” a voz estrondosa do meu pai ecoou mais alta na minha cabeça. Decerto que ele estava paramentado: o sol já se elevava acima do horizonte e o rei jamais desperdiçava a luz do dia. Vestia uma túnica vermelha simples que lhe chegava aos joelhos, mas que ficaria admirável sob o requintado gibão que ele colocaria depois. Era evidente que a sua barba e o seu cabelo tinham sido aparados recentemente. Alguns pêlos grisalhos continuavam a infestação debaixo do queixo, mas ele os usava com distinta graça. Eu esperava, algum dia, imitar a sua postura. Eu vi quando ele franziu o nariz: eu devia ter acordado antes para arejar os meus aposentos. Ele não viu nada, mas sabia o que era o cheiro que sentia.

“Lave-se rápido,” instruiu o rei, em tom praguejante, “seria muito bom se você não insultasse a sua nova noiva.” Ele chegou mais perto e apertou os olhos. “Suas ações agora representam o reino. Tudo o que fizer vai ser medido. Vou apresentar o futuro rei, não uma criança deprimida.” Eu agüentei o tranco como competia a um futuro rei. O amor do meu pai raramente se elevava acima do dever. Ele esperava o mesmo de mim. Respirei fundo. Uma série de respostas e declarações pueris de amor passou vertiginosamente pela minha mente. Fiquei com o dever.

“O reino merece nada menos que isso,” respondi, “pelo bem dele e pelo seu, vou me empenhar em melhorar.” Era verdade, pelo menos até ver Alia de novo. Eu precisava colocar o dever acima do meu coração. Era fácil absorver em palavras o ethos do meu pai. Nos atos era que eu ficava devendo. Meu pai colocou a mão no meu ombro, e eu vi o seu olhar se transformar novamente naquele que eu conhecia quando criança. Minhas palavras o tinham convencido. Quem dera elas tivessem me convencido.

“É duro, isto que pedimos de você. Você é forte. Eu vejo isso na maneira de você se equilibrar.” O rei largou o braço e se voltou para a lareira. Lucius estava ocupado em ficar fora do caminho. “Saiba que eu tenho orgulho de você. Eu mesmo já fui jovem um dia, embora você ache difícil de acreditar.” Fazia muito tempo que o meu pai tinha falado comigo de modo não régio. Geralmente ele deixava isso para a mamãe. Fiquei comovido e quis mais. “A sua vida vai mudar, e apenas a sua postura vai fazê-la parecer… confortável.” Ele me deu as costas, suas mãos unidas para trás. “Eu sei do que você deve desistir.” Ele sabia sobre Alia! Um turbilhão passou pela minha mente. “Deixo em suas mãos resolver isso, mas não vou negar o meu desejo de que tivesse feito antes.” Ele chegou mais perto e, pela primeira vez desde a minha infância, sussurrou na minha orelha: “Nada vai faltar a ela; um rei não poderia fazer menos do que isso.” Ele bateu no meu ombro de novo e saiu do quarto.

“Obrigado, pai,” disse eu. O rei assentiu com a cabeça e continuou andando. Não haveria uma solução favorável ao meu coração. Só uma solução favorável ao reino. Olhei para Lucius, que estava surpreso pelo rei ter permitido a sua presença. Se o meu pai sabia sobre Alia, então sabia que Lucius era da minha confiança. Talvez ele estivesse nos informando a ambos. Me joguei na cama.

“Vai ser duro,” falei abertamente a Lucius, “mandá-la embora. Eu prometi achar um outro jeito.” A verdade era dolorosa. Eu senti como se estivesse decepcionando Alia. Sabia que estava decepcionando a mim mesmo.

“Ela sempre soube, Sire.”

“Eu não.”

“Vou preparar o seu banho,” disse Lucius, jamais me permitindo ignorar o meu dever. “Pense durante ele, Sire. Eu vou ajudá-lo como puder.” Me levantei e endireitei os ombros. Nada havia para se fazer a respeito. Eu era quem eu era, inclusive o coração partido. Eu podia conter a infelicidade dentro de mim. Precisava conter. Não havia outra opção. Seria apenas por uma única vida. Tempo demasiado curto no esquema de tudo o que tinha acontecido antes.

“O banho? Sim, obrigado, Lucius,” disse eu com postura. Me larguei no travesseiro de Alia assim que Lucius saiu. Respirei fundo, seu perfume ainda incorporado. ‘Me perdoe, meu amor. Decepcionei nós dois.’ Fiquei em pé e caminhei para a sala de banho. O reino desejava um príncipe limpo. Terá um. Me terá do jeito que desejar. Só o meu desejo é que permanecerá insatisfeito. Um custo tão pequeno pela paz e pela estabilidade… Eu só queria que não machucasse tanto.

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